terça-feira, abril 08, 2008

Não compreendo o sentimento


de desprezo pelas pessoas que se suicidam.

Não é nem pior nem melhor do que roubar, à luz da lei que –supostamente- nos rege, mas parece ouriçar os cabelos da nuca a muitos dos que passariam de forma aparentemente despercebida por alguém que roubasse um carro ou uma mala.
O desconhecido, esse adamastor...

A nossa raça tem medo do escuro desde que nasce, apesar de ter passado a gestação toda sem luz. Por alguma razão acham que, depois de baterem as pestanas ao sol ou debaixo de um qualquer fluorescente da sala de partos, passam a poder falar de cadeira de um assunto que só a eles, os que têm luz, diz respeito. Os outros, no escuro, nunca irão perceber aquele segredo de clarividência do viver ao sol.
E, provavelmente, como os iniciados numa qualquer ordem secreta, farão tudo o que os “irmãos mais velhos” lhes recomendem. E agem loucos, sem pensar, a seguirem aquele rebanho que se desloca ao sabor do vento ou de um qualquer tolo mais eloquente.

Como numa "ordem" que se preze, cumprem rituais e sacrifícios idiotas que passam inevitavelmente por enxovalhar um qualquer marginal que não partilha o conhecimento de, afinal, coisíssima nenhuma.
E crescem assim, envenenados pelo comportamento a que foram sociabilizados, sem se aperceberem do que, ou quem, vive à sua volta e padece do pecado mortal de… não ser igual a eles.

Estúpidos
Idiotas

e
Ignorantes

Ser diferente é apenas não ser igual. Não é sequer mais perigoso, mais nefasto ou maligno, ou outra merda qualquer deste calibre. Até pode muito bem ser melhor.

É que, sabem, ser diferente, implica cair para qualquer um dos lados da montanha que ergueram para nos obrigar a partilhar um ridículo planalto onde vivemos apertados e espartilhados no fazer, viver e sentir. E pode-se cair para o lado melhor, ou pior, ou apenas diferente! Porque isto de ser melhor ou pior foi inventado pelos mesmos idiotas que defenderam que todas as coisas teriam que ter um mainstream.

Tenho um respeito muito grande, próximo do temor, pela coragem de quem se suicida. Não pelos idiotas que nunca sabem que cá estiveram, mas pelos que, tendo estado, vivido e, conscientes do que os rodeia, exerceram o livre arbítrio e decidiram partir.

Não, assim não é justo. Se fosse assim tão fácil, muitos mais terminariam o viver.

A questão está na passagem da decisão à acção.

Chamo-lhe coragem e ninguém concorda comigo, porque lhe associam a cobardia de desistir.
Chamo-lhe coragem porque me lembro daquela ordem de iluminados a que pertencemos todos, uns mais que outros, e que nos incutiu o medo do escuro e o pavor do desconhecido mais absoluto que poderemos ter.

A estes guerrilheiros, a minha vénia e respeito.

Capazes de olhar para o nada nem coisa nenhuma, acabam por reunir a coragem para fazer o que a natureza mais contraria. Curiosamente, o próprio Maslow defende que, no primeiro nível da famosa pirâmide está… a sobrevivência.
E, afinal, é contra isto que luta quem decide morrer e ganha a batalha do escolher.

Aos outros que olham com desprezo e julgam os que se mataram, poderia perguntar:
- Quantas vezes quiseste já desistir? E nunca conseguiste!...
- E quantas vezes tu, senhor ou senhora do juízo fácil, te debruçaste sobre o que pode sofrer quem decide, consciente, de forma tão drástica?

Talvez seja melhor não responder, porque poderíamos ceder também…

Bem haja a coragem de não viver acossado pela chegada do morrer.

domingo, abril 06, 2008

Charles Dickens

The past is like a different country;
they do it differently, there.

sábado, abril 05, 2008

actualizei os links

mas não consigo actualizar a disposição e a névoa que me barra a alegria de estar.
solta-se o semblante negro que vai, aos poucos, consumindo o sorrir.


quinta-feira, abril 03, 2008

um destino velho

Houve um tempo em que escrevia debaixo do correr desta hora.

Ontem, como hoje, havia um desatino que não terminava, e a sempre tão presente e certa pena de morte suspensa…


...


Ouve-se perto o ecoar de um mundo que parecia funcionar. Sente-se no ar o som das cordas retesadas que suspendem a vontade que rege os passos mais loucos. Ouve-se o balanço inquieto de um barco amarrado no cais a quem só já fazem companhia as gaivotas indolentes.
Já velho, deixou de lutar contra as amarras que o derrotaram depois de tanto tempo em que ouvia o chamado do mar. Hesitava entre a volúpia de um abismo sem fundo, lá longe no mar mas acabava sempre por se arremessar sem dó de mais uma tábua que se partia contra o cais que sustinha as cordas que não o deixavam partir.
O destino de um barco será sempre a vida no mar, mais do que a vida na água e o destino das coisas foi feito para se cumprir.
Já não me lembro da última vez que o vi, ao largo, confiante e destemido enquanto avançava entre a espuma de um mar que parecia cúmplice do navegar, como um velho amigo que nos conhece os passos e acompanha o caminho ao longo de uma qualquer viagem. Hoje, já ninguém se lembra de o ver no mar.
Distinguia-o o porte e as velas cheias de coragem de viver. Sentia-o seguro por muito que o mar a que chamava seu se fizesse bravo e hostil. Era a natureza que se cumpria e a luta não era mais que um sonho feito verdade desde os dias em que sentiu ao longe o aroma da vida salgada que o esperava.
Conhecem-se-lhe os relatos de viagens fantásticas e de gentes que falam de monstros medonhos com quem lutaram, sem dó de morrer nem medo de matar. Ouvem-se também as histórias de rochas e baixios que o tiveram preso e encalhado e partido e sem força de navegar por não ter casco que o levasse a lado nenhum. Aí, esperava pelo tempo que acabava sempre por aparecer com o que saldar dívidas antigas, carregado de gente que sabia de navegar.
Deixava-se tratar como um animal ferido que sente que o fim fugiu à frente de quem chegou. E aguardava pelo amadurecer das tábuas que seriam suas e fariam dos buracos apenas memórias longínquas e, das praias baixas onde esteve encalhado, fragmentos de um sonho que nunca mais partiria. E o sonho era cada vez maior, porque ninguém partiu das memórias que guardou sozinho.
Quase novo, com alma e ânimo redobrado, ignorava a dor e partia de novo. Se as tábuas rangiam em contacto com o sal do mar que cruzava, sorria por saber que a natureza de um conserto é mesmo assim: menos forte que novo mas suficiente para sair para fora da zona de costa e ir ter com o destino.
E uma, e outra, e outra vez.

Era um porto feito de noite escura e estrelas brilhantes que pareciam mais perto à medida que chegava. Atracou suave e esperou pelo amanhecer.
Mas o sol não veio.
Mas as estrelas eram fortes e a luz do luar parecia durar para sempre, e ficou.
Enquanto as noites passavam foi sentindo crescer os membros novos que se estendiam para lado nenhum. Sem luz de sol não navegaria e que lhe importavam outros consertos que fossem precisos? Só mais uma dor que fingiria não ver e anestesiaria o sentir.

Os grilhões estavam agora presos ao cais e quando, já tarde, sentiu a angústia da falta do mar, já não lhe valeram as forças que teve um dia e que o foram abandonando ao longo das horas intermináveis em que não navegava.

Hoje, carregado de nada e cheio de buracos por onde passeia a água, faz, em cada dia, uma nova investida, cada vez mais fraca, porque não o larga a vontade do mar, como um destino que parece não desistir de o chamar para se cumprir.
Os barcos velhos e podres, esses loucos, anseiam pelo dia em que se soltarão da prisão a que foram votados em terra ou num qualquer cais que os abandonou.
Sonham com o aroma do sal do mar carregado das lágrimas que irão deixar pelo caminho que vão trilhar pela última vez.
Lá longe, mergulhados no mar que já foi seu, baixam os braços cansados e olham ao longe pela última vez enquanto se deixam afundar num abandono à morte escolhida, tão mais digna que o viver sem destino para se cumprir.

quarta-feira, abril 02, 2008

lost life

e se sentirem que, na vossa vida, foram uma escolha de recurso, uma alternativa longe do ideal, um triste prémio de consolação, como se de uma medalha simbólica pela presença na corrida do viver se tratasse?
e se viverem atolados na falta de garra e vibratto, que não existe no quadro de quem escolheu, porque... foram e serão apenas escolhas feitas em momentos em que já havia mais por onde escolher, enquanto o tempo não parava de escorrer para o chão por entre as mãos, impotentes para o agarrar.
são escolhas de recurso...

então cerrem os punhos e fujam enquanto poderem, senão será certo que se afundam num lodo de comiseração e abandono de onde já ninguém se vem embora.

são os dias que me tendem para zero.

terça-feira, abril 01, 2008

ainda a tender para zero

experimenta dividir os teus amigos nos seguintes grupos:
1. quem fala muito mais do que tu
2. quem fala muito menos do que tu

Pensa ainda nos teus amigos, e diz-me:
a) quem te ouve com mais atenção e interesse
b) quem precisará de mais tempo de antena do que lhe dás, para poder partilhar o que quer que seja que lhe é mais caro e, talvez, mais difícil de falar
c) quem procura o teu apoio
d) quem precisa de ti sobretudo para projectar em voz alta as angústias, vitórias, alegrias e tristezas para as quais precisa de solidariedade e partilhar o ónus do esforço e a glória de ganhar.

As conclusões que tirares ficam para ti e serão todas de valor, por teres pensado no assunto.

Seria tolo tentar falar, em geral, de um tema que pode ocupar enciclopédias, por isso não vou pensar em atirar-me para fora de pé, assim, na generalidade. Já na especialidade de algum capítulo deste tema... para mais tarde, talvez.

Em boa verdade, não há aqui nenhum juízo de valor, porque há sempre alguém que fala mais ou menos que tu.
O problema pode existir (mas não é obrigatório) se alguém falar muito mais ou muito menos que tu.
É que, se o fiel da balança das relações de amizade estiver muito inclinado para um dos lados, em vez de win/win, como deveriam ser as boas relações, temos win/neutral, em que há um que beneficia e o outro... não.
Quanto à 2ª parte do que te pedi, proponho que penses se consegues cumprir os papéis a), b), c) e d), em relação às pessoas que te são próximas.
- Consegues ouvir com atenção e interesse, sem desviar para ti a conversa até que se esgote o tema da outra pessoa? Quando alguém começa a conversar sobre um tema seu, gosta de acabar. Se o/a deixarem...
- Deixas espaço para brilharem mais estrelas no teu firmamento? E alimentas-lhes a luz?
- Ofereces-lhes as tuas ideias sobre o que te falam, sem roubar o papel de protagonista, para que sintam um conselho e não um exemplo que alguém te parece forçar a seguir, como o único caminho para alcançar a luz?
- E ainda, tens paciência para calar a tua voz nos momentos em que alguém precisa apenas de soltar o que tem dentro?

Falta o final, tem paciência.

Para uma aproximação ao equilíbrio entre as pessoas, nas relações, sejam elas quais forem; conta-me, também em relação aos que te são próximos:

- falas-lhes de ti? Do bom, mau, alegre e triste?
- tens a quem "sequestrar" para desabafar aquela terrível angústia ou estrondosa vitória, sem sofrer julgamentos, e pena com juíz e carrasco preparados para a execução?
- procuras alguém para debater temas mais difíceis e ouvir opiniões que respeites?
- tens quem esteja do teu lado mesmo depois de saber que cometeste o pior dos crimes e que, ainda assim, lutará contigo contra o mundo?

Não se podem tirar grandes conclusões. Pelo menos daquelas que se aplicam a qualquer um.
Mas podes tentar decidir se quem tens à tua volta te preenche e se deixa preencher por ti, de forma equilibrada, como deve ser a de grandes amigos.

Aqueles que achares que sim, agarra-os com mais força do que aquela que geralmente achas que tens.
Aos outros, que aches que podem chegar onde já estão os anteriores, dedica-lhes mais tempo do que imaginares que é possível.
E aos outros,...
Poupa a energia que desperdiçarias nesses, para aplicar em quem merece fazer parte da tua vida. Poderás um dia oferecer-lhes, e receber, en passant, um abraço rápido acompanhado de um sorriso simpático.
Passamos muito tempo a investir em projectos perdidos.

E o nosso tempo, como a nossa energia, afinal, tende para zero.
E um dia, definha de vez.

quinta-feira, março 27, 2008

hoje à noite



Primeiro: um filme fora de série: "The bucket list" com Jack Nicholson+Morgan Freeman





Depois: um concerto (em vídeo) que adorei: "Caught in the act" Michael Buble.

Uau..

terça-feira, março 25, 2008

no limite, danados?...

curiosamente, já depois de escrever o post anterior, reencontrei há dias o professor que me ensinou os limites da matemática.
ontem lembrei-me que, ao contrário da ideia romântica de "tender para o infinito", tendemos mesmo é para zero, numa progressão decrescente mais ou menos acentuada consoante as variáveis de viver que lhe acrescentarmos.

Vejamos o que faz o tempo, uma condição de evolução dos limites:

- não há amores para sempre - "they inevitably fade away with time”. A invenção de Hollywood do “I love for ever” só ainda pega em almas desavisadas e carregadas de ingenuidade
- não há ânimo que dure para sempre; apesar da maior ou menor frequência de episódios de renascimento que possam existir
- desaparece o querer
- esmorece a paixão
- esfuma-se a energia
- vai-se finando a própria vida

Os gregos, habitualmente sábios, traduziram bem este conceito na lenda das Danaides. Seremos nós também condenados apenas a, para sempre, tentar encher uma jarra crivada de buracos?
É que, por muito que empenhemos a nossa -limitada- capacidade, o melhor que conseguiremos é tentar evitar que se esvazie, porque sabemos à partida que não conseguiremos estabilizar o nível da água em nenhum ponto.
Será todo o esforço inglório por tender para zero? Uma metáfora para o viver?


Danados são os condenados ao inferno vivo, ou morto, de um tormento que só não tende para o infinito, por tender para zero a capacidade de sofrimento do castigado.
Agora, talvez se perceba melhor porquê.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

o zero

dei por mim a pensar como está sobrevalorizado o conceito de infinito face ao zero.


o tema é estranho? ainda agora arrancámos...

parece fácil, perceber a diferença de mística entre os dois conceitos: enquanto que o zero é fácil de explicar - basta dizer que, à tua frente não está nenhum comboio ou uma fruta qualquer para servir de exemplo - já para perceber o infinito implica abstrair ao ponto de pensar que algo não vai acabar.
Curiosamente, o infinito, apesar de ser em erro, é o registo em que vivemos mais tempo da nossa vida.
Ninguém pensa que a sua vida vai acabar, ninguém coloca na balança do dia a dia a possibilidade de ficar sem o/a companheiro ou pai ou mãe ou outro qualquer grande amigo que, afinal de contas, pensamos que estará ali para sempre. Para sempre = infinito.
Os outros exemplos mais fáceis de explicar o registo "infinito" em que vivemos encontramo-los em todas as pessoas que, quando agem, não têm ideia das consequências do que fazem. Pelo menos não frequentemente.
Não vale a pena corrigir; Não vale a pena desculpar; Não vale a pena construir; Não vale a pena fazer agora -- teremos sempre tempo mais tarde, não é?
NÃO.
Perturbador? Pois é.
Vivemos enganados pelo infinito e fazemo-lo mais rasteiro e comezinho do que deveria.
Em boa verdade, se compreendêssemos bem o finito e, em extremo, o zero, viveríamos bem mais preocupados e angustiados com o fazemos com os minutos dos dias que alguém nos ofereceu, PORQUE SÃO CONTADOS! Porque não duram para sempre. Porque se esgotam assim que os consumimos e tantas, tantas vezes nos levam a pontos sem retorno, sem que nos tivéssemos apercebido de que o abismo dos actos estava ali tão perto.

O zero é um conceito, bem mais angustiante que o infinito. Porque nos obriga a abandonar a injecção da droga de viver alheado e o respirar sem pensar porquê, para nos obrigar a enfiar o focinho no chão e ver que a porra desse chão vai acabar ali à frente.

Se percebessemos o sacana do zero associado ao finito dos dias, dos actos e até do pensar e do escrever, será que não seríamos mais gratos pelos momentos de tempo que temos e deixamos passar impunes e menores de importância?
Será que se poderia ensinar às crianças esta história do horror de viver:
- Bebé, criança, adolescente, ou adulto tolo, sabes, viver é assim uma espécie de revólver de 6 tiros. E sabes, como o revólver, só tens 6 tiros. Usa-os bem e pensa antes de os desperdiçares, porque depois não há mais. E não há mais, é mesmo assim. Não brincas mais ao viver.
E aqui a coisa complica.
Não?
Sim.

O extremo da angústia do zero é o depois.


??


Pois.

Há-de haver um dia que se faz zero. Há-de haver um dia em que o finito termina. Em que não há mais.

E depois?

Já imaginaram viver sem falar? Não parece fácil, porque gostamos e sentiríamos falta.
Já imaginaram viver sem poder pensar?
Já imaginaram viver sem se poder mexer?

Porra e, já agora, já imaginaram juntar tudo isto e... não poder viver?
Nem sequer para escrever ou sentir os aromas, as cores, os sons e o sangue a correr-nos pelas veias das emoções... ou a companhia de quem gostamos ou o partilhar da vida daqueles a quem demos o viver.

Sim, essas coisas todas que gostas de fazer e que poderias ficar dias seguidos a enumerar vão, um dia, acabar. Mais, vais ficar sem elas e, mais ainda, vais ficar sem ti.
Ainda não? Tens filhos? Então experimenta pensar que, amanhã, alguém vai "zerar" o contador de viver da tua criança...

Dificilmente isto será pensamento de gente sã. Aceito. But then again... a vida é feita de trade-offs e há, definitivamente, um preço para tudo.

O zero da nossa vida está ao virar de qualquer esquina e faz parte de ser estúpida e fatalmente finito. E a responsabilidade que vem agarrada a este sentir obriga, em consciência, a sugar o tutano de viver e ouvir, sentir e fazer melhor de cada vez que exercermos o direito, não, o dever, de bem viver.

Se soubesses que irias morrer amanhã, não viverias de forma diferente os minutos que faltavam? Então de que esperas? É que, sabes, o amanhã é já a seguir.

Percebo agora, que não se podem ensinar assim as crianças a perceber o zero, porque queremos que cresçam.

No entanto, suspeito que, se muitos adultos houvesse que gastassem neste pensar algumas horas do viver...

Ou morriam. Ou passavam a viver.

Por aqui,... vou viver até morrer.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Não gosto de sentir que não é meu o melhor dos dias que vivo


Não gosto de serviço de louça para visitas
Não gosto de faqueiro para ocasiões especiais
Não gosto de roupa especial para mostrar aos outros
Odeio a escravidão da vaidade de ostentação.

Adoro utilizar o que há de melhor, ao meu alcance, todos os dias; porque assim, os meus dias não têm como não ser todos especiais.
Adoro comer na mesa com as mesmas condições que ofereceria à visita mais distinta, porque não imagino uma única razão pela qual as visitas devem ter melhor tratamento que eu próprio.
Gosto de ideia de jantar em casa com a mesma roupa que vestiria para um evento qualquer onde as outras pessoas usam a melhor roupa que têm.

Atente-se que não sou contra a bela pantufa e de um dia de preguiça no sofá. Um dia. Ou outro. Não uma vida.

Onde é que perdemos a capacidade de atirar o melhor de nós a todos os minutos dos dias que cruzamos?
É que os dias comuns, os da rotina, só são medíocres porque os alimentamos assim.

Se não é para mim não deveria ser para mais ninguém.
Parece egoísmo? Talvez não.

O que se faz deve ser determinado em primeiro lugar pelo carácter de quem age? Ou pelo bem que parece?

Então porque fazemos a festa e montamos o palco para quem vem se não tratamos assim quem está?
Corremos o risco de não ser mais que falsas marionetas de um efémero espectáculo de viver que se estalará como o mais reles verniz, ao primeiro toque de uma qualquer adversidade.

O arquétipo (eu sei que é abuso, mas desculpa lá, ó Jung) de varrer para debaixo do tapete poderia perfeitamente ter uma tradução parecida com esta.

domingo, dezembro 09, 2007

maybe a daylight away of any of you



"Dementia crawls down on you unnoticed and it always takes long to acknowledge it's there. The tougher you have built on the outside, the easiest it is for it to melt the inside away."

someone must have written so obvious statement...

sábado, novembro 17, 2007

gente perdida de mim


Reencontrei há dias gente amiga de quem me tinha afastado há já muito tempo. Mais até do que pensava. Tempo demais.
Viajava de carro e falava sobre outras coisas quando me fui apercebendo da falta que me fazia aquela outra gente de quem me fui afastando.

Relembrei-me e destroquei uma conversa simpática com aquele mais presente em tempos mais idos. Ainda hoje tem um semblante triste e melancólico e vive assolado por sentimentos tumultuosos e emoções que lhe continuam a castigar o corpo por quererem viver no limite. Conversámos sobretudo das saudades dos nossos encontros imperturbáveis e alheios ao mundo como alheio fui ficando à conversa que se ia desenrolando atrás e ao lado.

Da memória, visitou-me também aquele mais atrevido e assanhado até, que tanto prazer me dava quando tomava para si a pena e os anões. Perguntei-lhe pela vida e conta-me que teve saudades também. Saudades de me dar asas e colocar nos olhos as cores fortes e os aromas carregados que me atiravam até muito mais além do que eu faria sozinho. Contou-me que a vida sem ele não era a mesma coisa e pediu-me para não o mandar embora de novo. Viver sem ele seria mais triste, seria como viver quase só com o primeiro. E isso não era bom.
Ouvi, comovido pela falta que me assaltava, a ausência daquela parte de mim.

Assomou-se também o mais ausente. E chegou zangado. Ao contrário do seu espírito normalmente positivo e bem disposto, vinha danado. Danado porque quando há muito tempo tinha concordado em ser o menos presente, não lhe tinha passado pela cabeça ser tão esquecido, tão pouco lembrado e nada acarinhado como nos últimos meses da vida dele e da minha também. Parecia até o último, de tanto que resmungava e se irava, crítico de mim. Não o pude apaziguar, porque também eu, só podia concordar.
Falámos de quando nos poderíamos voltar a ver e prometi-lhe um sorriso para breve. Prometi-lhe um arco-íris sobre a minha vida para o deixar menos só. Mas não sei se vou conseguir cumprir a promessa tão cedo. E foi-se embora com a dúvida legítima de que passaria algum tempo antes de nos voltarmos a ver.

Não nos podemos afastar demais da nossa loucura. Fico pior…

segunda-feira, outubro 08, 2007

Yangon de hoje - em Myanmar

Desde que escrevi o post anterior que o meu destino de viagem tem sido badalado nas notícias pelas piores razões possíveis.
Não confesso a ninguém mas sinto o peito apertado de uma vontade louca de largar a correr de volta para colocar os braços à volta das crianças novas e mais velhas que me sorriram em Myanmar.
Como é fácil ver à distância o destino triste de um qualquer povo que não se conhece e como difícil se torna ver cair e ser violada uma forma de viver que se pauta pela suavidade e harmonia com os outros seres humanos, de que eu fiz parte.
Que fácil foi concerteza para a junta militar de Myanmar, há já algumas dezenas de anos, ter conseguido subjugar e dominar um povo que se preocupa mais com a sobrevivência do que com qualquer outro excesso e supérfluo luxo como o regime democrático do seu país.
É bonito dizer dizer “liberdade ou morte”, desde que a morte não seja à fome.

Mas até os mansos têm limites. As convicções que fizeram com que este povo se mantivesse ordeiro, sereno e pacato assentam na religião que praticam e no respeito pelos outros, sobretudo pelos monges e pelos mosteiros para onde enviam as crianças para aprender cultura e preceitos de humanidade, como me dizia um homem com quem falei. “Ali – dizia-me – os jovens aprendem a ler, a escrever, a matemática, as ciências, a palavra de Buda e, mais importante, aprendem que o respeito pelos outros deve ser uma prioridade absoluta.”
O conceito arrepia, de tanta falta que faz ao presente em que vivemos. Se o tivéssemos, seria como abrir uma grande barragem no Nilo para deixar alagar os campos que depois de carregados de fertilizantes naturais produziriam as melhores colheitas de gente.
Os militares de Myanmar terão criado um problema que só conseguirão resolver à custa de muito sangue e vítimas inocentes. Estes monges, apolíticos por natureza, reúnem a simpatia e carinho do povo que viu serem devastados os mosteiros onde aprendem as crianças.
Esta treta pode dar merda.

E muitas crianças podem ficar sem ter onde aprender a sorrir para os outros.

quinta-feira, setembro 06, 2007

ainda hoje consigo ver o rosto das crianças felizes

Fui de férias e deixei o meu blog sozinho.
É verdade.
Mas fui sem remorsos sabendo que, na volta, teria histórias giras para lhe contar que compensariam parte do abandono. E as expectativas não saíram goradas. As minhas, digo, porque as do blog abandonado… a ver vamos se gosta do que trago para lhe contar.

Há muitos anos que alimentava o sonho de poder viajar para um sítio que fosse suficientemente longe para eu me sentir novo, criança e aprendiz.
Não que não seja também aprendiz, ainda, no meu país. Mas já não sou inocente e despojado de intenções. A ingenuidade de quem não sabe, nem tenta adivinhar, como se vai desenrolar o filme da vida, perde-se cedo e, por esta altura, já não volta.
Não me interpretem mal, ainda há que não tente adivinhar o curso da vida. Mas as causas são outras: abandono, falta de vontade, desânimo ou até a opção consciente de que as alternativas e as ramificações das decisões dão tantas dores de cabeça que a opção avestruz acaba por ser eleita como a mais confortável e a menos penosa. Mas isto era outra conversa com sabor a deja vu já salpicado por outros posts aqui da chafarica.
Voltando atrás para não me perder.
Quando os anos passam perde-se e, para alguns, sente-se a falta, da ingenuidade do olhar das crianças que deixa ver despidas de preconceitos, as gentes.
O mesmo olhar que deixa ver sem cansaço ou preocupação, os sítios novos; para a gente pequena, uma boa novidade raramente é perturbada por um qualquer problema metafísico da vida.
É ainda o mesmo olhar que permite ver e receber as acções das pessoas sem lhes tentar adivinhar intenções nem sujar com supostas malícias ou cabalas que os adultos sonham que se constroem à sua volta em regime permanente.

Para poder olhar assim para o mundo tinha que ir para longe o suficiente e para perto de um povo com costumes bem diferentes dos nossos. E assim fiz. Foi um sonho antigo tornado realidade quando embarquei numa viagem de mais de 20 horas até aterrar em Yangon (ou Rangoon à inglesa). Daqui até Myanmar (ou a antiga Birmânia) foram duas escalas, três aviões, pr’á’í 6 filmes, muitas refeições de plástico e poucos momentos de sono. À chegada, a diferença horária era de +6h30m, eram perto 7 da manhã locais e a inevitabilidade de um jornada de 48 horas seguidas fazia-me pensar que já não tinha 20 anos e que havia de pagar o preço disto mais tarde ou mais cedo.
O bafo quente já se tinha feito sentir em Doha no Qatar, na última escala, onde habita uma autêntica Babilónia que inclui executivos ocidentais, malta de mochila em trânsito de ou para a Ásia/Médio Oriente e árabes que lavaram os pés no lavatório ao lado do meu, onde eu estava a lavar a cara.
Mas em Yangon estava mais fresco. Abafado, sim. Mas menos quente.
O guia marcou encontro para daí a duas horas começar a descoberta de um mundo novo e entretanto atirei-me a uma sesta que me iria deixar mais bêbado ao acordar do que ao adormecer.
Mas isso segue daqui a pouco.
Contarei o resto ao jeito de crónicas, senão teria que estender aqui um lençol de palavras e letras que mataria de cansaço o mais resistente.
Apenas posso dizer que se tem vontade de ficar mais tempo e mudar de vida. Não é por acaso que o budismo tem um efeito e charme tão poderoso sobre quem se cruza com esta forma de viver.

segunda-feira, agosto 13, 2007

pequeno tributo



Acordar devagar. Ainda as memórias ou, sobretudo, hoje.
Espreitadela para a rua pela frincha da janela para confirmar que o tempo não defraudou os planos de ontem, nem as expectativas. É que o dia acabou de chegar mas é esperado desde ontem.
O banho é um salto que podia ser de uma gata a começar a esticar as unhas e a ensaiar os movimentos para cá e para lá. Em casa vêem-se os cenários de um ensaio geral que as prepara para o teatro da vida desse dia.
Escolheram bem (ou não, e aí a coisa complica, mas isso, fica para outro dia) e sentem o prazer do deslizar de um vestido pela pele de seda. Ajeitam, completam e acessorizam, se bem que não se deviam chamar acessórios de tão importantes que são. Monet não deixou de pintar ao fundo a ponte por cima dos nenúfares. Não seria o mesmo quadro que hoje adoramos ver.
Se o cabelo está bem, está metade ganho, e não há como sentir a altura extra daqueles saltos para fazer subir o ego e a autoconfiança que aquelas pequenas tiras de couro entrançado fazem sentir.
De frente, de lado, e de costas. Não há como uma espreitadela mais ou menos rápida para confirmar os ângulos todos de que sabem que vão ser apreciadas. O espelho é cúmplice desse flirt passivo (ou não) inconfessado.
Sabem o que querem provocar e vão preparadas para isso. Raramente estão isentas de intenção, sejam elas quais forem. Nasceram para conquistar sem ser pela força e aperfeiçoaram-se tão bem que até dá gosto… e mais…

Imagino muitas vezes o criador a pensar, a pensar e a ter uma daquelas epifanias onde conclui: “Já sei! Vou criar uma coisa no início do dia, chamada manhã e, nessa altura, as mulheres vão sair de casa e conquistar o mundo enquanto o preenchem de charme e sensualidade.”
Só me resta dizer:
“E que bem lembrado sr. Criador. Que bem lembrado.“

Pesar



Deixem-no secar ao sol
Debaixo de uma pedra pesada
Onde as cobras fizeram os ninhos
Esquecidos pelo passado.

Façam cair a noite
E envolvam-no no ruído ensurdecedor
Que faz o silêncio à sua volta

Amarrem-lhe os braços
E arranquem-lhe as pontas dos dedos
Que usa para sentir e escrever

Levem para longe os sonhos
E encharquem-no de drogas
Capazes de fazer esquecer e substituir

Larguem-no no meio da multidão
Que corre apressada para sobreviver
E preencher de sobrevivência
Os dias vazios de tudo o resto

Substituam-me as partes que sentem e pensam mas não me submetam à vulgaridade de não preencher.
Arranquem-me o que quer que tenha de meu mas não me deixem à deriva nos pântanos pastosos do vazio dos desafios e do não querer chegar a lado nenhum.
Ofereçam-me a droga de que tenho tanto medo porque não quero mais sentir a ausência dos estímulos.
Não consigo aguentar não transpirar pelo olhar o desejo que sinto pelas pessoas e pelas ideias.
Deixem-me secar ao sol mas não me submetam à aridez de não ter água para beber.
Aticem-me como às feras para combates onde me exceda e morra de cada vez.

Sempre mais. Demais. Em excesso.

Percebo-os bem quando diziam querer morrer a lutar numa batalha onde elevassem o espírito guerreiro. Não queriam mais que cumprir a vocação com que nasceram ou que criaram e fizeram crescer. Preparavam-se e sentiam orgulho na perspectiva de morrer em excesso e em êxtase.
Trilhavam caminhos.
Tinham um propósito.
Sentiam a missão de viver a correr nas veias e viviam preenchidos pelo ponto de que não desviavam os olhos e onde sabiam que queriam chegar.

E quando morriam, morriam vivos. E completos, sem pena de partir.
Se eu viver, que não viva morto.

segunda-feira, agosto 06, 2007

não vale a pena

insistir em falar quando nos ouvem as palavras como falsas e os propósitos como excusos.

não vale a pena
sustentar o erro de acreditar, de cada vez, que afinal foi só um arremedo de um qualquer sentir esquisito que fez alguém correr atrás da própria sombra.

há pessoas assim, que se cruzam connosco. pessoas que não têm descanso nem paz porque os seus dias são povoados de suspeitas de conspirações e conluios maquiavélicos com maior ou menor premonição, mas sempre no propósito fixo e determinado de os prejudicar.

estas pessoas citarão com frequência sabedorias populares ancestrais como:
"a mim não me fazem o ninho atrás da orelha", "a mim não me apanham" ou a melhor "a mim não me comem por parvo".
é doloroso ver a insegurança levada a extremos que fazem assemelhar este comportamento à chico-espertice, quando afinal não é mais do que uma quase inaptidão para desenvolver uma sã convivência com os outros seres humanos.
perseguidos pelo sistema, pelos outros, pela má sorte, estão sempre em alerta excessivo e desmesurado, que os alheia do mundo e das coisas boas.

não os fazem de parvos, mas também não lhes fazem mais nada porque estão destinados a ser sós ou a partilhar a teoria da conspiração com um outro correlegionário com e de quem, invariavelmente, suspeitarão mutuamente até à exaustão.

conhecem alguém neste caminho?
então saiam da frente para não serem esmagados pelos trilhos de quem carrega as certezas sem volta.

quarta-feira, julho 25, 2007

... de uma música da Mafalda Veiga

-Se um dia deixar de ser perturbado, desmorona-se também a essência de mim-

"Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário"

Ter que viver e calar surdo,
não fosse alguém ouvir
e adivinhar que desconheço
o destino das gentes

"Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade"

Depois da luz dos dias
se apagar no breu seco
apresso o passo
para não perder o tempo
de fazer coisa nenhuma

"Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda"

Dizes que não
Aos olhos
Enfeitiçados de sangue
Pelas mãos
Que me perderam

"Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
para a receber daquilo que aumenta o coração"

Apagar será deixar de ser
Virar e já não ver
o andar que se fazia de costas
para não perder de vista
o rosto de Eurídice.

A vertigem de descidas
Com o pesar de não mais poder
E sentir o calor
Quando paravas
Nos lagos gelados
De um peito incrustado
Pelo sal
Das lágrimas que ficaram por chorar.

Os dias sucederam-se
Nos espaços
Preenchidos já pela memória
Do presente
Sempre menos que perfeito.

quinta-feira, julho 19, 2007

os cabrões dos amores perfeitos



Gostava de saber quem foi o idiota que resolveu chamar amor-perfeito à flor. Como se não estivesse já avisado, desde há muitas centenas de anos para cá, que os ingleses inventaram o termo: “Contradiction in terms”.
Pois ao abrigo da terminologia anglo-saxónica, a quem é preciso respeitar a anciã e provecta idade, não se podem/devem misturar palavras que, por estarem tão antagónicas em sentido, não faz sentido nenhum que estejam próximas no espaço.
Claro que há ainda a liberdade poética… e ao abrigo deste gigantesco chapéu vale tudo ou quase tudo.
É uma fraude, esta boa da liberdade poética, pelo desengano a que pode levar um qualquer distraído mortal ou outro qualquer visitante de uma galáxia distante. Se num país como os EUA se processam empresas por não terem colocado o rótulo a dizer que o gato não deverá ser colocado dentro de um micro-ondas, imaginem o que este avisado povo não teria feito ao energúmeno que inventou a expressão “amor-perfeito”.
Concerteza que teríamos a pena capital por morte na fogueira depois de arrancadas as unhas dos pés e mãos com um alicate de cortar ferro, para todos os que tivessem induzidos quaisquer outros sobre a perfeição do amor.
Nem o amor próprio está próximo da perfeição, quanto mais o “abnegado e altruísta” amor sentimental entre dois seres humanos. E a questão preocupa-me a partir daqui, porque enquanto bom português, aprendi a viver com o inevitável e essa história de lutar contra moinhos de vento está feita para os parvos dos quixotescos espanhóis, mais do que para nós.
Aborrece-me, é verdade, como se comprova pelos parágrafos anteriores, mas é só isso. Não há volta a dar e, além de um qualquer parvo juiz americano, mais ninguém vai crucificar ninguém por causa deste assunto.
É idiota, a expressão.
É ingénua e perigosa, a crença.
É exasperante, a nossa capacidade em procurar os gambuzinos da vida. Mas pronto.
Mas não deixa de me angustiar a fatalidade do bicho.

O busílis da coisa está no limite até onde deixamos resvalar a coisa.
É que a coberto de sabermos que “nunca pode ser perfeito”, escondidos atrás da irredutível muralha da “realidade das coisas” deixamos navegar o barco das relações sentimentais para pântanos cheios de lodo onde os remos já custam a entrar e a fazer progredir a casca de noz a que vamos chamando de barco de viver onde, extraordinariamente, equilibramos das formas mais inimagináveis os futuros de tantas pessoas.
Onde é a porra do limite que deveremos considerar aceitável? Até onde são apenas contingências inevitáveis e onde começam os desequilíbrios estruturais que comprometem as casas da vida nos katrinas do dia-a-dia?
É que o desgraçado não é perfeito, pois não, mas aproveita-se das nossas fraquezas, incertezas e desconhecimentos para se instalar como um parasita que encontra um canto para onde ninguém olha e depois… depois ficamos a depender mais da sorte do de outra coisa qualquer para não sermos atacados por uma qualquer infecção que exija a remoção de um qualquer membro… da família.
Alguém faz o favor de explicar como se identificam os pontos de fronteira a partir de onde saberemos que estamos em território estrangeiro, sujeitos a um qualquer ataque de milícias armadas do suficiente para nos destruir o ânimo e a força de sermos gente de convicções?
Já sei, agora não dá para explicar porque não há tempo…
Estas coisas não são directas e simples…
Faz parte da magia de viver…
O incerto tem sempre o mistério de não ser óbvio…

Foda-se! Mas tudo tem um tempo! Os disparates de ser jovem e inconsciente têm o tempo contado no período da vida da gente, porque se não estariam… fora de prazo!
Também a incerteza tem que ser controlada se não,…
Se não,… bom… Heráclito dizia que a única coisa constante da vida era o processo de mudança, e assim ficaríamos presos a esta incerteza como elemento de base na vida?
Desconfio. Não gosto. Recuso-me terminantemente.
A alternativa da imobilidade vai dar ao mesmo. Este tal de Heraclito tinha um arqui-rival, assim ao género dos super-heróis, que dizia em traços gerais que nada mudava… o mundo das sensações não era mais do que uma ilusão, que auto-alimentavamos.
Perturbador, mas muito verdade. É que o que fazemos, ansiamos e sentimos é talvez, maioritariamente gerado internamente e quase independente do alvo do nosso afecto.
Alimentamos e condicionamos, aos mesmo tempo, os sentires do amor, entre outros.
E por isso, é verdade, alguns tolos ( e talvez felizes? ) podem mesmo sentir essa treta dos amores perfeitos, enquanto outros, não se conseguem focar num só ponto mais próximo e esquecer o resto à volta, vivendo assim a inevitabildade de uma vida que não tem amores perfeitos.
Os limites são nossos. Decididos consoante a capacidade que temos de sofrer e apanhar porrada: os mais masoquistas e covardes e contingenciais, ficam mais tempo e aguentam mais merdas. Os outros arrancam para outras paragens quando não lhes agrada o agitar das águas do mar porque não estão para ficar enjoados.

Afinal, tudo depende do que nos dispusermos. Se quisermos, conseguimos gerar quaisquer sentimentos e viver em quaisquer situações, numa realidade que, de tão bem alimentada passa de virtual a real. Não gosto desta promiscuidade entre o falso e o real porque, em boa verdade, não saberemos talvez nunca o que é que é mesmo real…

Vi a foto do desgraçado do amor-perfeito e vim aqui parar… é tão fácil compreender a malta que consome drogas duras.


quarta-feira, julho 04, 2007

aniversário

Fez ontem 6 anos.

Eu estava sentado num restaurante a jantar, a receber um prémio de que lhe iria falar mais tarde. Seria uma boa notícia, como são todas as notícias de distinção de um neto.

Não terminei o jantar. Fui interrompido pelo telefone e nem suspeitei. Ainda pensei que seria um daqueles clientes que mais parecem amigos.
Mas não. Era o meu pai.
E nem aí, eu desconfiei.
Acho que, apesar de doente, tinha-me habituado a vê-la omnipresente. Nunca iria morrer, como nunca morrem, durante a nossa vida, as árvores grandes do nosso bairro. A não ser que as matem. Mas a esta, ninguém queria mal portanto estava salvaguardado. Era mesmo imortal.

Afinal não. A notícia foi curta e rápida "comme il faut".

Há 6 anos atrás fiquei orfão.
Mas parece que foi só a noite passada, de tão presente que está ainda a tua ausência.

quarta-feira, junho 06, 2007

Homenagem fúnebre

"There is something in it that craves on pain"

Ontem foi um dia mau.

Ontem foi um dia muito mau porque ficámos mais pobres. Faleceu o Andrew Lancastre.

O Andrew foi meu professor no IADE e foi a primeira pessoa a quem ouvi dizer com propriedade que o nosso sucesso, no marketing, começa no fim da linha. Começa no correcto entendimento do que são, do que gostam e precisam aqueles a quem nos dirigimos.
Era a 3ª licenciatura em que entrava e foi a única que terminei. A minha passagem pela faculdade foi mais um passeio simpático do que uma missão. Até chegar ali. Àquelas aulas de marketing.
Desafiaram-me.
Ele, começou por me desafiar a inteligência e despertou-me a sede de conquista que sobreviveu e deixou para último plano o esforço que eram as aulas à noite depois dos dias de trabalho.
Nos anos seguintes, houve outros que continuaram a estimular o que se viria a confirmar como um percurso feliz. Mas foi ele que começou por me arrancar do marasmo.

E devo-lhe isso. Devo-lhe o tiro de partida para uma corrida de sucesso.

Mais tarde, ao terminar a licenciatura, arranquei para o MBA. Desafiado outra vez, também por ele, e inspirado no percurso que o próprio Andrew tinha feito. Foi mais um passo difícil mas determinante para a minha vida presente, ter continuado, imediatamente após os 4 anos de licenciatura, a estudar à noite. Todos os dias, outra vez.

E devo-lhe também parte disso. Devo-lhe a inspiração e o exemplo.

Quando terminei o MBA, suspeitei que poderia gostar de ensinar. E fui ter com ele e disse-lhe que gostaria de poder ensinar na escola onde tinha estudado. Gostava de tentar entusiasmar os alunos como ele e outros tinham feito comigo. E ele, e com ele também outros, acreditou que eu poderia aprender a coisa de ensinar. E ofereceu-me uma cadeira difícil. Ofereceu-me uma que precisava de um esforço violento para se consegui dar em condições. E obrigou-me a perder as noites e a sofrer a angústia da dúvida de saber se conseguiria ou não ser capaz de ensinar.

E sabem que mais? Devo-lhe isso. Devo-lhe a oportunidade de ter descoberto um sentimento genuíno de vocação.
Devo-lhe a alegria que tenho quando percebo que lhes consegui chegar, que saem daquelas salas mais animados, com mais peso para se equilibrarem no que se lhes atravessar à frente no futuro próximo.
Devo-lhe o sentimento de procura incessante de melhorar, de chamar a mim a responsabilidade de corrigir o que não ainda está bem e o preenchimento de quando consigo.
Quantas pessoas iriam acreditar que eu poderia ser um bom professor? De certeza que não muitas, mas o Andrew acreditou e empurrou-me para a frente. Eu próprio não tenho as certezas de nada e já passaram tantos anos.
Caramba, e que grato que te estou, Andrew, que ainda hoje sinto que não tenho as palavras certas para te agradecer. Mas hoje também não é fácil, sabes? Hoje foi o teu funeral e este dia custou-me muito a passar.
Quando ouvir cair a terra ao longe em cima da tampa do teu caixão, rolaram-me dentro as lágrimas que me arderam e apertaram o peito no momento em que me assaltou mais forte a realidade da tua ausência.

Tive um amigo que disse um dia que o espírito de tubarão que tinha dentro de mim tinha sido equilibrado pelo alter ego missionário que o ensino me tinha oferecido.
Não tenho dúvidas de que hoje sou uma pessoa mais rica pela oportunidade que me proporcionaste. E ainda hoje sinto o mesmo espírito de missão dos primeiros dias. E espero poder hoje, ainda, continuar a fazer-te sentir bem com a decisão que tomaste, com a confiança que me ofereceste.

Já não era pouco mas, a seguir, excedeste-te e fizeste o que poucos fizeram por mim até hoje.

Houve um dia em que te disse que me tinha despedido da minha empresa, lembras-te? E perguntei-te se não tinhas mais aulas que eu pudesse dar para poder ganhar dinheiro. E, porra, que nem pestanejaste.
A quem o conheça (tenha conhecido), soará familiar, como a mim, como se te estivesse a ouvir hoje:
“Eh pá, isso resolve-se. Tu não te preocupes que isso resolve-se.” Ao jeito dele, com a calma dele, com a leveza com que fazia as coisas pesadas parecerem quase nada.
Passaste-me parte das aulas que tu davas para eu poder ficar com todas as turmas dessa cadeira e resolveste em minutos a minha subsistência durante um ano inteiro. É que esta coisa de ser teso e achar que não se está para aturar tretas e porcarias e depois despedirmo-nos, é muito bonito, mas depois… depois, meus amigos, se não tivesse havido o Andrew a coisa tinha piado mais fininho. Mas não. Tive sorte.
Foste desprendido e foste meu amigo.

E devo-te isso. Devo-te concerteza parte da minha alegria de viver desse ano, e devo-te principalmente a satisfação que senti por ter tido um amigo que, sem pedir nada em troca, me ajudou quando eu estava a precisar de coisas tão sérias.
Porra, pá, que nem hesitaste, nem precisaste de pensar. Resolve-se e já está.

Continuaste a lembrar-te de mim, quando precisaste de professores para a Pós-Graduação e eu voltei a ter que saltar para cima de um novo animal e puxar-lhe as crinas e agarrar-me às cordas para lhe domar o espírito e senti-lo no fim a correr-me debaixo dos pés, já a passo.
E fiquei novamente a dever-te a lembrança. E o desafio. Sabias que gosto e que vivo, também, para estas horas, em que as pessoas se excedem.

E, depois disto tudo, hoje, sinto-me pobre.
Sinto-me incompleto e custa-me que tenhas morrido.
Sempre te fui grato. Sempre reconheci o que fizeste por mim, mas fui cretino o suficiente para acreditar que o tempo que teria para te retribuir não iria acabar.
Não devias ter morrido, Andrew, porque não tive oportunidade de te retribuir o bem que me fizeste.

Deixei arrastar o tempo com preocupações idiotas em vez de ter estabelecido como prioridade absoluta que deveria ter, mais do reconhecido a tua ajuda, procurado formas de te ajudar. No que eu pudesse, ou no que tu pudesses precisar.
Fui cretino e egoísta porque fiquei à espera dessa oportunidade para te poder fazer sentir um pouco do bem que tu me fizeste sentir.
Estas coisas não se esperam. As dívidas não são para ser pagas quando nos reclamam que devemos, mas tão rápido quanto pudermos.
As dívidas humanas deveriam ter juros brutais e os departamentos de cobrança deveriam ser implacáveis para o egoísmo de quem não reconhece e não retribui, o que é merecido. Hoje, amigo, sou muito pobre, porque já não tenho forma de te pagar. E quem perde sou eu por ter deixado expirar o prazo.
Deixei passar os anos e afinal, antes de te poder retribuir, morreste-me.

Somos muitas vezes uma amostra triste dos seres humanos que poderíamos ser.

Tu para mim, foste um amigo, por tudo o que te devo. E agora… agora eu, e nós, estamos muito mais pobres.

sexta-feira, maio 25, 2007

desencontros forçados

















Ouve-se ao fundo a música que teima em tocar dentro de mim.
Percebe-se no ar que os temas não estão alinhados e a pistas teimam em rodar com as rotações erradas.

Ouvem-se sons que não se encontram contigo porque não os ouves.

São os sons surdos do silêncio que se instalou no ar que respiramos.
Pelo meio vão ficando as palavras por dizer e os sentimentos por partilhar. Os dedos afastam-se e os nós dos dedos já não se encontram como faziam há tanto tempo.

Se não ouvem a mesma música porque teimam em tentar dançar?
Percebe-se a ausência de harmonia e o sorriso,… o sorriso é mais piedade que cumplicidade.
O embaraço assola quem, à volta, sente o ridículo que lhes escapa.
Alheios ao desencontro, batem nas esquinas sem perceber porque não dançam os pés ao som da mesma música.

Surpreendidos um dia pelo colapso do ânimo e pela recusa do mundo em rodar ao contrário, perguntam pelo que correu mal e sentem que a injustiça os assaltou. E acham que foram mais uma vítima inocente do acaso munido da foice negra da morte dos planos.
Da morte dos projectos.
Da morte dos sonhos.
Do definhar da vontade
E da desistência do sentido e do propósito que achavam que deveria ter tido a vida.

Tudo culpa do mundo louco e das coincidências perdidas.

Quando se levantarem de manhã e não tiverem vontade de fazer,
Vontade de sorrir,
Vontade de querer
E sentirem o peso das coisas como se as carregassem há muito, estará concerteza na altura de perceber que o vosso mundo, esse maluco, está a ficar farto de rodar ao contrário.

Não é para esse lado, minha gente. É para o outro.
E não deixem que passe tempo demais.

Pode ficar tarde… para ser feliz.


quarta-feira, maio 23, 2007

desabafo de uma mulher moderna

aterrou-me na conta de email, sem eu saber quem foi o/a autora e fez-me sorrir.
Sem fazer - ainda - qualquer comentário ou juízos de valor, vale a pena ler até ao fim!
_____________________________________________
Monólogo de uma mulher moderna:

"São 5.30H da manhã, o despertador não pára de tocar e não tenho forças nem para atirá-lo contra a parede.
Estou acabada. Não quero ir trabalhar hoje.
Quero ficar em casa, a cozinhar, a ouvir música, a cantar, etc.
Se tivesse um cão levava-o a passear nos arredores. Tudo menos sair da cama, meter a primeira e ter de por o cérebro a funcionar. Gostava de saber quem foi a bruxa imbecil, a matriz das feministas que teve a ideia de reivindicar os direitos da mulher e porque o fez connosco que nascemos depois dela?
Estava tudo tão bem no tempo das nossas avós, elas passavam o dia todoa bordar, a trocar receitas com as suas amigas, ensinando-se mutuamente segredos de condimentos, truques, remédios caseiros, lendo bons livros das bibliotecas dos seus maridos, decorando a casa, podando árvores, plantando flores, recolhendo legumes das hortas eeducando os filhos.
A vida era um grande curso de artesãos, medicinas alternativas e de cozinha.

Depois ainda ficou melhor, tivemos os serviços, chegou o telefone, as telenovelas, a pílula, o centro comercial, o cartão de credito, a Internet! Quantas horas de paz a sós e de realização pessoal nos trouxe a tecnologia! Até que veio uma tipa, que pelos vistos não gostava do corpinho que tinha, para contaminar as outras rebeldes inconsequentes com ideias raras sobre "vamos conquistar o nosso espaço"
Que espaço?! Que caraças! Se já tínhamos a casa inteira, o bairro era nosso, o mundo a nossos pés!!!
Tínhamos o domínio completo dos nossos homens, eles dependiam de nós, para comer, vestirem-se e para parecerem bem à frente dos amigos e agora?
Onde é que eles estão???
Nosso espaço???!!!
Agora eles estão confundidos, não sabem que papel desempenham na sociedade, fogem de nós como o diabo da cruz.
Essa piada... , acabou por encher-nos de deveres. E o pior de tudo acabou lançando-nos no calabouço da solteirice crónica aguda!!!!
Antigamente os casamentos eram para sempre.
Porquê? Digam me porquê, um sexo que tinha tudo do melhor que só necessitava de ser frágil e deixar-se guiar pela vida começou a competir com os machos? A quem ocorreu tal ideia?
Vejam o tamanhão dos bíceps deles e vejam o tamanho dos nossos! Estava muito claro que isso não ia terminar bem.

Não aguento mais ser obrigada ao ritual diário de ser magra como uma escova, mas com as mamas e o rabo rijos, para o qual tenho que me matar no ginásio, ou de juntar dinheiro para fazer uma mamoplastia, uma lipo, ou implantes nas nádegas...
Além de morrer de fome, pôr hidratantes, anti-rugas, padecer do complexo do radiador velho a beber água a toda a hora e acima de tudo ter armas para não cair vencida pela velhice, maquilhar-me impecavelmente cada manha desde a cara ao decote, ter o cabelo impecável e não me atrasar com as madeixas, que os cabelos brancos são pior que a lepra, escolher bem a roupa, os sapatos e os acessórios, não vá não estar apresentável para a reunião do trabalho.

E não só, mas também ter que decidir que perfume combina com o meu humor, ter de sair a correr para ficar engarrafada no transito e ter que resolver metade das coisas pelo telemóvel, correr o risco de ser assaltada ou de morrer numa investida de um autocarro ou de uma mota, instalar-me todo o dia em frente ao PC, trabalhar como uma escrava, moderna claro está, com um telefone ao ouvido a resolver problemas uns atrás dos outros, que ainda por cima não são os meus problemas!!!
Tudo para sair com os olhos vermelhos - pelo monitor, porque para chorar de amor não há tempo! E olhem que tínhamos tudo resolvido, estamos a pagar o preço por estar sempre em forma, sem estrias, depiladas, sorridentes, perfumadas, unhas perfeitas, operadas, sem falar do currículo impecável, cheio de diplomas, de doutoramentos e especialidades, tornámo-nos super-mulheres mas continuamos a ganhar menos que eles e de todos os modos são eles que nos dão ordens!!!!

Que desastre!

Não seria muito melhor continuar a cozer numa cadeira??
Basta!!! Quero alguém que me abra a porta para que possa passar, que me puxe a cadeira quando me vou sentar, que mande flores, cartinhas com poesias,que me faça serenatas à janela!Se nós já sabíamos que tínhamos um cérebro e que o podíamos utilizar, para quê ter que demonstrá-lo a eles??
Ai meu Deus, são 6.10H, e tenho que levantar-me da cama...

Que fria está esta solitária e enorme cama!
Ahhhh...
Quero um maridinho que chegue do trabalho, que se sente ao sofá e me diga: Meu amor não me trazes um whisky por favor? ou: O que há para jantar? Porque descobri que é muito melhor servir-lhe um jantar caseiro do que atragantar-me com uma sanduíche e uma Coca-Cola light enquanto termino o trabalho que trouxe para casa.

Pensas que estou a ironizar ou a exagerar?
Não minhas queridas amigas, colegas inteligentes, realizadas, liberais.... e idiotas! Estou a falar muito seriamente: Abdico do meu posto de mulher moderna.

E digo mais: A maior prova da superioridade feminina era o facto de os homens esfalfarem-se a trabalhar para sustentar a nossa vida boa!
Agora somos iguais a eles!
Ai ai!!!
_____________________________________________________

Lindo de morrer.

segunda-feira, abril 02, 2007

sol das gentes

(o próprio, em NY)

dia de sol aberto.
esta luz e um ar em que se respira força de viver.
ao fundo, ao nível do chão, olhamos para cima para adivinhar o que se reflecte na superfície alta e espelhada.
mais que sentirmo-nos pequenos, sentimo-nos roubados por apenas ver a luz reflectida.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

soon

what if you feel as alone in the dark and quitness of a night as in your day to day live in the sun around people?
well,... you're probably fading away from yourself.

I heard it in a movie, just 30 minutes ago

"...getting old is the reward we get for the living we did..."

It had a tremendous impact on me. it really did.
I wish I have thought it by myself, but at least I’ll pay my respects to the one who did, and consider it.

And try to be worthy.
Of getting old, I mean.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

e se as mãos


pudessem acender o corpo de alguém e desvendar o encanto... e se pudessem entrar e viver dentro onde não haveria mais que o som doce de um violino que gemia de prazer com os amantes... e se as memórias desse tempo não chegarem para viver?

sentiu fugir a luz por entre os dedos e desvanecer a música que morreu com ele, devagar, e carregado de saudades.

as luzes

apaga-se debaixo do sal das lágrimas de quem não devia chorar.

partir


ouvi dizer a uma mulher que o altruísmo é a forma mais requintada de egoísmo. ainda hoje respeito o que aprendi e tenho utilizado esta expressão tantas vezes que chego a senti-la minha de tão verdade que é.
mas a coisa pode não bater certo ao deixar ir embora alguém contra o nosso benefício...
porque deixam afastar-se as pessoas durante tanto tempo até chegar ao ponto onde não há outra alternativa que não seja,... deixá-las partir... a pergunta é quase ofensiva.é como estar parado numa qualquer linha de comboio e ver aparecer ao longe aquele vulto gigante e agressivo em movimento.

há quem teime em não olhar de frente para o destino que se aproxima rapidamente. ignoram o barulho daquela buzina estridente que apita para sairem da linha, fazem de conta que não sentem estremecer o chão debaixo dos pés e viram-se até de costas para olhar para a frente, como se a vida pudesse ser salva a olhar na direcção oposta dos problemas. ouvem-se as rodas de encontro ao metal dos carris a consumir o resto do tempo. e não há quem os consiga mover ou sequer fazer olhar a morte de frente.
morrem sempre sem esperar e gastam os últimos momentos do tempo revoltados com a má sorte.
que surpresa
...

e se te chamasse tempo

Olhava para ti hoje com a saudade das memórias de ontem e a incerteza própria de amanhã. Acompanhava-te uma música triste onde um violoncelo gemesse baixinho um chamado por ti, que ninguém ouvia. Nem tu.
Perdia nisto uma eternidade a chamar baixinho para ninguém ouvir. Para quê? Para gastar a energia que me consome e assim ocupar distraído o tempo que me falta.
O teu tempo por mim tão depressa como as minhas mãos pelo corpo esguio de uma mulher que se perdeu num dia frio em que deixou uma dor queimada pelo gelo da ausência do teu calor.
Porque custa, pedi que me dessem remédios antigos e cobriram-me as feridas de emoções, para penar menos. Pelo tempo que já passou, parece que foi ontem que partiste de tão presente que sinto ainda cair os últimos restos da tua alegria.

É um adiamento que se faz, para não ver nem adivinhar a realidade brutal própria destas coisas: uma ferida aberta pode fazer perder um bocado da gente.

Engano maluco de pensar e acreditar no quão fácil vai ser viver sem um bocado de si, só porque… o tempo passou rápido demais. Escorregou-me das mãos a água que tentava guardar porque alguém me dizia que podia guardar o teu reflexo. E pensei que conseguia guardar também o teu tempo. Parado. Enquanto sorria e me reclinava no céu que ainda tinha em ti.

Vale a pena. Vale a pena. Vale a pena. Vale sempre a pena ouvir, ver, fazer e sentir nascer e até morrer a vida que se afasta de nós.
Ficam para trás os restos dos farrapos do tempo a que nos agarramos como se as memórias fossem ainda gente… mas vão-se embora bocados de nós que nunca mais voltam.

quinta-feira, janeiro 25, 2007

a música

acompanha o passos mais lentos que dou na vida.
de tão pequenos que têm sido, sinto a música calada e as pernas paradas. parece até que lhes falta uma pista para correrem entre outras num estouro que vacila entre o querer o vencer e a partilha de uma coisa qualquer de que se gosta.

saía suave, ao longe, com passos contidos, de natureza esquiva e tímida.
a melodia da música de viver é deliciosa como as cravinetas do campo: lindas e singelas aos olhos de quem pára para ver mais devagar.

sábado, janeiro 06, 2007

...


O que acontece a uma pessoa é característica dessa pessoa. Uma pessoa representa um modelo onde todas as peças se encaixam umas nas outras.
Uma a uma, à medida que a vida decorre, ocupam o seu lugar, de acordo com um desígnio pré destinado.
Carl Gustav Jung

...


“As minhas capacidades ou os meus talentos são muito restritos. Zero em ciências naturais; zero em matemática; zero em tudo o que é quantitativo. No entanto, o pouco que possuo, e que se reduz a pouca coisa, provavelmente foi muito intenso.”
Freud, 1926

sexta-feira, dezembro 22, 2006

memórias tolas


não há toque como o dos lábios nem loucura que se apodere de nós com mais força do que aquela que começa com um aroma carregado de sabor a desejo.

penumbra


É de manhã e o sol ainda não nasceu.
Pelo espaço que fica entre a 3ª e a 4ª pestana, espreitei para o relógio. Tinha chegado a hora se sair do espaço dos sonhos. Sonhos com ela. Invariavelmente, os sonhos eram com ela. Desfocados, como se fosse um filme sem orçamento,… mas o rosto parecia ser o dela…
A custo, lá se arrastou a carcaça para fora do espaço que ficou marcado pela presença daquele corpo na cama.

“Se falasse”, mas esta cama fala mesmo. Sobre a nossa vida: a minha e a da cama. Falamos de quem conhecemos, e de quem gostámos, de quem sentimos mais falta, e até de quem um ou outro não conhecemos; a conversa é fácil e o sorriso garantido… não posso desfazer-me desta cama, pensou baixinho enquanto sentia subir o frio do quarto pelos pés assentes no chão.

A passo, lento e pouco convicto, enfrentou mais um caminho pelo corredor sombrio e escuro – quase 14 metros de comprido – em direcção ao chuveiro. Está quase a fazer 2 anos – foi em Janeiro – que os banhos naquele chuveiro eram de água fria. Fria mesmo, sem nenhum calor por perto que não fossem os vapores decadentes da vodka da noite anterior.

Foi um tempo ordinário e banal, de tão comum que é o sentir solidão rodeado de um mundo de gente.
Por opção, por loucura, ou porque é mesmo assim, há sempre alturas em que ninguém empatiza ou adivinha o que sentimos ou pensamos. E é tão estupidamente corrente, que devia ser incluído na rotina. Não fosse esta insatisfação malvada que me consome a paciência.

Estamos acordados ou ainda a dormir?

sexta-feira, dezembro 15, 2006

natureza morta

Num esgar estúpido, foi-lhe arrancada a expressão tranquila e substituída por um semblante carregado de fel, com o sabor de uma espada de matador entalada na espinha.

Uma faena formidável. Uma virada de capote que deixou tonto… o tonto… e levantou a arena num ruído ensurdecedor de vitória.

Antes de entrar enquanto cabeceava contra as paredes, sentia-se oprimido e apertado num espaço que apenas lhe permitia estar quieto. Ansioso por liberdade, saiu em fúria, pela primeira frincha de luz que viu e arrancou à bruta a areia por debaixo dos cascos. No espaço aberto, com as mãos para dentro e um orgulho de rei, enfrentou a multidão, com a confiança de quem não tinha ainda sentido a derrota a trespassar os músculos retesados de uma força que julgava só sua.
Continuou a correr com a confiança de quem tem a seu favor o vento e a velocidade bruta de um animal selvagem. A primeira espinha sentiu-a ao de leve quando não conseguiu acertar no alvo que, com um pequeno movimento, se desviou determinado e contido, sem se assustar minimamente com aquela fera tão grande. A surpresa só foi superada pelo ferrão que sentiu espetarem-lhe com força, até ouvir o estalo que fez o ferro a partir pela bandeira.
Urros de dor.
Raiva de quem se sente enganado.
Fúria absurda.
E nova investida, para matar de vez o insecto que se atreveu a beliscar o brio do herói lá do bairro dele.
Mais rápido.
Mais forte.
Sem piedade e a antecipar o sabor do sangue da vítima na ponta dos cornos.

Os momentos de vazio foram preenchidos pela respiração suspensa dos que assistiam nas bancadas.

Na reunião dos corpos, as coisas não podiam ter sido piores. Fintado por uma simulação de mãos, atirou-se para um lado, enquanto descobria o outro flanco. Rápido e impiedoso, o alvo fez-se caçador e cravou-lhe fundo uma brasa ardente que feriu por dentro o animal e o marcou para o resto da curta vida que ainda teria.
Virou-se, empinou-se, reclamou pela falta de lisura e a angústia de ter sido enganado. Nos tempos dos cavaleiros combatia-se de frente e investia-se às cegas. Que merda de luta era esta?
Por cima daquele que se desviava e lhe enganava os olhos viu, pequeno mas brilhante, um homem com ar decidido e olhos vivos. Já os tinha visto antes, aos homens, mas não na arte de matar e não os sabia capaz disso.
Já não era o mesmo. Ferrado pela segunda vez, sentiu evadir-se a confiança e instalar-se-lhe a dúvida de vitória.
Passo directo para a morte, esta coisa da dúvida na vitória.

Encolheu-se por uns segundos e quis fugir mas não viu por onde. Viu avançar para si aquela que, no seu entender, deveria ter sido a vítima dessa noite e, desta vez, trazia agressividade a juntar à manha com que o enganara antes. Porque não tinha alternativa, respondeu ao desafio que lhe fizeram, já sem a coragem ou a convicção de antes na suspeita do mesmo resultado final. Não foi por ter sido pessimista, mas sofreu novo revés e sentiu mais uma vez rasgar-se-lhe a carne debaixo de um punção que feria mais de cada nova vez que o atacava. Já não se afastou, sentia, porque não conseguia pensar, que tinha que retorquir com o que pudesse. Enquanto estivesse de pé.
Foi a deixa de que precisava o pequeno homem de fato brilhante.
Infligiu-lhe uma derrota a seguir a outra e foi deixando a besta humilhada e cansada no campo de guerra. Com a língua de fora, pedia a misericórdia de um espaço aberto para fugir ou morrer.
Com as mãos para fora e o corpo caído lembrou-se, fugaz, de um tempo de prados verdes e vida sem morte.
Sem ter para onde ir, ora fugia ora fazia que perseguia de forma inglória quem não se deixava apanhar.
Ouvia ao longe os gritos surdos e loucos dos que torciam pelo homenzinho pequeno e o incentivavam a matar a besta.

A batalha nunca esteve por decidir. Só ele não sabia que ali estava para ser ferido, cansado e, por fim, morto.
Os animais selvagens não sabem prever e pensar e ponderar. Vivem a espumar ou a descansar e não sabem ocupar o espaço entre os extremos.
Confiante na chegada do fim e na capitulação tácita do vencido o pequeno homem iniciou a dança de vitória, debaixo do olhar, já inerte, da sombra do que tinha sido um bicho altivo.

A loucura faz parte da natureza. Todos os dias.
Enquanto, arrogante, de costas, triunfava em frente à multidão, o pequeno homem foi surpreendido pelo último suspiro de vida daquela massa gigante que o trespassou enquanto se confundia o sangue de um e do outro.

No fim, a noite foi de vitória para o público do circo:
um bilhete = dois corpos.

domingo, outubro 29, 2006

no name no number

sangrem o suor do rosto e arranquem a pele das mãos
mas vivam
estafem a alma a correr pelo corredor de dores que não conheciam
mas vivam
arranquem aos pulmões os gritos mais surdos que a voz aguentar
mas vivam
ouçam bater o coração descompassado cansado de rir e chorar
mas vivam
persigam sonhos impossíveis e agarrem as dificuldades à dentada
mas vivam

ousem, arrisquem, percam, ganhem, lutem, criem, derrubem, matem, perdoem, ou não e atirem para trás das costas o tempo que não vos acompanhar quando correrem como os loucos fariam pelas ravinas da vida abaixo.
e, se não sobreviverem, tiveram, ao menos, na boca algum sabor e a memória a escorrer pelos caninos assanhados enquanto o sangue se lhes injectava nos olhos perdidos de tanto não ver nada.
para muitos será um disparate, mas para os loucos será a única forma de viver e de morrer.

um dia, quando viver, vou querer morrer assim.

terça-feira, outubro 10, 2006

só volta quem pode sair


se agarrares o tempo à força verás que se debate tanto como o vento a quem não querem deixar sair de uma casa fechada.

é que não há melhores grilhões que a liberdade de ser independente e feliz.

porco espinho

se é verdade que começam devagar e com cuidado, estes loucos, com o passar do tempo, embarcam numa vertigem de saber e sentir onde só está quem teve o cuidado de experimentar e aprender.

conversar

é como abrir uma porta, é tão mais suave quanto menos força se fizer de cada lado.
haja apenas vontade de entrar.

segunda-feira, outubro 02, 2006

nascimento de um sentido novo

passou algum tempo e não me reconhecem já as letras de um novo teclado. e que falta me apercebo que me faz esta coisa de escrever!
com o tempo tomado até ao tutano e medula, sucumbi à preguiça de não me proporcionar um bom momento de escrita, assim ao jeito com que outros se proporcionam um bom momento de leitura. também se navega na imaginação e acorda-se em países e com gentes tão diferentes de onde partimos...


quando nos preenchem o tempo e nos enriquecem os sentidos, sejam os olhos, a boca ou o tacto, perdemo-nos para o sentido do re-sentir. e perdemo-nos porque lhe retiramos a importância que merece no nosso viver.
o re-sentir é tão ou mais importante do que os sentidos que nos impactam por fora. o re-sentir, ressoa por dentro os impactos mais superficiais dos nossos dias. do re-sentir fazem parte o saborear de uma água fresca e o invocar dos passeios na serra onde um dia nos debruçámos naquele riacho, porque tínhamos sede, faz parte o calor que invade a pele e nos amodorna o corpo e a alma e nos relembra a doce languidão de viver... fazem parte os aromas e as cores das flores que nos lembram gentes e sentimentos que nos encantaram a vida em tempos e nos ocupam o espaço que desejamos para o futuro.

o re-sentir é assim uma coisa incontornável para diferenciar as emocões que ecoam em viagens loucas, suaves, agressivas e doces dentro do peito.

e eu, quando escrevo, re-sinto a vida outra vez. agora, mais devagar apesar de, com mais sabor.

segunda-feira, agosto 07, 2006

como é que se pode


não ser um apreciador da natureza?

esta foto (e todas as outras, salvo indicação em contrário) não foi tirada por mim.
mas tinha que vir para aqui.
por todas as razões e mais uma.
e mai nada.

espiral


as palavras cansaram-se do silêncio triste
e fugiram das páginas do livro da minha vida.

e ficou o silêncio.
impenetrável,
crescente de força e agressividade,
e soberbo.
sobre o vazio que alimenta todos os dias.

5 de Julho 2001 - era de noite

disse Camões:

Aquela triste e leda madrugada,
Cheia toda de mágoa e de piedade,
Enquanto houver no mundo saudade,
Quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
Saía, dando ao mundo claridade,
Viu apartar-se duma outra vontade,
Que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
Que de uns e de outros olhos derivadas,
Se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela ouviu as palavras magoadas
Que puderam tornar o fogo frio,
E dar descanso às almas condenadas.

quinta-feira, agosto 03, 2006

paleta de viver

"sou capaz do melhor e do pior" dizia alguém atravessado num vão de vida debaixo de um degrau de madeira podre sustentado apenas pelo cuspo das formigas que o devassaram por dentro.

"imaginava as cores de uma paleta de pantones e via descorrer ao som dos meus dias, o que fiz, o que faço e o que poderia fazer. desfilava à minha frente a paleta da minha vida, e eu tinha memórias, ou sonhos, para todos os pantones".
"hoje, serão poucos os que ainda me faltam preencher; desde a loucura mais extravagante ao acto mais caridoso a passar pela abnegação mais estúpida e sofrida, quase que posso sentir: been there, done that."
"mas também tenho o oposto, também tenho cores nos pantones mais escuros. sei, e lembro-me, de tornados e furacões que me assolaram a alma e depois o corpo, e me atiraram contra gentes e pessoas com a força que derrubaria muros de betão. e fizeram mossas, estes golpes mais ou menos inesperados, carregados de fel, amargura, raiva ou fúria estúpida ou tristezas atrozes, ou até, tantas vezes, um caldo imenso com tudo isto a boiar, ao jeito de uma daquelas sopas de entulho".

"a parte nova, são os sonhos. a parte nova é também a consciência da violência de são capazes as gentes, sem mexer um dedo. e é tão fácil", diziam-me.

"uma paleta de vida preenchida de cores com que já pintei os meus dias, e outras com que desenho as telas de um imaginário que se vai entretecendo e crescendo com o passar dos anos."

contaram-me, baixinho, quase ao ouvido, esta história, que podia ser de qualquer um. corremos todos o espectro quase todo das possibilidades de ser, fazer, sentir e desejar. e é mesmo assim, que é gente humana.
haja apenas a consciência, ao menos intermitente, do que se quer e do que se acaba efectivamente por fazer.