sexta-feira, junho 30, 2006
foi um comment. hoje é uma mensagem de ânimo a uma amiga
assiste-te o direito de investir contra fronteiras determinadas em tempos que já ninguém se lembra e que continuam presas pelos arames estúpidos das convenções e da acomodação.
bendita inquietude que te vai permitir saborear a 300 os aromas das peles novas que se vão criando e caindo em ti, ao sabor de mais um dia que passa e que merece ser diferente, porra! porque têm que ser iguais os minutos entre si e as horas através dos meses?!
claro que não se vive sereno, é claro que a paz e a tranquilidade e a mantinha e os chinelos não fazem parte desse viver, mas alguém os chamou?! espero que não.
o conformismo e o ordinário nasceram e cresceram com o vulgar e o comum. não pertencem à loucura de ser diferente, de querer diferente, e de arriscar viver e saborear até faltarem as forças aos dias para acompanharem este andamento. temos pena!!
se fica gente pelo caminho, se ficam coisas por fazer, ou se se têm prazeres, alegrias e vitórias e batalhas diferentes, que outros não vêm e lhes custa a compreender... temos pena. temos pena. temos mesmo pena, porque se calhar era preferível não perder nada.
não haja ingenuidade na cabeça de ninguém: aos maiores riscos correspondem os sabores que gritam mais alto, mas também as dores mais surdas.e não há nada a fazer. e é um preço que é devido. e só vai a jogo quem quer.
se é consciente e ciente de tudo, então atira os cabelos para o lado, como só tu sabes fazer e sorri com a convicção de que não há nada nem ninguém para te parar. e qualquer alma que goste de fado, vai ficar orgulhosa de ti.
quinta-feira, junho 29, 2006
perder
O que é importante perder?
O que é importante não perder são os sentidos, porque sem os sentires, o resto é vão de sentido e cheio de significado absolutamente nenhum.
ao som de um piano e violinos que matam

E se não souberes o espaço
Que ocupa o meu peito em ti?
E se não te lembrares do tempo
Em que fui teu?
e se, para onde fugires de novo
te seguir a memória de uma recordação viva
que te preencha a carne
e te emprenhe o espírito
de um desejo que abafe a dor de não me veres?
Vais deixar de me querer?
Vou esquecer-me do que vivi
Entre os espaços perdidos
Nos passos em que morei em ti?
Já ninguém conta a ninguém
A arte de fazer e querer bem.
Já ninguém acredita que as pedras choram
Quando vêem passar um pássaro triste.
E perdem a esperança de sonhar
Enquanto assistem ao desfilar dos dias
Que passam ao lado do teu corpo
Que pede baixinho para se cumprir o destino
De ser todo meu.
E o tempo que não pára
Para respirar mais devagar
Ao som
Das músicas que gosto.
fade away
a vida não é justa, mas isso, tem sido anunciado amiúde.
perto do chão do espaço vazio
ocupado pelos restos de ti,
invento as histórias
que os meus sonhos
publicam a cores nos dias do meu viver.
embalado pelas memórias que não se apagam
acossado pelos minutos espaçados entre as horas do tempo que não passa
e a imensidão de segundos que já se passaram desde a última vez,
atiro para trás de mim os olhos tristes de um tempo que não é de ontem nem de hoje
e que, em boa verdade, não é de ninguém...
(work in progress... or not)
segunda-feira, junho 26, 2006
perturbador
a frase, li-a no vôo para Lisboa, quando acabei o livro que me ofereceu o João: "O sol dos Scorta" de Laurent Gaudé.
Caramba, que furacão de livro. Que loucura, que ritmo, que enredo... deixou-me um nó na garganta, o sacana do livro. e não é fácil.
a frase é do livro, mas também podia ser minha.
e é perturbador.
mas não é sempre mau.
sexta-feira, junho 23, 2006
away
com o corpo abandonado em cima dos papéis e assuntos que chamam e exigem mais atenção e tempo e oxigénio do meu respirar do que eu gostaria.
mas não foi, e não é, sempre assim.
desde há uma semana que passeio e trabalho numa cidade diferente. foi temporário. já estou de volta. daqui a poucas horas apanho o avião para Portugal. para casa, para a minha casa. sinto falta da minha casa.
tenho estado em Viena. a cidade é bonita. mas não me apaixona. é como aquelas mulheres muito certinhas que são interessantes de ver mas não arrebatam o espírito nem têm a loucura que tempera com sal a vida de gente como eu.
Viena é bonita mas, como eu dizia desde o 2º ou 3º dia, "isto, mais ou menos, está visto". E era mesmo assim. o ambiente repete-se, a arquitectura é bonita mas monótona, as pessoas não têm sangue quente nas veias.... espera, isto pode ser uma injustiça porque, aqui, as mulheres usam decotes até aos dedos dos pés e a maioria não usa suporte de mama. é verdade. nesse aspecto, a cidade é um desassossego constante. talvez seja o grito de socorro de uma multidão de austríacas que recorre ao ataque directo para despertar vida nos mortos e sonsos dos austríacos. wishfull thinking, i know. mas é uma história engraçada para desenvolver noutro dia.
daqui se vê a distância a que estamos desta gente civilizada e tranquila que diz "this is Viena, no stress" e espera ordeiramente na beira da estrada pelo bonequinho verde do semáforo dos peões, apesar de não se vislumbrarem carros num raio de kms. enfim,... costumes.
a surpresa veio claramente da arte e do museu Leopold. que maravilha!! que delícia que são os Klimt; os Schiele são brutais e divinais, especialmente se os perspectivarmos no tempo em que o artista os pintou, no final do séc. XIX. e os Kokoschka e os outros... não fosse esta ser ma raça de gente e artistas que parece desinibida como poucos. até no pintar. enfim, um banquete de iguarias que os olhos beberam sôfregos e a carteira tratou de completar quando perdeu a cabeça no departamento de posters da loja do museu.
mas foi bom, porque assim posso dizer: linda, afinal, a Viena dos artistas, terá sempre um final feliz.
ainda assim, não me passam, as saudades do meu país.
até já.
sexta-feira, maio 26, 2006
a rejeição
bem vistas as coisas, faz parte da nossa natureza humana não concordar com tudo o que se nos atravessa no caminho. então qual é o problema de ver chumbado um projecto, ver debatida uma ideia, ou até levar uma belíssima tampa?
devia ser zero, o problema, mas temos hoje chaise longues e sofás carregados de sulcos de corpos de gente que se debate com angústias que inventou num dia de chuva em que não podia sair de casa para arejar ou ir a um qualquer centro comercial sonhar com uma blusa nova ou uma sainha plissada... caricatura à parte... a verdade é que fomos desenvolvendo o estigma do porcelanismo chinês. e partimo-nos ao menor sopro.
que raça de gente é esta sobre quem se fizeram poemas como o V Império? descendentes de raças cruzadas entre viriatos rudes e mouras formosas e quentes, que já saboreou o sucesso, as vitórias, as derrotas, os terramotos e a loucura geral, e nunca deixou de se levantar com os olhos esgazeados de sangue a perseguir os últimos rastos de vida de inimigos a abater?
amaricámo-nos um bocado, deixem-me que vos diga...
não há outra forma de pôr a coisa (bom... quer dizer...)
o povo hoje não aguenta uma contrariedade sem ir a correr alimentar a grossa e fausta carteira de qualquer professor "karamba" mais ou menos diplomado por uma mais ou menos famosa escola especialista de cultos ocultos. ora gaita, mais a isto, que a gente que conheço do meu país merecia mais consideração e respeito pela garra e vontade do que este porcelanismo chinês pseudo moderno.
nhecs.
e double nhecs.
e sabem o que acontece a esta malta medrosa (quase que me enganava a escrever isto...)? este pessoal deixa de arriscar e de se lançar a jacto para a conquista de coisas novas e acomoda-se nas tais mantinhas que tanta volta me dão ao estômago! (arre, que quase me saem impropérios menos próprios...)
quem é que ensinou a esta gente que os joelhos esfolados fazem mal, e que partir a cabeça não é mais do que uma parte indispensável do processo de a construir e preparar para ser tremenda e forte e preparada para a briga da vida ?!
quem é qe ainda se atreve a desperdiçar tempo a dar palmadinhas nas costas de quem entalou um dedo na porta e nem sequer ficou com menos um coto?!
foi só uma entaladela, foi só um joelho, é só uma dor de cabeça!!!! não é preciso invocar o deus mais graúdo de um qualquer monte olimpo, porque também não se trata de um mal maior que põe em risco a humanidade.
em boa verdade, tal como os bebés, também os adultos aguentam muito mais do que aquilo que os próprios, e os outros, podem achar.
o que põe em risco a nossa raça, é esta choraminguisse pegada que afecta do mais delicado ao mais peludo. é que, mais tarde ou mais cedo, não vai haver quem nos ature.
meus caros, minhas caras, corremos o risco de entrar em vias de extinção por definhamento auto induzido, é o que é.
despeço-me com amizade e até ao nosso próximo programa (como dizia o saudoso).
quinta-feira, maio 18, 2006
segunda-feira, maio 15, 2006
play it again, sam
é só pôr cara alegre e empurrar mais uma folha do calendário.
quase a propósito uma piada interessante:
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ORAÇÃO DA MULHER
Querido Deus.
Até agora o meu dia foi bom:
* Não fiz fofocas,
* Não perdi a paciência,
* Não fui gananciosa, sarcástica, rabugenta, chata e nem irônica,
* Controlei o meu SPM,
* Não reclamei,
* Não praguejei,
* Não gritei,
* Não tive ataques de ciúmes,
* Não comi chocolate,
* Também não fiz débitos no meu cartão de crédito (nem do meu
marido) e nem passei cheques pré-datados.
Mas peço a tua protecção, Senhor, pois estou para me levantar da cama a qualquer momento ...
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sexta-feira, maio 12, 2006
distant mindbreath
o que sentirá a ponta de uma pena enquanto escorrega na pele macia de pontos que se unem com os dedos que percorrem a vida à volta dos braços doces que se entrelaçam nos meus enquanto se eriçam os poros arrepiados por não ter ninguém a quem contar a história de uma vida louca de prazeres complexos como o vinho que nos escorria dos lábios para dentro do calor de um corpo ardente de uma febre que já não sabia parar de aumentar.
se fechares o olhos e sonhares, sim, de olhos fechados, imagina o sabor da suavidade abandonada de um beijo que traz o fim dos sonhos suaves e das noites frias.
imagina que se espalha na praia do teu corpo uma onda de calor que te invade devagar...
e o resto é o tempo a fugir debaixo do bater descompassado do peito a abrir caminho entre o espaço artificial criado entre os corpos que clamam ter sido feitos para sentir o baque crescente de um prazer que as paredes não sabem conter e atiram pelo ar que cai sobre as cabeças que se fitam enquanto falam calados os lábios.
quem pode não querer dias assim?
porque se escreve?
o título não é feliz. conta uma história antiga numa ode nova a vidas de ontem, agarradas ao sabor do mil pedras dispostas em calçada ao longo de uma estrada sombria e gasta de passarem por lá as peças de teatro, feitas do sal que, com a suavidade de uma dor aguda vai fechando o espaço em volta da aura triste de uma noite cansada.
não sei escrever nem como explicar o porquê de coisas simples que avançam lentamente para dentro de mim com o doce estandarte de horizontes que não posso explicar a ninguém. vive-se a vida em surdina para não acordar o inconscinte que, de quando em quando, ousa e adivinha paços de um palácio que descobre, por debaixo do verde carregado de simplicidade e vida de uma arte simples mas nova de delicada.
cartas que nunca escreverei.
absurdos e gritos que nunca atirarei para o ar leve e solto que entraria pela janela do mar adentro, enquanto dormisse.
vidas que nunca ligarei entre si com os efeitos redondos de um caracol que desce em espiral até um centro que mais ninguém sabe onde fica. não é tanto o futuro que faz falta, é a ausência de presente próximo, tão próximo que fica entre aqui e já ali à frente.
travam-se batalhas tremendas dentro de uma guerra com fim anunciado? não sei o que é isso, de fins anunciados, tantas foram as vezes que os fiz e desfiz no percurso aparentemente breve das minhas horas de que ninguém sabe nada.
guardo para aqui as partes amargas na certeza de que não me conhecerão assim; aqui ficarão soltos os fantasmas e as histórias por contar, dentro de palavras imperceptíveis e frases sem nexo. vão viver juntos aqui e sorrir para ninguém, enquanto as lembranças me povoarem o espírito de não mais querer estar assim. fogem e recuam enquanto se desviam de quem se passeia nas horas tranquilas de uma manhã que não vai ter o mesmo sol e o mesmo sabor a madrugadas salgadas.
há muitos anos prometeram-me amarrar um barco ao pé de mim para poder sair de entre as portas da terra firme e largar por aí descompassado mas feliz por não ficar inerte como as plantas que esperam o vento para poderem mexer folhas que viram e adivinharam o peito de um sorriso feliz.
são longos os dias que precedem as noites cansadas de esperar por uma luz mais fraca e azul de reflexos de um mar onde o verde da água limpa e transparente se mistura no castanho da terra revolta povoada por gente de dedos esguios como faziam crer os filmes de gente que vinha de outro lado.
não acreditam na natureza e fazem das palavras as mentiras que nunca viveram, não reflectem a fé nas máres nos olhos molhados pelo rubor de uma inspiração que já não existia há muito. e precipita-se a lua para dentro de um mar salgado pelas lágrimas de angústias e memórias que nunca trago nas horas amenas.
se a loucura fosse uma opção, escolhia-te já, para não sentir os dias de alvor seco e o restolho das searas que morreram do sol que abrasa decidido o campo onde vive ninguém.
gosto de música. e sei que se receiam orquestras gigantes de cordas, metais, sopros e tantos tantos tambores. ver da plateia... nunca... nunca... prefiro estar dentro e sentir a fúria de uma natureza estranha que canta em harmonia e com a violência de uma beleza atroz e arrepiante... nunca da plateia... prefiro aprender ou morrer a tentar perceber o que faz lindo um trapo composto de nada com cores que não vivem sozinhas sem a música que toca e assoma aos ouvidos de gente com medo dos estilhaços, parada ao longe, separada pelo fosso que os protege do avançar impiedoso das emoções para dentro das convicções do viver...
ouvem-se ao longe as cordas de um corpo que vibra de medo por não ter presente próximo... e o futuro foi já ali à frente e volta mais tarde em cacos ou peças pequenas de um puzzle de lamentos de felicidade.
quinta-feira, maio 11, 2006
todos os dias se morre devagar

mas de vez em quando assalta-nos a vida a malvada da morte que teima em arrastar pessoas de quem gostamos e destruir por muito tempo as felicidades ainda mal sustentadas em cima de pequenas paliçadas tímidas e capazes de imaginar em sonhos soltos de olhos abertos um futuro feliz.
eu vi os olhos dela e a imaginação a passear por tempo de sol.
e, de repente, com a brutalidade de um soco nos olhos e um pontapé nas costas, arrancaram o tempo de viver a uma gente amiga quando atiraram raios de fogo para o peito de um bom fulano que tinha o coração doce por gostar de viver. viver com ela.
não se poderá arrumar e repartir a força do coração para amar sem pagar por isso o preço do corpo que sucumbe? egoísta de merda, o corpo da gente, em tanta coisa e também nesta.
não há lágrimas que se possam derramar para outra coisa que não seja fazer da água à sua volta aquele elemento que ameniza as temperaturas absurdas e tempestades horríveis por que deve estar a passar esta amiga.
se a proximidade valer o conforto dos ombros gigantes que tenho, não te preocupes com o sofrer. eu apanho um pouco do teu, e fica comigo até o afastar de ti.
porque as homenagens se fazem por carinho, por mérito absoluto, por solidariedade, e por uma imensidão de coisas, e por tudo isto junto, este post é em memória de pessoas boas, sempre vivas no que de mais precioso temos: o tempo. seja ele um tempo real e presente ou antes um tempo de memórias tão vivas como os dias que escorrem incertos e tantas vezes com menos valor.
mais novo que eu. humano, sincero e um sorriso franco que lembro com facilidade. e boa gente. logo este, entre tanta merda que havia para dispensar.
Para o Rui e para a Vanessa, com carinho, ainda no calor do assalto estúpido das notícias.
quarta-feira, maio 10, 2006
a caminho de lugar nenhum
(person at the window, by salvador dali)E se fechasse os olhos? O que imaginava?
Não posso fechar os olhos.
Prefiro sonhar acordado.
Porquê?
É fácil de explicar: deixar correr o pensar e o imaginar pelo espaço de uma tela vazia, permite pintar a obra mais louca que queiramos e chegar a destinos virgens de qualquer contacto e contaminação pelo real. Isso, é verdade. Sonhar de olhos fechados não tem limites, mas também não faz ligação à pele de quem sonha, a partir do momento em que acorda. O desfasamento com o real é tão grande que se desvanece no ar da primeira luz que nos entra nos olhos. Fica uma memória vaga, um aroma de fundo, difícil de recordar e mais ainda, de saborear.
Sonhar de olhos abertos é um exercício de quase dissociação de ser, estar e sentir. Significa que imaginamos uma realidade alternativa com os olhos postos na vida de hoje que agarraríamos ao colo e roubávamos para um descampado livre onde, em transe de loucura, nos entregávamos ao desejo de lhe fazer nascer um filho novo. A realidade, essa mulher roubada e arrebatada, resistiria como convém a quem é arrastada para longe do sua normalidade, até sentir o calor de um querer diferente, que arde no peito quem quer e queima a pele de quem sentir tão perto o impacto capaz de derrubar couraçadas de uma qualquer samurai mais artilhado.
(the ship by salvador dali)Quando se desprendem dos olhos estas imagens para se irem colar ao mundo presente, perdemos também um pouco de contacto com o que é possível e é normal que as estribeiras societais se desprendam do lodo onde estavam amarradas. E largam por mar adentro, a realidade e as imagens novas.
Sonhar acordado implica atirar formas e sabores novos para uma tela que já é. Enquanto navegam a rédea solta, estas gentes vão matando a sede de inspiração nas imagens criadas que vão adaptando a uma qualquer vida real que fazem por alterar. Ou até não.
Por não adormecerem, vão testemunhar na primeira pessoa os arrepios reais dos sentires que sopram de um qualquer mastro erguido a desfraldar a bandeira de uma independência nova. Países houve que se criaram de quereres assim. Gente houve que morreu pela viagem de um sonho louco.
É outro que escreve. Cerrados os dentes, agride o ar que atravessa com os olhos até chegarem ao sonho que ousou levantar a custo, de uma enxerga dormente onde jazia moribundo.
Que ganha, quem sonha acordado? Garantidamente, ganha mais penar, por sentir perto o que pode nunca chegar, ganha em desilusão por ver que as miragens podem não ser mais do que areia de um qualquer deserto árido e escaldante.
Mas também ganham. Ganham o prazer absurdo, louco e incontido de levar a alma para lá das portas do razoável e humano, enquanto seguram cimatarras nos dentes e desbravam lugares escondidos dos olhos dos outros.
E, porque estavam acordados, vão lembrar-se a vida toda. E conseguir invocar os sentires quase sempre que queiram.

(reminiscence archeologique de l'angelus by salvador dali)
E perguntem-me, como vivem felizes estas gentes?
Confesso que nem sei se é possível...
Viverão de memórias e, como se pode imaginar, optarão provavelmente por continuar a sonhar acordados.
perdi...

...a conta ao aroma de inverno que se afasta enquanto chega o tempo de verão.
o ontem funde-se com os tempos que estão e seguem, e deixam mais próxima a languidez do tempo de praia.
arrasto os olhos de forma descarada, como é hábito, e fixam-se por onde passam os minutos do meu tempo.
voltou um tempo de outro heterónimo.
renasceu de entre as lutas titânicas pelo domínio das letras que escorrem das pestanas molhadas, pelo sal do mar. e fica até lhe apetecer, comme d'habitude.
travam-se batalhas de silêncio pelo posse dos sons mais pesados e dos gritos mais altos e não há maneira de declarar vencedores nem vencidos. arrastam-se feridos para mais uma injecção de qualquer droga mortal que os permite voltar a cruzar os ferros e agarrar os punhos com vontade de vencer uma guerra que não tem fim.
esgrime-se com arte enquanto se mata com crueldade a natureza social das coisas do mundo.
e vê-se caminhar, indiferente ao tempo e à angústia do prazer de querer, entre os despojos de um mundo assustadoramente novo.
só vale a pena viver com o sangue nas veias.
quinta-feira, maio 04, 2006
welcome
foggy times

E se o dormir for uma condenação de alheamento temporário, porque não merecemos contemplar o que quer que seja durante algum tempo?
…faz sentido?... não. But then again, é só mais uma loucura.
Ou talvez nem tanto.
O certo é que é insultuoso o tempo que se passa sem fazer nada e a aproveitar coisa nenhuma porque,… estamos a dormir.
É como se de um mau período da vida, se tratasse, que se repete todos os dias a partir da hora de deitar. Até os sonhos desempenham o seu papel alucinado e triste ou estupidamente feliz, por não fazer parte das coisas reais.
Como nos momentos maus, estamos num estado latente, onde a vida não avança, antes pelo contrário, e o melhor que se pode fazer é desejar que passe depressa. E que não nos pese o tempo morto.
E se o dormir for um pequeno vírus, muito virulento, muito peganhento, que se agarra a uma pessoa e lhe vai minando as defesas de viver com vontade, até se transformar numa qualquer lagarta que se arrasta pelas folhas da couve, quando ainda há poucos dias era uma borboleta de cores e asas de arrasar o mundo. Esta podia perfeitamente ser a gripe das aves dos tempos modernos. A involução das gentes, para dentro dos casulos para perto de onde nunca deveriam ter voltado. De fácil mutação e propagação mortal entre os humanos. Os que sobrevivam, ficaram tolos demais para atirar um sorriso ao futuro que se foi embora na camioneta das 5.
Já fomos heróis das nossas próprias vidas, num ou noutros dias mais felizes mas hoje assistimos ao despertar de crisálidas que nunca vão ganhar o céu do sol, e da chuva e das estrelas, e das trovoadas e das auroras boreais e dos perigos e belezas da natureza, porque algures no tempo, optaram por começar a viver paradas nas couves e ervas de que se alimentavam de forma fácil e sem esforço. Enquanto engordavam, acomodadas à abundância e ao sabor do que não tinham que ganhar, foram dormindo umas sestas na hora do calor, para passar melhor o tempo até chegar hora de comer outra vez. Deixaram de procurar variar e levar os olhos até mais longe do que aquele caule incrustado de calos rugosos, com quem se começaram a identificar e a fazer parte da família… daquela gente só e triste que se preocupa com o que está perto e já não olha para os dias. É como se fossem noites sem qualquer luz e respirar sem oxigénio nos pulmões.
A fuligem da chaminé por onde ressonam ribomba no peito de quem não tem a natureza apodrecida pela preguiça e pela porcaria de não ter outra elegância além de um qualquer cobertor que lhes tapa as orelhas frias.
O gelo, que sobrevive e cresce na inactividade, agradece, e convida a ficar… e dormir mais um pouco.
Já agora… talvez não valha a pena acordar. Why bother?
quinta-feira, abril 27, 2006
distant
missplaced nonsense

É esguia.
Tem formas redondas e a elegância de quem sabe estar e receber os olhos de quem passa.
Usa o vermelho como poucas.
É transparente se, de perto, não deixarem os olhos assentar em menos do que mesmo em cima dela e, talvez também por isso, servem-se dela com o respeito e a sofreguidão simultâneas, de quem tem a sede para matar.
Inebria-te os sentidos enquanto desliza o seu corpo frio e te aquece o olhar. E soltam-se os sentires antigos que deslizam por cima dos novos.
Espera-me à noite, deitada e lânguida.
Mas não chama por mim.
A passividade com que me encara revolta-me pela ausência de desejo que respeite o calibre do meu. Não respeita os meus quereres… bem vistas as coisas, não respeita nada nem ninguém.
É indiferente a absolutamente tudo… ou até absolutamente indiferente a quase todos.
Não é minha. Já foi de todos e não conheço ninguém que, querendo, a não tenha tido. Promíscua por natureza ou por opção, mas se ninguém perguntar, com sorte, também ninguém responderá. Só não se sabe de quem será amanhã. A incerteza da volúpia de ser querida é tremenda.
Gosta de ver os efeitos que me desperta, mas não dá nada de si que lhe não seja arrancado, e atirada para uma qualquer mistura, ou então não… se tivermos coragem, despimos tudo e escorrega… só, assim… pura...
E abrasa por dentro, enquanto a imaginação é assaltada por monstros e viagens de ilusões que não têm princípio nem fim.
Chama-se Stolichnaya. É vodka. E habita no frio da minha vida.
segunda-feira, abril 17, 2006
em discurso indirecto

devagarinho
deixei cair o cabelo para a minha frente
apaguei a alegria e substitui-a pelos olhos fechados
pelo cansaço dos dias
e pelos sonos retemperadores que tanta falta me faziam.
devagarinho,
deixei sair de fininho as emoções que me arrebatavam,
e também aos outros
e faziam invencível e doce
o meu querer de viver.
aos poucos, entreguei o piano virtuoso e apaixonado
e deixei-me soterrar,
pelo calor morno das temperaturas tépidas,
e esqueci-me do que eram águas frias e quentes.
deixei crescer junto de mim
um mundo indolente
sem o sentir que apaixona
sem a violência do querer
e sem a alma da entrega do último dia da minha vida.
deixei-te sair de fininho
pela porta que nem sonhava aberta
enquanto me deliciava na aparente tranquilidade
de um prometeu agrilhoado...
já não me deixarei dormir,
já não posso ter só os olhos abertos
e não vou ficar só com as memórias
de um dia enorme que preencheste de noites
carregadas de vigílias amargas
e derrotas sangrentas.
recupero ainda o saber
e o sentir se tornar a dar
o que era teu de direito?...
diz-me tu
e, ao acordar, levantou-se o vento na rua e arrastou para longe as folhas mortas caídas das árvores cansadas.
terça-feira, março 14, 2006
compromissos
e não há eufemismo que lhe valha.
Ninguém pode ser efectivamente feliz, se viver em regime de "compromisso" permanente. Sabem o que é? É aquele meio termo, aquele entendimento civilizado de sã e salutar convivência entre duas pessoas. Deixem-me lembrar, para quem ainda não está a ver: é aquilo que fazemos a pensar que salvaguarda alguma parte de nós, quando afinal nos anula em todas as frentes.
Radical? Nem por isso.
Se quiseres muito, se gostares ainda mais e os desejos do que quer que seja transbordem por ti afora, que satisfação podes conseguir, se fizeres METADE(!) do que querias?
Se pensam em responder "metade da satisfação", desenganem-se. A acumulação de insatisfação, quando estamos tão perto de fazer exactamente aquilo que gostaríamos, é desgastante. Corrói devagar, e vai apagando o brilho dos olhos.
As negociações foram feitas para as empresas e outras entidades abstractas que não sentem. Só essas não têm pena do que perderam, ao ficarem a 50% do objectivo em regime de trade-off por outra coisa qualquer. As pessoas, remoem. Anseiam, e vão acumulando o desejo, numa folha de créditos por saldar, que não faz bem a ninguém.
Os compromissos não devem ser banidos da vida de ninguém, entenda-se. Mas não podem preencher os dias. É como se nos contentássemos com uma pequena mantinha que nos amodorna o corpo. Não é quente, mas consola um bocadinho... Não satisfaz, mas também não é nenhuma lareira a crepitar de satisfação. É... um compromisso possível...
Criticar é fácil, não é?... Mas pode ser que haja um vislumbre de solução, lá longe, ou mais perto, quanto menor ou maior for a audácia de fazer diferente.
Então e se, em vez de entrarmos no compromissozinho de merda, a toda a hora, experimentarem deixar acontecer até ao limite máximo, aqueles gostos, desejos ou loucuras de quem gostamos, queremos bem ou até, só convivemos? E se se optar pela tolerância?
Imaginar a satisfação e o prazer de ter, no rosto e estar daqueles a quem queremos, é... delicioso. to say the least... trust me.
Podemos optar por tolerar coisas de que não gostamos, mas que são realmente importantes? Claro que sim. E ninguém morre por isso.
É mil vezes preferível fazer algumas coisas de que gosto muito, do que imensas, de que não gosto particularmente e me são apenas,... neutrais.
Esta coisa de ser humano e ter alguém a que se quer, é mesmo assim: uns dias sofre-se um bocado, e noutros vai-se ao céu. Várias vezes, se possível :-)
Não se fiquem pelo "assim, assim...".
E dêm tudo o que podem, gostem mais, ou menos, ou até nada, a quem esteja disposto a vos dar também. E rasguem os dias ao acordar com aqueles sorrisos de que se constroem lendas.
sexta-feira, março 10, 2006
ó gente da minha terra

agora é que eu percebi
esta tristeza que trago
foi de vós que a recebi.
começa assim um fado da Mariza, que ecoa dentro dos tímpanos enquanto pára o peito de bater em homenagem à voz e ao sentimento que a malvada da mulher atira para as palavras que canta.
Deu passagem a um passo descompassado em passeio desarticulado: não era mais ninguém que não os próprios pés e pernas que empurravam o ânimo para mais um pouco de ar negro.
Ouvia ao fundo os velhos, naquela sala vazia, cheia de computadores à espera. À espera de quem pudesse, por necessidade ou piedade, dar uso ao que de melhor tinham e poderiam fazer.
que triste sina não deverá ser sentir o poder de fazer e não ter o espaço, o tempo, a oportunidade e as gentes que saibam, queiram ou aceitem fazer cumprir o que rasga, de dentro, a pele que se veste.
quanto mais se aproximam do destino, mais se ouve o rirombar seco que atira contra a jaula o fogo de um animal selvagem prestes a soltar-se.
se de longe se consegue controlar a fome por ausência de ter o que comer, experimenta atirar essa turba em fúria para um campo de cereais virgens. rapidamente se despedaçam as camisas do milho e se acendem as fogueiras, enquanto, em tensão, esperam pelo concretizar de um destino a que não podem fugir, os entumescidos grãos de milho.
experimenta dizer a uma turba de gente esfomeada que sente já escorrer nos lábios a saliva, que não podem comer. levanta-se em armas o próprio inferno, que não conhecia o imenso calor que tinha guardado.
não cabe já nas fronteiras feitas em tempo originais para as coisas primeiras, e sentem-se romper os diques artificiais que montaram para segurar naturezas prenhes de vida que sentem mais perto o aroma das cores quentes e o sabor do prazer.
semicerram-se o olhos enquanto tomamos o gosto ao que seguramos nos dentes, como que a dizer que queremos dar exclusividade ao sentir dos sabores. de tão perto, misturam-se as essências da presa e dos caçadores enquanto se constroem vidas novas e misturam os fados. ouve-se gemer baixinho cada vez mais perto, até se tornar ensurdecedor o prazer de matar a fome de comer...
fosse a fome gente: comía-nos vivos.
segunda-feira, março 06, 2006
fora de casa e atacado

Por uma insónia inoportuna. Amanhã de tarde começa a reunião e eu quero levantar-me cedo para ir sentir o aroma do dedo divino e ver a basílica, já agora.
Aterrei num país diferente. Os homens falam sem sorrir e as mulheres têm fogo no corpo: andam e vestem para matar.
Se embrulharmos tudo isto em pedra que, de tão antiga, ganhou o direito de falar connosco e invocar memórias para os visitantes de quem mais gosta. Tive sorte. Com as pedras, não com as mulheres.
Ouvem-me chegar e segredam-me histórias loucas onde a realidade se mistura com os sonhos que foram tendo ao longo dos séculos e me confidenciam enquanto salto de uma para outra. Aqui ninguém me chateia se saltar para cima de qualquer coisa para ver melhor, ou só porque me apetece. Sinto que aqui, se fabricam menos rédeas de pudor ou do correcto. Gosto disto.
Dizia-me um amigo ao telefone, enquanto eu interrompia a visita ao palácio com a cripta das cinzas de Adriano (eu não sabia que o fulano tinha sido cremado!), “isso tem muitas pedras!” Quase my friend. Quase. É bem verdade que aqui, se uma criança sair para arua com uma daquelas pázinhas para a praia, descobre mais um calhau avô dos outros.
Adoro a cavaqueira louca que se instala quando a minha loucura se funde nas rugosidades daquelas paredes quase libidinosas… Vejo as formas e sinto prazer do cinzel enquanto formava, e do artista à medida que se desvendava o que lhe passava dosentir para as mãos. Minha nossa! Se já sem motor de arranque, estes olhos disparam sozinhos para outros mundos… aqui… arrepiam-se-me os pêlos, prende-se a voz, para não sair embargada com a comoção dos edíficios,… da arte… e das pessoas que por aqui fruem o aroma de viver com querer. Muito bom.
Podia viver aqui e sonhar acordado todos os dias. Podia povoar o espaço com guerreiros de conquistas loucas e glórias sem par, enquanto voltavam para as virgens vestais à espera de mais uma orgia desregrada. Podia viver aqui. Naquele tempo.
Ouço água em cada esquina e vejo a arte feita de tudo o que possamos imaginar: portas, telhados, paredes, varandas, balcões de ópera virados para a rua, a espreitar quem passa…
Sinto sempre medíocres quaisquer palavras que possam dizer os guias dos grupos de turistas a quem me vou alapando para ouvir mais uma história, numa língua diferente. Aliás, já desisti dos alemães. Aquilo é uma autêntica língua de trapos e não se percebe nada. Aos outros, lá vou acompanhando pela cidade, a quem vou também fazendo perguntas com o direito justo de quem não pagou para ouvir. Mingle my dear, mingle. E eu… tá bem! Por falar nisso, não há burgessos como os americanos. Que gente insensível e bruta. Percebo agora porque é que o sr Bush lá vai ganhando eleições.
Outras vezes, corro sozinho, as vielas e as Vias cá do sítio até chegar a mais um monte de pedras em forma de arte sacra ou pagã, conforme a antiguidade. Os aglomerados de gente a não fazer nenhum, são formidáveis. E são indígenas, não um qualquer bando de japoneses estacionados à espera de ordem de marcha para o próximo ponto – destes, também tenho visto muitos.
Escadarias, bruscetas (humm...) e lojas por todo o lado, sem um único arranha céus ou prédio fora da mãe, no perímetro da cidade. Está suja de fuligem, e tem o pó vermelho do estuque pintado a soltar-se, mas é mágica a filha da mãe da cidade.
Esta gente é orgulhosa e eu percebo porquê. Quando se tem + de 3000 anos de histórias, permitimo-nos algumas veleidades.
Com justiça.
Até amanhã.
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
welcome back

revisitei-te como já não me recordava de ser capaz. esta música é a coisa mais linda do mundo, dá cabo de mim enquanto me mata de prazer.
gostava de ser capaz de publicar aqui todo o álbum para alguém que tivesse visto o filme e vivido a minha vida, pudesse sentir o que sinto.... é óbvio não é?...
ninguém sentirá. porque o viver é só, diferente.
curioso como o soar das cordas de um violino atiram para o presente aquela enxurrada de tanta coisa junta. hoje, relembro o tempo antigo. não a alma, nem o espírito, e não é porque os desgoste, apenas porque não me visitam já com a mesma frequência. mais feliz? talvez. pelo menos, de certeza, bem menos triste e mais satisfeito com o fado da vida. não que eu acredite na sorte ou no acaso fortuito de coisas que se unem num complot para nos fazer mais ou menos felizes. existe aleatoriedade, é certo. mas não existe só, e muito menos em maioria de votos. no entanto, a malvada da minoria do acaso é bem capaz de grandes levantamentos e revoluções armadas que, ainda que por momentos, tomam o poder e conduzem a vida da gente. enfim, o acaso existe, é forte mas está longe de ser tudo ou, sequer, predominante.
a vida corre agora ao sabor de menos loucura que há uns meses muito largos atrás. vivia e respirava de quase nada e engolia as lágrimas para ter água enquanto o sal me queimava as entranhas. consigo invocar os sentires que me assombraram com a mesma angústia daquele tempo. alucinado, fervia o fígado em lume brando enquanto ia destilando pela serpentina o álcool que não conseguia destruir. hoje tenho stolynshnaya em casa, para não matar ninguém a conduzir. mas não é a mesma coisa.
desgosta-nos o tempo em que era difícil o passar dos minutos, mas não há como, mais tarde, reinvocar com saudade e um certo masoquismo aquele aperto que torturava os minutos de luz e se soltava a correr pelos poros da pele. tenho também saudades do tempo sinistro e da vida errante e do vento que eu acompanhava para qualquer lado.
será sinal de pouca sanidade mental? talvez, mas o que me importa isso, se não me importa porra nenhuma do que alguma vez pensaram, ou podiam vir a pensar quem se cruzava com os meus olhos.
este ardor de viver é também vida e, acredito, é também um degrau de escada que cumpre passar. e voltar? bom voltar é como a atracção pelo abismo: não é recomendável, mas faz parte da natureza incerta de almas inquietas e loucas. a minha não pode ser certa.
no fundo, eu digo: ainda bem.
não gosto do ordinário e levantam-se-me as sobrancelhas intolerantes, sempre que me obrigam ou me obrigo a mim próprio. e convivo mal com este estar e deteste esse sentir.
talvez por isso reconheça a sabedoria de palavras que ouvi há dois ou três dias: actividades prazenteiras não despertam paixões. ah, pois não! JTD, que é como quem diz, Já Tinha Dito!!
o fogo de estar e ser alimenta-se de toros de madeira e tão mais forte quanto mais madeira, quer seja picada ou em bruto ou até uma escultura de valor incalculável, de um escultor de renome ou referência. não escolhe, alimenta-se e destrói.
o viver alimenta-se de nós todos os dias e espera que haja saber e vontade para lhe darem em bruto e de boa vontade. quando não tem, começa por nos queimar as esculturas que guardámos e, mais tarde, esgotada a arte, apaga-se e deixa instalar o frio de nada ou quase nada.
ontem, alimentaram o calor de viver com o freio nos dentes, enquanto espumava a raiva e a revolta. e ouvia-se bater o descompasso de um coração louco.
se deixarem só e inactivo o guerreiro que viveu a rachar ossos, a beber sangue, e contemplar com orgulho as feridas de refregas incontáveis, verão curvarem-se-lhe os ombros e morrerem os olhos nos buracos cavos de onde hoje, só podem lembrar o que foram as glórias, as derrotas e o tempo onde se guerreava por causas e haviam tantos castelos a levantar como a destruir.
Se o deixarem só, sem espada e sem batalhas, verão morrer novo o fogo que ardia no peito da batalha do meu viver. perde-se o olhar esgazeado para dar lugar à serenidade do tempo insonso. e depois, vivem de memórias. até das que fizeram sofrer mas, ao menos, lembram o tempo de estar vivo.
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Solidão perdida
E se, ao contrário do que tanta gente teme, a solidão, ou parte dela, for um bem a preservar?
Vivem e respiram todos juntos, esquecendo muitas vezes o significado da individualidade e da riqueza consequente. Se fosse uma massa anónima, sem picos de cordilheiras a despontar para o céu das ideias revolucionárias, não valia quase nada.
Somos muitos, porque sim. Com um propósito. E é suposto contribuir para a base comum de personalidade colectiva.
Contribuir! Não é igual a retirar ou usufruir. O outro já dizia: Não confunda: obra de arte de mestre Picasso, com pica de aço de mestre de obra. Não é a mesma coisa.
O chato, é que se assiste, quase em contínuo, à ânsia de agregação, pelas razões erradas. Vê-se a procura de status, vê-se a procura de companhia, de amizade, de carinho, de felicidade… a procura… a procura… a mim… para mim…
Quando fazem objecto de vida, o gregário e o comum, quase que arrisco dizer que, lá no fundo, está escondido e a tecer malhas, o sentimento parasita do fácil, do confortável e da comida pré-congelada. Já alguém fez. Vou aproveitar…
(bom, a comida pré-congelada é quase incontornável, eu sei…)
Colectivo, em sentido lato, podia ser entendido como pertença de todos. E o que é de todos, é suposto que todos tratem. Que todos alimentem. Ou afinal não.
Recusam-se a parar, e aprender, e extrapolar daí para coisas novas, ou quase, que possam depois oferecer. Aos outros. Contribuir.
E o que é que isto tem a ver com o princípio? É que aprender, pode ser em grupo, mas os momentos em deixamos assentar o que nos trouxeram de novo, têm que ser reservados. Todos podem fazer e deitar que matéria quiserem, cimento para o chão, tintas para uma parede ou barro numa escultura, mas aquilo que é construído por fora ou por dentro da gente, precisa de pousio. Para assentar e repousar, para a matéria agregar entre si e, mais importante, harmonizar com a base de sustento com quem deve ficar a ser um todo.
Este espaço tem que ser preservado, em horas ou minutos, em que estamos connosco. Sem os outros.
Depois, respiramos fundo, sorrimos, e vamos oferecer coisas novas a quem gostamos.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
too soon, but not too late, either
às vezes não é porque se quer, apenas não há alternativa. mas muitas e tantas outras vezes deixamos embarcar nesta coisa de ser grande, gente pequena, antes do tempo certo.se podem ser mães com 14 e menos, porque não poderiam ser homens há mais tempo que hoje?
não parece sequer justo, fazer as perguntas assim. mas a verdade é que o corpo esteve pronto há muito, e a natureza preparou com cuidado o que tinha que ter terminado antes de brigar por nós. e estivémos preparados há muito mais tempo do que arrancámos.
porque o corpo, esteve pronto há muito, não tivéssemos esquecido a cabeça da gente pequena.
com boas intenções, entenda-se, em muitos casos. mas de intenções,...
o facto é que pudémos em resposta e oposto de há muito tempo, estender o tempo de não ser nem decidir, e démo-lo às crianças. e, aparentemente, bem.
só nos deixámos embarcar na desresponsabilização e alheamento consecutivo e fomos deixando para mais tarde o que lhes era, só, devido. e muitas, não ouviram dar o tiro de partida.
esquecidas, viajaram para todas as direcções. não sabiam correr nem construir outros que não castelos de areia na praia. e foram sendo sopradas por aí ao desbarato.
foi-lhes roubada a agenda do tempo e hoje, não sabem que dia é. e faz-lhes falta.
for no reason
um pouco mais tarde, serenou lentamente a inquietude do peso que fugiu à bruta.
e adormeci até de manhã.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
nostalgia

Pensei há um tempo atrás -poucos dias- que a nostalgia acabaria por me atirar de volta e de encontro às letras.
No novo emprego, as coisas começam a acalmar e já consigo navegar à vista de terra.
Definitely I love new beginnings. Promessas novas e expectativas que renascem de cinzas onde as tínhamos enterrado. Uns e umas, mais do que outros e outras.
Não defendo, entenda-se que se possa viver só de recomeços. Nem tão pouco de continuidades indefinidas.
Num passeio que dei, lembrei-me das escadas, por exemplo.
Podem chegar aos armários mais altos de casa, e estas têm um no topo.
Podem subir para casa, e estas têm vários pelo caminho.
E temos as escadas para bombeiros e gente audaz, com prática e sentido destemido que não têm nenhum, a não ser a base de onde se lançam.
Não foi por acaso que se criaram patamares.
Não se sobe ininterruptamente sem parar para respirar. Até as escadas têm espaços para andarmos a direito um pouco antes de nos voltarmos a empurrar por mais degraus acima. Ninguém vive ininterruptamente a subir, e ninguém pode ficar parado nos patamares das escadas. Não há lá nada para fazer e não é, definitivamente, para isso que foram criados.
Temos que parar, mas não podemos ficar parados. De todo.
Uns poucos, artistas, sonham que podem atirar-se pelas escadas magirus de qualquer corporação de bombeiros, como se não houvesse amanhã.
Pelo caminho, apercebem-se que têm vertigens. É tarde.
E, ao chegar ao topo, percebem que, afinal, não está lá a revelação do sentido da vida. Gente estúpida; as escadas a pique são para percorrer ocasionalmente e, na maior parte das vezes, em defesa ou socorro de quem precise. Não são forma de estar, e o resultado comum é uma valentíssima queda e muitos ossos partidos.
Não se pode recomeçar em contínuo, porque não nasce viver, mas se pára, definha e apodrece com saudades do movimento.
E nos dias que nos esquecemos, ficamos mais pobres.
sexta-feira, janeiro 20, 2006
stayin' alive
De facto, não tenho tido tempo. Em boa verdade, “...as art craves on pain, too...”, é natural que haja um défice de posts. Ando muito satisfeito com o meu trabalho novo e, por isso, o covil é menos visitada.
O apelo não morreu, de todo. Ainda mantenho presente na pele a memória dos… bom, estava a distrair-me.
A escrita continua dentro de momentos e, com vontade própria, como se comprova pelo documento junto.
Tenho andado a amadurecer a ideia de escrever qualquer coisa sobre a malta amiga… em formato anónimo, claro. Humm...
Até breve.
quinta-feira, janeiro 05, 2006
e...como ficamos?...

“It is hard to fight with one’s heart’s desire; whatever it wishes to get, it purchases at the cost of soul”
e perguntamo-nos se vale a pena contrariar.
se sim, estaremos a destruir a naturalidade da intuição e do mais genuíno que seríamos.
se não, estaremos, muitas vezes, a ceder à fraqueza do capricho mais fácil da nossa natureza temperamental.
e então?...
nunca houve uma opção certa.
são as escolhas que vamos fazemos entre estes dois sentidos quase opostos do ser, que vão balizando e definindo o nosso respirar.
são as escolhas em si! é o decidir.
não o lado que escolhemos a cada vez. esse, é cada vez menos importante.
porque só não muda de ideias, quem não as tem. e o resto,... é o tempo a fugir...
quarta-feira, janeiro 04, 2006
infâmia
terça-feira, janeiro 03, 2006
o temp(l)o perdido

Perto de há muito tempo, lembro-me ainda, das tardes que passava na cama a esticar a preguiça das costas e a sacudir o torpor lanzeiro das mãos.
E que tardes...
Lembro-me dos olhares doces e dos silêncios preenchidos de tantas palavras.
Lembro-me do querer ser atiçado com uma brisa suave e os gatilhos dispararem por apenas se pensar em lhes fazer pressão.
Lembro-me de horas seguidas passadas com este sabor delicioso na boca.
Lembro-me até, tal era a inocência, de tocar música para ensinar um canário a cantar. E o bicho... nada. A favor do bicho, invoque-se o facto de ser uma fêmea (as fêmeas canário não cantam).
Lembro-me de fugir vezes e vezes seguidas, para não ser apanhado. E rirmos a bandeiras despregadas, de todas as vezes que conseguia.
Lembro-me de termos criado, muito cedo, um mundo nosso, cheio de promessas para cumprir e encantos imensos.
Lembro-me da praia. Lembro-me de estar 24 horas (...quase...) e não ficar cansado, nem ter falta do que dizer ou fazer. Não haviam ideia de menos ou ousadias de mais. Valia mesmo tudo.
Perto de há muito tempo, sonhei ser novo a vida toda.
Se calhar, foi mesmo um sonho.
segunda-feira, janeiro 02, 2006
2006
quarta-feira, dezembro 21, 2005
e hoje ?...

Antes, entretíamos os dias com pouco de que fazíamos muito
antes, éramos beleza, graça e força de ser.

Já percorremos espaços impossíveis e caminhos difíceis
aventurámo-nos em terras e povos novos.
Já valorizámos a tranquilidade e contemplámos a calma
já quisemos até, de dois, fazer um, que acreditávamos diferente de tudo o resto.
Hoje, no fim dos dias, caídos ao lado dos outros que também jazem no nosso chão, relembramos com saudade as pérolas de memória que guardámos e queremos manter ainda, a tanto custo.
E fizeram por valer, mesmo, a pena ?...
terça-feira, dezembro 20, 2005
prisioneiros
segunda-feira, dezembro 19, 2005
o mar do meu fim de semana

Ontem pensava: um dia hão-de acabar-se as páginas que tenho para escrever no livro das letras.
Hoje sei que não é possível ser assim. Geradas ou induzidas e, se for necessário, ditadas até. Terei sempre o que arremessar a um qualquer teclado que se apreste a receber o que lhe queira oferecer.
O fim de semana. Xiiiii.... tanta coisa.
Muita, ficará sempre por dizer, que eu nunca direi tudo o que penso ou sinto. Pelo menos, ao mesmo tempo e no mesmo lugar.
Sinto este sentir como se fosse um mar de água que vai enviando ondas para as praias da vida das gentes que passam pela vida da gente.
Aos poucos de cada vez.
Mas todos os dias há ondas a bater de encontro aos pés, enterrados nas minhas praias.
Há praias, como as da Arrábida, onde as ondas do meu mar calmo e tranquilo chegam devagar e fazem aquele barulho “tchuáá..” quando se espraiam na ponta da praia, junto ao mar. O mar da Arrábida parece uma piscina, seguro ou quase, e não tem um encanto particular per si: faz parte de uma paisagem de vida. Harmonioso.
Conheci também praias como a Caparica, cheias de gente. Carregadas de tanta gente.
A querer ir à praia.
Na Caparica o mar é generoso. Exibe-se com o que tem para mostrar: ondas, marés, e muita gente. É um mar orgulhoso e com vaidade, de ter tanta gente a querer estar.
Confesso que não sou, de todo, fã das praias da Caparica.
Não gosto de mar assim, de todos. Não gosto, fácil demais, onde todos entram e saem quando querem, sem consideração ou respeito pela água que tem.
Mar estúpido que pensa ser alvo de tanta atenção quando, afinal, é apenas usado e revirado, de dentro para fora, por aqueles que, depois de se servirem, lhe viram as costas com o prazer estampado no sorriso egoísta dos lábios entreabertos. Sem um adeus.
E as praias pactuam em tudo isto, como madames de um qualquer bordel.
Conheci, também, o mar da Comporta. E sabes, gostei do mar da comporta. É um mar elitista, o sacana, não há dúvida. Até as praias, não são muito fundas para não abrigarem as míriades de gente da Caparica.
E esconderam-se.
As praias da comporta esconderam-se para lá de Troia, colocando antes de si uma barreira de mosquitos assassinos.
Esconderam-se para lá do estuário do Tejo onde havia menos gente.
Esconderam-se, por fim, atrás de empreendimentos turísticos ao alcance de poucos.
E ali se deixaram ficar, com areia limpa e uma frente de mar carregada de conchas. É um mar que fala, este das praias da Comporta. E manda para as areias as notícias de si, em forma de um monte de esqueletos que guarda e cuida até não ser capaz de os segurar e ter que soltar um longo suspiro de espuma onde segura e entrega o que não pode mais esconder em si.
Este é um mar que recebe visitas distintas.
Como qualquer artista famoso, começou a chamar a si a atenção devida pela sua arte. Mais tarde, tornou-se moda. E hoje, apesar de continuar a pintar quadros geniais, é frequentado por aqueles que apenas pretendem dizer: Eu tenho este mar.
A posse substituiu a reverência e a admiração de um mar que merecia mais daqueles que hoje não lhe prestam já a homenagem devida. É um mar em sofrimento. À espera de resgate de gente que goste de mar. Eu gostei do mar e das praias da Comporta.
O mar mais famoso e coqueluche de todos os nossos mares é o mar do Algarve. É o José Castelo Branco dos nossos mares. Primeiro, tratou de ter uma temperatura amena que atraísse os locais e turístas, afoitos de conforto e bem estar. Tratou de licenciar, à parva, todas as construções possíveis e imaginárias, com ou sem respeito pela terra onde ficaram, para ter mais audiência.
A todo o custo, chamou a si tantos quantos pode.
E foram. Resmas de gente. Chusmas de gente. E as praias pactuaram com o mar para serem de areia fina e agradável. Não mais que um chulo, com as suas putas.
Mais tarde percebeu que tinha que dar o que fazer às pessoas, depois do mar e das praias. E criou uma série de bares e discotecas – perto de si, é claro de ver – para continuar a ter corpos despidos na areia da praia.
Gosto da água quente, mas não consigo gostar do Algarve. Honrosas excepções de praias e mares que se abrigaram atrás de arribas altas onde os preguiçosos não vão.
O mar e o as praias do Algarve também não me cativam por muito tempo.
Morre-se estúpido ao sol, a fazer companhia a lagartos e grãos de areia a escaldar.
E morrem as palavras e ofega-se pelo calor e perdem-se as conversas das gentes que correm para o mar para se arrefecerem.
Mar de quê? Paisagens do poente?
Mas, também eu sou fraco e pactuo com tudo isto quando quero água quente e hotéis fora do caribe. Vendido...
O mar da minha eleição é no centro do país.
O mar da minha vida é perto de Leiria.
O meu mar está em S. Pedro de Moel.
E, o mar de S. Pedro tem várias praias porque percebeu, há muito tempo, que há muitos tipos de gente que querem e merecem estar ao pé de um mar assim.
O mar de S. Pedro tem uma coisa deliciosa onde vivi as férias dos meus anos doces de criança, a que chamaram de praia da Concha.
Resgardada por escarpa arenosa, em forma de concha, não deixa o vento chegar à areia, com a frequência com que chega a outras praias; a praia da Concha foi construída pelo mar, para crianças de dia e amantes em fins de tarde.
Lá, o mar é rebelde e furioso.
Lá, o mar não faz compromisso.
Lá, o mar tem a natureza que lhe foi dada pelos Titãs gregos que criaram as coisas.
Lá, acreditava eu, quando era criança, morava Poseidon. Só podia ser ali, tal a violência da água, que atirava baleias contra a costa.
Armadilhado com um fundão gigante, só nos deixava tomar banho na maré alta. As ondas assumiram, no princípio dos tempos, o papel de escultoras de escarpas e ainda hoje se atiram com fúria contra as rochas que teimam em fazer-lhe frente na frente da praia.Aprendi a tirar partido dos despojos desta guerra. Escondido atrás das rochas, esperava o embate da refrega, para tomar banho de chuveiro de ondas.
Orgulhoso, verdadeiro e sem compromissos, o mar de S. Pedro de Moel, na praia da Concha. Logo ao lado do farol, antes da extensão enorme de areia da praia Velha.
Serena e altiva, a praia Velha, também no mar de S. Pedro.
Entre uma e a outra praia estava encostada à falésia, mesmo, mesmo encostada à falésia, a casa do amigo António Campos. Com as janelas viradas para o mar e os salpicos de sal que se iam fundindo com a madeira das tábuas, era um sonho de lugar de sonho onde tão depressa se assistia a marés vivas, como a nasceres e pores de sol de fazer inveja a qualquer impressionista. E todos os anos fazia questão de nos convidar. E nós íamos. E fazíamos entre 5 a 6 horas de viagem sempre à espera de começar a cheirar o aroma dos pinheiros que denuncia o pinhal de Leiria, a quilómetros. Nesta viagem, as crianças não se impacientavam e a calma ia tomando conta de todos, à medida que nos afastávamos de Lisboa. Um dia, derrubaram as casas de praia, entre as praias. E, mais tarde, o António, concerteza saudoso da natureza feita arte, do alto das rochas, morreu também.
O meu mar fala de dia e de noite com voz alta e ribombar das ondas, para quem quiser ouvir. Fala devagar, o meu mar. E envia notícias pelas ondas às praias de que gosta e respeita.
Deixaram-se perder pelo mar e mandaram por terra o respeito pela força da natureza. Hoje, sangram-no com uma gula e avidez que dói a quem gosta. Do mar.
E ele, responde com a mesma avidez de destruição da gente que lhe quer mal.
sexta-feira, dezembro 16, 2005
um dia
Apodrece em mim o que não vivo e vou ficar sem saber o que fazer com o que já não serve para absolutamente mais nada.Um dia, os meus olhos vão deixar de observar e ver o que já escureceu. Um dia, ainda fico cego.
E se à beira da escarpa me soprar o aroma de verão? E se me atrairem as brisas suaves do inverno? E se a cor das folhas que caem passar pelos meus olhos fechados?
Sente-se ao longe a quietude que precede o que não se deseja. E o desassossego trepa-nos pelo peito acima. Perto daqui já não vive ninguém ao longo das estradas desertas de gentes vivas e de coisas mortas.
O sol aponta o caminho para debaixo do horizonte enquanto observa, triste, o esmorecer das últimas fábulas de La Fontaine.
Mas sabes,... já não há animais em nós. Matámo-los. De fome e de sede.
ups
Vou deixar de escrever... neste computador, porque vou mudar de emprego!
Sorry for the missunderstanding...
quinta-feira, dezembro 15, 2005
homenagem à alcateia
Será concerteza um dos últimos posts que escrevo neste teclado onde passei muitas horas.
Atirei-me a este trabalho com a entrega com que faço praticamente tudo a que me proponho. E não foi fácil.
Empurrei as horas dos dias até mais tarde, inflecti o comportamento tranquilo, de que mais gosto, e gastei as palavras todas que tinha deixado de reserva para dias de maior necessidade. E não foi fácil.
Sorri, e deixei de sorrir. Fiquei mais triste e depois passou. Fiquei zangado, irado até. E também passou. E não foi fácil.
E tinha gente diferente. Tinha uma alcateia de gente. Havia presas brancas que se viam reluzir de dia. Havia sangue na arena e aroma de conquistas. E não foi fácil.

Houve momentos sinceros. E outros nem tanto; a natureza não deixava, e a guerra não se compadecia de guerreiros fracos. E não foi fácil.
Houve confiança. Mas nem sempre. E não foi fácil.
Numa alcateia, ruge-se dentro, mas não se mordem. Guardam-se forças e ataca-se o resto do mundo em bando, com sede de morte e os dentes cerrados.
Isso, foi fácil.
E tive coisas boas. Senti alguns sucessos. Senti que estive pouco tempo, para... para o que gostaria.
Entreguei as palavras aos dias em que dormia fora. E gostei muito dessa parte dos resultados. Vendi os sonhos aos homens e às mulheres a quem queria trazer para vencer connosco. E não foram maus, os resultados.
Montei paliçadas e larguei o exército do eu sozinho, à caça de novas hostes para representar os sonhos que também lhes vendi. E gostei dos resultados.
E tive aqui, a solidariedade, inestimável, do resto da alcateia. E gostei ainda mais.
Senti a raça de ser e o orgulho de pertença. E gostei.
Senti o brio de ser de muitos e ter conquistas nossas. E gostei.
Partilhei 10 meses com gente a quem não posso deixar de prestar homenagem. Gente bem diferente. Todos. Gente bem diferente. De mim. E gente com quem não concordei sempre. Mal fora, seria sinal de falta de carácter, de uns ou de outros.
Saio para melhor, é certo. Matéria, responsabilidades, condições. Tudo bom, é certo. Mas não consigo sair contente.
Sabem, é que não se encontram alcateias em todos os bosques do viver...

E disso, vou ter saudades.
Das caçadas. E dos lobos.
segunda-feira, novembro 28, 2005
lost... in time

Se eu não tiver tempo para escrever, também não tenho tempo para viver.
Se escrever é, geralmente, a primeira parte do meu tempo livre, então se não escreve, muito mal estamos.
Não é fácil enquadrar a vida de hoje, crua e tão fria sem mim, no que sonhei em tempo para o tempo que deveria estar a correr hoje.
Se a distância resumisse o barómetro da satisfação dos meus dias, teria quilómetros de tempestade e metros de neve sobre os caminhos que não chego a percorrer.
Não saio de lugar nenhum, a marcar passo. À espera de uma qualquer marcha que coloque em movimento os membros já quentes de tanto baterem os pés nas lajes frias do chão da parada.
Imagino o dia a entrar e a sair do céu, enquanto as almas penadas pairam cá em baixo, por cima da cabeça dos outros. E nem as horas se ouvem a passar.
quarta-feira, novembro 16, 2005
conclusão
nesta semana de estafa autêntica, que tenho vivido, concluí uma coisa interessante: o cansaço físico é, concerteza, para muitos, a principal causa de falta de brilho, de vontade, de ânimo e alegria.
curiosa, esta influência do corpo, na vida da gente.

quarta-feira, novembro 09, 2005
Arquétipos
Ontem, num jantar de amigos, contei uma coisa que ouvi há muitos anos à minha ex-mulher.
Discutíamos sobre as putas das mulheres e, relacionado ou nem por isso, a conversa foi parar aos homens que as mulheres querem. Ouvi coisas que me fizeram tremer as fundações da minha crença na raça das mulheres.
As expressões utilizadas eram estas, ou parecidas: “eles não sabem fazer bem feito", ou, "eles não retiram o melhor das mulheres", ou ainda, "eles reprimem aquilo que as mulheres podem fazer, ser e tornar-se”.
Minha nossa! Como se as mulheres fossem esses seres frágeis que só brilham se tiverem as luzes da sala!!
Recuso-me a acreditar nisso. E, seguramente, não quero essas mulheres na minha vida.
Quero e gosto e acredito que as mulheres brilham a partir de dentro!
Esta raça tem mais alma que qualquer alazão puro árabe zangado!
Há poucas coisas mais deliciosas do que ver cumprir o valor de uma fêmea adulta. Caramba, tem que se lhes tirar o chapéu. Às que merecem. Porque, pelos vistos, não são todas assim.
Todas reclamam pelos direitos que querem, justamente, iguais aos dos homens. Mas, depois, muitas delas são capazes de dizer: “não foste capaz de fazer evidenciar o que de melhor há em mim”.
Oh, sub-raça vadia...
Que desalento quando as vemos encostadas aos muros dos dias, à espera que as façam mexer para onde quer que seja, acomodadas pela tradição e pela história do domínio antigo.
Merecem mais. Elas e nós, os homens que as queremos.
Que as queremos como iguais!
Que as queremos aliadas no esgrimir diário do curso dos segundos pelas vidas.
E muitas... nada. Moita, carrasco. Nicles.
Nessa altura, – que lhes convém, porque não obriga à iniciativa de viver – aguardam pela voz de comando que, se for muito alta, se apressarão a contestar como tirânica!!
Mas o que é que é isto que se passa na cabeça de tantas mulheres?!
Tão depressa estão desejosas e aguardam de mãos postas no regaço, que venha um cavaleiro andante que as leve ao colo e lhes apanhe um lenço e as leve a casa e as faça felizes, que as conduzam pelos caminhos doces da vida; como a seguir, se o bruto não cumprir o seu papel de condutor de acordo com os parâmetros encaixados no seu ideal pré-definido e sonhado em noites de lua cheia alinhada com mercúrio e em desnível com vénus,... aí -ai, ai- vem o carmo e a trindade pela rua abaixo com a mão na anca a gritar a injustiça das prepotências do macho... que devia era ser preso.
Algumas mulheres são assim, da mesma forma que elas poderão dizer que assim são também alguns homens.
Então, porque ficam uns com os outros e se quedam conformados em vez de gritar alto que, “Assim não dá!” “não quero acomodações!”.
Para mim, o fleumatismo devia ser queimado vivo. “Pode ser...” “Se tu quiseres assim...”
“AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHRRRRRRRRGGGGGGGG !!!!!!”
Não!! Não “pode ser” porra nenhuma.
Ganhem a vida. Conquistem a alma dos vossos e vossas companheiras, como se não houvesse amanhã.
Acendam as velas de dentro do corpo e matem a sede de luz dos olhos que vivem aos lado dos seus...
Ou então, percam a esperança, enterrem o sorriso, matem a alegria de estar e pactuem com o que "não era bem assim que tinha imaginado...".
E aí: morre-se vivo. E não se diz nada a ninguém.
Os arquétipos ficam para outro dia. Hoje vieram outros ventos, outras brisas...
Parte II
Estou no msn, numa conversa paralela à escrita e saiu-me, de rompante, uma verdade de vida de tantos e tantos tolos românticos...
“...o teu negócio é um amor louco e avassalador que te arraste pela sala enquanto te entregas de braços abertos a desejar que não acabe o sofrimento de ser feliz...”
O que posso dizer mais, que não seja agora pequeno?...
terça-feira, novembro 08, 2005
dança
domingo, novembro 06, 2005
desenterrado
uma coisa com umas folhas muito pequenas e com uma caneta promocional de um laboratório farmacêutico, que me ofereceram.
aliás, confesso que adoro prendas. mesmo estas mariquices que depois acabam por se revelar, algumas delas, de muito pouca utilidade.
nas primeiras folhas, estavam os preço de frigoríficos e máquinas de lavar. vários modelos em várias lojas... restos de uma guerra do princípio do ano, quando me mudei para a minha casa.
a surpresa veio depois, na terceira ou quarta folha. era a minha letra, claramente. mas muitíííííssimo torta! tão inclinada e inconstante que só havia uma conclusão a tirar: grosso, muito grosso.
foram coisas escritas numa das noites em que saí sozinho, para os bares, à procura da minha amiga russa e de umas músicas para ir entretendo os últimos minutos de sobriedade do dia.
cheguei a escrever no portátil, que abri na mesa do bar, enquanto, à volta, os grupos de amigos, ou só conhecidos, se entretiam a rir de tudo e mais alguma coisa, enquanto atiravam o seu melhor charme para cima uns das outras. e vice-versa e what-so-ever.
lembro-me de ter escrito também em papéis que apanhava à mão. e, pelo vistos, apesar de não me lembrar, escrevi também neste bloco.
lúgubre, como a maioria do que escrevo, e a totalidade do meu pensamento, na época.
"O semblante estava carregado
como as nuvens
nos céus cinzentos de Dezembro.
Lembrei-me do sol
quando rasga o céu
e espalha a luz através dos dias escuros
enquanto anuncia a descida dos anjos.
Foi assim.
Só não foi comigo.
Foda-se a vida e quem lá anda dentro."
Pode haver alguma palavra que não era exactamente assim, no original. Mas foi difícil decifrar o manuscrito.
Pós Stolichnaya. Claramente.











