segunda-feira, janeiro 29, 2007

as luzes

apaga-se debaixo do sal das lágrimas de quem não devia chorar.

partir


ouvi dizer a uma mulher que o altruísmo é a forma mais requintada de egoísmo. ainda hoje respeito o que aprendi e tenho utilizado esta expressão tantas vezes que chego a senti-la minha de tão verdade que é.
mas a coisa pode não bater certo ao deixar ir embora alguém contra o nosso benefício...
porque deixam afastar-se as pessoas durante tanto tempo até chegar ao ponto onde não há outra alternativa que não seja,... deixá-las partir... a pergunta é quase ofensiva.é como estar parado numa qualquer linha de comboio e ver aparecer ao longe aquele vulto gigante e agressivo em movimento.

há quem teime em não olhar de frente para o destino que se aproxima rapidamente. ignoram o barulho daquela buzina estridente que apita para sairem da linha, fazem de conta que não sentem estremecer o chão debaixo dos pés e viram-se até de costas para olhar para a frente, como se a vida pudesse ser salva a olhar na direcção oposta dos problemas. ouvem-se as rodas de encontro ao metal dos carris a consumir o resto do tempo. e não há quem os consiga mover ou sequer fazer olhar a morte de frente.
morrem sempre sem esperar e gastam os últimos momentos do tempo revoltados com a má sorte.
que surpresa
...

e se te chamasse tempo

Olhava para ti hoje com a saudade das memórias de ontem e a incerteza própria de amanhã. Acompanhava-te uma música triste onde um violoncelo gemesse baixinho um chamado por ti, que ninguém ouvia. Nem tu.
Perdia nisto uma eternidade a chamar baixinho para ninguém ouvir. Para quê? Para gastar a energia que me consome e assim ocupar distraído o tempo que me falta.
O teu tempo por mim tão depressa como as minhas mãos pelo corpo esguio de uma mulher que se perdeu num dia frio em que deixou uma dor queimada pelo gelo da ausência do teu calor.
Porque custa, pedi que me dessem remédios antigos e cobriram-me as feridas de emoções, para penar menos. Pelo tempo que já passou, parece que foi ontem que partiste de tão presente que sinto ainda cair os últimos restos da tua alegria.

É um adiamento que se faz, para não ver nem adivinhar a realidade brutal própria destas coisas: uma ferida aberta pode fazer perder um bocado da gente.

Engano maluco de pensar e acreditar no quão fácil vai ser viver sem um bocado de si, só porque… o tempo passou rápido demais. Escorregou-me das mãos a água que tentava guardar porque alguém me dizia que podia guardar o teu reflexo. E pensei que conseguia guardar também o teu tempo. Parado. Enquanto sorria e me reclinava no céu que ainda tinha em ti.

Vale a pena. Vale a pena. Vale a pena. Vale sempre a pena ouvir, ver, fazer e sentir nascer e até morrer a vida que se afasta de nós.
Ficam para trás os restos dos farrapos do tempo a que nos agarramos como se as memórias fossem ainda gente… mas vão-se embora bocados de nós que nunca mais voltam.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

a música

acompanha o passos mais lentos que dou na vida.
de tão pequenos que têm sido, sinto a música calada e as pernas paradas. parece até que lhes falta uma pista para correrem entre outras num estouro que vacila entre o querer o vencer e a partilha de uma coisa qualquer de que se gosta.

saía suave, ao longe, com passos contidos, de natureza esquiva e tímida.
a melodia da música de viver é deliciosa como as cravinetas do campo: lindas e singelas aos olhos de quem pára para ver mais devagar.

sábado, janeiro 06, 2007

...


O que acontece a uma pessoa é característica dessa pessoa. Uma pessoa representa um modelo onde todas as peças se encaixam umas nas outras.
Uma a uma, à medida que a vida decorre, ocupam o seu lugar, de acordo com um desígnio pré destinado.
Carl Gustav Jung

...


“As minhas capacidades ou os meus talentos são muito restritos. Zero em ciências naturais; zero em matemática; zero em tudo o que é quantitativo. No entanto, o pouco que possuo, e que se reduz a pouca coisa, provavelmente foi muito intenso.”
Freud, 1926

sexta-feira, dezembro 22, 2006

memórias tolas


não há toque como o dos lábios nem loucura que se apodere de nós com mais força do que aquela que começa com um aroma carregado de sabor a desejo.

penumbra


É de manhã e o sol ainda não nasceu.
Pelo espaço que fica entre a 3ª e a 4ª pestana, espreitei para o relógio. Tinha chegado a hora se sair do espaço dos sonhos. Sonhos com ela. Invariavelmente, os sonhos eram com ela. Desfocados, como se fosse um filme sem orçamento,… mas o rosto parecia ser o dela…
A custo, lá se arrastou a carcaça para fora do espaço que ficou marcado pela presença daquele corpo na cama.

“Se falasse”, mas esta cama fala mesmo. Sobre a nossa vida: a minha e a da cama. Falamos de quem conhecemos, e de quem gostámos, de quem sentimos mais falta, e até de quem um ou outro não conhecemos; a conversa é fácil e o sorriso garantido… não posso desfazer-me desta cama, pensou baixinho enquanto sentia subir o frio do quarto pelos pés assentes no chão.

A passo, lento e pouco convicto, enfrentou mais um caminho pelo corredor sombrio e escuro – quase 14 metros de comprido – em direcção ao chuveiro. Está quase a fazer 2 anos – foi em Janeiro – que os banhos naquele chuveiro eram de água fria. Fria mesmo, sem nenhum calor por perto que não fossem os vapores decadentes da vodka da noite anterior.

Foi um tempo ordinário e banal, de tão comum que é o sentir solidão rodeado de um mundo de gente.
Por opção, por loucura, ou porque é mesmo assim, há sempre alturas em que ninguém empatiza ou adivinha o que sentimos ou pensamos. E é tão estupidamente corrente, que devia ser incluído na rotina. Não fosse esta insatisfação malvada que me consome a paciência.

Estamos acordados ou ainda a dormir?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

natureza morta

Num esgar estúpido, foi-lhe arrancada a expressão tranquila e substituída por um semblante carregado de fel, com o sabor de uma espada de matador entalada na espinha.

Uma faena formidável. Uma virada de capote que deixou tonto… o tonto… e levantou a arena num ruído ensurdecedor de vitória.

Antes de entrar enquanto cabeceava contra as paredes, sentia-se oprimido e apertado num espaço que apenas lhe permitia estar quieto. Ansioso por liberdade, saiu em fúria, pela primeira frincha de luz que viu e arrancou à bruta a areia por debaixo dos cascos. No espaço aberto, com as mãos para dentro e um orgulho de rei, enfrentou a multidão, com a confiança de quem não tinha ainda sentido a derrota a trespassar os músculos retesados de uma força que julgava só sua.
Continuou a correr com a confiança de quem tem a seu favor o vento e a velocidade bruta de um animal selvagem. A primeira espinha sentiu-a ao de leve quando não conseguiu acertar no alvo que, com um pequeno movimento, se desviou determinado e contido, sem se assustar minimamente com aquela fera tão grande. A surpresa só foi superada pelo ferrão que sentiu espetarem-lhe com força, até ouvir o estalo que fez o ferro a partir pela bandeira.
Urros de dor.
Raiva de quem se sente enganado.
Fúria absurda.
E nova investida, para matar de vez o insecto que se atreveu a beliscar o brio do herói lá do bairro dele.
Mais rápido.
Mais forte.
Sem piedade e a antecipar o sabor do sangue da vítima na ponta dos cornos.

Os momentos de vazio foram preenchidos pela respiração suspensa dos que assistiam nas bancadas.

Na reunião dos corpos, as coisas não podiam ter sido piores. Fintado por uma simulação de mãos, atirou-se para um lado, enquanto descobria o outro flanco. Rápido e impiedoso, o alvo fez-se caçador e cravou-lhe fundo uma brasa ardente que feriu por dentro o animal e o marcou para o resto da curta vida que ainda teria.
Virou-se, empinou-se, reclamou pela falta de lisura e a angústia de ter sido enganado. Nos tempos dos cavaleiros combatia-se de frente e investia-se às cegas. Que merda de luta era esta?
Por cima daquele que se desviava e lhe enganava os olhos viu, pequeno mas brilhante, um homem com ar decidido e olhos vivos. Já os tinha visto antes, aos homens, mas não na arte de matar e não os sabia capaz disso.
Já não era o mesmo. Ferrado pela segunda vez, sentiu evadir-se a confiança e instalar-se-lhe a dúvida de vitória.
Passo directo para a morte, esta coisa da dúvida na vitória.

Encolheu-se por uns segundos e quis fugir mas não viu por onde. Viu avançar para si aquela que, no seu entender, deveria ter sido a vítima dessa noite e, desta vez, trazia agressividade a juntar à manha com que o enganara antes. Porque não tinha alternativa, respondeu ao desafio que lhe fizeram, já sem a coragem ou a convicção de antes na suspeita do mesmo resultado final. Não foi por ter sido pessimista, mas sofreu novo revés e sentiu mais uma vez rasgar-se-lhe a carne debaixo de um punção que feria mais de cada nova vez que o atacava. Já não se afastou, sentia, porque não conseguia pensar, que tinha que retorquir com o que pudesse. Enquanto estivesse de pé.
Foi a deixa de que precisava o pequeno homem de fato brilhante.
Infligiu-lhe uma derrota a seguir a outra e foi deixando a besta humilhada e cansada no campo de guerra. Com a língua de fora, pedia a misericórdia de um espaço aberto para fugir ou morrer.
Com as mãos para fora e o corpo caído lembrou-se, fugaz, de um tempo de prados verdes e vida sem morte.
Sem ter para onde ir, ora fugia ora fazia que perseguia de forma inglória quem não se deixava apanhar.
Ouvia ao longe os gritos surdos e loucos dos que torciam pelo homenzinho pequeno e o incentivavam a matar a besta.

A batalha nunca esteve por decidir. Só ele não sabia que ali estava para ser ferido, cansado e, por fim, morto.
Os animais selvagens não sabem prever e pensar e ponderar. Vivem a espumar ou a descansar e não sabem ocupar o espaço entre os extremos.
Confiante na chegada do fim e na capitulação tácita do vencido o pequeno homem iniciou a dança de vitória, debaixo do olhar, já inerte, da sombra do que tinha sido um bicho altivo.

A loucura faz parte da natureza. Todos os dias.
Enquanto, arrogante, de costas, triunfava em frente à multidão, o pequeno homem foi surpreendido pelo último suspiro de vida daquela massa gigante que o trespassou enquanto se confundia o sangue de um e do outro.

No fim, a noite foi de vitória para o público do circo:
um bilhete = dois corpos.

domingo, outubro 29, 2006

no name no number

sangrem o suor do rosto e arranquem a pele das mãos
mas vivam
estafem a alma a correr pelo corredor de dores que não conheciam
mas vivam
arranquem aos pulmões os gritos mais surdos que a voz aguentar
mas vivam
ouçam bater o coração descompassado cansado de rir e chorar
mas vivam
persigam sonhos impossíveis e agarrem as dificuldades à dentada
mas vivam

ousem, arrisquem, percam, ganhem, lutem, criem, derrubem, matem, perdoem, ou não e atirem para trás das costas o tempo que não vos acompanhar quando correrem como os loucos fariam pelas ravinas da vida abaixo.
e, se não sobreviverem, tiveram, ao menos, na boca algum sabor e a memória a escorrer pelos caninos assanhados enquanto o sangue se lhes injectava nos olhos perdidos de tanto não ver nada.
para muitos será um disparate, mas para os loucos será a única forma de viver e de morrer.

um dia, quando viver, vou querer morrer assim.

terça-feira, outubro 10, 2006

só volta quem pode sair


se agarrares o tempo à força verás que se debate tanto como o vento a quem não querem deixar sair de uma casa fechada.

é que não há melhores grilhões que a liberdade de ser independente e feliz.

porco espinho

se é verdade que começam devagar e com cuidado, estes loucos, com o passar do tempo, embarcam numa vertigem de saber e sentir onde só está quem teve o cuidado de experimentar e aprender.

conversar

é como abrir uma porta, é tão mais suave quanto menos força se fizer de cada lado.
haja apenas vontade de entrar.

segunda-feira, outubro 02, 2006

nascimento de um sentido novo

passou algum tempo e não me reconhecem já as letras de um novo teclado. e que falta me apercebo que me faz esta coisa de escrever!
com o tempo tomado até ao tutano e medula, sucumbi à preguiça de não me proporcionar um bom momento de escrita, assim ao jeito com que outros se proporcionam um bom momento de leitura. também se navega na imaginação e acorda-se em países e com gentes tão diferentes de onde partimos...


quando nos preenchem o tempo e nos enriquecem os sentidos, sejam os olhos, a boca ou o tacto, perdemo-nos para o sentido do re-sentir. e perdemo-nos porque lhe retiramos a importância que merece no nosso viver.
o re-sentir é tão ou mais importante do que os sentidos que nos impactam por fora. o re-sentir, ressoa por dentro os impactos mais superficiais dos nossos dias. do re-sentir fazem parte o saborear de uma água fresca e o invocar dos passeios na serra onde um dia nos debruçámos naquele riacho, porque tínhamos sede, faz parte o calor que invade a pele e nos amodorna o corpo e a alma e nos relembra a doce languidão de viver... fazem parte os aromas e as cores das flores que nos lembram gentes e sentimentos que nos encantaram a vida em tempos e nos ocupam o espaço que desejamos para o futuro.

o re-sentir é assim uma coisa incontornável para diferenciar as emocões que ecoam em viagens loucas, suaves, agressivas e doces dentro do peito.

e eu, quando escrevo, re-sinto a vida outra vez. agora, mais devagar apesar de, com mais sabor.

segunda-feira, agosto 07, 2006

como é que se pode


não ser um apreciador da natureza?

esta foto (e todas as outras, salvo indicação em contrário) não foi tirada por mim.
mas tinha que vir para aqui.
por todas as razões e mais uma.
e mai nada.

espiral


as palavras cansaram-se do silêncio triste
e fugiram das páginas do livro da minha vida.

e ficou o silêncio.
impenetrável,
crescente de força e agressividade,
e soberbo.
sobre o vazio que alimenta todos os dias.

5 de Julho 2001 - era de noite

disse Camões:

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se duma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

quinta-feira, agosto 03, 2006

paleta de viver

"sou capaz do melhor e do pior" dizia alguém atravessado num vão de vida debaixo de um degrau de madeira podre sustentado apenas pelo cuspo das formigas que o devassaram por dentro.

"imaginava as cores de uma paleta de pantones e via descorrer ao som dos meus dias, o que fiz, o que faço e o que poderia fazer. desfilava à minha frente a paleta da minha vida, e eu tinha memórias, ou sonhos, para todos os pantones".
"hoje, serão poucos os que ainda me faltam preencher; desde a loucura mais extravagante ao acto mais caridoso a passar pela abnegação mais estúpida e sofrida, quase que posso sentir: been there, done that."
"mas também tenho o oposto, também tenho cores nos pantones mais escuros. sei, e lembro-me, de tornados e furacões que me assolaram a alma e depois o corpo, e me atiraram contra gentes e pessoas com a força que derrubaria muros de betão. e fizeram mossas, estes golpes mais ou menos inesperados, carregados de fel, amargura, raiva ou fúria estúpida ou tristezas atrozes, ou até, tantas vezes, um caldo imenso com tudo isto a boiar, ao jeito de uma daquelas sopas de entulho".

"a parte nova, são os sonhos. a parte nova é também a consciência da violência de são capazes as gentes, sem mexer um dedo. e é tão fácil", diziam-me.

"uma paleta de vida preenchida de cores com que já pintei os meus dias, e outras com que desenho as telas de um imaginário que se vai entretecendo e crescendo com o passar dos anos."

contaram-me, baixinho, quase ao ouvido, esta história, que podia ser de qualquer um. corremos todos o espectro quase todo das possibilidades de ser, fazer, sentir e desejar. e é mesmo assim, que é gente humana.
haja apenas a consciência, ao menos intermitente, do que se quer e do que se acaba efectivamente por fazer.

segunda-feira, julho 17, 2006

quem escreve?...

não é obrigatório, mas quem escreve é curioso sobre outros que escrevem.
ler, é um exercício activo onde o nosso imaginário é despertado por aquilo que lhe é sugerido pelas letras e palavras de quem escreveu. escrever, também é um exercício activo, mas implica a criação. implica virar para dentro os olhos ou para fora os sentidos e cheirar o ar enquanto se processam os sentimentos, as opiniões e os desfechos mais ou menos rápidos sobre o que quer que seja.
escrever implica gostar do desafio de desafiar os olhos a lerem as palavras que vão saindo mais ou menos conscientes e premeditadas. ou não.
mas saem coisas.
ganham vida os pensamentos ou tão só os sentires vadios e encaram o mundo de frente e depois, viram-se para nós.
e olham-nos de frente e enfrentam-nos.
e não temos como escapar. germinaram e foram paridos. e agora temos que lidar com eles.

escrever pede que se tenha a coragem de falar com o próprio, ou com um deles... e aceitar a loucura como uma parte de nós, a ponto de, se calhar, podermos dizer que loucos são os que não falam sozinhos.

e a curiosidade existe, naturalmente, entre quem escreve. "este ou esta - pensa-se - é um louco cá dos meus. e encara os espíritos da noite em que se abrigam os normais".
tanto também não, que é exagero, mas uma coisa é certa: existe por vezes uma certa deferência pela coragem de escrever. entre os que escrevem.

e achamos-lhe graça e alimentam-nos a curiosidade, quase todos os dias.

quinta-feira, julho 13, 2006

assalto aos sonhos

hoje sonhei.

tomaram-me de assalto os pensamentos que tenho guardado dentro de mim, sobre as pessoas de quem gosto.
o ritmo de vida alucinado para onde me arrasta o trabalho, tem-me impedido de pensar nos meus amigos. não que eles precisem, mas eu é que sinto falta. sabem como é, quando faltam bocadinhos do nosso ser, que foram entregues, sem querer, a pessoas de quem gostamos?
é verdade. os meus amigos preenchem-me e muitas vezes completam-me.
dizia eu, noutro dia, que o aumento do número de pessoas que recorre aos psicólogos só existe porque se perdeu o tempo e o hábito de falar. com os amigos. porque aos outros não ouvimos da mesma maneira nem lhes damos os créditos suficientes para considerar o que dizem. se juntarmos a isto o stress diário crescente e a procura louca de satisfação rápida (pois se temos menos tempo… é tão fácil de compreender… já aceitar…), chegamos à conclusão de que o desporto "conversa" tem perdido adeptos.
e não me venham falar no messenger ou outros que tais porque aí, fala-se mais devagar, e não temos o corpo e o sorriso e os olhos e as mãos a fazerem parte da amena cavaqueira.
é, claramente, uma espécie em vias de extinção, a conversa com os amigos sem hora marcada e fim anunciado.
mas isto veio só em atalho de foice, porque me lembrei que adoro, uma coisa de paixão, mesmo, o conversar e ver falar as pessoas de quem gosto. até as outras, mas sobretudo as pessoas de quem gosto. e também eu, tenho afundado nas areias movediças do enredo work, work, work. bom, se calhar ainda vou a tempo. de conversar muito.
sinto a falta da malta amiga.

o que me trouxe ao estirador das letras foi outra coisa, que pensei acerca desta gente que conheço. apanhou-me de assalto, quase ao acordar:

"se não lhe deres o espaço e o tempo necessário para que sinta a tua falta, ela vai fazer-te sentir, mais tarde ou mais cedo, a impaciência da saturação". dramático.

agora escrito na primeira pessoa: "se não te der o espaço e o tempo necessário para poderes sentir a minha falta, vais-me fazer sentir, mais tarde ou mais cedo, a impaciência da tua saturação".
confesso que até arrepia. não é um pensamento novo, mas levanta pelo lá atrás, na nuca.

caramba, que o jogo de viver, é uma delícia! mas não é brinquedo.

este chega e empurra que fazemos diariamente, este vem cá que és minha, num dia e que chata que tu és, no outro, parece coisa de loucos. só não é um jogo. o jogo de viver é para ser jogado de intuição e sorte e uma pitada de bom senso, com algumas, poucas ocasiões de bom senso, frieza, e até alguma manipulação dos acontecimentos.

a gaita está na subversão destes equilíbrios.

senhores e senhoras, é a nossa natureza que tem que imperar, é a tal intuição que comanda as relações entre as gentes. os apontamentos de raciocínio têm que ser marginais, apenas para inserir um novo código de programação no nosso comportamento ou atitude, mas se o código não pegar com algumas (poucas) tentativas, é porque o sistema não o aceitou. e aí, meus amigos, é porque não é compatível com a natureza. e tem que se rejeitar o código e assumir que não vamos ser assim ou assado porque o outro gosta, ou fazer desta maneira ou daquela porque o/a deixa mais contente. ou entra no sistema, ou então esqueçam.

e ninguém fica mais pobre por ser genuíno. evolução não quer dizer o mesmo para toda a gente e nem sequer é vantagem obrigatória.

ser feliz é, muitas vezes, mais simples para uns do que os outros pintam. e não temos todos que andar em carneirada a subir o mesmo monte, a comer as mesmas ervas do caminho.

pode ser que sim ou que não, e valemos o mesmo.

mas despistei-me outra vez. aquela frase arrepia de tão verdadeira. deve ser isto a que os ingleses se referem quando dizem: “i just had an epiphany” (… se é que isto se escreve assim…) eu acho que é assim parecido com fazer festas a um gato. já experimentaram?

a um gato ou gata, fazem-se festas devagar, começam por se fazer festas devagar. e vamos esperando até que o bicho se entusiasme e peça mais festas e aí, podemos ser mais intensos, que o bicho deixa. e se ele se mandar contra as nossas pernas com marradinhas, é porque a coisa está ganha. podemos continuar e até, com sorte virá-lo ao contrário.
só não lhe podemos apertar o pescoço.
se apertarmos o pescoço a um gato ele vai-se assanhar. vai soprar e tentar morder e se o tentarmos manter preso contra a vontade, vamos comprar uma briga que só sabe quem já tentou; o bicho esperneia e arranha e contorce-se até que nos consiga magoar o suficiente para o soltarmos ou, se formos imunes à dor, podemos continuar com ele nas mãos, segurando-o cada vez com mais força.
e matamos o gato.
não o deixamos fugir, mas morto, também tem pouca graça, certo?
a ausência de vida, diria eu, não tem mesmo graça nenhuma.

outra coisa interessante que pode acontecer com os gatos, quando tentarmos fazer-lhes festas, é o bicho dar-nos uma valente “esnobadela”, virar as costas e ir à vida dele. não tentem ir a correr atrás, porque gato foge e corre depressa. e se o apanharem, voltamos à tal cena da briga, com final infeliz, either way.
esperem que o sol se ponha, nasça outra vez e cruzem-se com ele assim como que por acaso e deixem-no vir ter connosco. e, se ele estiver para aí virado, invistam outra vez.

uma nota final de esperança: apesar de independente, o bicho gato afeiçoa-se a determinadas pessoas a quem se chega, com vontade, e até com saudades. se o/a deixarem ter tempo para ter saudades.

quinta-feira, julho 06, 2006

que maravilha

o que vi escrito algures neste espaço das palavras:

Lições de vida
"Meu amor, vou ensinar-te uma coisa: Pede. Não digas tenho sede quando queres um copo de água".


tão verdade, e tão simples.

por favor mundo, desliga o complicómetro e faz-te feliz.

sexta-feira, junho 30, 2006

foi um comment. hoje é uma mensagem de ânimo a uma amiga


assiste-te o direito de investir contra fronteiras determinadas em tempos que já ninguém se lembra e que continuam presas pelos arames estúpidos das convenções e da acomodação.

bendita inquietude que te vai permitir saborear a 300 os aromas das peles novas que se vão criando e caindo em ti, ao sabor de mais um dia que passa e que merece ser diferente, porra! porque têm que ser iguais os minutos entre si e as horas através dos meses?!
claro que não se vive sereno, é claro que a paz e a tranquilidade e a mantinha e os chinelos não fazem parte desse viver, mas alguém os chamou?! espero que não.

o conformismo e o ordinário nasceram e cresceram com o vulgar e o comum. não pertencem à loucura de ser diferente, de querer diferente, e de arriscar viver e saborear até faltarem as forças aos dias para acompanharem este andamento. temos pena!!

se fica gente pelo caminho, se ficam coisas por fazer, ou se se têm prazeres, alegrias e vitórias e batalhas diferentes, que outros não vêm e lhes custa a compreender... temos pena. temos pena. temos mesmo pena, porque se calhar era preferível não perder nada.
não haja ingenuidade na cabeça de ninguém: aos maiores riscos correspondem os sabores que gritam mais alto, mas também as dores mais surdas.e não há nada a fazer. e é um preço que é devido. e só vai a jogo quem quer.

se é consciente e ciente de tudo, então atira os cabelos para o lado, como só tu sabes fazer e sorri com a convicção de que não há nada nem ninguém para te parar. e qualquer alma que goste de fado, vai ficar orgulhosa de ti.

e se um dia

os rios chorarem?

como lhes reconhecemos as lágrimas?

quinta-feira, junho 29, 2006

perder


O que é importante perder?


O que é importante não perder são os sentidos, porque sem os sentires, o resto é vão de sentido e cheio de significado absolutamente nenhum.

ao som de um piano e violinos que matam


E se não souberes o espaço
Que ocupa o meu peito em ti?
E se não te lembrares do tempo
Em que fui teu?

e se, para onde fugires de novo
te seguir a memória de uma recordação viva
que te preencha a carne
e te emprenhe o espírito
de um desejo que abafe a dor de não me veres?

Vais deixar de me querer?
Vou esquecer-me do que vivi
Entre os espaços perdidos
Nos passos em que morei em ti?

Já ninguém conta a ninguém
A arte de fazer e querer bem.
Já ninguém acredita que as pedras choram
Quando vêem passar um pássaro triste.

E perdem a esperança de sonhar
Enquanto assistem ao desfilar dos dias
Que passam ao lado do teu corpo
Que pede baixinho para se cumprir o destino
De ser todo meu.

E o tempo que não pára
Para respirar mais devagar
Ao som
Das músicas que gosto.

fade away

sopram ao longe as mágoas de um tempo incerto e escorrem pelos trilhos secos as lágrimas de um povo abandonado à sorte que não pediu e menos mereceu.
a vida não é justa, mas isso, tem sido anunciado amiúde.

perto do chão do espaço vazio
ocupado pelos restos de ti,
invento as histórias
que os meus sonhos
publicam a cores nos dias do meu viver.

embalado pelas memórias que não se apagam
acossado pelos minutos espaçados entre as horas do tempo que não passa
e a imensidão de segundos que já se passaram desde a última vez,
atiro para trás de mim os olhos tristes de um tempo que não é de ontem nem de hoje
e que, em boa verdade, não é de ninguém...


(work in progress... or not)

segunda-feira, junho 26, 2006

perturbador

"nada me sacia"

a frase, li-a no vôo para Lisboa, quando acabei o livro que me ofereceu o João: "O sol dos Scorta" de Laurent Gaudé.

Caramba, que furacão de livro. Que loucura, que ritmo, que enredo... deixou-me um nó na garganta, o sacana do livro. e não é fácil.

a frase é do livro, mas também podia ser minha.
e é perturbador.
mas não é sempre mau.

sexta-feira, junho 23, 2006

away

há já muito tempo.
com o corpo abandonado em cima dos papéis e assuntos que chamam e exigem mais atenção e tempo e oxigénio do meu respirar do que eu gostaria.
mas não foi, e não é, sempre assim.

desde há uma semana que passeio e trabalho numa cidade diferente. foi temporário. já estou de volta. daqui a poucas horas apanho o avião para Portugal. para casa, para a minha casa. sinto falta da minha casa.
tenho estado em Viena. a cidade é bonita. mas não me apaixona. é como aquelas mulheres muito certinhas que são interessantes de ver mas não arrebatam o espírito nem têm a loucura que tempera com sal a vida de gente como eu.
Viena é bonita mas, como eu dizia desde o 2º ou 3º dia, "isto, mais ou menos, está visto". E era mesmo assim. o ambiente repete-se, a arquitectura é bonita mas monótona, as pessoas não têm sangue quente nas veias.... espera, isto pode ser uma injustiça porque, aqui, as mulheres usam decotes até aos dedos dos pés e a maioria não usa suporte de mama. é verdade. nesse aspecto, a cidade é um desassossego constante. talvez seja o grito de socorro de uma multidão de austríacas que recorre ao ataque directo para despertar vida nos mortos e sonsos dos austríacos. wishfull thinking, i know. mas é uma história engraçada para desenvolver noutro dia.
daqui se vê a distância a que estamos desta gente civilizada e tranquila que diz "this is Viena, no stress" e espera ordeiramente na beira da estrada pelo bonequinho verde do semáforo dos peões, apesar de não se vislumbrarem carros num raio de kms. enfim,... costumes.

a surpresa veio claramente da arte e do museu Leopold. que maravilha!! que delícia que são os Klimt; os Schiele são brutais e divinais, especialmente se os perspectivarmos no tempo em que o artista os pintou, no final do séc. XIX. e os Kokoschka e os outros... não fosse esta ser ma raça de gente e artistas que parece desinibida como poucos. até no pintar. enfim, um banquete de iguarias que os olhos beberam sôfregos e a carteira tratou de completar quando perdeu a cabeça no departamento de posters da loja do museu.

mas foi bom, porque assim posso dizer: linda, afinal, a Viena dos artistas, terá sempre um final feliz.
ainda assim, não me passam, as saudades do meu país.

até já.

sexta-feira, maio 26, 2006

a rejeição

é verdade que é um tema meio melindroso, mas são mais os fantasmas do que os estragos efectivos na carne e nos ossos que a sustentam.

bem vistas as coisas, faz parte da nossa natureza humana não concordar com tudo o que se nos atravessa no caminho. então qual é o problema de ver chumbado um projecto, ver debatida uma ideia, ou até levar uma belíssima tampa?
devia ser zero, o problema, mas temos hoje chaise longues e sofás carregados de sulcos de corpos de gente que se debate com angústias que inventou num dia de chuva em que não podia sair de casa para arejar ou ir a um qualquer centro comercial sonhar com uma blusa nova ou uma sainha plissada... caricatura à parte... a verdade é que fomos desenvolvendo o estigma do porcelanismo chinês. e partimo-nos ao menor sopro.
que raça de gente é esta sobre quem se fizeram poemas como o V Império? descendentes de raças cruzadas entre viriatos rudes e mouras formosas e quentes, que já saboreou o sucesso, as vitórias, as derrotas, os terramotos e a loucura geral, e nunca deixou de se levantar com os olhos esgazeados de sangue a perseguir os últimos rastos de vida de inimigos a abater?

amaricámo-nos um bocado, deixem-me que vos diga...
não há outra forma de pôr a coisa (bom... quer dizer...)

o povo hoje não aguenta uma contrariedade sem ir a correr alimentar a grossa e fausta carteira de qualquer professor "karamba" mais ou menos diplomado por uma mais ou menos famosa escola especialista de cultos ocultos. ora gaita, mais a isto, que a gente que conheço do meu país merecia mais consideração e respeito pela garra e vontade do que este porcelanismo chinês pseudo moderno.

nhecs.
e double nhecs.

e sabem o que acontece a esta malta medrosa (quase que me enganava a escrever isto...)? este pessoal deixa de arriscar e de se lançar a jacto para a conquista de coisas novas e acomoda-se nas tais mantinhas que tanta volta me dão ao estômago! (arre, que quase me saem impropérios menos próprios...)
quem é que ensinou a esta gente que os joelhos esfolados fazem mal, e que partir a cabeça não é mais do que uma parte indispensável do processo de a construir e preparar para ser tremenda e forte e preparada para a briga da vida ?!
quem é qe ainda se atreve a desperdiçar tempo a dar palmadinhas nas costas de quem entalou um dedo na porta e nem sequer ficou com menos um coto?!
foi só uma entaladela, foi só um joelho, é só uma dor de cabeça!!!! não é preciso invocar o deus mais graúdo de um qualquer monte olimpo, porque também não se trata de um mal maior que põe em risco a humanidade.

em boa verdade, tal como os bebés, também os adultos aguentam muito mais do que aquilo que os próprios, e os outros, podem achar.
o que põe em risco a nossa raça, é esta choraminguisse pegada que afecta do mais delicado ao mais peludo. é que, mais tarde ou mais cedo, não vai haver quem nos ature.

meus caros, minhas caras, corremos o risco de entrar em vias de extinção por definhamento auto induzido, é o que é.

despeço-me com amizade e até ao nosso próximo programa (como dizia o saudoso).

quinta-feira, maio 18, 2006

singela


porque a beleza não se fabrica.
nem se consegue disfarçar

segunda-feira, maio 15, 2006

play it again, sam

o dia arranca da cama mais um sopro de sobrevivência.
é só pôr cara alegre e empurrar mais uma folha do calendário.

quase a propósito uma piada interessante:
_____________________________________

ORAÇÃO DA MULHER

Querido Deus.
Até agora o meu dia foi bom:
* Não fiz fofocas,
* Não perdi a paciência,
* Não fui gananciosa, sarcástica, rabugenta, chata e nem irônica,
* Controlei o meu SPM,
* Não reclamei,
* Não praguejei,
* Não gritei,
* Não tive ataques de ciúmes,
* Não comi chocolate,
* Também não fiz débitos no meu cartão de crédito (nem do meu
marido) e nem passei cheques pré-datados.

Mas peço a tua protecção, Senhor, pois estou para me levantar da cama a qualquer momento ...
______________________________________

sexta-feira, maio 12, 2006

distant mindbreath

se o castanho raiar de verde podemos imaginar o corpo esguio das árvores fundir o doce das folhas?

o que sentirá a ponta de uma pena enquanto escorrega na pele macia de pontos que se unem com os dedos que percorrem a vida à volta dos braços doces que se entrelaçam nos meus enquanto se eriçam os poros arrepiados por não ter ninguém a quem contar a história de uma vida louca de prazeres complexos como o vinho que nos escorria dos lábios para dentro do calor de um corpo ardente de uma febre que já não sabia parar de aumentar.
se fechares o olhos e sonhares, sim, de olhos fechados, imagina o sabor da suavidade abandonada de um beijo que traz o fim dos sonhos suaves e das noites frias.
imagina que se espalha na praia do teu corpo uma onda de calor que te invade devagar...
e o resto é o tempo a fugir debaixo do bater descompassado do peito a abrir caminho entre o espaço artificial criado entre os corpos que clamam ter sido feitos para sentir o baque crescente de um prazer que as paredes não sabem conter e atiram pelo ar que cai sobre as cabeças que se fitam enquanto falam calados os lábios.

quem pode não querer dias assim?

porque se escreve?

PS: (eu sei que os post script são no fim, mas este tem que ficar aqui...) como diria a diana, este, é absolutamente intragável e desconexo. não recomendo o resultado nas letras dos momentos que sinto assim.

o título não é feliz. conta uma história antiga numa ode nova a vidas de ontem, agarradas ao sabor do mil pedras dispostas em calçada ao longo de uma estrada sombria e gasta de passarem por lá as peças de teatro, feitas do sal que, com a suavidade de uma dor aguda vai fechando o espaço em volta da aura triste de uma noite cansada.
não sei escrever nem como explicar o porquê de coisas simples que avançam lentamente para dentro de mim com o doce estandarte de horizontes que não posso explicar a ninguém. vive-se a vida em surdina para não acordar o inconscinte que, de quando em quando, ousa e adivinha paços de um palácio que descobre, por debaixo do verde carregado de simplicidade e vida de uma arte simples mas nova de delicada.
cartas que nunca escreverei.
absurdos e gritos que nunca atirarei para o ar leve e solto que entraria pela janela do mar adentro, enquanto dormisse.
vidas que nunca ligarei entre si com os efeitos redondos de um caracol que desce em espiral até um centro que mais ninguém sabe onde fica. não é tanto o futuro que faz falta, é a ausência de presente próximo, tão próximo que fica entre aqui e já ali à frente.
travam-se batalhas tremendas dentro de uma guerra com fim anunciado? não sei o que é isso, de fins anunciados, tantas foram as vezes que os fiz e desfiz no percurso aparentemente breve das minhas horas de que ninguém sabe nada.
guardo para aqui as partes amargas na certeza de que não me conhecerão assim; aqui ficarão soltos os fantasmas e as histórias por contar, dentro de palavras imperceptíveis e frases sem nexo. vão viver juntos aqui e sorrir para ninguém, enquanto as lembranças me povoarem o espírito de não mais querer estar assim. fogem e recuam enquanto se desviam de quem se passeia nas horas tranquilas de uma manhã que não vai ter o mesmo sol e o mesmo sabor a madrugadas salgadas.

há muitos anos prometeram-me amarrar um barco ao pé de mim para poder sair de entre as portas da terra firme e largar por aí descompassado mas feliz por não ficar inerte como as plantas que esperam o vento para poderem mexer folhas que viram e adivinharam o peito de um sorriso feliz.
são longos os dias que precedem as noites cansadas de esperar por uma luz mais fraca e azul de reflexos de um mar onde o verde da água limpa e transparente se mistura no castanho da terra revolta povoada por gente de dedos esguios como faziam crer os filmes de gente que vinha de outro lado.
não acreditam na natureza e fazem das palavras as mentiras que nunca viveram, não reflectem a fé nas máres nos olhos molhados pelo rubor de uma inspiração que já não existia há muito. e precipita-se a lua para dentro de um mar salgado pelas lágrimas de angústias e memórias que nunca trago nas horas amenas.
se a loucura fosse uma opção, escolhia-te já, para não sentir os dias de alvor seco e o restolho das searas que morreram do sol que abrasa decidido o campo onde vive ninguém.
gosto de música. e sei que se receiam orquestras gigantes de cordas, metais, sopros e tantos tantos tambores. ver da plateia... nunca... nunca... prefiro estar dentro e sentir a fúria de uma natureza estranha que canta em harmonia e com a violência de uma beleza atroz e arrepiante... nunca da plateia... prefiro aprender ou morrer a tentar perceber o que faz lindo um trapo composto de nada com cores que não vivem sozinhas sem a música que toca e assoma aos ouvidos de gente com medo dos estilhaços, parada ao longe, separada pelo fosso que os protege do avançar impiedoso das emoções para dentro das convicções do viver...
ouvem-se ao longe as cordas de um corpo que vibra de medo por não ter presente próximo... e o futuro foi já ali à frente e volta mais tarde em cacos ou peças pequenas de um puzzle de lamentos de felicidade.

quinta-feira, maio 11, 2006

todos os dias se morre devagar


mas de vez em quando assalta-nos a vida a malvada da morte que teima em arrastar pessoas de quem gostamos e destruir por muito tempo as felicidades ainda mal sustentadas em cima de pequenas paliçadas tímidas e capazes de imaginar em sonhos soltos de olhos abertos um futuro feliz.
eu vi os olhos dela e a imaginação a passear por tempo de sol.

e, de repente, com a brutalidade de um soco nos olhos e um pontapé nas costas, arrancaram o tempo de viver a uma gente amiga quando atiraram raios de fogo para o peito de um bom fulano que tinha o coração doce por gostar de viver. viver com ela.
não se poderá arrumar e repartir a força do coração para amar sem pagar por isso o preço do corpo que sucumbe? egoísta de merda, o corpo da gente, em tanta coisa e também nesta.
não há lágrimas que se possam derramar para outra coisa que não seja fazer da água à sua volta aquele elemento que ameniza as temperaturas absurdas e tempestades horríveis por que deve estar a passar esta amiga.

se a proximidade valer o conforto dos ombros gigantes que tenho, não te preocupes com o sofrer. eu apanho um pouco do teu, e fica comigo até o afastar de ti.

porque as homenagens se fazem por carinho, por mérito absoluto, por solidariedade, e por uma imensidão de coisas, e por tudo isto junto, este post é em memória de pessoas boas, sempre vivas no que de mais precioso temos: o tempo. seja ele um tempo real e presente ou antes um tempo de memórias tão vivas como os dias que escorrem incertos e tantas vezes com menos valor.

mais novo que eu. humano, sincero e um sorriso franco que lembro com facilidade. e boa gente. logo este, entre tanta merda que havia para dispensar.

Para o Rui e para a Vanessa, com carinho, ainda no calor do assalto estúpido das notícias.

quarta-feira, maio 10, 2006

a caminho de lugar nenhum

(person at the window, by salvador dali)

E se fechasse os olhos? O que imaginava?
Não posso fechar os olhos.

Prefiro sonhar acordado.
Porquê?
É fácil de explicar: deixar correr o pensar e o imaginar pelo espaço de uma tela vazia, permite pintar a obra mais louca que queiramos e chegar a destinos virgens de qualquer contacto e contaminação pelo real. Isso, é verdade. Sonhar de olhos fechados não tem limites, mas também não faz ligação à pele de quem sonha, a partir do momento em que acorda. O desfasamento com o real é tão grande que se desvanece no ar da primeira luz que nos entra nos olhos. Fica uma memória vaga, um aroma de fundo, difícil de recordar e mais ainda, de saborear.

Sonhar de olhos abertos é um exercício de quase dissociação de ser, estar e sentir. Significa que imaginamos uma realidade alternativa com os olhos postos na vida de hoje que agarraríamos ao colo e roubávamos para um descampado livre onde, em transe de loucura, nos entregávamos ao desejo de lhe fazer nascer um filho novo. A realidade, essa mulher roubada e arrebatada, resistiria como convém a quem é arrastada para longe do sua normalidade, até sentir o calor de um querer diferente, que arde no peito quem quer e queima a pele de quem sentir tão perto o impacto capaz de derrubar couraçadas de uma qualquer samurai mais artilhado.


(the ship by salvador dali)

Quando se desprendem dos olhos estas imagens para se irem colar ao mundo presente, perdemos também um pouco de contacto com o que é possível e é normal que as estribeiras societais se desprendam do lodo onde estavam amarradas. E largam por mar adentro, a realidade e as imagens novas.

Sonhar acordado implica atirar formas e sabores novos para uma tela que já é. Enquanto navegam a rédea solta, estas gentes vão matando a sede de inspiração nas imagens criadas que vão adaptando a uma qualquer vida real que fazem por alterar. Ou até não.
Por não adormecerem, vão testemunhar na primeira pessoa os arrepios reais dos sentires que sopram de um qualquer mastro erguido a desfraldar a bandeira de uma independência nova. Países houve que se criaram de quereres assim. Gente houve que morreu pela viagem de um sonho louco.
É outro que escreve. Cerrados os dentes, agride o ar que atravessa com os olhos até chegarem ao sonho que ousou levantar a custo, de uma enxerga dormente onde jazia moribundo.
Que ganha, quem sonha acordado? Garantidamente, ganha mais penar, por sentir perto o que pode nunca chegar, ganha em desilusão por ver que as miragens podem não ser mais do que areia de um qualquer deserto árido e escaldante.

Mas também ganham. Ganham o prazer absurdo, louco e incontido de levar a alma para lá das portas do razoável e humano, enquanto seguram cimatarras nos dentes e desbravam lugares escondidos dos olhos dos outros.
E, porque estavam acordados, vão lembrar-se a vida toda. E conseguir invocar os sentires quase sempre que queiram.



(reminiscence archeologique de l'angelus by salvador dali)
E perguntem-me, como vivem felizes estas gentes?
Confesso que nem sei se é possível...
Viverão de memórias e, como se pode imaginar, optarão provavelmente por continuar a sonhar acordados.

perdi...


...a conta ao aroma de inverno que se afasta enquanto chega o tempo de verão.
o ontem funde-se com os tempos que estão e seguem, e deixam mais próxima a languidez do tempo de praia.
arrasto os olhos de forma descarada, como é hábito, e fixam-se por onde passam os minutos do meu tempo.
voltou um tempo de outro heterónimo.

renasceu de entre as lutas titânicas pelo domínio das letras que escorrem das pestanas molhadas, pelo sal do mar. e fica até lhe apetecer, comme d'habitude.
travam-se batalhas de silêncio pelo posse dos sons mais pesados e dos gritos mais altos e não há maneira de declarar vencedores nem vencidos. arrastam-se feridos para mais uma injecção de qualquer droga mortal que os permite voltar a cruzar os ferros e agarrar os punhos com vontade de vencer uma guerra que não tem fim.

esgrime-se com arte enquanto se mata com crueldade a natureza social das coisas do mundo.

e vê-se caminhar, indiferente ao tempo e à angústia do prazer de querer, entre os despojos de um mundo assustadoramente novo.
só vale a pena viver com o sangue nas veias.

quinta-feira, maio 04, 2006

welcome


por vezes, perdido entre as horas e os minutos do dia, entra um raio de sol que dá cor ao outono que cai dos meus olhos.

delicioso.

no name




o Natal, como a tristeza de morrer acordado, são quando um homem quiser.

A gaita é sair.
Ou não.

foggy times


E se o dormir for uma condenação de alheamento temporário, porque não merecemos contemplar o que quer que seja durante algum tempo?
…faz sentido?... não. But then again, é só mais uma loucura.
Ou talvez nem tanto.


O certo é que é insultuoso o tempo que se passa sem fazer nada e a aproveitar coisa nenhuma porque,… estamos a dormir.
É como se de um mau período da vida, se tratasse, que se repete todos os dias a partir da hora de deitar. Até os sonhos desempenham o seu papel alucinado e triste ou estupidamente feliz, por não fazer parte das coisas reais.
Como nos momentos maus, estamos num estado latente, onde a vida não avança, antes pelo contrário, e o melhor que se pode fazer é desejar que passe depressa. E que não nos pese o tempo morto.
E se o dormir for um pequeno vírus, muito virulento, muito peganhento, que se agarra a uma pessoa e lhe vai minando as defesas de viver com vontade, até se transformar numa qualquer lagarta que se arrasta pelas folhas da couve, quando ainda há poucos dias era uma borboleta de cores e asas de arrasar o mundo. Esta podia perfeitamente ser a gripe das aves dos tempos modernos. A involução das gentes, para dentro dos casulos para perto de onde nunca deveriam ter voltado. De fácil mutação e propagação mortal entre os humanos. Os que sobrevivam, ficaram tolos demais para atirar um sorriso ao futuro que se foi embora na camioneta das 5.

Já fomos heróis das nossas próprias vidas, num ou noutros dias mais felizes mas hoje assistimos ao despertar de crisálidas que nunca vão ganhar o céu do sol, e da chuva e das estrelas, e das trovoadas e das auroras boreais e dos perigos e belezas da natureza, porque algures no tempo, optaram por começar a viver paradas nas couves e ervas de que se alimentavam de forma fácil e sem esforço. Enquanto engordavam, acomodadas à abundância e ao sabor do que não tinham que ganhar, foram dormindo umas sestas na hora do calor, para passar melhor o tempo até chegar hora de comer outra vez. Deixaram de procurar variar e levar os olhos até mais longe do que aquele caule incrustado de calos rugosos, com quem se começaram a identificar e a fazer parte da família… daquela gente só e triste que se preocupa com o que está perto e já não olha para os dias. É como se fossem noites sem qualquer luz e respirar sem oxigénio nos pulmões.
A fuligem da chaminé por onde ressonam ribomba no peito de quem não tem a natureza apodrecida pela preguiça e pela porcaria de não ter outra elegância além de um qualquer cobertor que lhes tapa as orelhas frias.

O gelo, que sobrevive e cresce na inactividade, agradece, e convida a ficar… e dormir mais um pouco.

Já agora… talvez não valha a pena acordar. Why bother?

quinta-feira, abril 27, 2006

distant


só estes espaços grandes, cobertos de água, absorvem todas as partidas numa memória discreta.
mas nunca indiferente, nos olhos certos.

missplaced nonsense



É esguia.
Tem formas redondas e a elegância de quem sabe estar e receber os olhos de quem passa.
Usa o vermelho como poucas.

É transparente se, de perto, não deixarem os olhos assentar em menos do que mesmo em cima dela e, talvez também por isso, servem-se dela com o respeito e a sofreguidão simultâneas, de quem tem a sede para matar.

Inebria-te os sentidos enquanto desliza o seu corpo frio e te aquece o olhar. E soltam-se os sentires antigos que deslizam por cima dos novos.

Espera-me à noite, deitada e lânguida.
Mas não chama por mim.

A passividade com que me encara revolta-me pela ausência de desejo que respeite o calibre do meu. Não respeita os meus quereres… bem vistas as coisas, não respeita nada nem ninguém.
É indiferente a absolutamente tudo… ou até absolutamente indiferente a quase todos.
Não é minha. Já foi de todos e não conheço ninguém que, querendo, a não tenha tido. Promíscua por natureza ou por opção, mas se ninguém perguntar, com sorte, também ninguém responderá. Só não se sabe de quem será amanhã. A incerteza da volúpia de ser querida é tremenda.

Gosta de ver os efeitos que me desperta, mas não dá nada de si que lhe não seja arrancado, e atirada para uma qualquer mistura, ou então não… se tivermos coragem, despimos tudo e escorrega… só, assim… pura...
E abrasa por dentro, enquanto a imaginação é assaltada por monstros e viagens de ilusões que não têm princípio nem fim.

Chama-se Stolichnaya. É vodka. E habita no frio da minha vida.

segunda-feira, abril 17, 2006

em discurso indirecto



devagarinho
deixei cair o cabelo para a minha frente
apaguei a alegria e substitui-a pelos olhos fechados
pelo cansaço dos dias
e pelos sonos retemperadores que tanta falta me faziam.

devagarinho,
deixei sair de fininho as emoções que me arrebatavam,
e também aos outros
e faziam invencível e doce
o meu querer de viver.

aos poucos, entreguei o piano virtuoso e apaixonado
e deixei-me soterrar,
pelo calor morno das temperaturas tépidas,
e esqueci-me do que eram águas frias e quentes.

deixei crescer junto de mim
um mundo indolente
sem o sentir que apaixona
sem a violência do querer
e sem a alma da entrega do último dia da minha vida.

deixei-te sair de fininho
pela porta que nem sonhava aberta
enquanto me deliciava na aparente tranquilidade
de um prometeu agrilhoado...

já não me deixarei dormir,
já não posso ter só os olhos abertos
e não vou ficar só com as memórias
de um dia enorme que preencheste de noites
carregadas de vigílias amargas
e derrotas sangrentas.

recupero ainda o saber
e o sentir se tornar a dar
o que era teu de direito?...

diz-me tu

e, ao acordar, levantou-se o vento na rua e arrastou para longe as folhas mortas caídas das árvores cansadas.

terça-feira, março 14, 2006

compromissos

o belo do compromisso... sucks!
e não há eufemismo que lhe valha.

Ninguém pode ser efectivamente feliz, se viver em regime de "compromisso" permanente. Sabem o que é? É aquele meio termo, aquele entendimento civilizado de sã e salutar convivência entre duas pessoas. Deixem-me lembrar, para quem ainda não está a ver: é aquilo que fazemos a pensar que salvaguarda alguma parte de nós, quando afinal nos anula em todas as frentes.
Radical? Nem por isso.

Se quiseres muito, se gostares ainda mais e os desejos do que quer que seja transbordem por ti afora, que satisfação podes conseguir, se fizeres METADE(!) do que querias?
Se pensam em responder "metade da satisfação", desenganem-se. A acumulação de insatisfação, quando estamos tão perto de fazer exactamente aquilo que gostaríamos, é desgastante. Corrói devagar, e vai apagando o brilho dos olhos.

As negociações foram feitas para as empresas e outras entidades abstractas que não sentem. Só essas não têm pena do que perderam, ao ficarem a 50% do objectivo em regime de trade-off por outra coisa qualquer. As pessoas, remoem. Anseiam, e vão acumulando o desejo, numa folha de créditos por saldar, que não faz bem a ninguém.

Os compromissos não devem ser banidos da vida de ninguém, entenda-se. Mas não podem preencher os dias. É como se nos contentássemos com uma pequena mantinha que nos amodorna o corpo. Não é quente, mas consola um bocadinho... Não satisfaz, mas também não é nenhuma lareira a crepitar de satisfação. É... um compromisso possível...

Criticar é fácil, não é?... Mas pode ser que haja um vislumbre de solução, lá longe, ou mais perto, quanto menor ou maior for a audácia de fazer diferente.
Então e se, em vez de entrarmos no compromissozinho de merda, a toda a hora, experimentarem deixar acontecer até ao limite máximo, aqueles gostos, desejos ou loucuras de quem gostamos, queremos bem ou até, só convivemos? E se se optar pela tolerância?

Imaginar a satisfação e o prazer de ter, no rosto e estar daqueles a quem queremos, é... delicioso. to say the least... trust me.
Podemos optar por tolerar coisas de que não gostamos, mas que são realmente importantes? Claro que sim. E ninguém morre por isso.


É mil vezes preferível fazer algumas coisas de que gosto muito, do que imensas, de que não gosto particularmente e me são apenas,... neutrais.

Esta coisa de ser humano e ter alguém a que se quer, é mesmo assim: uns dias sofre-se um bocado, e noutros vai-se ao céu. Várias vezes, se possível :-)

Não se fiquem pelo "assim, assim...".

E dêm tudo o que podem, gostem mais, ou menos, ou até nada, a quem esteja disposto a vos dar também. E rasguem os dias ao acordar com aqueles sorrisos de que se constroem lendas.

sexta-feira, março 10, 2006

ó gente da minha terra



agora é que eu percebi
esta tristeza que trago
foi de vós que a recebi.

começa assim um fado da Mariza, que ecoa dentro dos tímpanos enquanto pára o peito de bater em homenagem à voz e ao sentimento que a malvada da mulher atira para as palavras que canta.

Deu passagem a um passo descompassado em passeio desarticulado: não era mais ninguém que não os próprios pés e pernas que empurravam o ânimo para mais um pouco de ar negro.
Ouvia ao fundo os velhos, naquela sala vazia, cheia de computadores à espera. À espera de quem pudesse, por necessidade ou piedade, dar uso ao que de melhor tinham e poderiam fazer.

que triste sina não deverá ser sentir o poder de fazer e não ter o espaço, o tempo, a oportunidade e as gentes que saibam, queiram ou aceitem fazer cumprir o que rasga, de dentro, a pele que se veste.

quanto mais se aproximam do destino, mais se ouve o rirombar seco que atira contra a jaula o fogo de um animal selvagem prestes a soltar-se.
se de longe se consegue controlar a fome por ausência de ter o que comer, experimenta atirar essa turba em fúria para um campo de cereais virgens. rapidamente se despedaçam as camisas do milho e se acendem as fogueiras, enquanto, em tensão, esperam pelo concretizar de um destino a que não podem fugir, os entumescidos grãos de milho.
experimenta dizer a uma turba de gente esfomeada que sente já escorrer nos lábios a saliva, que não podem comer. levanta-se em armas o próprio inferno, que não conhecia o imenso calor que tinha guardado.

não cabe já nas fronteiras feitas em tempo originais para as coisas primeiras, e sentem-se romper os diques artificiais que montaram para segurar naturezas prenhes de vida que sentem mais perto o aroma das cores quentes e o sabor do prazer.
semicerram-se o olhos enquanto tomamos o gosto ao que seguramos nos dentes, como que a dizer que queremos dar exclusividade ao sentir dos sabores. de tão perto, misturam-se as essências da presa e dos caçadores enquanto se constroem vidas novas e misturam os fados. ouve-se gemer baixinho cada vez mais perto, até se tornar ensurdecedor o prazer de matar a fome de comer...

fosse a fome gente: comía-nos vivos.

segunda-feira, março 06, 2006

fora de casa e atacado



Por uma insónia inoportuna. Amanhã de tarde começa a reunião e eu quero levantar-me cedo para ir sentir o aroma do dedo divino e ver a basílica, já agora.

Aterrei num país diferente. Os homens falam sem sorrir e as mulheres têm fogo no corpo: andam e vestem para matar.
Se embrulharmos tudo isto em pedra que, de tão antiga, ganhou o direito de falar connosco e invocar memórias para os visitantes de quem mais gosta. Tive sorte. Com as pedras, não com as mulheres.

Ouvem-me chegar e segredam-me histórias loucas onde a realidade se mistura com os sonhos que foram tendo ao longo dos séculos e me confidenciam enquanto salto de uma para outra. Aqui ninguém me chateia se saltar para cima de qualquer coisa para ver melhor, ou só porque me apetece. Sinto que aqui, se fabricam menos rédeas de pudor ou do correcto. Gosto disto.
Dizia-me um amigo ao telefone, enquanto eu interrompia a visita ao palácio com a cripta das cinzas de Adriano (eu não sabia que o fulano tinha sido cremado!), “isso tem muitas pedras!” Quase my friend. Quase. É bem verdade que aqui, se uma criança sair para arua com uma daquelas pázinhas para a praia, descobre mais um calhau avô dos outros.


Adoro a cavaqueira louca que se instala quando a minha loucura se funde nas rugosidades daquelas paredes quase libidinosas… Vejo as formas e sinto prazer do cinzel enquanto formava, e do artista à medida que se desvendava o que lhe passava dosentir para as mãos. Minha nossa! Se já sem motor de arranque, estes olhos disparam sozinhos para outros mundos… aqui… arrepiam-se-me os pêlos, prende-se a voz, para não sair embargada com a comoção dos edíficios,… da arte… e das pessoas que por aqui fruem o aroma de viver com querer. Muito bom.
Podia viver aqui e sonhar acordado todos os dias. Podia povoar o espaço com guerreiros de conquistas loucas e glórias sem par, enquanto voltavam para as virgens vestais à espera de mais uma orgia desregrada. Podia viver aqui. Naquele tempo.
Ouço água em cada esquina e vejo a arte feita de tudo o que possamos imaginar: portas, telhados, paredes, varandas, balcões de ópera virados para a rua, a espreitar quem passa…
Sinto sempre medíocres quaisquer palavras que possam dizer os guias dos grupos de turistas a quem me vou alapando para ouvir mais uma história, numa língua diferente. Aliás, já desisti dos alemães. Aquilo é uma autêntica língua de trapos e não se percebe nada. Aos outros, lá vou acompanhando pela cidade, a quem vou também fazendo perguntas com o direito justo de quem não pagou para ouvir. Mingle my dear, mingle. E eu… tá bem! Por falar nisso, não há burgessos como os americanos. Que gente insensível e bruta. Percebo agora porque é que o sr Bush lá vai ganhando eleições.

Outras vezes, corro sozinho, as vielas e as Vias cá do sítio até chegar a mais um monte de pedras em forma de arte sacra ou pagã, conforme a antiguidade. Os aglomerados de gente a não fazer nenhum, são formidáveis. E são indígenas, não um qualquer bando de japoneses estacionados à espera de ordem de marcha para o próximo ponto – destes, também tenho visto muitos.

Escadarias, bruscetas (humm...) e lojas por todo o lado, sem um único arranha céus ou prédio fora da mãe, no perímetro da cidade. Está suja de fuligem, e tem o pó vermelho do estuque pintado a soltar-se, mas é mágica a filha da mãe da cidade.

Esta gente é orgulhosa e eu percebo porquê. Quando se tem + de 3000 anos de histórias, permitimo-nos algumas veleidades.
Com justiça.

Até amanhã.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

welcome back


revisitei-te como já não me recordava de ser capaz. esta música é a coisa mais linda do mundo, dá cabo de mim enquanto me mata de prazer.

gostava de ser capaz de publicar aqui todo o álbum para alguém que tivesse visto o filme e vivido a minha vida, pudesse sentir o que sinto.... é óbvio não é?...
ninguém sentirá. porque o viver é só, diferente.

curioso como o soar das cordas de um violino atiram para o presente aquela enxurrada de tanta coisa junta. hoje, relembro o tempo antigo. não a alma, nem o espírito, e não é porque os desgoste, apenas porque não me visitam já com a mesma frequência. mais feliz? talvez. pelo menos, de certeza, bem menos triste e mais satisfeito com o fado da vida. não que eu acredite na sorte ou no acaso fortuito de coisas que se unem num complot para nos fazer mais ou menos felizes. existe aleatoriedade, é certo. mas não existe só, e muito menos em maioria de votos. no entanto, a malvada da minoria do acaso é bem capaz de grandes levantamentos e revoluções armadas que, ainda que por momentos, tomam o poder e conduzem a vida da gente. enfim, o acaso existe, é forte mas está longe de ser tudo ou, sequer, predominante.
a vida corre agora ao sabor de menos loucura que há uns meses muito largos atrás. vivia e respirava de quase nada e engolia as lágrimas para ter água enquanto o sal me queimava as entranhas. consigo invocar os sentires que me assombraram com a mesma angústia daquele tempo. alucinado, fervia o fígado em lume brando enquanto ia destilando pela serpentina o álcool que não conseguia destruir. hoje tenho stolynshnaya em casa, para não matar ninguém a conduzir. mas não é a mesma coisa.
desgosta-nos o tempo em que era difícil o passar dos minutos, mas não há como, mais tarde, reinvocar com saudade e um certo masoquismo aquele aperto que torturava os minutos de luz e se soltava a correr pelos poros da pele. tenho também saudades do tempo sinistro e da vida errante e do vento que eu acompanhava para qualquer lado.
será sinal de pouca sanidade mental? talvez, mas o que me importa isso, se não me importa porra nenhuma do que alguma vez pensaram, ou podiam vir a pensar quem se cruzava com os meus olhos.
este ardor de viver é também vida e, acredito, é também um degrau de escada que cumpre passar. e voltar? bom voltar é como a atracção pelo abismo: não é recomendável, mas faz parte da natureza incerta de almas inquietas e loucas. a minha não pode ser certa.
no fundo, eu digo: ainda bem.
não gosto do ordinário e levantam-se-me as sobrancelhas intolerantes, sempre que me obrigam ou me obrigo a mim próprio. e convivo mal com este estar e deteste esse sentir.
talvez por isso reconheça a sabedoria de palavras que ouvi há dois ou três dias: actividades prazenteiras não despertam paixões. ah, pois não! JTD, que é como quem diz, Já Tinha Dito!!

o fogo de estar e ser alimenta-se de toros de madeira e tão mais forte quanto mais madeira, quer seja picada ou em bruto ou até uma escultura de valor incalculável, de um escultor de renome ou referência. não escolhe, alimenta-se e destrói.
o viver alimenta-se de nós todos os dias e espera que haja saber e vontade para lhe darem em bruto e de boa vontade. quando não tem, começa por nos queimar as esculturas que guardámos e, mais tarde, esgotada a arte, apaga-se e deixa instalar o frio de nada ou quase nada.

ontem, alimentaram o calor de viver com o freio nos dentes, enquanto espumava a raiva e a revolta. e ouvia-se bater o descompasso de um coração louco.
se deixarem só e inactivo o guerreiro que viveu a rachar ossos, a beber sangue, e contemplar com orgulho as feridas de refregas incontáveis, verão curvarem-se-lhe os ombros e morrerem os olhos nos buracos cavos de onde hoje, só podem lembrar o que foram as glórias, as derrotas e o tempo onde se guerreava por causas e haviam tantos castelos a levantar como a destruir.

Se o deixarem só, sem espada e sem batalhas, verão morrer novo o fogo que ardia no peito da batalha do meu viver. perde-se o olhar esgazeado para dar lugar à serenidade do tempo insonso. e depois, vivem de memórias. até das que fizeram sofrer mas, ao menos, lembram o tempo de estar vivo.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Solidão perdida


E se, ao contrário do que tanta gente teme, a solidão, ou parte dela, for um bem a preservar?

Vivem e respiram todos juntos, esquecendo muitas vezes o significado da individualidade e da riqueza consequente. Se fosse uma massa anónima, sem picos de cordilheiras a despontar para o céu das ideias revolucionárias, não valia quase nada.
Somos muitos, porque sim. Com um propósito. E é suposto contribuir para a base comum de personalidade colectiva.
Contribuir! Não é igual a retirar ou usufruir. O outro já dizia: Não confunda: obra de arte de mestre Picasso, com pica de aço de mestre de obra. Não é a mesma coisa.

O chato, é que se assiste, quase em contínuo, à ânsia de agregação, pelas razões erradas. Vê-se a procura de status, vê-se a procura de companhia, de amizade, de carinho, de felicidade… a procura… a procura… a mim… para mim…
Quando fazem objecto de vida, o gregário e o comum, quase que arrisco dizer que, lá no fundo, está escondido e a tecer malhas, o sentimento parasita do fácil, do confortável e da comida pré-congelada. Já alguém fez. Vou aproveitar…
(bom, a comida pré-congelada é quase incontornável, eu sei…)

Colectivo, em sentido lato, podia ser entendido como pertença de todos. E o que é de todos, é suposto que todos tratem. Que todos alimentem. Ou afinal não.
Recusam-se a parar, e aprender, e extrapolar daí para coisas novas, ou quase, que possam depois oferecer. Aos outros. Contribuir.
E o que é que isto tem a ver com o princípio? É que aprender, pode ser em grupo, mas os momentos em deixamos assentar o que nos trouxeram de novo, têm que ser reservados. Todos podem fazer e deitar que matéria quiserem, cimento para o chão, tintas para uma parede ou barro numa escultura, mas aquilo que é construído por fora ou por dentro da gente, precisa de pousio. Para assentar e repousar, para a matéria agregar entre si e, mais importante, harmonizar com a base de sustento com quem deve ficar a ser um todo.
Este espaço tem que ser preservado, em horas ou minutos, em que estamos connosco. Sem os outros.

Depois, respiramos fundo, sorrimos, e vamos oferecer coisas novas a quem gostamos.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

too soon, but not too late, either

às vezes não é porque se quer, apenas não há alternativa. mas muitas e tantas outras vezes deixamos embarcar nesta coisa de ser grande, gente pequena, antes do tempo certo.
se podem ser mães com 14 e menos, porque não poderiam ser homens há mais tempo que hoje?

não parece sequer justo, fazer as perguntas assim. mas a verdade é que o corpo esteve pronto há muito, e a natureza preparou com cuidado o que tinha que ter terminado antes de brigar por nós. e estivémos preparados há muito mais tempo do que arrancámos.
porque o corpo, esteve pronto há muito, não tivéssemos esquecido a cabeça da gente pequena.

com boas intenções, entenda-se, em muitos casos. mas de intenções,...
o facto é que pudémos em resposta e oposto de há muito tempo, estender o tempo de não ser nem decidir, e démo-lo às crianças. e, aparentemente, bem.
só nos deixámos embarcar na desresponsabilização e alheamento consecutivo e fomos deixando para mais tarde o que lhes era, só, devido. e muitas, não ouviram dar o tiro de partida.

esquecidas, viajaram para todas as direcções. não sabiam correr nem construir outros que não castelos de areia na praia. e foram sendo sopradas por aí ao desbarato.

foi-lhes roubada a agenda do tempo e hoje, não sabem que dia é. e faz-lhes falta.

for no reason

entrecortei o sono com os olhos abertos e as luzes desligadas por fora de mim.
um pouco mais tarde, serenou lentamente a inquietude do peso que fugiu à bruta.
e adormeci até de manhã.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

nostalgia



Pensei há um tempo atrás -poucos dias- que a nostalgia acabaria por me atirar de volta e de encontro às letras.

No novo emprego, as coisas começam a acalmar e já consigo navegar à vista de terra.
Definitely I love new beginnings. Promessas novas e expectativas que renascem de cinzas onde as tínhamos enterrado. Uns e umas, mais do que outros e outras.

Não defendo, entenda-se que se possa viver só de recomeços. Nem tão pouco de continuidades indefinidas.

Num passeio que dei, lembrei-me das escadas, por exemplo.

Podem chegar aos armários mais altos de casa, e estas têm um no topo.
Podem subir para casa, e estas têm vários pelo caminho.
E temos as escadas para bombeiros e gente audaz, com prática e sentido destemido que não têm nenhum, a não ser a base de onde se lançam.

Não foi por acaso que se criaram patamares.

Não se sobe ininterruptamente sem parar para respirar. Até as escadas têm espaços para andarmos a direito um pouco antes de nos voltarmos a empurrar por mais degraus acima. Ninguém vive ininterruptamente a subir, e ninguém pode ficar parado nos patamares das escadas. Não há lá nada para fazer e não é, definitivamente, para isso que foram criados.

Temos que parar, mas não podemos ficar parados. De todo.

Uns poucos, artistas, sonham que podem atirar-se pelas escadas magirus de qualquer corporação de bombeiros, como se não houvesse amanhã.
Pelo caminho, apercebem-se que têm vertigens. É tarde.
E, ao chegar ao topo, percebem que, afinal, não está lá a revelação do sentido da vida. Gente estúpida; as escadas a pique são para percorrer ocasionalmente e, na maior parte das vezes, em defesa ou socorro de quem precise. Não são forma de estar, e o resultado comum é uma valentíssima queda e muitos ossos partidos.

Não se pode recomeçar em contínuo, porque não nasce viver, mas se pára, definha e apodrece com saudades do movimento.

E nos dias que nos esquecemos, ficamos mais pobres.