quarta-feira, dezembro 21, 2005

small




os minutos escorrem pelo dia afora à espera do tempo de chegar ao fim.

e hoje ?...


Antes, entretíamos os dias com pouco de que fazíamos muito


antes, éramos beleza, graça e força de ser.



Já percorremos espaços impossíveis e caminhos difíceis


aventurámo-nos em terras e povos novos.


Já valorizámos a tranquilidade e contemplámos a calma


já quisemos até, de dois, fazer um, que acreditávamos diferente de tudo o resto.


Hoje, no fim dos dias, caídos ao lado dos outros que também jazem no nosso chão, relembramos com saudade as pérolas de memória que guardámos e queremos manter ainda, a tanto custo.

E fizeram por valer, mesmo, a pena ?...

terça-feira, dezembro 20, 2005

prisioneiros


E se o viver for feito assim?
E se a pressionarmos de dia, à custa de gotas de sangue nos vincos do aço frio que rasgam a pele das mãos?
E se forçarmos cada vez mais, na cadência das horas de sol que passam por nós?


E se não a soltarmos de noite?...


segunda-feira, dezembro 19, 2005

o mar do meu fim de semana



Ontem pensava: um dia hão-de acabar-se as páginas que tenho para escrever no livro das letras.

Hoje sei que não é possível ser assim. Geradas ou induzidas e, se for necessário, ditadas até. Terei sempre o que arremessar a um qualquer teclado que se apreste a receber o que lhe queira oferecer.

O fim de semana. Xiiiii.... tanta coisa.
Muita, ficará sempre por dizer, que eu nunca direi tudo o que penso ou sinto. Pelo menos, ao mesmo tempo e no mesmo lugar.
Sinto este sentir como se fosse um mar de água que vai enviando ondas para as praias da vida das gentes que passam pela vida da gente.
Aos poucos de cada vez.
Mas todos os dias há ondas a bater de encontro aos pés, enterrados nas minhas praias.

Há praias, como as da Arrábida, onde as ondas do meu mar calmo e tranquilo chegam devagar e fazem aquele barulho “tchuáá..” quando se espraiam na ponta da praia, junto ao mar. O mar da Arrábida parece uma piscina, seguro ou quase, e não tem um encanto particular per si: faz parte de uma paisagem de vida. Harmonioso.

Conheci também praias como a Caparica, cheias de gente. Carregadas de tanta gente.
A querer ir à praia.
Na Caparica o mar é generoso. Exibe-se com o que tem para mostrar: ondas, marés, e muita gente. É um mar orgulhoso e com vaidade, de ter tanta gente a querer estar.
Confesso que não sou, de todo, fã das praias da Caparica.
Não gosto de mar assim, de todos. Não gosto, fácil demais, onde todos entram e saem quando querem, sem consideração ou respeito pela água que tem.
Mar estúpido que pensa ser alvo de tanta atenção quando, afinal, é apenas usado e revirado, de dentro para fora, por aqueles que, depois de se servirem, lhe viram as costas com o prazer estampado no sorriso egoísta dos lábios entreabertos. Sem um adeus.
E as praias pactuam em tudo isto, como madames de um qualquer bordel.

Conheci, também, o mar da Comporta. E sabes, gostei do mar da comporta. É um mar elitista, o sacana, não há dúvida. Até as praias, não são muito fundas para não abrigarem as míriades de gente da Caparica.
E esconderam-se.
As praias da comporta esconderam-se para lá de Troia, colocando antes de si uma barreira de mosquitos assassinos.
Esconderam-se para lá do estuário do Tejo onde havia menos gente.
Esconderam-se, por fim, atrás de empreendimentos turísticos ao alcance de poucos.
E ali se deixaram ficar, com areia limpa e uma frente de mar carregada de conchas. É um mar que fala, este das praias da Comporta. E manda para as areias as notícias de si, em forma de um monte de esqueletos que guarda e cuida até não ser capaz de os segurar e ter que soltar um longo suspiro de espuma onde segura e entrega o que não pode mais esconder em si.
Este é um mar que recebe visitas distintas.
Como qualquer artista famoso, começou a chamar a si a atenção devida pela sua arte. Mais tarde, tornou-se moda. E hoje, apesar de continuar a pintar quadros geniais, é frequentado por aqueles que apenas pretendem dizer: Eu tenho este mar.

A posse substituiu a reverência e a admiração de um mar que merecia mais daqueles que hoje não lhe prestam já a homenagem devida. É um mar em sofrimento. À espera de resgate de gente que goste de mar. Eu gostei do mar e das praias da Comporta.

O mar mais famoso e coqueluche de todos os nossos mares é o mar do Algarve. É o José Castelo Branco dos nossos mares. Primeiro, tratou de ter uma temperatura amena que atraísse os locais e turístas, afoitos de conforto e bem estar. Tratou de licenciar, à parva, todas as construções possíveis e imaginárias, com ou sem respeito pela terra onde ficaram, para ter mais audiência.
A todo o custo, chamou a si tantos quantos pode.
E foram. Resmas de gente. Chusmas de gente. E as praias pactuaram com o mar para serem de areia fina e agradável. Não mais que um chulo, com as suas putas.
Mais tarde percebeu que tinha que dar o que fazer às pessoas, depois do mar e das praias. E criou uma série de bares e discotecas – perto de si, é claro de ver – para continuar a ter corpos despidos na areia da praia.
Gosto da água quente, mas não consigo gostar do Algarve. Honrosas excepções de praias e mares que se abrigaram atrás de arribas altas onde os preguiçosos não vão.
O mar e o as praias do Algarve também não me cativam por muito tempo.
Morre-se estúpido ao sol, a fazer companhia a lagartos e grãos de areia a escaldar.
E morrem as palavras e ofega-se pelo calor e perdem-se as conversas das gentes que correm para o mar para se arrefecerem.
Mar de quê? Paisagens do poente?
Mas, também eu sou fraco e pactuo com tudo isto quando quero água quente e hotéis fora do caribe. Vendido...

O mar da minha eleição é no centro do país.
O mar da minha vida é perto de Leiria.
O meu mar está em S. Pedro de Moel.
E, o mar de S. Pedro tem várias praias porque percebeu, há muito tempo, que há muitos tipos de gente que querem e merecem estar ao pé de um mar assim.
O mar de S. Pedro tem uma coisa deliciosa onde vivi as férias dos meus anos doces de criança, a que chamaram de praia da Concha.

Resgardada por escarpa arenosa, em forma de concha, não deixa o vento chegar à areia, com a frequência com que chega a outras praias; a praia da Concha foi construída pelo mar, para crianças de dia e amantes em fins de tarde.
Lá, o mar é rebelde e furioso.
Lá, o mar não faz compromisso.
Lá, o mar tem a natureza que lhe foi dada pelos Titãs gregos que criaram as coisas.

Lá, acreditava eu, quando era criança, morava Poseidon. Só podia ser ali, tal a violência da água, que atirava baleias contra a costa.

Armadilhado com um fundão gigante, só nos deixava tomar banho na maré alta. As ondas assumiram, no princípio dos tempos, o papel de escultoras de escarpas e ainda hoje se atiram com fúria contra as rochas que teimam em fazer-lhe frente na frente da praia.
Aprendi a tirar partido dos despojos desta guerra. Escondido atrás das rochas, esperava o embate da refrega, para tomar banho de chuveiro de ondas.
Orgulhoso, verdadeiro e sem compromissos, o mar de S. Pedro de Moel, na praia da Concha. Logo ao lado do farol, antes da extensão enorme de areia da praia Velha.
Serena e altiva, a praia Velha, também no mar de S. Pedro.

Entre uma e a outra praia estava encostada à falésia, mesmo, mesmo encostada à falésia, a casa do amigo António Campos. Com as janelas viradas para o mar e os salpicos de sal que se iam fundindo com a madeira das tábuas, era um sonho de lugar de sonho onde tão depressa se assistia a marés vivas, como a nasceres e pores de sol de fazer inveja a qualquer impressionista. E todos os anos fazia questão de nos convidar. E nós íamos. E fazíamos entre 5 a 6 horas de viagem sempre à espera de começar a cheirar o aroma dos pinheiros que denuncia o pinhal de Leiria, a quilómetros. Nesta viagem, as crianças não se impacientavam e a calma ia tomando conta de todos, à medida que nos afastávamos de Lisboa. Um dia, derrubaram as casas de praia, entre as praias. E, mais tarde, o António, concerteza saudoso da natureza feita arte, do alto das rochas, morreu também.

O meu mar fala de dia e de noite com voz alta e ribombar das ondas, para quem quiser ouvir. Fala devagar, o meu mar. E envia notícias pelas ondas às praias de que gosta e respeita.
Deixaram-se perder pelo mar e mandaram por terra o respeito pela força da natureza. Hoje, sangram-no com uma gula e avidez que dói a quem gosta. Do mar.

E ele, responde com a mesma avidez de destruição da gente que lhe quer mal.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

um dia

Apodrece em mim o que não vivo e vou ficar sem saber o que fazer com o que já não serve para absolutamente mais nada.

Um dia, os meus olhos vão deixar de observar e ver o que já escureceu. Um dia, ainda fico cego.

E se à beira da escarpa me soprar o aroma de verão? E se me atrairem as brisas suaves do inverno? E se a cor das folhas que caem passar pelos meus olhos fechados?

Sente-se ao longe a quietude que precede o que não se deseja. E o desassossego trepa-nos pelo peito acima. Perto daqui já não vive ninguém ao longo das estradas desertas de gentes vivas e de coisas mortas.

O sol aponta o caminho para debaixo do horizonte enquanto observa, triste, o esmorecer das últimas fábulas de La Fontaine.

Mas sabes,... já não há animais em nós. Matámo-los. De fome e de sede.

ups

houve aqui um piqueno mal-entendido.

Vou deixar de escrever... neste computador, porque vou mudar de emprego!

Sorry for the missunderstanding...

quinta-feira, dezembro 15, 2005

homenagem à alcateia


Será concerteza um dos últimos posts que escrevo neste teclado onde passei muitas horas.

Atirei-me a este trabalho com a entrega com que faço praticamente tudo a que me proponho. E não foi fácil.
Empurrei as horas dos dias até mais tarde, inflecti o comportamento tranquilo, de que mais gosto, e gastei as palavras todas que tinha deixado de reserva para dias de maior necessidade. E não foi fácil.
Sorri, e deixei de sorrir. Fiquei mais triste e depois passou. Fiquei zangado, irado até. E também passou. E não foi fácil.

E tinha gente diferente. Tinha uma alcateia de gente. Havia presas brancas que se viam reluzir de dia. Havia sangue na arena e aroma de conquistas. E não foi fácil.

Houve momentos sinceros. E outros nem tanto; a natureza não deixava, e a guerra não se compadecia de guerreiros fracos. E não foi fácil.
Houve confiança. Mas nem sempre. E não foi fácil.


Numa alcateia, ruge-se dentro, mas não se mordem. Guardam-se forças e ataca-se o resto do mundo em bando, com sede de morte e os dentes cerrados.
Isso, foi fácil.

E tive coisas boas. Senti alguns sucessos. Senti que estive pouco tempo, para... para o que gostaria.

Entreguei as palavras aos dias em que dormia fora. E gostei muito dessa parte dos resultados. Vendi os sonhos aos homens e às mulheres a quem queria trazer para vencer connosco. E não foram maus, os resultados.
Montei paliçadas e larguei o exército do eu sozinho, à caça de novas hostes para representar os sonhos que também lhes vendi. E gostei dos resultados.
E tive aqui, a solidariedade, inestimável, do resto da alcateia. E gostei ainda mais.
Senti a raça de ser e o orgulho de pertença. E gostei.
Senti o brio de ser de muitos e ter conquistas nossas. E gostei.

Partilhei 10 meses com gente a quem não posso deixar de prestar homenagem. Gente bem diferente. Todos. Gente bem diferente. De mim. E gente com quem não concordei sempre. Mal fora, seria sinal de falta de carácter, de uns ou de outros.

Saio para melhor, é certo. Matéria, responsabilidades, condições. Tudo bom, é certo. Mas não consigo sair contente.
Sabem, é que não se encontram alcateias em todos os bosques do viver...



E disso, vou ter saudades.

Das caçadas. E dos lobos.




segunda-feira, novembro 28, 2005

lost... in time



Se eu não tiver tempo para escrever, também não tenho tempo para viver.
Se escrever é, geralmente, a primeira parte do meu tempo livre, então se não escreve, muito mal estamos.

Não é fácil enquadrar a vida de hoje, crua e tão fria sem mim, no que sonhei em tempo para o tempo que deveria estar a correr hoje.
Se a distância resumisse o barómetro da satisfação dos meus dias, teria quilómetros de tempestade e metros de neve sobre os caminhos que não chego a percorrer.

Não saio de lugar nenhum, a marcar passo. À espera de uma qualquer marcha que coloque em movimento os membros já quentes de tanto baterem os pés nas lajes frias do chão da parada.

Imagino o dia a entrar e a sair do céu, enquanto as almas penadas pairam cá em baixo, por cima da cabeça dos outros. E nem as horas se ouvem a passar.


quarta-feira, novembro 16, 2005

conclusão

nesta semana de estafa autêntica, que tenho vivido, concluí uma coisa interessante: o cansaço físico é, concerteza, para muitos, a principal causa de falta de brilho, de vontade, de ânimo e alegria.

curiosa, esta influência do corpo, na vida da gente.



quarta-feira, novembro 09, 2005

Arquétipos

Que me perdoem os psicólogos, pelo título cagão.
Ontem, num jantar de amigos, contei uma coisa que ouvi há muitos anos à minha ex-mulher.
Discutíamos sobre as putas das mulheres e, relacionado ou nem por isso, a conversa foi parar aos homens que as mulheres querem. Ouvi coisas que me fizeram tremer as fundações da minha crença na raça das mulheres.

As expressões utilizadas eram estas, ou parecidas: “eles não sabem fazer bem feito", ou, "eles não retiram o melhor das mulheres", ou ainda, "eles reprimem aquilo que as mulheres podem fazer, ser e tornar-se”.

Minha nossa! Como se as mulheres fossem esses seres frágeis que só brilham se tiverem as luzes da sala!!
Recuso-me a acreditar nisso. E, seguramente, não quero essas mulheres na minha vida.
Quero e gosto e acredito que as mulheres brilham a partir de dentro!
Esta raça tem mais alma que qualquer alazão puro árabe zangado!

Há poucas coisas mais deliciosas do que ver cumprir o valor de uma fêmea adulta. Caramba, tem que se lhes tirar o chapéu. Às que merecem. Porque, pelos vistos, não são todas assim.
Todas reclamam pelos direitos que querem, justamente, iguais aos dos homens.
Mas, depois, muitas delas são capazes de dizer: “não foste capaz de fazer evidenciar o que de melhor há em mim”.
Oh, sub-raça vadia...

Que desalento quando as vemos encostadas aos muros dos dias, à espera que as façam mexer para onde quer que seja, acomodadas pela tradição e pela história do domínio antigo.

Merecem mais. Elas e nós, os homens que as queremos.


Que as queremos como iguais!
Que as queremos aliadas no esgrimir diário do curso dos segundos pelas vidas.

E muitas... nada. Moita, carrasco. Nicles.
Nessa altura, – que lhes convém, porque não obriga à iniciativa de viver – aguardam pela voz de comando que, se for muito alta, se apressarão a contestar como tirânica!!

Mas o que é que é isto que se passa na cabeça de tantas mulheres?!

Tão depressa estão desejosas e aguardam de mãos postas no regaço, que venha um cavaleiro andante que as leve ao colo e lhes apanhe um lenço e as leve a casa e as faça felizes, que as conduzam pelos caminhos doces da vida; como a seguir, se o bruto não cumprir o seu papel de condutor de acordo com os parâmetros encaixados no seu ideal pré-definido e sonhado em noites de lua cheia alinhada com mercúrio e em desnível com vénus,... aí -ai, ai- vem o carmo e a trindade pela rua abaixo com a mão na anca a gritar a injustiça das prepotências do macho... que devia era ser preso.

Algumas mulheres são assim, da mesma forma que elas poderão dizer que assim são também alguns homens.

Então, porque ficam uns com os outros e se quedam conformados em vez de gritar alto que, “Assim não dá!” “não quero acomodações!”.
Para mim, o fleumatismo devia ser queimado vivo. “Pode ser...” “Se tu quiseres assim...”

“AAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHRRRRRRRRGGGGGGGG !!!!!!”

Não!! Não “pode ser” porra nenhuma.

Ganhem a vida. Conquistem a alma dos vossos e vossas companheiras, como se não houvesse amanhã.
Acendam as velas de dentro do corpo e matem a sede de luz dos olhos que vivem aos lado dos seus...

Ou então, percam a esperança, enterrem o sorriso, matem a alegria de estar e pactuem com o que "não era bem assim que tinha imaginado...".

E aí: morre-se vivo. E não se diz nada a ninguém.

Os arquétipos ficam para outro dia. Hoje vieram outros ventos, outras brisas...


Parte II

Estou no msn, numa conversa paralela à escrita e saiu-me, de rompante, uma verdade de vida de tantos e tantos tolos românticos...

“...o teu negócio é um amor louco e avassalador que te arraste pela sala enquanto te entregas de braços abertos a desejar que não acabe o sofrimento de ser feliz...”

O que posso dizer mais, que não seja agora pequeno?...


giro

terça-feira, novembro 08, 2005

dança


serpenteio à tua volta enquanto te observo
a avançar timidamente por entre os pilares
que te ergueu a madre social de todas as gentes.

tu, vacilas.
eu, serpenteio.

domingo, novembro 06, 2005

desenterrado

não costumo meter as mãos nos bolsos mas, hoje, encontrei um caderno antigo num blusão que me ofereceu o meu irmão.
uma coisa com umas folhas muito pequenas e com uma caneta promocional de um laboratório farmacêutico, que me ofereceram.
aliás, confesso que adoro prendas. mesmo estas mariquices que depois acabam por se revelar, algumas delas, de muito pouca utilidade.

nas primeiras folhas, estavam os preço de frigoríficos e máquinas de lavar. vários modelos em várias lojas... restos de uma guerra do princípio do ano, quando me mudei para a minha casa.

a surpresa veio depois, na terceira ou quarta folha. era a minha letra, claramente. mas muitíííííssimo torta! tão inclinada e inconstante que só havia uma conclusão a tirar: grosso, muito grosso.
foram coisas escritas numa das noites em que saí sozinho, para os bares, à procura da minha amiga russa e de umas músicas para ir entretendo os últimos minutos de sobriedade do dia.
cheguei a escrever no portátil, que abri na mesa do bar, enquanto, à volta, os grupos de amigos, ou só conhecidos, se entretiam a rir de tudo e mais alguma coisa, enquanto atiravam o seu melhor charme para cima uns das outras. e vice-versa e what-so-ever.
lembro-me de ter escrito também em papéis que apanhava à mão. e, pelo vistos, apesar de não me lembrar, escrevi também neste bloco.

lúgubre, como a maioria do que escrevo, e a totalidade do meu pensamento, na época.

"O semblante estava carregado
como as nuvens
nos céus cinzentos de Dezembro.

Lembrei-me do sol
quando rasga o céu
e espalha a luz através dos dias escuros
enquanto anuncia a descida dos anjos.

Foi assim.
Só não foi comigo.

Foda-se a vida e quem lá anda dentro."

Pode haver alguma palavra que não era exactamente assim, no original. Mas foi difícil decifrar o manuscrito.
Pós Stolichnaya. Claramente.

...grrr...


odeio profundamente sentir o desamor da distância que se instala entre as pessoas.
mais do que o corpo, mais do que se diz ou faz...
o que mais impacta na vida, de alguns, são os sentires.

e fica tudo tão mais pobre se não ouvem a brisa que sopra da mente de quem estiver próximo...

sexta-feira, novembro 04, 2005

à medida


que o tempo
avança e entra na noite
aumenta o meu bem estar
dentro da solidão.


apetece-me repetir

um post antigo. de Janeiro.

a beleza da arte, também pode ser dura.

...

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava!
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os teus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os teus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...
já não se passa absolutamente nada.

E, no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certezade que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos nada que dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

Eugénio de Andrade

oDe do AmIgo gigANte

"the past is like a different country; they do it differently, there" Charles Dickens

de tudo podes retirar ânimo, como só algumas pessoas sabem.
não sabem que têm dentro, essa facilidade de viver, mas nota-se bem, sempre que os ouvimos reivindicar a justiça das coisas ou o riso indiscreto que atravessa as ruas da vida dos outros.

minha querida, tens, como poucos, quem te queira mais do que bem, perto de ti.
tens também, como poucos, quem possa abdicar de parte do seu bem estar, pelo teu.

queixas-te de quê?... eu sei...
da vida não ser perfeita... e fazes isso porque és romântica e fadista até ao tutano dos teus ossos.
é por isso que vais perseguindo estas quimeras malucas que sabes (sim, tu sabes, logo à partida) que têm tudo para correr mal.
mas tu optas por saborear a adrenalina das coisas que não podem ser, e trincar o freio nos dentes, para poderes ir para qualquer parte.
és mesmo assim.
e, quando negares esta natureza, deixas de ser tu, e passas a ser outra coisa qualquer.
mais desinteressante, concerteza.

portanto, a pergunta que parece pedir resposta, e que a tantos vejo querer responder, é:
o que raio devo fazer eu à minha vida? como evito isto, de que sofro, no futuro?

e a resposta, para mim, é fácil.
eu discordo de todos os que te dizem "não vás por aí". apetece-me lembrar-te alguns excertos de um poema do José Régio
...
Não, não vou por aí!
Só vou por onde
Me levam meus próprios passos....
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: "vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao Mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a como um facho a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue e cânticos nos lábios...
...

Tu és assim, xuxu, como gosto de te chamar às vezes. tu precisas que os teus dias sejam preenchidos pelo arrebatamento de viver.
a, praticamente, qualquer preço.
um preço de que nunca te lembras, nos princípios (outro poema lindo...).
atiras a cabeça para trás e avanças a correr para dentro do que todos os outros te dizem serem abismos indiscritíveis.

O que é que eu acho? Acho que essa é a tua, muito tua, forma de viver feliz. e não deves procurar o que não te satisfaz, a perseguir uma qualquer ideia de felicidade serena...
Se a encontrares, a felicidade, esse mito urbano, vai ser no meio das refregas que travas nos teus dias loucos e com esse sabor que adoras. E, sem o qual não consegues viver.
Não deves, nem podes viver de outra forma.

"mas que merda que é, sofrer assim! não quero este penar tão grande, tantas vezes na minha vida" podes dizer-me, como se estivesses zangada comigo.
e eu terei que te lembrar que esse, é o privilégio de quem saboreia mais e vive com mais calor, a vida que, para a esmagadora maioria, não passa de um inverno permanente.

daqui a duas semanas, isto que sentes hoje, será um passado guardado já com uma dimensão muito menor...

e estarás já lançada numa outra qualquer loucura que te vai preencher o pensar e rasgar sorrisos nos lábios!
e eu vou estar lá também. a rir-me contigo.



os meus carros

Passei os últimos dois dias a viajar, de carro. Viajo muitas vezes: noblesse oblige profissional. Eram 10 da noite e vinha para casa a pensar que gosto de correr.
Adoro andar muito depressa. Adoro sentir aqueles pequenos balanços das curvas mais rápidas da vida, não,... da estrada, em que o carro parece que vai sair descontrolado contra um rail qualquer ou se vai enfiar em qualquer buraco, ao lado da estrada. Mas depois, num qualquer golpe de asa, as coisas acabam por se estabilizar. E não morre ninguém. Demora mais ou menos tempo, mas tem acabado tudo por estabilizar e lá sigo viagem.
A chatice é que só gosto de andar assim. Acho até que só sei andar assim. Com a percepção clara de que tenho nas mãos a decisão de, a qualquer momento, poder decidir espetar-me a direito numa qualquer curva.

Basta não virar ligeiramente e falhar a curva ou até, à velocidade a que viajo, dar uma guinada mais forte e descompensar o equilíbrio... do carro.

segunda-feira, outubro 31, 2005



Perco tempo, de noite, enquanto tenho os olhos fechados, e sinto de dia o desperdício que é ter os olhos abertos.

Venho cada vez mais ter contigo, numa espiral que me preocupa se não será pouco saudável...

Quanto tempo precisamos de droga, para saber que estamos a ressacar e não a tremer de frio por uma qualquer aragem que passa entre portas que não há meio de se fecharem?

E este ranger de dentes que não me larga a ânsia de não estar perto quando não quero estar em porra de lugar nenhum...





no name... again

Onde posso esperar pela inspiração de viver?
Queria ter um banco pequeno, não maior que a minha mão, para me sentar. À espera.

Não saio de mim desde a última vez que me levei a passear. Foi há já tanto tempo.
Lembro-me... mentira,... não lembro nada.
Mas gostava de me lembrar.
Ou, ao menos, de sentir como se lembrasse.

Se, ao tempo pudesse subtrair a mágoa
Se a mim pudesse acrescentar a tranquilidade
E um pouco de paz,
que suave seria o morrer só.

Quem sabe...
se eu deixar fugir aos poucos
um pouco de vida
de cada vez.

domingo, outubro 30, 2005

as putas das nossas mulheres


Em extremo podia ser um cumprimento, a equivalência entre uma e outra.

A inspiração foi externa e rebuscada, mas o tema preocupa-me há muitos anos. Mesmo.Ao longo do tempo, tem-se vindo a perder a ideia, estupidamente retrógrada, de que há coisas que uma esposa não faz. Uma das projecções deliciosas deste estereótipo ouvi-a ao mafioso dos violinos quando disse: “eu tenho que ter pelo menos uma amante: há coisas que a boca que beija os meus filhos de manhã, não pode fazer.” E pronto, estava justificado.Tem-se vindo a perder. Mas está bem longe de estar perdido, este sentimento estúpido do afastamento, de detachment de duas coisas inseparáveis.
E anda sempre tudo à volta do mesmo: intimidade.

Será que não percebem, os parvos dos homens e as parvas das mulheres, que o melhor do companheirismo, o melhor das alegrias, e o pior das tristezas, são privilégios da mulher ou do homem que se ama (consoante o gosto…).
E não é suposto ser de outra maneira, e ninguém me tira isto da cabeça. De todo. Se não há alma que se nos entregue mais e a quem nos demos com mais ânimo e anima, porque há coisas para as quais elegemos outra que não a nossa companheira?

Curiosamente, a resposta assaltou-me agora! Só agora… 33 anos de ignorância e, quem sabe, a explicação para muita coisa… é claro: não podemos esperar tudo da companheira que temos, se a perfeição não existe… agora tentar explicar isto a uma companheira… eh eh … boa sorte. Desenvolvo noutro dia.

Voltando ao início, a minha ideia, muito antiga, sobre este assunto, é que:
não pode existir mau sexo entre os amantes.
“Contradiction in terms”, como lhe chamam os ingleses

- Mudança de fundo. Troquei Ella Fitzgerald por aquela banda sonora … aquela… -

Se há uma pessoa que nos conhece as alegrias, nos ampara tristezas, nos vela o sono, nos acarinha as quedas e a quem damos e recebemos uma devoção a quem se decidiu chamar de amor, então, não faz sentido que o que nos pede a carne não seja apenas a continuação do que nos preenche o sorriso e os dias.
Caramba! Não faz sentido amar mais do que a quem amamos, certo?!

Então porque não é sempre a essa pessoa que entregamos o que temos e o que não temos do desejo, da volúpia, da fome de carne, que tão bem nos sabe e tão loucos nos deixa?

Como podem haver homens e mulheres que não se transformam das portas do quarto (..wherever…) para dentro e soltam o que não sabem que têm dentro e deixam correr os desejos e loucuras mais enterradas (…eu sei… subconsciente…), ao mesmo tempo que atiram para trás das costas as normas, e as socializações do aceitável?...
“Daqui para a frente vale tudo” - devia estar, em uníssono, a correr na mente dos dois corpos que se encontram como se fossem uma força da natureza.
Não podiam haver fronteiras. Não podiam haver travões. Não podiam existir peças menores ou pedras nas engrenagens que se encaixam finalmente, como se sempre tivessem pertencido ali; apenas tinham aguardado por aquela hora naquele dia… uma e outra e outra vez… em vários dias… em várias horas…
Não faz sentido não haverem gritos, não faz sentido não se ouvir a música da cama de encontro ao estrado do colchão… não faz sentido não haverem despojos e feridas de guerra… no meio da refrega, no meio desta batalha de corpos, o calor tem que ser tanto que a adrenalina devia correr solta e impedir a dor. Apenas soltar o prazer. E soltar à séria. Como se de cada vez fosse o último.

Não faz sentido não ter falta de ar como se o chão fosse fugir debaixo dos pés da cama ou da mesa da cozinha… não faz sentido colocar limites ao desejo… como não faria sentido colocar limites ao amor.

E quem é que pode negar que assim, é o melhor amar do mundo.

- pausa para martini – grande desassossego – cabrões dos violinos da faixa 7… embarquemos numa pequena carrocita… miss you too, my russian friend. Perhaps some other day -


Orgasmo múltiplos só para eleitas?... BUuuuuuuuu… é para toda a gente que queira!
Está à mão de semear de um grande amor.
Está tão perto como a vontade de cair para trás e saber que os braços da amante que temos não nos vão faltar.

Não acredito que falte imaginação a quem quer que seja. Não acredito na frigidez das pessoas saudáveis e custa-me a crer no pudor de alguém que ama.

Foda-se! Entendamo-nos de uma vez. Isto é mesmo só querer!

É só acreditar naquele preenchimento rasteirinho que sobe pelo corpo acima e nos ata um sorriso tolo de dia e de noite, enquanto dormimos. A sonhar com ela. Quem é que ….

- mais violinos de partir o coração, na 8 –

…quem é que pode acreditar que, algum dia, alguma puta poderá dar mais prazer a um homem do que a mulher/amante que ele tem solta lá em casa?
Haverá alguma coisa que a técnica de uma profissional possa fazer que suplante a entrega, a ternura, o desejo e o querer de uma amante?

Amante é uma mulher que amamos.
E que nos ama.
E quem tem em casa, não procura na rua.

É pena que eles, e elas, passem por tantas vidas sem se aperceber do que devia ser tão óbvio.


- não há final como as gotas de chuva de piano que cai da música 15… deliciosa… -

sexta-feira, outubro 28, 2005

hoje

apetece-me arrancar os botões e rasgar o tecido do peito.
e deixar a camisa à mostra...

e não sei o que fazer com isto.

"insano... um dia destes" ou "as sombras dos meus tormentos têm vista de mar"



depois de ter começado, não se pode parar de escrever, e tapar o pequeno ponto de escape, que aparece no teclado do pensar...

a partir de quando, se pode considerar oficial a esquizofrenia de ter vários?

às vezes, para alguns, há dias em que se rompe a película que liga os sentires escritos, aos semblantes que passeiam na rua.

tão diferentes, que nem parecem filhos do mesmo pai...


não tenho nome para ti

Sabe-me bem o silêncio das palavras que não tenho que aturar, por ocasião, en passant, ou por outra qualquer vulgaridade.

Aprecio a solidão do espaço que não é ocupado por coisa nenhuma, nem por ninguém que não tem interesse suficiente em estar.

Gosto de observar o que se passa e beber nos lábios das gentes os pensamentos que não saem para a rua.

Fico um pouco cansado, no final da semana, quando está acumulada a imensa superficialidade e circunstancialidade com que vivem as gentes. De quem não é possível escapar.
Aliás, é até obrigatório ficar.
Contrariar a vontade de fugir.
É tão, tão preciso ver para dentro do corpo, à procura do valor que, tantas vezes o dono se esforça em destruir na interacção que prima pela mesquinhez da palavra falsa e dos arranques primários de mau génio e intolerância.

Estou estafado, neste fim de tarde, neste fim de semana. E não tenho porto de abrigo, como diz uma pessoa que conheço.
Dependo - como todos, aliás – da vontade de sobreviver e viver.

E se ela falta, sistematicamente, dia após dia, numa cadência que chega a ser quase horária... lembro-me do tempo muito antigo... e sei.
Hoje é diferente, mas nem tanto assim. Só mais desperto... ainda.

E cada vez mais encerrado para obras, que parecem nunca terminar...

sabana santa

Prelúdio. Introdução de tema, primeiros acordes. A entrada em harmonia com os primeiros acordes do corpo... da música.
Os violinos e as violas acompanham ao fundo e estabelecem um ritmo de movimento. Sem agressividade, mas lânguido. Sem rufar de tambores, mas crescente de envolvência. E vamos subindo. Ouvem.se as primeiras palmas, os baques das mãos que conferem mais ritmo... à música. E o corpo... dos violinos... que começa a gemer ao longe. Os acordes são mais longos e as vozes começam a chamar... pela música.
Fica tudo tão mais fácil com um prenúncio destes, e o virtuosismo... da guitarra... de Vicente Amigo, entra na música com uma força que levanta... em ovação, quem ouve e sente tocar... a alma.

Trabalho em open space. Com dezenas de pessoas atarefadas a passar à minha volta.

Mas não sou capaz de ficar indiferente à sensualidade da arte que se pode ter... e tantas, tantas vezes, nos passa ao lado.
Quando somos indiferentes.

quarta-feira, outubro 26, 2005

tributo



Estalou debaixo dos pés dela a esperança de ver sair uma imagem de que gostasse. Não adianta, pensou, nunca vou ficar bem.

Podia ser um qualquer princípio de alguma coisa. Mas não.
Foram apenas as primeiras palavras que, instintivamente, atirei para o teclado. O mote veio depois: porque são belas e desejáveis, as mulheres?

Para mim, as mulheres não são bonitas, pelos traços do rosto, a curva das ancas ou a firmeza das mamas. Não, as mulheres tornam-se belas, pelo estar.
Esta é, curiosamente, a maior arma que tem o sexo oposto ao meu. Seduzir não é um exercício estático, da mesma forma que o encanto não tem qualquer ligação com as fotografias. Por mais bonitas que sejam, as mulheres não se tornam apetecíveis, se não tiverem encanto.

A própria palavra vale um apontamento. Encantar não é mais do que lançar uma qualquer magia sobre alguém que, caso resulte, fica encantado.

É uma espécie de feitiço bom, sedução subliminar que não se vê, de forma explícita, mas invade o pensamento e o corpo como uma entidade aliegena, que toma posse de nós, de um momento para o outro.

O encanto é um despertar que nos faz acordar para um qualquer bem estar, mais ou menos físico, que sentimos quando estamos próximos de uma destas mulheres.
Há mulheres que transpiram sedução. Deve haver um livro, ou até alguma parte do código genético, inscrito no 2º cromossoma X, que lhes dá o saber pisar o chão por onde passam.

Há medida que o tempo vai passando, esta apetência feminina vai-se desenvolvendo e elas vão ganhando a tranquilidade e a segurança de serem fêmeas adultas.
Quando crescem de forma saudável, as mulheres aprendem a controlar os impulsos juvenis que tanta graça tinham... na juventude. Perdem a precipitação e agressividade adolescente, própria da... adolescência.
E ganham. Ganham a serenidade, a calma, a ponderação e aprendem a equilibrar tudo isto com a garra de viver.
E aprendem a sorrir. E conseguem o que querem ser ter que exigir nem pedir. Aprendem a conquistar, também, por indução.

Alguma sufragista mais acirrada poderia dizer: “Mas não estarão a desvirtuar a sua natureza mais genuína? Não será um exercício de socialização feminina, demasiado fascista?”
Se fosse assim, teríamos que banir os saltos altos que vos magoam os pés e não são próprios para correr, teríamos que proibir o rímel e a base porque alteram a cor do rosto e a forma das pestanas e teríamos que queimar os soutiens porque alteram a forma natural das mamas.

A verdade é que, em muitas coisas, as raparigas optam por alterar e fazer evoluir o seu “estar”.
As mulheres, quando percebem que podem andar ainda mais alto do que lhes permitem os saltos agulha dos seus sapatos preferidos, aprendem a sorrir.
E a encantar.


gone 2

Quando me propuseram ficar eu sabia que não podia aguentar mais a opressão de não ser feliz.

E, por isso, fui-me embora.

gone

Perdi muito tempo à espera das palavras que não disseste.
Não te ouvi, quando tentaste dizer o que na realidade não sentias.
Deixei de olhar para o que não fazias por nós.
E perdi.
Perdi a alegria de estar e perdi o olhar terno e as mãos suaves que adoravam visitar as tuas.

E depois, mais tarde, perdeste-me.

quinta-feira, outubro 20, 2005

canibais


Pedi uma, duas e três e mais e muito mais vezes, para poder ter o que sonho ser possível e vejo ser dado ao mundo.

Também quero, dizia eu. Também me sinto no direito de pedir. E ter.

Mas peço baixinho. Não sinto a coragem, nem me julgo com a autoridade para mandar. Então, peço.

Peço baixinho para que só me ouça quem está com atenção ou, quem de direito, com os ouvidos afinados na nota e no tom certos.

Onde andam? Que não vejo mais quem tenha a disponibilidade, disposição e vontade ou até a tolerância, para ouvir.
Não será uma tolice fazer e agir ou interagir sem saber quem é, quem nos fala?
Podemos sair pela porta da intolerância e prepotência, afirmando a nossa recusa consciente em ouvir. Ou, podemos manter o caminho egoísta há muito traçado – é sempre uma coisa antiga – e continuar a avançar pela direcção e sentido que melhor nos apraz, sem perceber se prejudicamos, beneficiamos ou até chocamos com outros que, como nós, avançam indiferentes ao que os rodeia.

Esta é uma indiferença aflitiva. É talvez a marca maior do tempo em que estamos.
As gentes, em oposição à opressão com que foram brindadas no passado, por um lado, e alinhadas com o culto da indolência, por outro, têm-se preocupado em...nada.
Pois. Nada.

E ninguém percebe que é contra natura.

Não é um sinal de carácter, nem de personalidades fortes, é um sinal objectivo e declarado, de estupidez crassa.

A beleza das rosas não sobressai, nem sobrevive à custa de outras flores, e as sequóias gigantes não deixam de contribuir para o ecossistema que, pleno de vida e pujante de força, se vai desenvolvendo a mais de 30 metros abaixo.
Os gigantes da natureza aprenderam, há muitos anos, que não podem sobreviver nem sozinhos, nem em desarmonia com o que os rodeia.

E nós, povo estúpido, quando vamos aprender que não podemos viver a direito, sem ponderar na balança do que fazemos, os sentires dos outros?

O sucesso irá ser entregue aos elementos que, da espécie, melhor interajam com toda a natureza que os rodeia.

Sem contribuir para equilíbrio, somos nós que ficamos à beira da extinção.
Por canibalismo.

terça-feira, outubro 18, 2005

aushwitz


"...ainda hoje me persegue o aroma doce da morte..."

alternativa... de não viver?

Um dia, expliquei numa aula que o nosso instinto de sobrevivência era provavelmente o elemento mais forte da nossa natureza. E cada um escolhe os melhores caminhos para ter tanto sucesso quanto possível, em manter-se vivo.
Uns são mais agressivo, outros são mais combativos, outros são cobardes e fogem e por aí fora. A maior evidência disso é que nunca morremos, nos nossos próprios sonhos: acordamos antes, para sobreviver.

Passadas algumas aulas, ele veio ter comigo e disse-me: “Professor, há mais um tipo de abordagem à sobrevivência.” – “E qual é?” perguntei.
“A indiferença.
Algumas pessoas, poucas, não querem saber de contornar a morte. Não encontrando razões ou amarras sólidas para ficarem no mundo, aguardam serenamente que um qualquer acaso as leve. E não são suicidas, porque não procuram o fim. Apenas não o evitam.”

- “Onde foste buscar essa ideia?”

“A noite passada – respondeu-me ele - morri no meu sonho. Morri com dor. Mas, depois de morto, fiquei tranquilo, a ver as pessoas que olhavam para cima do meu corpo...”
“Como vê, a indiferença, também é uma alternativa.”

Fiquei siderado e juntei, para mim, mais esta variação: a indiferença não promove a sobrevivência.

Como viverão estas pessoas?

segunda-feira, outubro 17, 2005

reach out - ask or give?


podia ser uma mão que queria chegar a alguém para pedir o suporte e amparo que não gerou sozinha...

mas pode ser também uma mão que, de forma serena e não invasiva, quer chegar mais perto de alguém que resiste à proximidade incandescente de algumas mãos...

já ninguém liga ao significado de empatia...

I feel a post comming. Vou pari-lo. Até já.


Não, não é mais um anúncio idiota da nova TMN, aliás tmn -em minúsculas, para ficarem mais trendy e próximo do povo- era o que eu dizia, campanha idiota. Foi apenas a forma como me despedi, antes de vir escrever.

Aparte o intróito, a verdade é que o alinhamento astral me faz voltar às letras e ao discurso sinistro, como lhe chama a minha amiga. Humm,... uma, não. Várias. Ok,... praticamente todas as pessoas que lêem o que escrevo.

A chegada da chuva serviu de enquadramento à disposição do costume. A música e a vida trataram do resto – os acordes entraram como uma empresa de catering profissional que distribui canapés pelas disposições, temores e desalegrias, enquanto os dias recitavam a poesia triste do mundo dos poetas andaluzes bucólicos.
Um sonho digno de Luis Buñuel, em cenários de Dali.
Os actores seriam pessoas normais, medíocres, claro, mas felizes, na ordinarice dos dias correntes.

Por tristeza e por dias ordinários e extraordinários, lembro-me que alguém me perguntou se a minha boa disposição não seria um exercício falso. Se não seria um disfarce ridículo face à disposição que parecem traduzir as letras que escrevo...
Intrigou-me, a pergunta. Achei mesmo uma pergunta brilhante. A surpresa de alguém querer tentar saber os porquês e os quês das coisas, é sempre um achado. O desassossego e a inquietude não se curam só com uma ida à casa de banho ou com um pirafo bem dado. A alma tem que ser alimentada, senão definha e morremos estúpidos... como escrevi em tempos...

Mas, voltando à pergunta que me fizeram. A resposta ultrapassou o momento de admiração e saiu disparada pela pista da razão.

Em boa verdade, o estado de tristeza é um estado presente. É como uma malha, matriz de fundo, que entreteceu o tempo à volta do espaço disponível e criou a plataforma de sustentação de mim. É verdade. Em fundo, em verdade, sinto-me triste.
Não é deprimido, não é doente, não é incompatível com a tranquilidade mas, sinto-me triste e o semblante, quando está só, não tem brilho. Não me retira o pensar, não me diminui a dedução nem o sentir. Especialmente, o sentir.
Em resumo, o meu fundo é de cor triste e aroma sombrio. E pronto.

A pergunta, no entanto, ia mais longe. Queria saber que alegria era esta que aparecia de quando em quando e, se era genuína ou fabricada para a ocasião.
É bem genuína, respondi eu, mas é gerada pela ocasião, pelas pessoas ou pelos estares e sentires. E como funciona uma coisa destas, aparentemente contraditória?
Curiosamente, o processo é simples.

Na base escura, começa a ser tecida uma nova malha, uma nova tela, que não se consegue colar à anterior, nem substituí-la.
Mas cresce, sobreposta, até tapar a influência da cor mais baça que vai ficando enterrada debaixo desta nova construção. À medida que se vai estendendo a influência e o enquadramento, assim vai ganhando altura e estrutura, esta nova Torre de Pisa.
Infelizmente, não consegue retirar da sua natureza, a volatilidade. Não é mais do que uma presença efémera que depende, por vezes, da vontade do construtor, enquanto noutras, reflecte a luminosidade de uma qualquer estrela que passa mais perto.
Assim que é desligado o quadro geral da vontade ou pressão que, de fora, mantém activa a força de querer, todo o planeta regressa à penumbra original. A temperatura dos corpos vai descendo até ao gelo glacial do inverno ártico e a luz abandona à sua sorte, o ecossistema que, sozinho, vai definhando até ao ponto original de que partiu.

Varia, a duração dos efeitos. É invariável, o ponto de chegada.
A vida nasce e morre, de cada vez que nascem e morrem os dias.

Talvez, por isso, goste tanto de estar acordado de noite. Sem ilusões.

domingo, outubro 16, 2005

adoro


...sobra-me pouco fôlego para escrever...

quinta-feira, outubro 13, 2005

tempo diferente



Se um dia esperares por mim, não guardes rancor pela saudade
Se mais tarde me vires, não penses que sabes de mim
E, se nunca puderes ter o espaço dos meus olhos,
Guarda na memória o tempo que roubaste ao relógio,
em que sonhavas comigo.

ébrio



atirou para o chão o resto do vinho que não bebeu e subiu as escadas da vida para ver o estado de embriaguês em que se encontram o passado e o presente...

foda-se - disse ele - assim, não há futuro que aguente.

há muito tempo

Um dia, quando era pequeno, fiquei com uma memória gravada com uma violência tão brutal que, ainda hoje sou capaz de relembrar a hora as cores exactas, os objectos e o cheiro que havia na cozinha, nesse dia.

Tinha quatro anos e passava os dias em casa, com a minha avó, que morava connosco, quando os meus pais iam para o trabalho. Já contei que tive duas mães, não foi?
Esta era a minha mãe maior.


Um dos passatempos preferidos da senhora era ensinar-me as poucas poesias que tinha aprendido até à 4ª classe.

A minha avó nasceu mo Alentejo, numa família que trabalhava no campo e, por ser a mais nova de 5 irmãos, calhou-lhe em sorte ser mandada para a escola; coisa que aliás, nunca corria bem. Ela contava com um sorriso que ainda hoje me arrepia a memória, de tão doce e sereno, que a mãe dela tinha que a ir buscar à cama, à força, para a levar para a escola. Todos os dias a minha avó inventava uma nova dor e uma nova doença para não ir para a escola. Preferia poder ir para o campo com as irmãs e irmão, onde brincava, mais do que trabalhava, porque os mais velhos tinham um carinho especial pela pequenina e não a deixavam estragar as mãos que seriam para escrever.
Então a minha bisavó, agarrava-lhe na orelha e metia-a na carroça do bisavô para a levar para a aldeia, para a escola.
A pobrezita ia todo o caminho a chorar durante os primeiros meses de cada ano escolar, pela separação que lhe impunham. Mas tinha sido decidido em concílio familiar, que alguém havia de aprender a ler e a escrever para poder ajudar a família a enfrentar a burocracias e processos da vida corrente. A pequena Custódia saiu em rifa mas, naquela idade, não lhe parecia uma solução nada católica.
O certo é que fez até à 4ª classe e, depois, lá conseguiu ir trabalhar com os irmãos para o campo.

Ficou-lhe o gosto pelas letras, sentiu a facilidade de movimento que lhe dava o saber ler e escrever e tratou de mandar, mais tarde, os seus próprios filhos para a escola, assim que pôde. Incentivava-os acarinhava a leitura e a escrita e, quando o professor primário do filho dela lhe disse: o Manuel (meu tio e padrinho) devia continuar a estudar, uma criança, com a vontade e predisposição que ele tem, devia ir mais longe.
Deixa-me relembrar o enquadramento: estamos numa aldeia rural enfiada no meio do Alentejo, numa família de trabalhadores do campo, em meados dos anos 60.
A resposta da boa da Custódia, ao mestre escola da aldeia foi só: E para onde poderemos mandar o Manuel? Quem o poderá aceitar?
E nem quando o professor lhe disse que a solução “menos cara” seria enviar o rapaz para Évora, para o seminário, se lhe quebrou a resolução. A minha avó começou a tratar de reunir as poupanças e, enquanto engolia as lágrimas, preparava o envio do menino de 10 anos para longe.
Que mulher. Que raça. Que brio de vida e abnegação. Não tenho a capacidade de análise mais imparcial do mundo, mas não consigo evitar a admiração escancarada pela dimensão desta senhora.

Por essa altura, abençoou as sovas que tinha levado da mãe para ir para escola, e agradecia-lhe, de todas as vezes que escrevia ao Manuel e de todas as vezes que recebia cartas do filho que via apenas nas férias do verão.
Podia falar mais do que é a memória do tio, mas não tenho letras hoje, para contar essa história. Apenas que morreu, com o pai, num acidente de automóvel, três meses depois eu ter nascido. A transferência foi óbvia e imediata.

Vou voltar ao início, onde comecei.
Como qualquer criança, cada vez que ficava mais de uma semana no Alentejo, adoptava o dialecto local – já na altura, camaleão – e a minha avó dizia-me: Se sabes escrever as palavras da forma certa – ainda não tinha 4 anos, já ela estava a tratar de me ensinar, e eu a aprender – então não as digas da forma errada “Falar com o acento do Alentejo não faz mal, mas tens que dizer as palavras da forma correcta”.
Bom, perdi-me outra vez.

Naquele dia, na cozinha, ela estava a fazer o “estremalho”(crochet) – já não dizia esta palavra há tanto tempo, que não consigo quantificar – sentada num mocho, em frente à janela e eu andava por ali, a trautear as poesias que ela me ia ensinando enquanto fazia correr a agulha pela linha encostada ao dedo.
Nesse dia, estava a aprender uma poesia leve sobre a morte, que ainda hoje não sei de onde terá vindo:
«À morte ninguém escapa
nem o rei nem o bispo nem o papa.
Mas eu, hei-de escapar a ela
Compro uma panela
e meto-me dentro dela.
E a morte chega e diz:
Humm, aqui não há ninguém.
Adeus meus senhores
E passem muito bem. »

A propósito do tema, lembro-me de ela me ter perguntado “O que fazias, filho (era como me tratava), se a avó morresse?” E eu respondi-lhe, pronto e rebiteso: “Não fazia nada, porque tu não vais morrer”
E pronto. Era uma verdade incontornável: a minha avó havia de ficar sempre comigo.

Mas a artista da avó Toda, fez cair a cabeça sobre o peito e ali se deixou ficar inerte... E eu fiquei a olhar para aquilo, sem perceber o que se passava...
Chamei-a. Várias vezes. E ela não respondia. Lembro-me claramente de ter começado a associar aquele mutismo ao estado em que via os corpos nos funerais a que já tinha ido.
Uma de duas. Se não se mexe, está a dormir... ou morta.
Bom, se estiver a dormir, vou acordá-la.
Abanei-a um bocadinho, e nada.
E mais um bocadinho, e nada.
Não podia estar a dormir porque eu, quando dormia e a minha avó chamava por mim de manha e me abanava o ombro, acordava.
Na minha cabeça de criança a conclusão era óbvia: a minha avó morreu. E voltou-me à memória, a pergunta que ela me tinha feito, uns momentos antes. “O que fazias...?” Curiosamente, o meu primeiro pensamento foi: tenho que lhe tirar o estremalho das mãos, não vá ele cair e estragar-se.
Mas, quando avancei para pôr a salvo as linhas entrançadas em nós, ela, receosa do que eu fosse fazer com aquilo, resolveu “acordar” e ficar viva outra vez.

Lembro-me que não chorei nem tive qualquer expressão de alegria ou tristeza, e guardei para mim a angústia que senti pela perda eminente da pessoa mais importante da minha vida.

Tudo isto se passou no espaço de 1 minuto ou 2, mas tomei imediatamente 2 resoluções, talvez as primeiras resoluções ou considerações sérias da minha vida.

Decidi que havia de saber distinguir as pessoas vivas das mortas, o que tratei de resolver ainda nesse dia ao perguntar aos meus pais, que me explicaram a história do ar a sair pela boca ou pelo nariz. Muito bem, esse assunto estava arrumado.

A resolução maior foi passar a velar pela “vida” da minha avó. Se ela podia não ficar comigo para sempre, eu achei que, se me assegurasse que ela ia respirando, então estaria a contribuir para o prolongamento da estadia da avó Toda na minha vida.

Passei a dormir com ela muito mais vezes e, quando ela adormecia, eu ia pondo o dedo debaixo do nariz para garantir que a minha avó ia ficando comigo.

Cresci e esqueci-me das minhas resoluções. Deixei de velar pela vida da minha avó enquanto dormia.
Não consegui ser o guardião que te prometi em silêncio, quando tinha 4 anos, avó.

E deixei-te morrer.


domingo, outubro 09, 2005

one of my best friends



sem comentários

outro pensamento, da mesma época

e, aliás, no mesmo dia. Mais tarde...

The thicker the barrier to the brain, the less I’ll be able to think. Thank God for all the tranquilizing substances. Je n’attend que la nuit pour l’absence de la lumiére. Merci pour le noir. Je la souaette. Havia tanto para dizer e escrever assim os meus dedos estivessem a responder aos comandos.

Boas notícias! Aqui há Stolichnaya! Uha.

Saem dos buracos todos os seres que, de dia escondem algumas das ansiedades que lhes afligem a alma e impedem as cascas de cair.

Agora é a hora da mudança das crisálidas e que borboletas tão diferentes nos oferece a escuridão. Quão fatal é a seiva que escorre dos corpos a esta hora, neste dia. A languidez, o aroma, o desprendimento, a semi loucura que é libertada pelo anonimato da hora.

Agora ninguém é ninguém.
Toda a gente é um mundo vivo de cores, sons e aromas. Que libertação sente o espírito quando a alma dá folga às rédeas do decoro, sentido esteta e pudor de imagem ou de acções.
Gosto. Gosto sobretudo do entorpecimento da clara fragilidade do deslizar, aparentemente fácil, dos corpos já fragilizados. Mas ninguém os avisou e assim rebentam os últimos freios que os retêm na sanidade. E que bom é ver o descontrolo assumido, como parte indispensável do escape das nomenclaturas. Que delicia é o alheamento…

há muito tempo

mais precisamente, ainda no ano passado, escrevi algumas coisas.
Alguém me relembrou e aqui ficam alguns pensamentos desgarrados...


"Largar aos pulmões o trabalho do coração significa dar ao que sai da boca a importância do que devia sair da alma. Só as pontas das estrelas sabem o que picam se estiverem muito próximo das pessoas; só ai se sente o ardor das farpas que tão bem conseguiu a terra esconder debaixo dos oceanos…Que ironia, só depois de secos se lhes vê o fundo. E que triste espectáculo é."

Tenebroso, não é? Art (whatever that might be...) craves on pain.

quinta-feira, setembro 22, 2005

as memórias


que revejo.
Suaves como o som das cores do mar; fortes como o cheiro das ondas a esbarrar nas arribas da imaginação que me assalta os dias mais sós.

Maresias de ti.

queria

poder elevar a minha vida e o ânimo q me despertaria o q sinto ao descer em ti.

se ao menos me lembrasse...

terça-feira, setembro 20, 2005

sinto


os olhos ainda abertos...
porém, consciente...
sem ilusões...

quinta-feira, setembro 15, 2005

não penso mais

recusei-me hoje, no final de um dia, a pensar mais.
não quero mais olhar e ver, apenas aceito as manchas e sombras do que existe.
estou cansado e já não tenho ânimo para puxar debaixo do meu peso a réstea de esperança que ainda sentia quando sorria, enquanto olhava e sentia a luz do mesmo sol que me abandonava, ao início da noite.
a noite que adoro e onde me vejo a coberto dos olhares que me poderiam descobrir.

encolhi o espaço do bater do coração para diminuir o impacto da vida no meu peito. e fiquei mais tranquilo, assim, alheado da realidade ausente, à minha volta.

trucidei, consciente, a menina dos olhos que adivinhava as cores das coisas. agora vejo escuro, e é mais tranquilo.
deixarei de ver, em breve, e ficarei, concerteza, bem mais em paz.

há muito, ou não... sim, há muito tempo que convivemos juntos e a mim foi sempre deixado o peso mais amargurado e as tristezas mais sós, que aos outros não cabiam. aceitei-as a todas, enquanto não pensava se tinha arrumação para tanto fel.

chega e sobra, sei hoje. mas já deito fora o tom mais grave com que exprimi em tempos o meu desdém. já não me importa.

assim, será concerteza mais fácil, e não terei que virar a cara à luz que me feriu todos os dias.

é muito triste, a alvorada do homem, quando já não espera a manhã.

sorry



não gostei da exposição.
revisto e reduzido.

prerrogativa de autor.

detached

As mãos dele seguram nas dela enquanto os lábios deslizam uns nos outros. Da boca, imagina de cor, o caminho para o pescoço, que percorre de olhos fechados a imaginar o prazer que lhe despertam as carícias que lhe entrega.

Pára, e observa os olhos dela, enquanto a vê inclinar a cabeça para trás ainda a sentir as mãos que ele não consegue manter sossegadas e quietas, perto do corpo dela.

O desassossego assalta-lhe a têmpora e deixa-a a latejar...

As orelhas tornaram-se agora um altar com a imagem a quem devota o calor dos beijos... suave loucura, esta, de querer assim de forma incontida.

Ouve-se ao longe a inveja que corre a aplacar: beija-lhe os olhos e faz-lhe passar pelas pestanas a brisa do corpo, já tão quente de estar tão próximo.

E as mãos que não se aquietam... os músculos que pedem o contacto dos dela... o peito de um já sonha em pesar no outro.

Agarra-a e vira-a de costas para cima, com a firmeza que não lhe deixa dúvidas sobre a a tensão que sente; e carrega as mãos nas espáduas.

Por esta altura já se sente a respiração pesada, e os peitos que se expandem, enquanto tentam respirar, como se estivessem rodeados de um ar denso de desejo.

A raça de amar não tem que ser uma só descida. Nem a montanha russa pára depois da primeira rampa; ganha balanço e lança-se para a frente, carregada de vontade e gente aos gritos.

Assim é a vontade de a ter, que se propaga dos músculos dos braços, em direcção aos dedos que correm a pele das costas dela. Descobre as curvas, as reentrâncias, a suavidade da pele onde viaja; ao lado dos ossos pressente os nervos que faz disparar com as mãos, que vão lentamente para baixo e para cima do peito dela, arrepiado de um frio que não existe.

Está em fogo, a consumir-se devagar e louco por a sentir a arder também. Os músculos dela abandonam-se nas mãos dele e confiam aos beijos que lhe surpreendem os ombros, a vontade de não parar de ter prazer.
Sentirá a palma da mão que treme quando faz menos força a controlar a vontade de a tomar de assalto como um louco? A maior parte das vezes, não: está ocupada a sentir, e angustiada pelo calor que lhe assalta o ventre, sem dizer quem é.

Os dedos dele continuam nela, como se quisessem entrar e acariciá-la por dentro...

quarta-feira, setembro 14, 2005

sublimação


se isto continua assim, o eu assanhado toma conta da chafarica...

terça-feira, setembro 13, 2005

raça

a exposição brutal, abandonada

e assumida da diferença

causa, na arte, o receio e orgulho, simultâneos,


da marginalidade destacada do ordinário.





sexta-feira, setembro 09, 2005

piece



Li há uns tempos – há 16 anos atrás - que os peixes beijam com a mesma serenidade com que vivem na água.

Gostei da imagem, e hoje, imagino as variações da vida de um destes habitantes de azul, enquanto sonho em deitar-me em ti.

quinta-feira, setembro 08, 2005

intermezzo

rástapárt'á vida e quem lá anda dentro

-eu sou outro-