quarta-feira, novembro 26, 2008

absolutamente fantástico e imperdível

João Villaret diz

"Cântico Negro" de José Régio

quinta-feira, outubro 02, 2008

fénix... ou apenas weird survival



Tenho que me obrigar a ouvir a música certa com risco de perder a capacidade de encher o peito de lágrimas que continuam a recusar-se a escorrer pela porta certa.
Preciso de obrigar o sangue a correr sob pressão para sentir viva a gana de ganhar e conquistar o que quer que seja.


Quando me emudece a vontade sinto apodrecer o viver, aos poucos e, depois, cada vez mais depressa numa espiral louca que me parece sempre demais do que consigo conter. São esses os momentos em que, do resto do ânimo que ainda me povoa as mãos – em mim, são sempre as mão as últimas a cair – que me socorro de um qualquer som que me desperte e me faça reviver. Rápido ou lento mas sempre, inevitavelmente dramático e arrepiante, o ritmo e tom da música que empurro para dentro num estupro da acomodação e da derrota.
Deixa-me ver se consigo explicar: é como se um corpo, ao cair até ao fim do poço, acelerasse nos últimos metros para tentar fazer ricochete no fundo e voltar para cima... tão para cima quanto permitirem os cada vez menos ossos que restam intactos...
.



Tem sido assim o renascer... so far.


carneirada?!... are you?

AS: No one looks at an issue and struggles to take the right position anymore. Yet, our ability to reason is what makes us human.

Lately we seem so willing to forfeit that gift of reason in exchange for the good feeling of belonging to a group that we all just pick the position of our team…

NR: instead of having a mind of your own!

in Boston Legal S2 E25

quarta-feira, outubro 01, 2008

what the fuck is an example?!!!

.
DC: Are you setting a bad example?

AS: We are not setting examples, we are just being true to who we are!
DC: Who are we?

AS: Denny Crane
DC: Alan Shore

AS: Leaders of men!
DC: With bull's eyes on our asses.


in Boston Legal S2 E24

sábado, setembro 27, 2008

the real deal...

.

"I just caught Tara laughing with another man..."







"Are you sure they weren't just... kissing?"





"No. They were laughing.

I've just lost the girl."

.

.

in Boston Legal S2E2

E é mesmo assim: tão simples e tão certo, nestes pequenos nadas. Independentemente do ascendente em Marte, ou Vénus.

quinta-feira, setembro 25, 2008

estatística de viver


entretive-me entre ontem e hoje - não porque a tarefa fosse longa mas apenas o meu tempo disponível é que era pouco - a fazer uma lista.

uma lista de todas as pessoas que considero que tiveram um grande impacto - não apenas impacto mas, grande impacto - na minha vida.

depois decidi escrever à frente de cada nome o que cada pessoa representou para mim, nesse ponto da vida onde nos cruzámos.
depois achei interessante saber qual o papel que representa hoje, cada uma destas personagens.
e, por fim, não resisti à tentação de escrever porque é que mudaram os que hoje estão, para mim, diferentes de ontem.

os resultados foram absolutamente impressionantes.

os downgrades foram surpreendentes e assustadores. os upgrades foram simpáticos e despertaram um sorriso carregado de boas memórias nos mais variados e inimagináveis âmbitos de interacção humana.
os conflitos que identifiquei foram particularmente amargos, por terem representado perdas significativas de bocados de mim que ficaram para trás, ou para outra direcção qualquer, que não a minha.

por fim, a conclusão ou o pensamento final que tive continuou associado à inconstância e insatisfação característicos do regime vigente no governo deste estado anárquico em que respiro:
-- caramba, como não seria, se tivesse tido arte, tolerância e flexibilidade suficiente para manter hoje ao pé de mim todas aquelas pessoas que foram mesmo muito importantes na minha vida.
há sempre coisas que mantemos e outras que, vistas daqui, faríamos concerteza por alterar.

recomendo o exercício. é uma valentíssima palmada de realidade.
com boas consequências; se a isso estiverem dispostos, pois concerteza.

quarta-feira, setembro 24, 2008

natureza morta

Sinto saudades de um milhão e meio de coisas, o que só me faz pensar que vivi, pelo menos, esse milhão e meio de coisas.
Visto assim, nem parece mau, não fosse a natureza irrequieta e louca que me vai consumindo de angústia e insatisfação permanente.

É tão fácil ser infeliz: basta querer, sistematicamente, o que não se tem.

quarta-feira, setembro 10, 2008

well, well... a fellow citizen of the world

Denny Crane: I don't live for tomorrow. Never saw the fun of it.


(...long silence...)


Alan Shore: Here's... for no tomorrow.


in Boston Legal S1E1

quarta-feira, julho 30, 2008

rotina

afundam-se no aborrecimento das rotinas que não os desafiam.
ficam mais pobres porque não enriquecem o ser enquanto vai desaparecendo o sabor a sal que guarda as memórias de que não conseguem deixar de ter saudades.

terça-feira, julho 08, 2008

esta foi mesmo minha


foi capturada no tempo e ali ficou, imóvel.
talvez por isso...


de noite...

.


não me assalta o sono no espaço que ocupam as horas em que me roubam a atenção as memórias de uma vida que ficará sempre por viver.

Um destino por cumprir, ou apenas a desculpa esfarrapada de viver com esperança, para evitar viver, de todo?

uau...

a lump of coal turns into a diamond

sometimes, it does happen.

domingo, julho 06, 2008

passado revisitado


À medida que se foi desenrolando o tempo fui vendo chegar e partir -tão diferente- tanta gente que mais tarde reencontrei, invariavelmente, em estágios de vida tão diferentes.


Como num porto de passagem, onde parece interminável a lista do que fazer mas existe, invariavelmente, data para partir.

Brisas

lê-se aqui e é formidável (link)



é que há dias mesmo assim. em boa verdade, há vidas povoadas de dias assim, que parecem ser tantos mais quanto menos sobra do tempo que resta.
Tenho visto de perto esta pressa de concretizar e fazer já, antes que os dias terminem e se acabe a validade de um qualquer viver.
Seja para mudar de vida ou para ir desenterrar um santo graal de soluções milagrosas que mudarão, finalmente, o rumo... (já agora, o rumo de quê?)

domingo, junho 08, 2008

a escrita será sempre um exercício solitário

de gente tendencialmente solitária, sem com isto eliminar os que estão carregados de gente à sua volta.

em boa verdade, como se pode interagir com alguém que está separado de nós pela distância infinita das letras?...
se fosse diferente, não me sentiria tão só enquanto escrevo na companha das teclas?
this is the way so, make peace with it.

deixa-me sentir o sorrir e a cor dos olhos que sinto longe de cada vez que cerras as pálpebras; pensei hoje, enquanto ocupava a cabeça com coisa nenhuma.


se a ausências das gentes se assoma por detrás dos olhos fechados, como farão para viver dessa forma entrecortada os que têm saudades de todos os segundos do sorriso que perderam pelo caminho?
podem procurar a vontade e gritar pela ânsia de viver, mas há dias, semanas, meses e até vidas inteiras em que mais não conseguimos fazer que não contemplar a derrocada de toneladas de cimento massiço para cima da alegria de estar e viver. e parece que não pode ser doutra forma; condenados a ser assombrados pelos fantasmas do que já foi e deixou de ser, porque não há olhos para o futuro.

que não haja nenhum mal entendido: não tenho qualquer optimismo ou esperança natural no futuro além do que for arrancado a um qualquer destino déspota e tirano que parece reger, debaixo da foice implacável, a vida dos outros.

quando olho para os pés não vejo nada à minha frente, mas quando levanto os olhar, sinto falta do horizonte que em tempos tive estendido à minha frente à espera de ser inaugurado e percorrido. como um cavalo selvagem, ansiava por ouvir o mais pequeno ruído que pudesse usar como desculpa para desatar a correr pelo tempo afora em direcção ao que tinha posto os olhos, lá mais à frente.

era um tempo onde me corriam as lágrimas nos olhos apenas pelo passar do vento frio que me revigorava o corpo.
era um tempo em que movia montanhas. era um tempo em que tinha garras para cravar no flanco da vida. era um tempo em que não recuava, nem sabia o que queria dizer o cansaço nem o temor de ver decair e desvanecer o império de guerreiros que acreditavam ser invencíveis, como todos os grandes guerreiros habituados a vitórias.

tenho saudades das emoções que me arrebatavam e abanavam as fundações de tão violentas que as sentia. tenho saudades das lágrimas que só consigo arrancar à custa de vapor de álcool. tenho saudades de ver desfilar, e correr, os sucessos e as derrotas como se tudo pudesse ser carregado em costas que nunca fraquejariam. sinto-me cada vez mais longe da parte "fraca" da humanidade que em tempos quis eliminar da minha equação de viver. tempos tolos os de garoto em que não adivinhamos a falta que nos fará mais tarde o querer e ansiar pela doçura de um abraço ou o calor de um beijo terno.

lamechisses, como lhes chamo hoje, a décadas de distância do tempo em que saltava em direcção a um abraço. saíram de mim. abandonei-as no correr do tempo do meu viver e fiquei mais pobre.
não se abandonam os animais, nem os sentimentos, nem as pessoas.

se fomos contemplados com um peito carregado de espaço para encher, porque fazemos o coração matar os habitantes do passado como se fossem proscritos de uma qualquer colónia de leprosos?...

e o tempo que não pára... e regozija, com a satisfação podre de quem sente a distância aumentar à passagem das curvas do caminho e dos quilómetros debaixo dos pés.

não é que haja impossíveis, nem points of no return... o que há são coisas muito dificeis.


quinta-feira, junho 05, 2008

who are you?


É difícil encontrar quem seja completamente imune à presença do mundo à sua volta.
Podem defender a independência de atitude, a equidistância de avaliação ou outra qualquer treta que reflicta afinal o tão orgulhoso claim “faço apenas o que me dá na telha”.

Podia ir por aqui, que dava pano para mangas de um casaco para centopeia. Mas não. Não foi isso que me lembrei, sentado aqui à frente de um quadro azul de que só eu é que gosto.

Apesar de pertencer (claro) à equipa de tolos que embandeiram (do verbo embandeirar, pois concerteza) o orgulho lusitano de ser único e absolutamente imune ao que o rodeia, tenho, como os restantes membros deste gigantesco grupo, comportamentos contraditórios.
Lembrei-me disto porque hoje, pela primeira vez, passados alguns anos de ter criado o blog e instalado o “statcounter”, dei por mim a pensar: estas pessoas, que passam por aqui e lêem estas loucuras, cada uma mais insana que a anterior, como é que aqui vêm parar?
E, nos ainda mais estranhos casos em que isso acontece, porque voltam?...

a propósito de um post

que eu li aqui
as saudades das fotos de família que não tenho...

em vez das fotos de família podes ter uma parede branca carregada de memórias e espaços preenchidos de sentires e imagens que só tu sabes quais são impregnadas de aromas que seriam impossíveis de agarrar e prender numa fotografia.

Tens a vida atrás de ti para te lembrares do milhão e meio de coisas que foram boas, e das menos boas também.

Se acredito no prazer da partilha (pelo menos essas) com quem gostamos, também defendo que o álbum da vida que passámos é, sobretudo para os nossos olhos e restantes sentidos.

E, se te faltar a memória, já sabes: é questão de juntar algumas letras e atirar umas linhas para um qualquer blog que as guarde e te deixe, "mais tarde recordar", como dizia o anúncio.

uma imagem vale por mil palavras?... não concordo.

segunda-feira, junho 02, 2008

e depois?...


...o que fazer quando já não conseguimos sustentar a vida e sentimos o fim à nossa espera?



como em 2005, também me apetecem escrever palavras negras, como... lúgubre.

a imagem atravessou-se no meu caminho e concorreu para a classificação de tenebroso e pouco recomendável, a este blogue.

agora, já não há desculpas para sermos indiferentes à riqueza de viver, pois não?

trata-se de decidir ficar ou ir, mas essa merda de indecisão não respeita o sofrer estúpido de tão injusto.

(foto de Kevin Carter)

quinta-feira, maio 29, 2008

autobiografia


Experimenta cansar o corpo.
Experimenta exigir de ti: exige da paciência que foge, exige da tolerância que não tiveres, aproxima-se da insanidade com as decisões loucas que tomas nalguns dias mais fatais, trabalha ao ritmo que só tu sabes que esgota as baterias que já não tens há tantos anos. Anestesia o pensar, o sentir e o agir.
Finalmente, deixa instalar a tristeza no peito já velho de tanto andar e correr pelo tempo fora sem se dirigir a lugar nenhum.
E baixa os olhos para não se ver a cor de morte que te assola a alma, enquantos ouves a música de um qualquer cortejo de pesar.

Quão verdade é o dizer que defende que os olhos espelham o sentir de quase toda a gente. Somos sempre capazes de esboçar um sorriso, de rir, até, em gargalhadas altas, mas não somos capazes de desmentir o denunciar flagrante que se expõe na ausência do “sorrir do olhar”.

Há dias melhores que outros e há aqueles realmente difíceis em que sentes que te alimentas de uma miserável bolha oxigénio sem horizonte que se apresente na esquinas consecutivas do teu viver. Esquinas consecutivas…

Consegue-se viver assim…? Quase sempre. Para uns é injustamente fácil porque têm os olhos postos nos pés e o sentir à frente do nariz. São menos, por isso? Não. São mais, por isso? Também não. Mas é mais fácil. Não arriscam os grandes prémios mas estão também, por isso, defendidos das grandes derrotas.
E tu, jogador compulsivo, passas a vida a apostar consecutiva e, quase, irracionalmente, à procura daquele grande prémio que – como sabem todos os viciados no jogo – está à tua espera já ali. A seguir a mais uma esquina. É só mais uma dose…

São cada vez difíceis de dobrar: as esquinas e as pernas para obrigar a carcaça a andar quando a recusa de mexer é tanto mais sã quanto lógico é o argumento que defende que pares e desistas. De andar para lado nenhum.

E, ainda assim, agarras-te aos pequenos nadas e, se não tens para ti, convences-te que também há vida na missão de oferecer e dar. Mas isso não dura.
E tu é que tinhas razão, amigo Paulo: é para lá de fodido equilibrar a porra do otário do missionário com o peso e a agressividade estúpida e gratuita do tubarão assassino.
É que, no meio, não há vida que resista e, em lado nenhum estás todo.
A ausência do ser que te falta acaba sempre por doer mais que a presença do pouco de ti que tens a teu lado.

E o balanço enlouquece-me.

sexta-feira, maio 16, 2008

distante


quando estamos perto de lugar nenhum,
os caminhos parecem todos
muito mais longos.

quinta-feira, abril 10, 2008

da mais alta janela da minha casa

http://purl.pt/1000/1/guardador/indice.html

Da Mais Alta Janela da Minha Casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo

O guardador de rebanhos
Alberto Caeiro
10-05-1914

a propósito de Fernando Pessoa

A propósito de um grande poeta de quem li hoje um poema formidável.

"
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.


Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior, e que é a resposta possível do homem à dureza ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida.

Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890, era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas. É da sua autoria o Ultimatum, publicado no Portugal Futurista, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica aberta. Protótipo do vanguardismo modernista, é o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos.

De entre outros, de menor expressão, destaca-se ainda o semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu Livro do Desassossego, uma lucidez extrema na análise e na capacidade de exploração da alma humana.

Quanto a Fernando Pessoa ortónimo, segue, formalmente, os modelos da poesia tradicional portuguesa, em textos de grande suavidade rítmica e musical. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, reflecte inquietações e estranhezas que questionam os limites da realidade da sua existência e do mundo. O poema Mensagem, exaltação sebastiânica que se cruza com um certo desalento, numa expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, revela uma faceta esotérica e mística do poeta, manifestada também nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo rosa-crucianismo.
"

em
http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Fernando+Pessoa

terça-feira, abril 08, 2008

Não compreendo o sentimento


de desprezo pelas pessoas que se suicidam.

Não é nem pior nem melhor do que roubar, à luz da lei que –supostamente- nos rege, mas parece ouriçar os cabelos da nuca a muitos dos que passariam de forma aparentemente despercebida por alguém que roubasse um carro ou uma mala.
O desconhecido, esse adamastor...

A nossa raça tem medo do escuro desde que nasce, apesar de ter passado a gestação toda sem luz. Por alguma razão acham que, depois de baterem as pestanas ao sol ou debaixo de um qualquer fluorescente da sala de partos, passam a poder falar de cadeira de um assunto que só a eles, os que têm luz, diz respeito. Os outros, no escuro, nunca irão perceber aquele segredo de clarividência do viver ao sol.
E, provavelmente, como os iniciados numa qualquer ordem secreta, farão tudo o que os “irmãos mais velhos” lhes recomendem. E agem loucos, sem pensar, a seguirem aquele rebanho que se desloca ao sabor do vento ou de um qualquer tolo mais eloquente.

Como numa "ordem" que se preze, cumprem rituais e sacrifícios idiotas que passam inevitavelmente por enxovalhar um qualquer marginal que não partilha o conhecimento de, afinal, coisíssima nenhuma.
E crescem assim, envenenados pelo comportamento a que foram sociabilizados, sem se aperceberem do que, ou quem, vive à sua volta e padece do pecado mortal de… não ser igual a eles.

Estúpidos
Idiotas

e
Ignorantes

Ser diferente é apenas não ser igual. Não é sequer mais perigoso, mais nefasto ou maligno, ou outra merda qualquer deste calibre. Até pode muito bem ser melhor.

É que, sabem, ser diferente, implica cair para qualquer um dos lados da montanha que ergueram para nos obrigar a partilhar um ridículo planalto onde vivemos apertados e espartilhados no fazer, viver e sentir. E pode-se cair para o lado melhor, ou pior, ou apenas diferente! Porque isto de ser melhor ou pior foi inventado pelos mesmos idiotas que defenderam que todas as coisas teriam que ter um mainstream.

Tenho um respeito muito grande, próximo do temor, pela coragem de quem se suicida. Não pelos idiotas que nunca sabem que cá estiveram, mas pelos que, tendo estado, vivido e, conscientes do que os rodeia, exerceram o livre arbítrio e decidiram partir.

Não, assim não é justo. Se fosse assim tão fácil, muitos mais terminariam o viver.

A questão está na passagem da decisão à acção.

Chamo-lhe coragem e ninguém concorda comigo, porque lhe associam a cobardia de desistir.
Chamo-lhe coragem porque me lembro daquela ordem de iluminados a que pertencemos todos, uns mais que outros, e que nos incutiu o medo do escuro e o pavor do desconhecido mais absoluto que poderemos ter.

A estes guerrilheiros, a minha vénia e respeito.

Capazes de olhar para o nada nem coisa nenhuma, acabam por reunir a coragem para fazer o que a natureza mais contraria. Curiosamente, o próprio Maslow defende que, no primeiro nível da famosa pirâmide está… a sobrevivência.
E, afinal, é contra isto que luta quem decide morrer e ganha a batalha do escolher.

Aos outros que olham com desprezo e julgam os que se mataram, poderia perguntar:
- Quantas vezes quiseste já desistir? E nunca conseguiste!...
- E quantas vezes tu, senhor ou senhora do juízo fácil, te debruçaste sobre o que pode sofrer quem decide, consciente, de forma tão drástica?

Talvez seja melhor não responder, porque poderíamos ceder também…

Bem haja a coragem de não viver acossado pela chegada do morrer.

domingo, abril 06, 2008

Charles Dickens

The past is like a different country;
they do it differently, there.

sábado, abril 05, 2008

actualizei os links

mas não consigo actualizar a disposição e a névoa que me barra a alegria de estar.
solta-se o semblante negro que vai, aos poucos, consumindo o sorrir.


quinta-feira, abril 03, 2008

um destino velho

Houve um tempo em que escrevia debaixo do correr desta hora.

Ontem, como hoje, havia um desatino que não terminava, e a sempre tão presente e certa pena de morte suspensa…


...


Ouve-se perto o ecoar de um mundo que parecia funcionar. Sente-se no ar o som das cordas retesadas que suspendem a vontade que rege os passos mais loucos. Ouve-se o balanço inquieto de um barco amarrado no cais a quem só já fazem companhia as gaivotas indolentes.
Já velho, deixou de lutar contra as amarras que o derrotaram depois de tanto tempo em que ouvia o chamado do mar. Hesitava entre a volúpia de um abismo sem fundo, lá longe no mar mas acabava sempre por se arremessar sem dó de mais uma tábua que se partia contra o cais que sustinha as cordas que não o deixavam partir.
O destino de um barco será sempre a vida no mar, mais do que a vida na água e o destino das coisas foi feito para se cumprir.
Já não me lembro da última vez que o vi, ao largo, confiante e destemido enquanto avançava entre a espuma de um mar que parecia cúmplice do navegar, como um velho amigo que nos conhece os passos e acompanha o caminho ao longo de uma qualquer viagem. Hoje, já ninguém se lembra de o ver no mar.
Distinguia-o o porte e as velas cheias de coragem de viver. Sentia-o seguro por muito que o mar a que chamava seu se fizesse bravo e hostil. Era a natureza que se cumpria e a luta não era mais que um sonho feito verdade desde os dias em que sentiu ao longe o aroma da vida salgada que o esperava.
Conhecem-se-lhe os relatos de viagens fantásticas e de gentes que falam de monstros medonhos com quem lutaram, sem dó de morrer nem medo de matar. Ouvem-se também as histórias de rochas e baixios que o tiveram preso e encalhado e partido e sem força de navegar por não ter casco que o levasse a lado nenhum. Aí, esperava pelo tempo que acabava sempre por aparecer com o que saldar dívidas antigas, carregado de gente que sabia de navegar.
Deixava-se tratar como um animal ferido que sente que o fim fugiu à frente de quem chegou. E aguardava pelo amadurecer das tábuas que seriam suas e fariam dos buracos apenas memórias longínquas e, das praias baixas onde esteve encalhado, fragmentos de um sonho que nunca mais partiria. E o sonho era cada vez maior, porque ninguém partiu das memórias que guardou sozinho.
Quase novo, com alma e ânimo redobrado, ignorava a dor e partia de novo. Se as tábuas rangiam em contacto com o sal do mar que cruzava, sorria por saber que a natureza de um conserto é mesmo assim: menos forte que novo mas suficiente para sair para fora da zona de costa e ir ter com o destino.
E uma, e outra, e outra vez.

Era um porto feito de noite escura e estrelas brilhantes que pareciam mais perto à medida que chegava. Atracou suave e esperou pelo amanhecer.
Mas o sol não veio.
Mas as estrelas eram fortes e a luz do luar parecia durar para sempre, e ficou.
Enquanto as noites passavam foi sentindo crescer os membros novos que se estendiam para lado nenhum. Sem luz de sol não navegaria e que lhe importavam outros consertos que fossem precisos? Só mais uma dor que fingiria não ver e anestesiaria o sentir.

Os grilhões estavam agora presos ao cais e quando, já tarde, sentiu a angústia da falta do mar, já não lhe valeram as forças que teve um dia e que o foram abandonando ao longo das horas intermináveis em que não navegava.

Hoje, carregado de nada e cheio de buracos por onde passeia a água, faz, em cada dia, uma nova investida, cada vez mais fraca, porque não o larga a vontade do mar, como um destino que parece não desistir de o chamar para se cumprir.
Os barcos velhos e podres, esses loucos, anseiam pelo dia em que se soltarão da prisão a que foram votados em terra ou num qualquer cais que os abandonou.
Sonham com o aroma do sal do mar carregado das lágrimas que irão deixar pelo caminho que vão trilhar pela última vez.
Lá longe, mergulhados no mar que já foi seu, baixam os braços cansados e olham ao longe pela última vez enquanto se deixam afundar num abandono à morte escolhida, tão mais digna que o viver sem destino para se cumprir.

quarta-feira, abril 02, 2008

lost life

e se sentirem que, na vossa vida, foram uma escolha de recurso, uma alternativa longe do ideal, um triste prémio de consolação, como se de uma medalha simbólica pela presença na corrida do viver se tratasse?
e se viverem atolados na falta de garra e vibratto, que não existe no quadro de quem escolheu, porque... foram e serão apenas escolhas feitas em momentos em que já havia mais por onde escolher, enquanto o tempo não parava de escorrer para o chão por entre as mãos, impotentes para o agarrar.
são escolhas de recurso...

então cerrem os punhos e fujam enquanto poderem, senão será certo que se afundam num lodo de comiseração e abandono de onde já ninguém se vem embora.

são os dias que me tendem para zero.

terça-feira, abril 01, 2008

ainda a tender para zero

experimenta dividir os teus amigos nos seguintes grupos:
1. quem fala muito mais do que tu
2. quem fala muito menos do que tu

Pensa ainda nos teus amigos, e diz-me:
a) quem te ouve com mais atenção e interesse
b) quem precisará de mais tempo de antena do que lhe dás, para poder partilhar o que quer que seja que lhe é mais caro e, talvez, mais difícil de falar
c) quem procura o teu apoio
d) quem precisa de ti sobretudo para projectar em voz alta as angústias, vitórias, alegrias e tristezas para as quais precisa de solidariedade e partilhar o ónus do esforço e a glória de ganhar.

As conclusões que tirares ficam para ti e serão todas de valor, por teres pensado no assunto.

Seria tolo tentar falar, em geral, de um tema que pode ocupar enciclopédias, por isso não vou pensar em atirar-me para fora de pé, assim, na generalidade. Já na especialidade de algum capítulo deste tema... para mais tarde, talvez.

Em boa verdade, não há aqui nenhum juízo de valor, porque há sempre alguém que fala mais ou menos que tu.
O problema pode existir (mas não é obrigatório) se alguém falar muito mais ou muito menos que tu.
É que, se o fiel da balança das relações de amizade estiver muito inclinado para um dos lados, em vez de win/win, como deveriam ser as boas relações, temos win/neutral, em que há um que beneficia e o outro... não.
Quanto à 2ª parte do que te pedi, proponho que penses se consegues cumprir os papéis a), b), c) e d), em relação às pessoas que te são próximas.
- Consegues ouvir com atenção e interesse, sem desviar para ti a conversa até que se esgote o tema da outra pessoa? Quando alguém começa a conversar sobre um tema seu, gosta de acabar. Se o/a deixarem...
- Deixas espaço para brilharem mais estrelas no teu firmamento? E alimentas-lhes a luz?
- Ofereces-lhes as tuas ideias sobre o que te falam, sem roubar o papel de protagonista, para que sintam um conselho e não um exemplo que alguém te parece forçar a seguir, como o único caminho para alcançar a luz?
- E ainda, tens paciência para calar a tua voz nos momentos em que alguém precisa apenas de soltar o que tem dentro?

Falta o final, tem paciência.

Para uma aproximação ao equilíbrio entre as pessoas, nas relações, sejam elas quais forem; conta-me, também em relação aos que te são próximos:

- falas-lhes de ti? Do bom, mau, alegre e triste?
- tens a quem "sequestrar" para desabafar aquela terrível angústia ou estrondosa vitória, sem sofrer julgamentos, e pena com juíz e carrasco preparados para a execução?
- procuras alguém para debater temas mais difíceis e ouvir opiniões que respeites?
- tens quem esteja do teu lado mesmo depois de saber que cometeste o pior dos crimes e que, ainda assim, lutará contigo contra o mundo?

Não se podem tirar grandes conclusões. Pelo menos daquelas que se aplicam a qualquer um.
Mas podes tentar decidir se quem tens à tua volta te preenche e se deixa preencher por ti, de forma equilibrada, como deve ser a de grandes amigos.

Aqueles que achares que sim, agarra-os com mais força do que aquela que geralmente achas que tens.
Aos outros, que aches que podem chegar onde já estão os anteriores, dedica-lhes mais tempo do que imaginares que é possível.
E aos outros,...
Poupa a energia que desperdiçarias nesses, para aplicar em quem merece fazer parte da tua vida. Poderás um dia oferecer-lhes, e receber, en passant, um abraço rápido acompanhado de um sorriso simpático.
Passamos muito tempo a investir em projectos perdidos.

E o nosso tempo, como a nossa energia, afinal, tende para zero.
E um dia, definha de vez.

quinta-feira, março 27, 2008

hoje à noite



Primeiro: um filme fora de série: "The bucket list" com Jack Nicholson+Morgan Freeman





Depois: um concerto (em vídeo) que adorei: "Caught in the act" Michael Buble.

Uau..

terça-feira, março 25, 2008

no limite, danados?...

curiosamente, já depois de escrever o post anterior, reencontrei há dias o professor que me ensinou os limites da matemática.
ontem lembrei-me que, ao contrário da ideia romântica de "tender para o infinito", tendemos mesmo é para zero, numa progressão decrescente mais ou menos acentuada consoante as variáveis de viver que lhe acrescentarmos.

Vejamos o que faz o tempo, uma condição de evolução dos limites:

- não há amores para sempre - "they inevitably fade away with time”. A invenção de Hollywood do “I love for ever” só ainda pega em almas desavisadas e carregadas de ingenuidade
- não há ânimo que dure para sempre; apesar da maior ou menor frequência de episódios de renascimento que possam existir
- desaparece o querer
- esmorece a paixão
- esfuma-se a energia
- vai-se finando a própria vida

Os gregos, habitualmente sábios, traduziram bem este conceito na lenda das Danaides. Seremos nós também condenados apenas a, para sempre, tentar encher uma jarra crivada de buracos?
É que, por muito que empenhemos a nossa -limitada- capacidade, o melhor que conseguiremos é tentar evitar que se esvazie, porque sabemos à partida que não conseguiremos estabilizar o nível da água em nenhum ponto.
Será todo o esforço inglório por tender para zero? Uma metáfora para o viver?


Danados são os condenados ao inferno vivo, ou morto, de um tormento que só não tende para o infinito, por tender para zero a capacidade de sofrimento do castigado.
Agora, talvez se perceba melhor porquê.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

o zero

dei por mim a pensar como está sobrevalorizado o conceito de infinito face ao zero.


o tema é estranho? ainda agora arrancámos...

parece fácil, perceber a diferença de mística entre os dois conceitos: enquanto que o zero é fácil de explicar - basta dizer que, à tua frente não está nenhum comboio ou uma fruta qualquer para servir de exemplo - já para perceber o infinito implica abstrair ao ponto de pensar que algo não vai acabar.
Curiosamente, o infinito, apesar de ser em erro, é o registo em que vivemos mais tempo da nossa vida.
Ninguém pensa que a sua vida vai acabar, ninguém coloca na balança do dia a dia a possibilidade de ficar sem o/a companheiro ou pai ou mãe ou outro qualquer grande amigo que, afinal de contas, pensamos que estará ali para sempre. Para sempre = infinito.
Os outros exemplos mais fáceis de explicar o registo "infinito" em que vivemos encontramo-los em todas as pessoas que, quando agem, não têm ideia das consequências do que fazem. Pelo menos não frequentemente.
Não vale a pena corrigir; Não vale a pena desculpar; Não vale a pena construir; Não vale a pena fazer agora -- teremos sempre tempo mais tarde, não é?
NÃO.
Perturbador? Pois é.
Vivemos enganados pelo infinito e fazemo-lo mais rasteiro e comezinho do que deveria.
Em boa verdade, se compreendêssemos bem o finito e, em extremo, o zero, viveríamos bem mais preocupados e angustiados com o fazemos com os minutos dos dias que alguém nos ofereceu, PORQUE SÃO CONTADOS! Porque não duram para sempre. Porque se esgotam assim que os consumimos e tantas, tantas vezes nos levam a pontos sem retorno, sem que nos tivéssemos apercebido de que o abismo dos actos estava ali tão perto.

O zero é um conceito, bem mais angustiante que o infinito. Porque nos obriga a abandonar a injecção da droga de viver alheado e o respirar sem pensar porquê, para nos obrigar a enfiar o focinho no chão e ver que a porra desse chão vai acabar ali à frente.

Se percebessemos o sacana do zero associado ao finito dos dias, dos actos e até do pensar e do escrever, será que não seríamos mais gratos pelos momentos de tempo que temos e deixamos passar impunes e menores de importância?
Será que se poderia ensinar às crianças esta história do horror de viver:
- Bebé, criança, adolescente, ou adulto tolo, sabes, viver é assim uma espécie de revólver de 6 tiros. E sabes, como o revólver, só tens 6 tiros. Usa-os bem e pensa antes de os desperdiçares, porque depois não há mais. E não há mais, é mesmo assim. Não brincas mais ao viver.
E aqui a coisa complica.
Não?
Sim.

O extremo da angústia do zero é o depois.


??


Pois.

Há-de haver um dia que se faz zero. Há-de haver um dia em que o finito termina. Em que não há mais.

E depois?

Já imaginaram viver sem falar? Não parece fácil, porque gostamos e sentiríamos falta.
Já imaginaram viver sem poder pensar?
Já imaginaram viver sem se poder mexer?

Porra e, já agora, já imaginaram juntar tudo isto e... não poder viver?
Nem sequer para escrever ou sentir os aromas, as cores, os sons e o sangue a correr-nos pelas veias das emoções... ou a companhia de quem gostamos ou o partilhar da vida daqueles a quem demos o viver.

Sim, essas coisas todas que gostas de fazer e que poderias ficar dias seguidos a enumerar vão, um dia, acabar. Mais, vais ficar sem elas e, mais ainda, vais ficar sem ti.
Ainda não? Tens filhos? Então experimenta pensar que, amanhã, alguém vai "zerar" o contador de viver da tua criança...

Dificilmente isto será pensamento de gente sã. Aceito. But then again... a vida é feita de trade-offs e há, definitivamente, um preço para tudo.

O zero da nossa vida está ao virar de qualquer esquina e faz parte de ser estúpida e fatalmente finito. E a responsabilidade que vem agarrada a este sentir obriga, em consciência, a sugar o tutano de viver e ouvir, sentir e fazer melhor de cada vez que exercermos o direito, não, o dever, de bem viver.

Se soubesses que irias morrer amanhã, não viverias de forma diferente os minutos que faltavam? Então de que esperas? É que, sabes, o amanhã é já a seguir.

Percebo agora, que não se podem ensinar assim as crianças a perceber o zero, porque queremos que cresçam.

No entanto, suspeito que, se muitos adultos houvesse que gastassem neste pensar algumas horas do viver...

Ou morriam. Ou passavam a viver.

Por aqui,... vou viver até morrer.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Não gosto de sentir que não é meu o melhor dos dias que vivo


Não gosto de serviço de louça para visitas
Não gosto de faqueiro para ocasiões especiais
Não gosto de roupa especial para mostrar aos outros
Odeio a escravidão da vaidade de ostentação.

Adoro utilizar o que há de melhor, ao meu alcance, todos os dias; porque assim, os meus dias não têm como não ser todos especiais.
Adoro comer na mesa com as mesmas condições que ofereceria à visita mais distinta, porque não imagino uma única razão pela qual as visitas devem ter melhor tratamento que eu próprio.
Gosto de ideia de jantar em casa com a mesma roupa que vestiria para um evento qualquer onde as outras pessoas usam a melhor roupa que têm.

Atente-se que não sou contra a bela pantufa e de um dia de preguiça no sofá. Um dia. Ou outro. Não uma vida.

Onde é que perdemos a capacidade de atirar o melhor de nós a todos os minutos dos dias que cruzamos?
É que os dias comuns, os da rotina, só são medíocres porque os alimentamos assim.

Se não é para mim não deveria ser para mais ninguém.
Parece egoísmo? Talvez não.

O que se faz deve ser determinado em primeiro lugar pelo carácter de quem age? Ou pelo bem que parece?

Então porque fazemos a festa e montamos o palco para quem vem se não tratamos assim quem está?
Corremos o risco de não ser mais que falsas marionetas de um efémero espectáculo de viver que se estalará como o mais reles verniz, ao primeiro toque de uma qualquer adversidade.

O arquétipo (eu sei que é abuso, mas desculpa lá, ó Jung) de varrer para debaixo do tapete poderia perfeitamente ter uma tradução parecida com esta.

domingo, dezembro 09, 2007

maybe a daylight away of any of you



"Dementia crawls down on you unnoticed and it always takes long to acknowledge it's there. The tougher you have built on the outside, the easiest it is for it to melt the inside away."

someone must have written so obvious statement...

sábado, novembro 17, 2007

gente perdida de mim


Reencontrei há dias gente amiga de quem me tinha afastado há já muito tempo. Mais até do que pensava. Tempo demais.
Viajava de carro e falava sobre outras coisas quando me fui apercebendo da falta que me fazia aquela outra gente de quem me fui afastando.

Relembrei-me e destroquei uma conversa simpática com aquele mais presente em tempos mais idos. Ainda hoje tem um semblante triste e melancólico e vive assolado por sentimentos tumultuosos e emoções que lhe continuam a castigar o corpo por quererem viver no limite. Conversámos sobretudo das saudades dos nossos encontros imperturbáveis e alheios ao mundo como alheio fui ficando à conversa que se ia desenrolando atrás e ao lado.

Da memória, visitou-me também aquele mais atrevido e assanhado até, que tanto prazer me dava quando tomava para si a pena e os anões. Perguntei-lhe pela vida e conta-me que teve saudades também. Saudades de me dar asas e colocar nos olhos as cores fortes e os aromas carregados que me atiravam até muito mais além do que eu faria sozinho. Contou-me que a vida sem ele não era a mesma coisa e pediu-me para não o mandar embora de novo. Viver sem ele seria mais triste, seria como viver quase só com o primeiro. E isso não era bom.
Ouvi, comovido pela falta que me assaltava, a ausência daquela parte de mim.

Assomou-se também o mais ausente. E chegou zangado. Ao contrário do seu espírito normalmente positivo e bem disposto, vinha danado. Danado porque quando há muito tempo tinha concordado em ser o menos presente, não lhe tinha passado pela cabeça ser tão esquecido, tão pouco lembrado e nada acarinhado como nos últimos meses da vida dele e da minha também. Parecia até o último, de tanto que resmungava e se irava, crítico de mim. Não o pude apaziguar, porque também eu, só podia concordar.
Falámos de quando nos poderíamos voltar a ver e prometi-lhe um sorriso para breve. Prometi-lhe um arco-íris sobre a minha vida para o deixar menos só. Mas não sei se vou conseguir cumprir a promessa tão cedo. E foi-se embora com a dúvida legítima de que passaria algum tempo antes de nos voltarmos a ver.

Não nos podemos afastar demais da nossa loucura. Fico pior…

segunda-feira, outubro 08, 2007

Yangon de hoje - em Myanmar

Desde que escrevi o post anterior que o meu destino de viagem tem sido badalado nas notícias pelas piores razões possíveis.
Não confesso a ninguém mas sinto o peito apertado de uma vontade louca de largar a correr de volta para colocar os braços à volta das crianças novas e mais velhas que me sorriram em Myanmar.
Como é fácil ver à distância o destino triste de um qualquer povo que não se conhece e como difícil se torna ver cair e ser violada uma forma de viver que se pauta pela suavidade e harmonia com os outros seres humanos, de que eu fiz parte.
Que fácil foi concerteza para a junta militar de Myanmar, há já algumas dezenas de anos, ter conseguido subjugar e dominar um povo que se preocupa mais com a sobrevivência do que com qualquer outro excesso e supérfluo luxo como o regime democrático do seu país.
É bonito dizer dizer “liberdade ou morte”, desde que a morte não seja à fome.

Mas até os mansos têm limites. As convicções que fizeram com que este povo se mantivesse ordeiro, sereno e pacato assentam na religião que praticam e no respeito pelos outros, sobretudo pelos monges e pelos mosteiros para onde enviam as crianças para aprender cultura e preceitos de humanidade, como me dizia um homem com quem falei. “Ali – dizia-me – os jovens aprendem a ler, a escrever, a matemática, as ciências, a palavra de Buda e, mais importante, aprendem que o respeito pelos outros deve ser uma prioridade absoluta.”
O conceito arrepia, de tanta falta que faz ao presente em que vivemos. Se o tivéssemos, seria como abrir uma grande barragem no Nilo para deixar alagar os campos que depois de carregados de fertilizantes naturais produziriam as melhores colheitas de gente.
Os militares de Myanmar terão criado um problema que só conseguirão resolver à custa de muito sangue e vítimas inocentes. Estes monges, apolíticos por natureza, reúnem a simpatia e carinho do povo que viu serem devastados os mosteiros onde aprendem as crianças.
Esta treta pode dar merda.

E muitas crianças podem ficar sem ter onde aprender a sorrir para os outros.

quinta-feira, setembro 06, 2007

ainda hoje consigo ver o rosto das crianças felizes

Fui de férias e deixei o meu blog sozinho.
É verdade.
Mas fui sem remorsos sabendo que, na volta, teria histórias giras para lhe contar que compensariam parte do abandono. E as expectativas não saíram goradas. As minhas, digo, porque as do blog abandonado… a ver vamos se gosta do que trago para lhe contar.

Há muitos anos que alimentava o sonho de poder viajar para um sítio que fosse suficientemente longe para eu me sentir novo, criança e aprendiz.
Não que não seja também aprendiz, ainda, no meu país. Mas já não sou inocente e despojado de intenções. A ingenuidade de quem não sabe, nem tenta adivinhar, como se vai desenrolar o filme da vida, perde-se cedo e, por esta altura, já não volta.
Não me interpretem mal, ainda há que não tente adivinhar o curso da vida. Mas as causas são outras: abandono, falta de vontade, desânimo ou até a opção consciente de que as alternativas e as ramificações das decisões dão tantas dores de cabeça que a opção avestruz acaba por ser eleita como a mais confortável e a menos penosa. Mas isto era outra conversa com sabor a deja vu já salpicado por outros posts aqui da chafarica.
Voltando atrás para não me perder.
Quando os anos passam perde-se e, para alguns, sente-se a falta, da ingenuidade do olhar das crianças que deixa ver despidas de preconceitos, as gentes.
O mesmo olhar que deixa ver sem cansaço ou preocupação, os sítios novos; para a gente pequena, uma boa novidade raramente é perturbada por um qualquer problema metafísico da vida.
É ainda o mesmo olhar que permite ver e receber as acções das pessoas sem lhes tentar adivinhar intenções nem sujar com supostas malícias ou cabalas que os adultos sonham que se constroem à sua volta em regime permanente.

Para poder olhar assim para o mundo tinha que ir para longe o suficiente e para perto de um povo com costumes bem diferentes dos nossos. E assim fiz. Foi um sonho antigo tornado realidade quando embarquei numa viagem de mais de 20 horas até aterrar em Yangon (ou Rangoon à inglesa). Daqui até Myanmar (ou a antiga Birmânia) foram duas escalas, três aviões, pr’á’í 6 filmes, muitas refeições de plástico e poucos momentos de sono. À chegada, a diferença horária era de +6h30m, eram perto 7 da manhã locais e a inevitabilidade de um jornada de 48 horas seguidas fazia-me pensar que já não tinha 20 anos e que havia de pagar o preço disto mais tarde ou mais cedo.
O bafo quente já se tinha feito sentir em Doha no Qatar, na última escala, onde habita uma autêntica Babilónia que inclui executivos ocidentais, malta de mochila em trânsito de ou para a Ásia/Médio Oriente e árabes que lavaram os pés no lavatório ao lado do meu, onde eu estava a lavar a cara.
Mas em Yangon estava mais fresco. Abafado, sim. Mas menos quente.
O guia marcou encontro para daí a duas horas começar a descoberta de um mundo novo e entretanto atirei-me a uma sesta que me iria deixar mais bêbado ao acordar do que ao adormecer.
Mas isso segue daqui a pouco.
Contarei o resto ao jeito de crónicas, senão teria que estender aqui um lençol de palavras e letras que mataria de cansaço o mais resistente.
Apenas posso dizer que se tem vontade de ficar mais tempo e mudar de vida. Não é por acaso que o budismo tem um efeito e charme tão poderoso sobre quem se cruza com esta forma de viver.

segunda-feira, agosto 13, 2007

pequeno tributo



Acordar devagar. Ainda as memórias ou, sobretudo, hoje.
Espreitadela para a rua pela frincha da janela para confirmar que o tempo não defraudou os planos de ontem, nem as expectativas. É que o dia acabou de chegar mas é esperado desde ontem.
O banho é um salto que podia ser de uma gata a começar a esticar as unhas e a ensaiar os movimentos para cá e para lá. Em casa vêem-se os cenários de um ensaio geral que as prepara para o teatro da vida desse dia.
Escolheram bem (ou não, e aí a coisa complica, mas isso, fica para outro dia) e sentem o prazer do deslizar de um vestido pela pele de seda. Ajeitam, completam e acessorizam, se bem que não se deviam chamar acessórios de tão importantes que são. Monet não deixou de pintar ao fundo a ponte por cima dos nenúfares. Não seria o mesmo quadro que hoje adoramos ver.
Se o cabelo está bem, está metade ganho, e não há como sentir a altura extra daqueles saltos para fazer subir o ego e a autoconfiança que aquelas pequenas tiras de couro entrançado fazem sentir.
De frente, de lado, e de costas. Não há como uma espreitadela mais ou menos rápida para confirmar os ângulos todos de que sabem que vão ser apreciadas. O espelho é cúmplice desse flirt passivo (ou não) inconfessado.
Sabem o que querem provocar e vão preparadas para isso. Raramente estão isentas de intenção, sejam elas quais forem. Nasceram para conquistar sem ser pela força e aperfeiçoaram-se tão bem que até dá gosto… e mais…

Imagino muitas vezes o criador a pensar, a pensar e a ter uma daquelas epifanias onde conclui: “Já sei! Vou criar uma coisa no início do dia, chamada manhã e, nessa altura, as mulheres vão sair de casa e conquistar o mundo enquanto o preenchem de charme e sensualidade.”
Só me resta dizer:
“E que bem lembrado sr. Criador. Que bem lembrado.“

Pesar



Deixem-no secar ao sol
Debaixo de uma pedra pesada
Onde as cobras fizeram os ninhos
Esquecidos pelo passado.

Façam cair a noite
E envolvam-no no ruído ensurdecedor
Que faz o silêncio à sua volta

Amarrem-lhe os braços
E arranquem-lhe as pontas dos dedos
Que usa para sentir e escrever

Levem para longe os sonhos
E encharquem-no de drogas
Capazes de fazer esquecer e substituir

Larguem-no no meio da multidão
Que corre apressada para sobreviver
E preencher de sobrevivência
Os dias vazios de tudo o resto

Substituam-me as partes que sentem e pensam mas não me submetam à vulgaridade de não preencher.
Arranquem-me o que quer que tenha de meu mas não me deixem à deriva nos pântanos pastosos do vazio dos desafios e do não querer chegar a lado nenhum.
Ofereçam-me a droga de que tenho tanto medo porque não quero mais sentir a ausência dos estímulos.
Não consigo aguentar não transpirar pelo olhar o desejo que sinto pelas pessoas e pelas ideias.
Deixem-me secar ao sol mas não me submetam à aridez de não ter água para beber.
Aticem-me como às feras para combates onde me exceda e morra de cada vez.

Sempre mais. Demais. Em excesso.

Percebo-os bem quando diziam querer morrer a lutar numa batalha onde elevassem o espírito guerreiro. Não queriam mais que cumprir a vocação com que nasceram ou que criaram e fizeram crescer. Preparavam-se e sentiam orgulho na perspectiva de morrer em excesso e em êxtase.
Trilhavam caminhos.
Tinham um propósito.
Sentiam a missão de viver a correr nas veias e viviam preenchidos pelo ponto de que não desviavam os olhos e onde sabiam que queriam chegar.

E quando morriam, morriam vivos. E completos, sem pena de partir.
Se eu viver, que não viva morto.

segunda-feira, agosto 06, 2007

não vale a pena

insistir em falar quando nos ouvem as palavras como falsas e os propósitos como excusos.

não vale a pena
sustentar o erro de acreditar, de cada vez, que afinal foi só um arremedo de um qualquer sentir esquisito que fez alguém correr atrás da própria sombra.

há pessoas assim, que se cruzam connosco. pessoas que não têm descanso nem paz porque os seus dias são povoados de suspeitas de conspirações e conluios maquiavélicos com maior ou menor premonição, mas sempre no propósito fixo e determinado de os prejudicar.

estas pessoas citarão com frequência sabedorias populares ancestrais como:
"a mim não me fazem o ninho atrás da orelha", "a mim não me apanham" ou a melhor "a mim não me comem por parvo".
é doloroso ver a insegurança levada a extremos que fazem assemelhar este comportamento à chico-espertice, quando afinal não é mais do que uma quase inaptidão para desenvolver uma sã convivência com os outros seres humanos.
perseguidos pelo sistema, pelos outros, pela má sorte, estão sempre em alerta excessivo e desmesurado, que os alheia do mundo e das coisas boas.

não os fazem de parvos, mas também não lhes fazem mais nada porque estão destinados a ser sós ou a partilhar a teoria da conspiração com um outro correlegionário com e de quem, invariavelmente, suspeitarão mutuamente até à exaustão.

conhecem alguém neste caminho?
então saiam da frente para não serem esmagados pelos trilhos de quem carrega as certezas sem volta.

quarta-feira, julho 25, 2007

... de uma música da Mafalda Veiga

-Se um dia deixar de ser perturbado, desmorona-se também a essência de mim-

"Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário"

Ter que viver e calar surdo,
não fosse alguém ouvir
e adivinhar que desconheço
o destino das gentes

"Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade"

Depois da luz dos dias
se apagar no breu seco
apresso o passo
para não perder o tempo
de fazer coisa nenhuma

"Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda"

Dizes que não
Aos olhos
Enfeitiçados de sangue
Pelas mãos
Que me perderam

"Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
para a receber daquilo que aumenta o coração"

Apagar será deixar de ser
Virar e já não ver
o andar que se fazia de costas
para não perder de vista
o rosto de Eurídice.

A vertigem de descidas
Com o pesar de não mais poder
E sentir o calor
Quando paravas
Nos lagos gelados
De um peito incrustado
Pelo sal
Das lágrimas que ficaram por chorar.

Os dias sucederam-se
Nos espaços
Preenchidos já pela memória
Do presente
Sempre menos que perfeito.

quinta-feira, julho 19, 2007

os cabrões dos amores perfeitos



Gostava de saber quem foi o idiota que resolveu chamar amor-perfeito à flor. Como se não estivesse já avisado, desde há muitas centenas de anos para cá, que os ingleses inventaram o termo: “Contradiction in terms”.
Pois ao abrigo da terminologia anglo-saxónica, a quem é preciso respeitar a anciã e provecta idade, não se podem/devem misturar palavras que, por estarem tão antagónicas em sentido, não faz sentido nenhum que estejam próximas no espaço.
Claro que há ainda a liberdade poética… e ao abrigo deste gigantesco chapéu vale tudo ou quase tudo.
É uma fraude, esta boa da liberdade poética, pelo desengano a que pode levar um qualquer distraído mortal ou outro qualquer visitante de uma galáxia distante. Se num país como os EUA se processam empresas por não terem colocado o rótulo a dizer que o gato não deverá ser colocado dentro de um micro-ondas, imaginem o que este avisado povo não teria feito ao energúmeno que inventou a expressão “amor-perfeito”.
Concerteza que teríamos a pena capital por morte na fogueira depois de arrancadas as unhas dos pés e mãos com um alicate de cortar ferro, para todos os que tivessem induzidos quaisquer outros sobre a perfeição do amor.
Nem o amor próprio está próximo da perfeição, quanto mais o “abnegado e altruísta” amor sentimental entre dois seres humanos. E a questão preocupa-me a partir daqui, porque enquanto bom português, aprendi a viver com o inevitável e essa história de lutar contra moinhos de vento está feita para os parvos dos quixotescos espanhóis, mais do que para nós.
Aborrece-me, é verdade, como se comprova pelos parágrafos anteriores, mas é só isso. Não há volta a dar e, além de um qualquer parvo juiz americano, mais ninguém vai crucificar ninguém por causa deste assunto.
É idiota, a expressão.
É ingénua e perigosa, a crença.
É exasperante, a nossa capacidade em procurar os gambuzinos da vida. Mas pronto.
Mas não deixa de me angustiar a fatalidade do bicho.

O busílis da coisa está no limite até onde deixamos resvalar a coisa.
É que a coberto de sabermos que “nunca pode ser perfeito”, escondidos atrás da irredutível muralha da “realidade das coisas” deixamos navegar o barco das relações sentimentais para pântanos cheios de lodo onde os remos já custam a entrar e a fazer progredir a casca de noz a que vamos chamando de barco de viver onde, extraordinariamente, equilibramos das formas mais inimagináveis os futuros de tantas pessoas.
Onde é a porra do limite que deveremos considerar aceitável? Até onde são apenas contingências inevitáveis e onde começam os desequilíbrios estruturais que comprometem as casas da vida nos katrinas do dia-a-dia?
É que o desgraçado não é perfeito, pois não, mas aproveita-se das nossas fraquezas, incertezas e desconhecimentos para se instalar como um parasita que encontra um canto para onde ninguém olha e depois… depois ficamos a depender mais da sorte do de outra coisa qualquer para não sermos atacados por uma qualquer infecção que exija a remoção de um qualquer membro… da família.
Alguém faz o favor de explicar como se identificam os pontos de fronteira a partir de onde saberemos que estamos em território estrangeiro, sujeitos a um qualquer ataque de milícias armadas do suficiente para nos destruir o ânimo e a força de sermos gente de convicções?
Já sei, agora não dá para explicar porque não há tempo…
Estas coisas não são directas e simples…
Faz parte da magia de viver…
O incerto tem sempre o mistério de não ser óbvio…

Foda-se! Mas tudo tem um tempo! Os disparates de ser jovem e inconsciente têm o tempo contado no período da vida da gente, porque se não estariam… fora de prazo!
Também a incerteza tem que ser controlada se não,…
Se não,… bom… Heráclito dizia que a única coisa constante da vida era o processo de mudança, e assim ficaríamos presos a esta incerteza como elemento de base na vida?
Desconfio. Não gosto. Recuso-me terminantemente.
A alternativa da imobilidade vai dar ao mesmo. Este tal de Heraclito tinha um arqui-rival, assim ao género dos super-heróis, que dizia em traços gerais que nada mudava… o mundo das sensações não era mais do que uma ilusão, que auto-alimentavamos.
Perturbador, mas muito verdade. É que o que fazemos, ansiamos e sentimos é talvez, maioritariamente gerado internamente e quase independente do alvo do nosso afecto.
Alimentamos e condicionamos, aos mesmo tempo, os sentires do amor, entre outros.
E por isso, é verdade, alguns tolos ( e talvez felizes? ) podem mesmo sentir essa treta dos amores perfeitos, enquanto outros, não se conseguem focar num só ponto mais próximo e esquecer o resto à volta, vivendo assim a inevitabildade de uma vida que não tem amores perfeitos.
Os limites são nossos. Decididos consoante a capacidade que temos de sofrer e apanhar porrada: os mais masoquistas e covardes e contingenciais, ficam mais tempo e aguentam mais merdas. Os outros arrancam para outras paragens quando não lhes agrada o agitar das águas do mar porque não estão para ficar enjoados.

Afinal, tudo depende do que nos dispusermos. Se quisermos, conseguimos gerar quaisquer sentimentos e viver em quaisquer situações, numa realidade que, de tão bem alimentada passa de virtual a real. Não gosto desta promiscuidade entre o falso e o real porque, em boa verdade, não saberemos talvez nunca o que é que é mesmo real…

Vi a foto do desgraçado do amor-perfeito e vim aqui parar… é tão fácil compreender a malta que consome drogas duras.