quarta-feira, maio 23, 2007
desabafo de uma mulher moderna
Sem fazer - ainda - qualquer comentário ou juízos de valor, vale a pena ler até ao fim!
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Monólogo de uma mulher moderna:
"São 5.30H da manhã, o despertador não pára de tocar e não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede.
Estou acabada. Não quero ir trabalhar hoje.
Quero ficar em casa, a cozinhar, a ouvir música, a cantar, etc.
Se tivesse um cão levava-o a passear nos arredores. Tudo menos sair da cama, meter a primeira e ter de por o cérebro a funcionar. Gostava de saber quem foi a bruxa imbecil, a matriz das feministas que teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher e porque o fez connosco que nascemos depois dela?
Estava tudo tão bem no tempo das nossas avós, elas passavam o dia todoa bordar, a trocar receitas com as suas amigas, ensinando-se mutuamente segredos de condimentos, truques, remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos seus maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, recolhendo legumes das hortas eeducando os filhos.
A vida era um grande curso de artesãos, medicinas alternativas e de cozinha.
Depois ainda ficou melhor, tivemos os serviços, chegou o telefone, as telenovelas, a pílula, o centro comercial, o cartão de credito, a Internet! Quantas horas de paz a sós e de realização pessoal nos trouxe a tecnologia! Até que veio uma tipa, que pelos vistos não gostava do corpinho que tinha, para contaminar as outras rebeldes inconsequentes com ideias raras sobre "vamos conquistar o nosso espaço"
Que espaço?! Que caraças! Se já tínhamos a casa inteira, o bairro era nosso, o mundo a nossos pés!!!
Tínhamos o domínio completo dos nossos homens, eles dependiam de nós, para comer, vestirem-se e para parecerem bem à frente dos amigos e agora?
Onde é que eles estão???
Nosso espaço???!!!
Agora eles estão confundidos, não sabem que papel desempenham na sociedade, fogem de nós como o diabo da cruz.
Essa piada... , acabou por encher-nos de deveres. E o pior de tudo acabou lançando-nos no calabouço da solteirice crónica aguda!!!!
Antigamente os casamentos eram para sempre.
Porquê? Digam me porquê, um sexo que tinha tudo do melhor que só necessitava de ser frágil e deixar-se guiar pela vida começou a competir com os machos? A quem ocorreu tal ideia?
Vejam o tamanhão dos bíceps deles e vejam o tamanho dos nossos! Estava muito claro que isso não ia terminar bem.
Não aguento mais ser obrigada ao ritual diário de ser magra como uma escova, mas com as mamas e o rabo rijos, para o qual tenho que me matar no ginásio, ou de juntar dinheiro para fazer uma mamoplastia, uma lipo, ou implantes nas nádegas...
Além de morrer de fome, pôr hidratantes, anti-rugas, padecer do complexo do radiador velho a beber água a toda a hora e acima de tudo ter armas para não cair vencida pela velhice, maquilhar-me impecavelmente cada manha desde a cara ao decote, ter o cabelo impecável e não me atrasar com as madeixas, que os cabelos brancos são pior que a lepra, escolher bem a roupa, os sapatos e os acessórios, não vá não estar apresentável para a reunião do trabalho.
E não só, mas também ter que decidir que perfume combina com o meu humor, ter de sair a correr para ficar engarrafada no transito e ter que resolver metade das coisas pelo telemóvel, correr o risco de ser assaltada ou de morrer numa investida de um autocarro ou de uma mota, instalar-me todo o dia em frente ao PC, trabalhar como uma escrava, moderna claro está, com um telefone ao ouvido a resolver problemas uns atrás dos outros, que ainda por cima não são os meus problemas!!!
Tudo para sair com os olhos vermelhos - pelo monitor, porque para chorar de amor não há tempo! E olhem que tínhamos tudo resolvido, estamos a pagar o preço por estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, perfumadas, unhas perfeitas, operadas, sem falar do currículo impecável, cheio de diplomas, de doutoramentos e especialidades, tornámo-nos super-mulheres mas continuamos a ganhar menos que eles e de todos os modos são eles que nos dão ordens!!!!
Que desastre!
Não seria muito melhor continuar a cozer numa cadeira??
Basta!!! Quero alguém que me abra a porta para que possa passar, que me puxe a cadeira quando me vou sentar, que mande flores, cartinhas com poesias,que me faça serenatas à janela!Se nós já sabíamos que tínhamos um cérebro e que o podíamos utilizar, para quê ter que demonstrá-lo a eles??
Ai meu Deus, são 6.10H, e tenho que levantar-me da cama...
Que fria está esta solitária e enorme cama!
Ahhhh...
Quero um maridinho que chegue do trabalho, que se sente ao sofá e me diga: Meu amor não me trazes um whisky por favor? ou: O que há para jantar? Porque descobri que é muito melhor servir-lhe um jantar caseiro do que atragantar-me com uma sanduíche e uma Coca-Cola light enquanto termino o trabalho que trouxe para casa.
Pensas que estou a ironizar ou a exagerar?
Não minhas queridas amigas, colegas inteligentes, realizadas, liberais.... e idiotas! Estou a falar muito seriamente: Abdico do meu posto de mulher moderna.
E digo mais: A maior prova da superioridade feminina era o facto de os homens esfalfarem-se a trabalhar para sustentar a nossa vida boa!
Agora somos iguais a eles!
Ai ai!!!
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Lindo de morrer.
segunda-feira, abril 02, 2007
sol das gentes
quinta-feira, fevereiro 01, 2007
soon
well,... you're probably fading away from yourself.
I heard it in a movie, just 30 minutes ago
It had a tremendous impact on me. it really did.
I wish I have thought it by myself, but at least I’ll pay my respects to the one who did, and consider it.
And try to be worthy.
Of getting old, I mean.
segunda-feira, janeiro 29, 2007
e se as mãos

pudessem acender o corpo de alguém e desvendar o encanto... e se pudessem entrar e viver dentro onde não haveria mais que o som doce de um violino que gemia de prazer com os amantes... e se as memórias desse tempo não chegarem para viver?
sentiu fugir a luz por entre os dedos e desvanecer a música que morreu com ele, devagar, e carregado de saudades.
partir

ouvi dizer a uma mulher que o altruísmo é a forma mais requintada de egoísmo. ainda hoje respeito o que aprendi e tenho utilizado esta expressão tantas vezes que chego a senti-la minha de tão verdade que é.
mas a coisa pode não bater certo ao deixar ir embora alguém contra o nosso benefício...
porque deixam afastar-se as pessoas durante tanto tempo até chegar ao ponto onde não há outra alternativa que não seja,... deixá-las partir... a pergunta é quase ofensiva.é como estar parado numa qualquer linha de comboio e ver aparecer ao longe aquele vulto gigante e agressivo em movimento.
há quem teime em não olhar de frente para o destino que se aproxima rapidamente. ignoram o barulho daquela buzina estridente que apita para sairem da linha, fazem de conta que não sentem estremecer o chão debaixo dos pés e viram-se até de costas para olhar para a frente, como se a vida pudesse ser salva a olhar na direcção oposta dos problemas. ouvem-se as rodas de encontro ao metal dos carris a consumir o resto do tempo. e não há quem os consiga mover ou sequer fazer olhar a morte de frente.
morrem sempre sem esperar e gastam os últimos momentos do tempo revoltados com a má sorte.
que surpresa...
e se te chamasse tempo
Perdia nisto uma eternidade a chamar baixinho para ninguém ouvir. Para quê? Para gastar a energia que me consome e assim ocupar distraído o tempo que me falta.
O teu tempo por mim tão depressa como as minhas mãos pelo corpo esguio de uma mulher que se perdeu num dia frio em que deixou uma dor queimada pelo gelo da ausência do teu calor.
Porque custa, pedi que me dessem remédios antigos e cobriram-me as feridas de emoções, para penar menos. Pelo tempo que já passou, parece que foi ontem que partiste de tão presente que sinto ainda cair os últimos restos da tua alegria.
É um adiamento que se faz, para não ver nem adivinhar a realidade brutal própria destas coisas: uma ferida aberta pode fazer perder um bocado da gente.
Engano maluco de pensar e acreditar no quão fácil vai ser viver sem um bocado de si, só porque… o tempo passou rápido demais. Escorregou-me das mãos a água que tentava guardar porque alguém me dizia que podia guardar o teu reflexo. E pensei que conseguia guardar também o teu tempo. Parado. Enquanto sorria e me reclinava no céu que ainda tinha em ti.
Vale a pena. Vale a pena. Vale a pena. Vale sempre a pena ouvir, ver, fazer e sentir nascer e até morrer a vida que se afasta de nós.
Ficam para trás os restos dos farrapos do tempo a que nos agarramos como se as memórias fossem ainda gente… mas vão-se embora bocados de nós que nunca mais voltam.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
a música
de tão pequenos que têm sido, sinto a música calada e as pernas paradas. parece até que lhes falta uma pista para correrem entre outras num estouro que vacila entre o querer o vencer e a partilha de uma coisa qualquer de que se gosta.
saía suave, ao longe, com passos contidos, de natureza esquiva e tímida.
a melodia da música de viver é deliciosa como as cravinetas do campo: lindas e singelas aos olhos de quem pára para ver mais devagar.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
memórias tolas
penumbra

É de manhã e o sol ainda não nasceu.
Pelo espaço que fica entre a 3ª e a 4ª pestana, espreitei para o relógio. Tinha chegado a hora se sair do espaço dos sonhos. Sonhos com ela. Invariavelmente, os sonhos eram com ela. Desfocados, como se fosse um filme sem orçamento,… mas o rosto parecia ser o dela…
A custo, lá se arrastou a carcaça para fora do espaço que ficou marcado pela presença daquele corpo na cama.
“Se falasse”, mas esta cama fala mesmo. Sobre a nossa vida: a minha e a da cama. Falamos de quem conhecemos, e de quem gostámos, de quem sentimos mais falta, e até de quem um ou outro não conhecemos; a conversa é fácil e o sorriso garantido… não posso desfazer-me desta cama, pensou baixinho enquanto sentia subir o frio do quarto pelos pés assentes no chão.
A passo, lento e pouco convicto, enfrentou mais um caminho pelo corredor sombrio e escuro – quase 14 metros de comprido – em direcção ao chuveiro. Está quase a fazer 2 anos – foi em Janeiro – que os banhos naquele chuveiro eram de água fria. Fria mesmo, sem nenhum calor por perto que não fossem os vapores decadentes da vodka da noite anterior.
Foi um tempo ordinário e banal, de tão comum que é o sentir solidão rodeado de um mundo de gente.
Por opção, por loucura, ou porque é mesmo assim, há sempre alturas em que ninguém empatiza ou adivinha o que sentimos ou pensamos. E é tão estupidamente corrente, que devia ser incluído na rotina. Não fosse esta insatisfação malvada que me consome a paciência.
Estamos acordados ou ainda a dormir?
sexta-feira, dezembro 15, 2006
natureza morta
Uma faena formidável. Uma virada de capote que deixou tonto… o tonto… e levantou a arena num ruído ensurdecedor de vitória.
Antes de entrar enquanto cabeceava contra as paredes, sentia-se oprimido e apertado num espaço que apenas lhe permitia estar quieto. Ansioso por liberdade, saiu em fúria, pela primeira frincha de luz que viu e arrancou à bruta a areia por debaixo dos cascos. No espaço aberto, com as mãos para dentro e um orgulho de rei, enfrentou a multidão, com a confiança de quem não tinha ainda sentido a derrota a trespassar os músculos retesados de uma força que julgava só sua.
Continuou a correr com a confiança de quem tem a seu favor o vento e a velocidade bruta de um animal selvagem. A primeira espinha sentiu-a ao de leve quando não conseguiu acertar no alvo que, com um pequeno movimento, se desviou determinado e contido, sem se assustar minimamente com aquela fera tão grande. A surpresa só foi superada pelo ferrão que sentiu espetarem-lhe com força, até ouvir o estalo que fez o ferro a partir pela bandeira.
Urros de dor.
Raiva de quem se sente enganado.
Fúria absurda.
E nova investida, para matar de vez o insecto que se atreveu a beliscar o brio do herói lá do bairro dele.
Mais rápido.
Mais forte.
Sem piedade e a antecipar o sabor do sangue da vítima na ponta dos cornos.
Os momentos de vazio foram preenchidos pela respiração suspensa dos que assistiam nas bancadas.
Na reunião dos corpos, as coisas não podiam ter sido piores. Fintado por uma simulação de mãos, atirou-se para um lado, enquanto descobria o outro flanco. Rápido e impiedoso, o alvo fez-se caçador e cravou-lhe fundo uma brasa ardente que feriu por dentro o animal e o marcou para o resto da curta vida que ainda teria.
Virou-se, empinou-se, reclamou pela falta de lisura e a angústia de ter sido enganado. Nos tempos dos cavaleiros combatia-se de frente e investia-se às cegas. Que merda de luta era esta?
Por cima daquele que se desviava e lhe enganava os olhos viu, pequeno mas brilhante, um homem com ar decidido e olhos vivos. Já os tinha visto antes, aos homens, mas não na arte de matar e não os sabia capaz disso.
Já não era o mesmo. Ferrado pela segunda vez, sentiu evadir-se a confiança e instalar-se-lhe a dúvida de vitória.
Passo directo para a morte, esta coisa da dúvida na vitória.
Encolheu-se por uns segundos e quis fugir mas não viu por onde. Viu avançar para si aquela que, no seu entender, deveria ter sido a vítima dessa noite e, desta vez, trazia agressividade a juntar à manha com que o enganara antes. Porque não tinha alternativa, respondeu ao desafio que lhe fizeram, já sem a coragem ou a convicção de antes na suspeita do mesmo resultado final. Não foi por ter sido pessimista, mas sofreu novo revés e sentiu mais uma vez rasgar-se-lhe a carne debaixo de um punção que feria mais de cada nova vez que o atacava. Já não se afastou, sentia, porque não conseguia pensar, que tinha que retorquir com o que pudesse. Enquanto estivesse de pé.
Foi a deixa de que precisava o pequeno homem de fato brilhante.
Infligiu-lhe uma derrota a seguir a outra e foi deixando a besta humilhada e cansada no campo de guerra. Com a língua de fora, pedia a misericórdia de um espaço aberto para fugir ou morrer.
Com as mãos para fora e o corpo caído lembrou-se, fugaz, de um tempo de prados verdes e vida sem morte.
Sem ter para onde ir, ora fugia ora fazia que perseguia de forma inglória quem não se deixava apanhar.
Ouvia ao longe os gritos surdos e loucos dos que torciam pelo homenzinho pequeno e o incentivavam a matar a besta.
A batalha nunca esteve por decidir. Só ele não sabia que ali estava para ser ferido, cansado e, por fim, morto.
Os animais selvagens não sabem prever e pensar e ponderar. Vivem a espumar ou a descansar e não sabem ocupar o espaço entre os extremos.
Confiante na chegada do fim e na capitulação tácita do vencido o pequeno homem iniciou a dança de vitória, debaixo do olhar, já inerte, da sombra do que tinha sido um bicho altivo.
A loucura faz parte da natureza. Todos os dias.
Enquanto, arrogante, de costas, triunfava em frente à multidão, o pequeno homem foi surpreendido pelo último suspiro de vida daquela massa gigante que o trespassou enquanto se confundia o sangue de um e do outro.
No fim, a noite foi de vitória para o público do circo:
um bilhete = dois corpos.
domingo, outubro 29, 2006
no name no number
mas vivam
estafem a alma a correr pelo corredor de dores que não conheciam
mas vivam
arranquem aos pulmões os gritos mais surdos que a voz aguentar
mas vivam
ouçam bater o coração descompassado cansado de rir e chorar
mas vivam
persigam sonhos impossíveis e agarrem as dificuldades à dentada
mas vivam
ousem, arrisquem, percam, ganhem, lutem, criem, derrubem, matem, perdoem, ou não e atirem para trás das costas o tempo que não vos acompanhar quando correrem como os loucos fariam pelas ravinas da vida abaixo.
e, se não sobreviverem, tiveram, ao menos, na boca algum sabor e a memória a escorrer pelos caninos assanhados enquanto o sangue se lhes injectava nos olhos perdidos de tanto não ver nada.
para muitos será um disparate, mas para os loucos será a única forma de viver e de morrer.
um dia, quando viver, vou querer morrer assim.
terça-feira, outubro 10, 2006
só volta quem pode sair
se agarrares o tempo à força verás que se debate tanto como o vento a quem não querem deixar sair de uma casa fechada.
é que não há melhores grilhões que a liberdade de ser independente e feliz.
porco espinho
conversar
haja apenas vontade de entrar.
segunda-feira, outubro 02, 2006
nascimento de um sentido novo
com o tempo tomado até ao tutano e medula, sucumbi à preguiça de não me proporcionar um bom momento de escrita, assim ao jeito com que outros se proporcionam um bom momento de leitura. também se navega na imaginação e acorda-se em países e com gentes tão diferentes de onde partimos...
quando nos preenchem o tempo e nos enriquecem os sentidos, sejam os olhos, a boca ou o tacto, perdemo-nos para o sentido do re-sentir. e perdemo-nos porque lhe retiramos a importância que merece no nosso viver.
o re-sentir é tão ou mais importante do que os sentidos que nos impactam por fora. o re-sentir, ressoa por dentro os impactos mais superficiais dos nossos dias. do re-sentir fazem parte o saborear de uma água fresca e o invocar dos passeios na serra onde um dia nos debruçámos naquele riacho, porque tínhamos sede, faz parte o calor que invade a pele e nos amodorna o corpo e a alma e nos relembra a doce languidão de viver... fazem parte os aromas e as cores das flores que nos lembram gentes e sentimentos que nos encantaram a vida em tempos e nos ocupam o espaço que desejamos para o futuro.
o re-sentir é assim uma coisa incontornável para diferenciar as emocões que ecoam em viagens loucas, suaves, agressivas e doces dentro do peito.
e eu, quando escrevo, re-sinto a vida outra vez. agora, mais devagar apesar de, com mais sabor.
segunda-feira, agosto 07, 2006
como é que se pode

não ser um apreciador da natureza?
esta foto (e todas as outras, salvo indicação em contrário) não foi tirada por mim.
mas tinha que vir para aqui.
por todas as razões e mais uma.
e mai nada.
espiral
5 de Julho 2001 - era de noite
Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se duma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.
quinta-feira, agosto 03, 2006
paleta de viver
"imaginava as cores de uma paleta de pantones e via descorrer ao som dos meus dias, o que fiz, o que faço e o que poderia fazer. desfilava à minha frente a paleta da minha vida, e eu tinha memórias, ou sonhos, para todos os pantones".
"hoje, serão poucos os que ainda me faltam preencher; desde a loucura mais extravagante ao acto mais caridoso a passar pela abnegação mais estúpida e sofrida, quase que posso sentir: been there, done that."
"mas também tenho o oposto, também tenho cores nos pantones mais escuros. sei, e lembro-me, de tornados e furacões que me assolaram a alma e depois o corpo, e me atiraram contra gentes e pessoas com a força que derrubaria muros de betão. e fizeram mossas, estes golpes mais ou menos inesperados, carregados de fel, amargura, raiva ou fúria estúpida ou tristezas atrozes, ou até, tantas vezes, um caldo imenso com tudo isto a boiar, ao jeito de uma daquelas sopas de entulho".
"a parte nova, são os sonhos. a parte nova é também a consciência da violência de são capazes as gentes, sem mexer um dedo. e é tão fácil", diziam-me.
"uma paleta de vida preenchida de cores com que já pintei os meus dias, e outras com que desenho as telas de um imaginário que se vai entretecendo e crescendo com o passar dos anos."
contaram-me, baixinho, quase ao ouvido, esta história, que podia ser de qualquer um. corremos todos o espectro quase todo das possibilidades de ser, fazer, sentir e desejar. e é mesmo assim, que é gente humana.
haja apenas a consciência, ao menos intermitente, do que se quer e do que se acaba efectivamente por fazer.
segunda-feira, julho 17, 2006
quem escreve?...
ler, é um exercício activo onde o nosso imaginário é despertado por aquilo que lhe é sugerido pelas letras e palavras de quem escreveu. escrever, também é um exercício activo, mas implica a criação. implica virar para dentro os olhos ou para fora os sentidos e cheirar o ar enquanto se processam os sentimentos, as opiniões e os desfechos mais ou menos rápidos sobre o que quer que seja.
escrever implica gostar do desafio de desafiar os olhos a lerem as palavras que vão saindo mais ou menos conscientes e premeditadas. ou não.
mas saem coisas.
ganham vida os pensamentos ou tão só os sentires vadios e encaram o mundo de frente e depois, viram-se para nós.
e olham-nos de frente e enfrentam-nos.
e não temos como escapar. germinaram e foram paridos. e agora temos que lidar com eles.
escrever pede que se tenha a coragem de falar com o próprio, ou com um deles... e aceitar a loucura como uma parte de nós, a ponto de, se calhar, podermos dizer que loucos são os que não falam sozinhos.
e a curiosidade existe, naturalmente, entre quem escreve. "este ou esta - pensa-se - é um louco cá dos meus. e encara os espíritos da noite em que se abrigam os normais".
tanto também não, que é exagero, mas uma coisa é certa: existe por vezes uma certa deferência pela coragem de escrever. entre os que escrevem.
e achamos-lhe graça e alimentam-nos a curiosidade, quase todos os dias.
quinta-feira, julho 13, 2006
assalto aos sonhos

hoje sonhei.
tomaram-me de assalto os pensamentos que tenho guardado dentro de mim, sobre as pessoas de quem gosto.
o ritmo de vida alucinado para onde me arrasta o trabalho, tem-me impedido de pensar nos meus amigos. não que eles precisem, mas eu é que sinto falta. sabem como é, quando faltam bocadinhos do nosso ser, que foram entregues, sem querer, a pessoas de quem gostamos?
é verdade. os meus amigos preenchem-me e muitas vezes completam-me.
dizia eu, noutro dia, que o aumento do número de pessoas que recorre aos psicólogos só existe porque se perdeu o tempo e o hábito de falar. com os amigos. porque aos outros não ouvimos da mesma maneira nem lhes damos os créditos suficientes para considerar o que dizem. se juntarmos a isto o stress diário crescente e a procura louca de satisfação rápida (pois se temos menos tempo… é tão fácil de compreender… já aceitar…), chegamos à conclusão de que o desporto "conversa" tem perdido adeptos.
e não me venham falar no messenger ou outros que tais porque aí, fala-se mais devagar, e não temos o corpo e o sorriso e os olhos e as mãos a fazerem parte da amena cavaqueira.
é, claramente, uma espécie em vias de extinção, a conversa com os amigos sem hora marcada e fim anunciado.
mas isto veio só em atalho de foice, porque me lembrei que adoro, uma coisa de paixão, mesmo, o conversar e ver falar as pessoas de quem gosto. até as outras, mas sobretudo as pessoas de quem gosto. e também eu, tenho afundado nas areias movediças do enredo work, work, work. bom, se calhar ainda vou a tempo. de conversar muito.
sinto a falta da malta amiga.
o que me trouxe ao estirador das letras foi outra coisa, que pensei acerca desta gente que conheço. apanhou-me de assalto, quase ao acordar:
"se não lhe deres o espaço e o tempo necessário para que sinta a tua falta, ela vai fazer-te sentir, mais tarde ou mais cedo, a impaciência da saturação". dramático.
agora escrito na primeira pessoa: "se não te der o espaço e o tempo necessário para poderes sentir a minha falta, vais-me fazer sentir, mais tarde ou mais cedo, a impaciência da tua saturação".
confesso que até arrepia. não é um pensamento novo, mas levanta pelo lá atrás, na nuca.
caramba, que o jogo de viver, é uma delícia! mas não é brinquedo.
este chega e empurra que fazemos diariamente, este vem cá que és minha, num dia e que chata que tu és, no outro, parece coisa de loucos. só não é um jogo. o jogo de viver é para ser jogado de intuição e sorte e uma pitada de bom senso, com algumas, poucas ocasiões de bom senso, frieza, e até alguma manipulação dos acontecimentos.
a gaita está na subversão destes equilíbrios.
senhores e senhoras, é a nossa natureza que tem que imperar, é a tal intuição que comanda as relações entre as gentes. os apontamentos de raciocínio têm que ser marginais, apenas para inserir um novo código de programação no nosso comportamento ou atitude, mas se o código não pegar com algumas (poucas) tentativas, é porque o sistema não o aceitou. e aí, meus amigos, é porque não é compatível com a natureza. e tem que se rejeitar o código e assumir que não vamos ser assim ou assado porque o outro gosta, ou fazer desta maneira ou daquela porque o/a deixa mais contente. ou entra no sistema, ou então esqueçam.
e ninguém fica mais pobre por ser genuíno. evolução não quer dizer o mesmo para toda a gente e nem sequer é vantagem obrigatória.
ser feliz é, muitas vezes, mais simples para uns do que os outros pintam. e não temos todos que andar em carneirada a subir o mesmo monte, a comer as mesmas ervas do caminho.
pode ser que sim ou que não, e valemos o mesmo.
mas despistei-me outra vez. aquela frase arrepia de tão verdadeira. deve ser isto a que os ingleses se referem quando dizem: “i just had an epiphany” (… se é que isto se escreve assim…) eu acho que é assim parecido com fazer festas a um gato. já experimentaram?
a um gato ou gata, fazem-se festas devagar, começam por se fazer festas devagar. e vamos esperando até que o bicho se entusiasme e peça mais festas e aí, podemos ser mais intensos, que o bicho deixa. e se ele se mandar contra as nossas pernas com marradinhas, é porque a coisa está ganha. podemos continuar e até, com sorte virá-lo ao contrário.
só não lhe podemos apertar o pescoço.
se apertarmos o pescoço a um gato ele vai-se assanhar. vai soprar e tentar morder e se o tentarmos manter preso contra a vontade, vamos comprar uma briga que só sabe quem já tentou; o bicho esperneia e arranha e contorce-se até que nos consiga magoar o suficiente para o soltarmos ou, se formos imunes à dor, podemos continuar com ele nas mãos, segurando-o cada vez com mais força.
e matamos o gato.
não o deixamos fugir, mas morto, também tem pouca graça, certo?
a ausência de vida, diria eu, não tem mesmo graça nenhuma.
outra coisa interessante que pode acontecer com os gatos, quando tentarmos fazer-lhes festas, é o bicho dar-nos uma valente “esnobadela”, virar as costas e ir à vida dele. não tentem ir a correr atrás, porque gato foge e corre depressa. e se o apanharem, voltamos à tal cena da briga, com final infeliz, either way.
esperem que o sol se ponha, nasça outra vez e cruzem-se com ele assim como que por acaso e deixem-no vir ter connosco. e, se ele estiver para aí virado, invistam outra vez.
uma nota final de esperança: apesar de independente, o bicho gato afeiçoa-se a determinadas pessoas a quem se chega, com vontade, e até com saudades. se o/a deixarem ter tempo para ter saudades.
quinta-feira, julho 06, 2006
que maravilha
Lições de vida
"Meu amor, vou ensinar-te uma coisa: Pede. Não digas tenho sede quando queres um copo de água".
tão verdade, e tão simples.
por favor mundo, desliga o complicómetro e faz-te feliz.
sexta-feira, junho 30, 2006
foi um comment. hoje é uma mensagem de ânimo a uma amiga
assiste-te o direito de investir contra fronteiras determinadas em tempos que já ninguém se lembra e que continuam presas pelos arames estúpidos das convenções e da acomodação.
bendita inquietude que te vai permitir saborear a 300 os aromas das peles novas que se vão criando e caindo em ti, ao sabor de mais um dia que passa e que merece ser diferente, porra! porque têm que ser iguais os minutos entre si e as horas através dos meses?!
claro que não se vive sereno, é claro que a paz e a tranquilidade e a mantinha e os chinelos não fazem parte desse viver, mas alguém os chamou?! espero que não.
o conformismo e o ordinário nasceram e cresceram com o vulgar e o comum. não pertencem à loucura de ser diferente, de querer diferente, e de arriscar viver e saborear até faltarem as forças aos dias para acompanharem este andamento. temos pena!!
se fica gente pelo caminho, se ficam coisas por fazer, ou se se têm prazeres, alegrias e vitórias e batalhas diferentes, que outros não vêm e lhes custa a compreender... temos pena. temos pena. temos mesmo pena, porque se calhar era preferível não perder nada.
não haja ingenuidade na cabeça de ninguém: aos maiores riscos correspondem os sabores que gritam mais alto, mas também as dores mais surdas.e não há nada a fazer. e é um preço que é devido. e só vai a jogo quem quer.
se é consciente e ciente de tudo, então atira os cabelos para o lado, como só tu sabes fazer e sorri com a convicção de que não há nada nem ninguém para te parar. e qualquer alma que goste de fado, vai ficar orgulhosa de ti.
quinta-feira, junho 29, 2006
perder
O que é importante perder?
O que é importante não perder são os sentidos, porque sem os sentires, o resto é vão de sentido e cheio de significado absolutamente nenhum.
ao som de um piano e violinos que matam

E se não souberes o espaço
Que ocupa o meu peito em ti?
E se não te lembrares do tempo
Em que fui teu?
e se, para onde fugires de novo
te seguir a memória de uma recordação viva
que te preencha a carne
e te emprenhe o espírito
de um desejo que abafe a dor de não me veres?
Vais deixar de me querer?
Vou esquecer-me do que vivi
Entre os espaços perdidos
Nos passos em que morei em ti?
Já ninguém conta a ninguém
A arte de fazer e querer bem.
Já ninguém acredita que as pedras choram
Quando vêem passar um pássaro triste.
E perdem a esperança de sonhar
Enquanto assistem ao desfilar dos dias
Que passam ao lado do teu corpo
Que pede baixinho para se cumprir o destino
De ser todo meu.
E o tempo que não pára
Para respirar mais devagar
Ao som
Das músicas que gosto.
fade away
a vida não é justa, mas isso, tem sido anunciado amiúde.
perto do chão do espaço vazio
ocupado pelos restos de ti,
invento as histórias
que os meus sonhos
publicam a cores nos dias do meu viver.
embalado pelas memórias que não se apagam
acossado pelos minutos espaçados entre as horas do tempo que não passa
e a imensidão de segundos que já se passaram desde a última vez,
atiro para trás de mim os olhos tristes de um tempo que não é de ontem nem de hoje
e que, em boa verdade, não é de ninguém...
(work in progress... or not)
segunda-feira, junho 26, 2006
perturbador
a frase, li-a no vôo para Lisboa, quando acabei o livro que me ofereceu o João: "O sol dos Scorta" de Laurent Gaudé.
Caramba, que furacão de livro. Que loucura, que ritmo, que enredo... deixou-me um nó na garganta, o sacana do livro. e não é fácil.
a frase é do livro, mas também podia ser minha.
e é perturbador.
mas não é sempre mau.
sexta-feira, junho 23, 2006
away
com o corpo abandonado em cima dos papéis e assuntos que chamam e exigem mais atenção e tempo e oxigénio do meu respirar do que eu gostaria.
mas não foi, e não é, sempre assim.
desde há uma semana que passeio e trabalho numa cidade diferente. foi temporário. já estou de volta. daqui a poucas horas apanho o avião para Portugal. para casa, para a minha casa. sinto falta da minha casa.
tenho estado em Viena. a cidade é bonita. mas não me apaixona. é como aquelas mulheres muito certinhas que são interessantes de ver mas não arrebatam o espírito nem têm a loucura que tempera com sal a vida de gente como eu.
Viena é bonita mas, como eu dizia desde o 2º ou 3º dia, "isto, mais ou menos, está visto". E era mesmo assim. o ambiente repete-se, a arquitectura é bonita mas monótona, as pessoas não têm sangue quente nas veias.... espera, isto pode ser uma injustiça porque, aqui, as mulheres usam decotes até aos dedos dos pés e a maioria não usa suporte de mama. é verdade. nesse aspecto, a cidade é um desassossego constante. talvez seja o grito de socorro de uma multidão de austríacas que recorre ao ataque directo para despertar vida nos mortos e sonsos dos austríacos. wishfull thinking, i know. mas é uma história engraçada para desenvolver noutro dia.
daqui se vê a distância a que estamos desta gente civilizada e tranquila que diz "this is Viena, no stress" e espera ordeiramente na beira da estrada pelo bonequinho verde do semáforo dos peões, apesar de não se vislumbrarem carros num raio de kms. enfim,... costumes.
a surpresa veio claramente da arte e do museu Leopold. que maravilha!! que delícia que são os Klimt; os Schiele são brutais e divinais, especialmente se os perspectivarmos no tempo em que o artista os pintou, no final do séc. XIX. e os Kokoschka e os outros... não fosse esta ser ma raça de gente e artistas que parece desinibida como poucos. até no pintar. enfim, um banquete de iguarias que os olhos beberam sôfregos e a carteira tratou de completar quando perdeu a cabeça no departamento de posters da loja do museu.
mas foi bom, porque assim posso dizer: linda, afinal, a Viena dos artistas, terá sempre um final feliz.
ainda assim, não me passam, as saudades do meu país.
até já.
sexta-feira, maio 26, 2006
a rejeição
bem vistas as coisas, faz parte da nossa natureza humana não concordar com tudo o que se nos atravessa no caminho. então qual é o problema de ver chumbado um projecto, ver debatida uma ideia, ou até levar uma belíssima tampa?
devia ser zero, o problema, mas temos hoje chaise longues e sofás carregados de sulcos de corpos de gente que se debate com angústias que inventou num dia de chuva em que não podia sair de casa para arejar ou ir a um qualquer centro comercial sonhar com uma blusa nova ou uma sainha plissada... caricatura à parte... a verdade é que fomos desenvolvendo o estigma do porcelanismo chinês. e partimo-nos ao menor sopro.
que raça de gente é esta sobre quem se fizeram poemas como o V Império? descendentes de raças cruzadas entre viriatos rudes e mouras formosas e quentes, que já saboreou o sucesso, as vitórias, as derrotas, os terramotos e a loucura geral, e nunca deixou de se levantar com os olhos esgazeados de sangue a perseguir os últimos rastos de vida de inimigos a abater?
amaricámo-nos um bocado, deixem-me que vos diga...
não há outra forma de pôr a coisa (bom... quer dizer...)
o povo hoje não aguenta uma contrariedade sem ir a correr alimentar a grossa e fausta carteira de qualquer professor "karamba" mais ou menos diplomado por uma mais ou menos famosa escola especialista de cultos ocultos. ora gaita, mais a isto, que a gente que conheço do meu país merecia mais consideração e respeito pela garra e vontade do que este porcelanismo chinês pseudo moderno.
nhecs.
e double nhecs.
e sabem o que acontece a esta malta medrosa (quase que me enganava a escrever isto...)? este pessoal deixa de arriscar e de se lançar a jacto para a conquista de coisas novas e acomoda-se nas tais mantinhas que tanta volta me dão ao estômago! (arre, que quase me saem impropérios menos próprios...)
quem é que ensinou a esta gente que os joelhos esfolados fazem mal, e que partir a cabeça não é mais do que uma parte indispensável do processo de a construir e preparar para ser tremenda e forte e preparada para a briga da vida ?!
quem é qe ainda se atreve a desperdiçar tempo a dar palmadinhas nas costas de quem entalou um dedo na porta e nem sequer ficou com menos um coto?!
foi só uma entaladela, foi só um joelho, é só uma dor de cabeça!!!! não é preciso invocar o deus mais graúdo de um qualquer monte olimpo, porque também não se trata de um mal maior que põe em risco a humanidade.
em boa verdade, tal como os bebés, também os adultos aguentam muito mais do que aquilo que os próprios, e os outros, podem achar.
o que põe em risco a nossa raça, é esta choraminguisse pegada que afecta do mais delicado ao mais peludo. é que, mais tarde ou mais cedo, não vai haver quem nos ature.
meus caros, minhas caras, corremos o risco de entrar em vias de extinção por definhamento auto induzido, é o que é.
despeço-me com amizade e até ao nosso próximo programa (como dizia o saudoso).
quinta-feira, maio 18, 2006
segunda-feira, maio 15, 2006
play it again, sam
é só pôr cara alegre e empurrar mais uma folha do calendário.
quase a propósito uma piada interessante:
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ORAÇÃO DA MULHER
Querido Deus.
Até agora o meu dia foi bom:
* Não fiz fofocas,
* Não perdi a paciência,
* Não fui gananciosa, sarcástica, rabugenta, chata e nem irônica,
* Controlei o meu SPM,
* Não reclamei,
* Não praguejei,
* Não gritei,
* Não tive ataques de ciúmes,
* Não comi chocolate,
* Também não fiz débitos no meu cartão de crédito (nem do meu
marido) e nem passei cheques pré-datados.
Mas peço a tua protecção, Senhor, pois estou para me levantar da cama a qualquer momento ...
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sexta-feira, maio 12, 2006
distant mindbreath
o que sentirá a ponta de uma pena enquanto escorrega na pele macia de pontos que se unem com os dedos que percorrem a vida à volta dos braços doces que se entrelaçam nos meus enquanto se eriçam os poros arrepiados por não ter ninguém a quem contar a história de uma vida louca de prazeres complexos como o vinho que nos escorria dos lábios para dentro do calor de um corpo ardente de uma febre que já não sabia parar de aumentar.
se fechares o olhos e sonhares, sim, de olhos fechados, imagina o sabor da suavidade abandonada de um beijo que traz o fim dos sonhos suaves e das noites frias.
imagina que se espalha na praia do teu corpo uma onda de calor que te invade devagar...
e o resto é o tempo a fugir debaixo do bater descompassado do peito a abrir caminho entre o espaço artificial criado entre os corpos que clamam ter sido feitos para sentir o baque crescente de um prazer que as paredes não sabem conter e atiram pelo ar que cai sobre as cabeças que se fitam enquanto falam calados os lábios.
quem pode não querer dias assim?
porque se escreve?
o título não é feliz. conta uma história antiga numa ode nova a vidas de ontem, agarradas ao sabor do mil pedras dispostas em calçada ao longo de uma estrada sombria e gasta de passarem por lá as peças de teatro, feitas do sal que, com a suavidade de uma dor aguda vai fechando o espaço em volta da aura triste de uma noite cansada.
não sei escrever nem como explicar o porquê de coisas simples que avançam lentamente para dentro de mim com o doce estandarte de horizontes que não posso explicar a ninguém. vive-se a vida em surdina para não acordar o inconscinte que, de quando em quando, ousa e adivinha paços de um palácio que descobre, por debaixo do verde carregado de simplicidade e vida de uma arte simples mas nova de delicada.
cartas que nunca escreverei.
absurdos e gritos que nunca atirarei para o ar leve e solto que entraria pela janela do mar adentro, enquanto dormisse.
vidas que nunca ligarei entre si com os efeitos redondos de um caracol que desce em espiral até um centro que mais ninguém sabe onde fica. não é tanto o futuro que faz falta, é a ausência de presente próximo, tão próximo que fica entre aqui e já ali à frente.
travam-se batalhas tremendas dentro de uma guerra com fim anunciado? não sei o que é isso, de fins anunciados, tantas foram as vezes que os fiz e desfiz no percurso aparentemente breve das minhas horas de que ninguém sabe nada.
guardo para aqui as partes amargas na certeza de que não me conhecerão assim; aqui ficarão soltos os fantasmas e as histórias por contar, dentro de palavras imperceptíveis e frases sem nexo. vão viver juntos aqui e sorrir para ninguém, enquanto as lembranças me povoarem o espírito de não mais querer estar assim. fogem e recuam enquanto se desviam de quem se passeia nas horas tranquilas de uma manhã que não vai ter o mesmo sol e o mesmo sabor a madrugadas salgadas.
há muitos anos prometeram-me amarrar um barco ao pé de mim para poder sair de entre as portas da terra firme e largar por aí descompassado mas feliz por não ficar inerte como as plantas que esperam o vento para poderem mexer folhas que viram e adivinharam o peito de um sorriso feliz.
são longos os dias que precedem as noites cansadas de esperar por uma luz mais fraca e azul de reflexos de um mar onde o verde da água limpa e transparente se mistura no castanho da terra revolta povoada por gente de dedos esguios como faziam crer os filmes de gente que vinha de outro lado.
não acreditam na natureza e fazem das palavras as mentiras que nunca viveram, não reflectem a fé nas máres nos olhos molhados pelo rubor de uma inspiração que já não existia há muito. e precipita-se a lua para dentro de um mar salgado pelas lágrimas de angústias e memórias que nunca trago nas horas amenas.
se a loucura fosse uma opção, escolhia-te já, para não sentir os dias de alvor seco e o restolho das searas que morreram do sol que abrasa decidido o campo onde vive ninguém.
gosto de música. e sei que se receiam orquestras gigantes de cordas, metais, sopros e tantos tantos tambores. ver da plateia... nunca... nunca... prefiro estar dentro e sentir a fúria de uma natureza estranha que canta em harmonia e com a violência de uma beleza atroz e arrepiante... nunca da plateia... prefiro aprender ou morrer a tentar perceber o que faz lindo um trapo composto de nada com cores que não vivem sozinhas sem a música que toca e assoma aos ouvidos de gente com medo dos estilhaços, parada ao longe, separada pelo fosso que os protege do avançar impiedoso das emoções para dentro das convicções do viver...
ouvem-se ao longe as cordas de um corpo que vibra de medo por não ter presente próximo... e o futuro foi já ali à frente e volta mais tarde em cacos ou peças pequenas de um puzzle de lamentos de felicidade.
quinta-feira, maio 11, 2006
todos os dias se morre devagar

mas de vez em quando assalta-nos a vida a malvada da morte que teima em arrastar pessoas de quem gostamos e destruir por muito tempo as felicidades ainda mal sustentadas em cima de pequenas paliçadas tímidas e capazes de imaginar em sonhos soltos de olhos abertos um futuro feliz.
eu vi os olhos dela e a imaginação a passear por tempo de sol.
e, de repente, com a brutalidade de um soco nos olhos e um pontapé nas costas, arrancaram o tempo de viver a uma gente amiga quando atiraram raios de fogo para o peito de um bom fulano que tinha o coração doce por gostar de viver. viver com ela.
não se poderá arrumar e repartir a força do coração para amar sem pagar por isso o preço do corpo que sucumbe? egoísta de merda, o corpo da gente, em tanta coisa e também nesta.
não há lágrimas que se possam derramar para outra coisa que não seja fazer da água à sua volta aquele elemento que ameniza as temperaturas absurdas e tempestades horríveis por que deve estar a passar esta amiga.
se a proximidade valer o conforto dos ombros gigantes que tenho, não te preocupes com o sofrer. eu apanho um pouco do teu, e fica comigo até o afastar de ti.
porque as homenagens se fazem por carinho, por mérito absoluto, por solidariedade, e por uma imensidão de coisas, e por tudo isto junto, este post é em memória de pessoas boas, sempre vivas no que de mais precioso temos: o tempo. seja ele um tempo real e presente ou antes um tempo de memórias tão vivas como os dias que escorrem incertos e tantas vezes com menos valor.
mais novo que eu. humano, sincero e um sorriso franco que lembro com facilidade. e boa gente. logo este, entre tanta merda que havia para dispensar.
Para o Rui e para a Vanessa, com carinho, ainda no calor do assalto estúpido das notícias.
quarta-feira, maio 10, 2006
a caminho de lugar nenhum
(person at the window, by salvador dali)E se fechasse os olhos? O que imaginava?
Não posso fechar os olhos.
Prefiro sonhar acordado.
Porquê?
É fácil de explicar: deixar correr o pensar e o imaginar pelo espaço de uma tela vazia, permite pintar a obra mais louca que queiramos e chegar a destinos virgens de qualquer contacto e contaminação pelo real. Isso, é verdade. Sonhar de olhos fechados não tem limites, mas também não faz ligação à pele de quem sonha, a partir do momento em que acorda. O desfasamento com o real é tão grande que se desvanece no ar da primeira luz que nos entra nos olhos. Fica uma memória vaga, um aroma de fundo, difícil de recordar e mais ainda, de saborear.
Sonhar de olhos abertos é um exercício de quase dissociação de ser, estar e sentir. Significa que imaginamos uma realidade alternativa com os olhos postos na vida de hoje que agarraríamos ao colo e roubávamos para um descampado livre onde, em transe de loucura, nos entregávamos ao desejo de lhe fazer nascer um filho novo. A realidade, essa mulher roubada e arrebatada, resistiria como convém a quem é arrastada para longe do sua normalidade, até sentir o calor de um querer diferente, que arde no peito quem quer e queima a pele de quem sentir tão perto o impacto capaz de derrubar couraçadas de uma qualquer samurai mais artilhado.
(the ship by salvador dali)Quando se desprendem dos olhos estas imagens para se irem colar ao mundo presente, perdemos também um pouco de contacto com o que é possível e é normal que as estribeiras societais se desprendam do lodo onde estavam amarradas. E largam por mar adentro, a realidade e as imagens novas.
Sonhar acordado implica atirar formas e sabores novos para uma tela que já é. Enquanto navegam a rédea solta, estas gentes vão matando a sede de inspiração nas imagens criadas que vão adaptando a uma qualquer vida real que fazem por alterar. Ou até não.
Por não adormecerem, vão testemunhar na primeira pessoa os arrepios reais dos sentires que sopram de um qualquer mastro erguido a desfraldar a bandeira de uma independência nova. Países houve que se criaram de quereres assim. Gente houve que morreu pela viagem de um sonho louco.
É outro que escreve. Cerrados os dentes, agride o ar que atravessa com os olhos até chegarem ao sonho que ousou levantar a custo, de uma enxerga dormente onde jazia moribundo.
Que ganha, quem sonha acordado? Garantidamente, ganha mais penar, por sentir perto o que pode nunca chegar, ganha em desilusão por ver que as miragens podem não ser mais do que areia de um qualquer deserto árido e escaldante.
Mas também ganham. Ganham o prazer absurdo, louco e incontido de levar a alma para lá das portas do razoável e humano, enquanto seguram cimatarras nos dentes e desbravam lugares escondidos dos olhos dos outros.
E, porque estavam acordados, vão lembrar-se a vida toda. E conseguir invocar os sentires quase sempre que queiram.

(reminiscence archeologique de l'angelus by salvador dali)
E perguntem-me, como vivem felizes estas gentes?
Confesso que nem sei se é possível...
Viverão de memórias e, como se pode imaginar, optarão provavelmente por continuar a sonhar acordados.
perdi...

...a conta ao aroma de inverno que se afasta enquanto chega o tempo de verão.
o ontem funde-se com os tempos que estão e seguem, e deixam mais próxima a languidez do tempo de praia.
arrasto os olhos de forma descarada, como é hábito, e fixam-se por onde passam os minutos do meu tempo.
voltou um tempo de outro heterónimo.
renasceu de entre as lutas titânicas pelo domínio das letras que escorrem das pestanas molhadas, pelo sal do mar. e fica até lhe apetecer, comme d'habitude.
travam-se batalhas de silêncio pelo posse dos sons mais pesados e dos gritos mais altos e não há maneira de declarar vencedores nem vencidos. arrastam-se feridos para mais uma injecção de qualquer droga mortal que os permite voltar a cruzar os ferros e agarrar os punhos com vontade de vencer uma guerra que não tem fim.
esgrime-se com arte enquanto se mata com crueldade a natureza social das coisas do mundo.
e vê-se caminhar, indiferente ao tempo e à angústia do prazer de querer, entre os despojos de um mundo assustadoramente novo.
só vale a pena viver com o sangue nas veias.
quinta-feira, maio 04, 2006
welcome
foggy times

E se o dormir for uma condenação de alheamento temporário, porque não merecemos contemplar o que quer que seja durante algum tempo?
…faz sentido?... não. But then again, é só mais uma loucura.
Ou talvez nem tanto.
O certo é que é insultuoso o tempo que se passa sem fazer nada e a aproveitar coisa nenhuma porque,… estamos a dormir.
É como se de um mau período da vida, se tratasse, que se repete todos os dias a partir da hora de deitar. Até os sonhos desempenham o seu papel alucinado e triste ou estupidamente feliz, por não fazer parte das coisas reais.
Como nos momentos maus, estamos num estado latente, onde a vida não avança, antes pelo contrário, e o melhor que se pode fazer é desejar que passe depressa. E que não nos pese o tempo morto.
E se o dormir for um pequeno vírus, muito virulento, muito peganhento, que se agarra a uma pessoa e lhe vai minando as defesas de viver com vontade, até se transformar numa qualquer lagarta que se arrasta pelas folhas da couve, quando ainda há poucos dias era uma borboleta de cores e asas de arrasar o mundo. Esta podia perfeitamente ser a gripe das aves dos tempos modernos. A involução das gentes, para dentro dos casulos para perto de onde nunca deveriam ter voltado. De fácil mutação e propagação mortal entre os humanos. Os que sobrevivam, ficaram tolos demais para atirar um sorriso ao futuro que se foi embora na camioneta das 5.
Já fomos heróis das nossas próprias vidas, num ou noutros dias mais felizes mas hoje assistimos ao despertar de crisálidas que nunca vão ganhar o céu do sol, e da chuva e das estrelas, e das trovoadas e das auroras boreais e dos perigos e belezas da natureza, porque algures no tempo, optaram por começar a viver paradas nas couves e ervas de que se alimentavam de forma fácil e sem esforço. Enquanto engordavam, acomodadas à abundância e ao sabor do que não tinham que ganhar, foram dormindo umas sestas na hora do calor, para passar melhor o tempo até chegar hora de comer outra vez. Deixaram de procurar variar e levar os olhos até mais longe do que aquele caule incrustado de calos rugosos, com quem se começaram a identificar e a fazer parte da família… daquela gente só e triste que se preocupa com o que está perto e já não olha para os dias. É como se fossem noites sem qualquer luz e respirar sem oxigénio nos pulmões.
A fuligem da chaminé por onde ressonam ribomba no peito de quem não tem a natureza apodrecida pela preguiça e pela porcaria de não ter outra elegância além de um qualquer cobertor que lhes tapa as orelhas frias.
O gelo, que sobrevive e cresce na inactividade, agradece, e convida a ficar… e dormir mais um pouco.
Já agora… talvez não valha a pena acordar. Why bother?
quinta-feira, abril 27, 2006
distant
missplaced nonsense

É esguia.
Tem formas redondas e a elegância de quem sabe estar e receber os olhos de quem passa.
Usa o vermelho como poucas.
É transparente se, de perto, não deixarem os olhos assentar em menos do que mesmo em cima dela e, talvez também por isso, servem-se dela com o respeito e a sofreguidão simultâneas, de quem tem a sede para matar.
Inebria-te os sentidos enquanto desliza o seu corpo frio e te aquece o olhar. E soltam-se os sentires antigos que deslizam por cima dos novos.
Espera-me à noite, deitada e lânguida.
Mas não chama por mim.
A passividade com que me encara revolta-me pela ausência de desejo que respeite o calibre do meu. Não respeita os meus quereres… bem vistas as coisas, não respeita nada nem ninguém.
É indiferente a absolutamente tudo… ou até absolutamente indiferente a quase todos.
Não é minha. Já foi de todos e não conheço ninguém que, querendo, a não tenha tido. Promíscua por natureza ou por opção, mas se ninguém perguntar, com sorte, também ninguém responderá. Só não se sabe de quem será amanhã. A incerteza da volúpia de ser querida é tremenda.
Gosta de ver os efeitos que me desperta, mas não dá nada de si que lhe não seja arrancado, e atirada para uma qualquer mistura, ou então não… se tivermos coragem, despimos tudo e escorrega… só, assim… pura...
E abrasa por dentro, enquanto a imaginação é assaltada por monstros e viagens de ilusões que não têm princípio nem fim.
Chama-se Stolichnaya. É vodka. E habita no frio da minha vida.
segunda-feira, abril 17, 2006
em discurso indirecto

devagarinho
deixei cair o cabelo para a minha frente
apaguei a alegria e substitui-a pelos olhos fechados
pelo cansaço dos dias
e pelos sonos retemperadores que tanta falta me faziam.
devagarinho,
deixei sair de fininho as emoções que me arrebatavam,
e também aos outros
e faziam invencível e doce
o meu querer de viver.
aos poucos, entreguei o piano virtuoso e apaixonado
e deixei-me soterrar,
pelo calor morno das temperaturas tépidas,
e esqueci-me do que eram águas frias e quentes.
deixei crescer junto de mim
um mundo indolente
sem o sentir que apaixona
sem a violência do querer
e sem a alma da entrega do último dia da minha vida.
deixei-te sair de fininho
pela porta que nem sonhava aberta
enquanto me deliciava na aparente tranquilidade
de um prometeu agrilhoado...
já não me deixarei dormir,
já não posso ter só os olhos abertos
e não vou ficar só com as memórias
de um dia enorme que preencheste de noites
carregadas de vigílias amargas
e derrotas sangrentas.
recupero ainda o saber
e o sentir se tornar a dar
o que era teu de direito?...
diz-me tu
e, ao acordar, levantou-se o vento na rua e arrastou para longe as folhas mortas caídas das árvores cansadas.
terça-feira, março 14, 2006
compromissos
e não há eufemismo que lhe valha.
Ninguém pode ser efectivamente feliz, se viver em regime de "compromisso" permanente. Sabem o que é? É aquele meio termo, aquele entendimento civilizado de sã e salutar convivência entre duas pessoas. Deixem-me lembrar, para quem ainda não está a ver: é aquilo que fazemos a pensar que salvaguarda alguma parte de nós, quando afinal nos anula em todas as frentes.
Radical? Nem por isso.
Se quiseres muito, se gostares ainda mais e os desejos do que quer que seja transbordem por ti afora, que satisfação podes conseguir, se fizeres METADE(!) do que querias?
Se pensam em responder "metade da satisfação", desenganem-se. A acumulação de insatisfação, quando estamos tão perto de fazer exactamente aquilo que gostaríamos, é desgastante. Corrói devagar, e vai apagando o brilho dos olhos.
As negociações foram feitas para as empresas e outras entidades abstractas que não sentem. Só essas não têm pena do que perderam, ao ficarem a 50% do objectivo em regime de trade-off por outra coisa qualquer. As pessoas, remoem. Anseiam, e vão acumulando o desejo, numa folha de créditos por saldar, que não faz bem a ninguém.
Os compromissos não devem ser banidos da vida de ninguém, entenda-se. Mas não podem preencher os dias. É como se nos contentássemos com uma pequena mantinha que nos amodorna o corpo. Não é quente, mas consola um bocadinho... Não satisfaz, mas também não é nenhuma lareira a crepitar de satisfação. É... um compromisso possível...
Criticar é fácil, não é?... Mas pode ser que haja um vislumbre de solução, lá longe, ou mais perto, quanto menor ou maior for a audácia de fazer diferente.
Então e se, em vez de entrarmos no compromissozinho de merda, a toda a hora, experimentarem deixar acontecer até ao limite máximo, aqueles gostos, desejos ou loucuras de quem gostamos, queremos bem ou até, só convivemos? E se se optar pela tolerância?
Imaginar a satisfação e o prazer de ter, no rosto e estar daqueles a quem queremos, é... delicioso. to say the least... trust me.
Podemos optar por tolerar coisas de que não gostamos, mas que são realmente importantes? Claro que sim. E ninguém morre por isso.
É mil vezes preferível fazer algumas coisas de que gosto muito, do que imensas, de que não gosto particularmente e me são apenas,... neutrais.
Esta coisa de ser humano e ter alguém a que se quer, é mesmo assim: uns dias sofre-se um bocado, e noutros vai-se ao céu. Várias vezes, se possível :-)
Não se fiquem pelo "assim, assim...".
E dêm tudo o que podem, gostem mais, ou menos, ou até nada, a quem esteja disposto a vos dar também. E rasguem os dias ao acordar com aqueles sorrisos de que se constroem lendas.
sexta-feira, março 10, 2006
ó gente da minha terra

agora é que eu percebi
esta tristeza que trago
foi de vós que a recebi.
começa assim um fado da Mariza, que ecoa dentro dos tímpanos enquanto pára o peito de bater em homenagem à voz e ao sentimento que a malvada da mulher atira para as palavras que canta.
Deu passagem a um passo descompassado em passeio desarticulado: não era mais ninguém que não os próprios pés e pernas que empurravam o ânimo para mais um pouco de ar negro.
Ouvia ao fundo os velhos, naquela sala vazia, cheia de computadores à espera. À espera de quem pudesse, por necessidade ou piedade, dar uso ao que de melhor tinham e poderiam fazer.
que triste sina não deverá ser sentir o poder de fazer e não ter o espaço, o tempo, a oportunidade e as gentes que saibam, queiram ou aceitem fazer cumprir o que rasga, de dentro, a pele que se veste.
quanto mais se aproximam do destino, mais se ouve o rirombar seco que atira contra a jaula o fogo de um animal selvagem prestes a soltar-se.
se de longe se consegue controlar a fome por ausência de ter o que comer, experimenta atirar essa turba em fúria para um campo de cereais virgens. rapidamente se despedaçam as camisas do milho e se acendem as fogueiras, enquanto, em tensão, esperam pelo concretizar de um destino a que não podem fugir, os entumescidos grãos de milho.
experimenta dizer a uma turba de gente esfomeada que sente já escorrer nos lábios a saliva, que não podem comer. levanta-se em armas o próprio inferno, que não conhecia o imenso calor que tinha guardado.
não cabe já nas fronteiras feitas em tempo originais para as coisas primeiras, e sentem-se romper os diques artificiais que montaram para segurar naturezas prenhes de vida que sentem mais perto o aroma das cores quentes e o sabor do prazer.
semicerram-se o olhos enquanto tomamos o gosto ao que seguramos nos dentes, como que a dizer que queremos dar exclusividade ao sentir dos sabores. de tão perto, misturam-se as essências da presa e dos caçadores enquanto se constroem vidas novas e misturam os fados. ouve-se gemer baixinho cada vez mais perto, até se tornar ensurdecedor o prazer de matar a fome de comer...
fosse a fome gente: comía-nos vivos.
segunda-feira, março 06, 2006
fora de casa e atacado

Por uma insónia inoportuna. Amanhã de tarde começa a reunião e eu quero levantar-me cedo para ir sentir o aroma do dedo divino e ver a basílica, já agora.
Aterrei num país diferente. Os homens falam sem sorrir e as mulheres têm fogo no corpo: andam e vestem para matar.
Se embrulharmos tudo isto em pedra que, de tão antiga, ganhou o direito de falar connosco e invocar memórias para os visitantes de quem mais gosta. Tive sorte. Com as pedras, não com as mulheres.
Ouvem-me chegar e segredam-me histórias loucas onde a realidade se mistura com os sonhos que foram tendo ao longo dos séculos e me confidenciam enquanto salto de uma para outra. Aqui ninguém me chateia se saltar para cima de qualquer coisa para ver melhor, ou só porque me apetece. Sinto que aqui, se fabricam menos rédeas de pudor ou do correcto. Gosto disto.
Dizia-me um amigo ao telefone, enquanto eu interrompia a visita ao palácio com a cripta das cinzas de Adriano (eu não sabia que o fulano tinha sido cremado!), “isso tem muitas pedras!” Quase my friend. Quase. É bem verdade que aqui, se uma criança sair para arua com uma daquelas pázinhas para a praia, descobre mais um calhau avô dos outros.
Adoro a cavaqueira louca que se instala quando a minha loucura se funde nas rugosidades daquelas paredes quase libidinosas… Vejo as formas e sinto prazer do cinzel enquanto formava, e do artista à medida que se desvendava o que lhe passava dosentir para as mãos. Minha nossa! Se já sem motor de arranque, estes olhos disparam sozinhos para outros mundos… aqui… arrepiam-se-me os pêlos, prende-se a voz, para não sair embargada com a comoção dos edíficios,… da arte… e das pessoas que por aqui fruem o aroma de viver com querer. Muito bom.
Podia viver aqui e sonhar acordado todos os dias. Podia povoar o espaço com guerreiros de conquistas loucas e glórias sem par, enquanto voltavam para as virgens vestais à espera de mais uma orgia desregrada. Podia viver aqui. Naquele tempo.
Ouço água em cada esquina e vejo a arte feita de tudo o que possamos imaginar: portas, telhados, paredes, varandas, balcões de ópera virados para a rua, a espreitar quem passa…
Sinto sempre medíocres quaisquer palavras que possam dizer os guias dos grupos de turistas a quem me vou alapando para ouvir mais uma história, numa língua diferente. Aliás, já desisti dos alemães. Aquilo é uma autêntica língua de trapos e não se percebe nada. Aos outros, lá vou acompanhando pela cidade, a quem vou também fazendo perguntas com o direito justo de quem não pagou para ouvir. Mingle my dear, mingle. E eu… tá bem! Por falar nisso, não há burgessos como os americanos. Que gente insensível e bruta. Percebo agora porque é que o sr Bush lá vai ganhando eleições.
Outras vezes, corro sozinho, as vielas e as Vias cá do sítio até chegar a mais um monte de pedras em forma de arte sacra ou pagã, conforme a antiguidade. Os aglomerados de gente a não fazer nenhum, são formidáveis. E são indígenas, não um qualquer bando de japoneses estacionados à espera de ordem de marcha para o próximo ponto – destes, também tenho visto muitos.
Escadarias, bruscetas (humm...) e lojas por todo o lado, sem um único arranha céus ou prédio fora da mãe, no perímetro da cidade. Está suja de fuligem, e tem o pó vermelho do estuque pintado a soltar-se, mas é mágica a filha da mãe da cidade.
Esta gente é orgulhosa e eu percebo porquê. Quando se tem + de 3000 anos de histórias, permitimo-nos algumas veleidades.
Com justiça.
Até amanhã.









