segunda-feira, outubro 31, 2005



Perco tempo, de noite, enquanto tenho os olhos fechados, e sinto de dia o desperdício que é ter os olhos abertos.

Venho cada vez mais ter contigo, numa espiral que me preocupa se não será pouco saudável...

Quanto tempo precisamos de droga, para saber que estamos a ressacar e não a tremer de frio por uma qualquer aragem que passa entre portas que não há meio de se fecharem?

E este ranger de dentes que não me larga a ânsia de não estar perto quando não quero estar em porra de lugar nenhum...





no name... again

Onde posso esperar pela inspiração de viver?
Queria ter um banco pequeno, não maior que a minha mão, para me sentar. À espera.

Não saio de mim desde a última vez que me levei a passear. Foi há já tanto tempo.
Lembro-me... mentira,... não lembro nada.
Mas gostava de me lembrar.
Ou, ao menos, de sentir como se lembrasse.

Se, ao tempo pudesse subtrair a mágoa
Se a mim pudesse acrescentar a tranquilidade
E um pouco de paz,
que suave seria o morrer só.

Quem sabe...
se eu deixar fugir aos poucos
um pouco de vida
de cada vez.

domingo, outubro 30, 2005

as putas das nossas mulheres


Em extremo podia ser um cumprimento, a equivalência entre uma e outra.

A inspiração foi externa e rebuscada, mas o tema preocupa-me há muitos anos. Mesmo.Ao longo do tempo, tem-se vindo a perder a ideia, estupidamente retrógrada, de que há coisas que uma esposa não faz. Uma das projecções deliciosas deste estereótipo ouvi-a ao mafioso dos violinos quando disse: “eu tenho que ter pelo menos uma amante: há coisas que a boca que beija os meus filhos de manhã, não pode fazer.” E pronto, estava justificado.Tem-se vindo a perder. Mas está bem longe de estar perdido, este sentimento estúpido do afastamento, de detachment de duas coisas inseparáveis.
E anda sempre tudo à volta do mesmo: intimidade.

Será que não percebem, os parvos dos homens e as parvas das mulheres, que o melhor do companheirismo, o melhor das alegrias, e o pior das tristezas, são privilégios da mulher ou do homem que se ama (consoante o gosto…).
E não é suposto ser de outra maneira, e ninguém me tira isto da cabeça. De todo. Se não há alma que se nos entregue mais e a quem nos demos com mais ânimo e anima, porque há coisas para as quais elegemos outra que não a nossa companheira?

Curiosamente, a resposta assaltou-me agora! Só agora… 33 anos de ignorância e, quem sabe, a explicação para muita coisa… é claro: não podemos esperar tudo da companheira que temos, se a perfeição não existe… agora tentar explicar isto a uma companheira… eh eh … boa sorte. Desenvolvo noutro dia.

Voltando ao início, a minha ideia, muito antiga, sobre este assunto, é que:
não pode existir mau sexo entre os amantes.
“Contradiction in terms”, como lhe chamam os ingleses

- Mudança de fundo. Troquei Ella Fitzgerald por aquela banda sonora … aquela… -

Se há uma pessoa que nos conhece as alegrias, nos ampara tristezas, nos vela o sono, nos acarinha as quedas e a quem damos e recebemos uma devoção a quem se decidiu chamar de amor, então, não faz sentido que o que nos pede a carne não seja apenas a continuação do que nos preenche o sorriso e os dias.
Caramba! Não faz sentido amar mais do que a quem amamos, certo?!

Então porque não é sempre a essa pessoa que entregamos o que temos e o que não temos do desejo, da volúpia, da fome de carne, que tão bem nos sabe e tão loucos nos deixa?

Como podem haver homens e mulheres que não se transformam das portas do quarto (..wherever…) para dentro e soltam o que não sabem que têm dentro e deixam correr os desejos e loucuras mais enterradas (…eu sei… subconsciente…), ao mesmo tempo que atiram para trás das costas as normas, e as socializações do aceitável?...
“Daqui para a frente vale tudo” - devia estar, em uníssono, a correr na mente dos dois corpos que se encontram como se fossem uma força da natureza.
Não podiam haver fronteiras. Não podiam haver travões. Não podiam existir peças menores ou pedras nas engrenagens que se encaixam finalmente, como se sempre tivessem pertencido ali; apenas tinham aguardado por aquela hora naquele dia… uma e outra e outra vez… em vários dias… em várias horas…
Não faz sentido não haverem gritos, não faz sentido não se ouvir a música da cama de encontro ao estrado do colchão… não faz sentido não haverem despojos e feridas de guerra… no meio da refrega, no meio desta batalha de corpos, o calor tem que ser tanto que a adrenalina devia correr solta e impedir a dor. Apenas soltar o prazer. E soltar à séria. Como se de cada vez fosse o último.

Não faz sentido não ter falta de ar como se o chão fosse fugir debaixo dos pés da cama ou da mesa da cozinha… não faz sentido colocar limites ao desejo… como não faria sentido colocar limites ao amor.

E quem é que pode negar que assim, é o melhor amar do mundo.

- pausa para martini – grande desassossego – cabrões dos violinos da faixa 7… embarquemos numa pequena carrocita… miss you too, my russian friend. Perhaps some other day -


Orgasmo múltiplos só para eleitas?... BUuuuuuuuu… é para toda a gente que queira!
Está à mão de semear de um grande amor.
Está tão perto como a vontade de cair para trás e saber que os braços da amante que temos não nos vão faltar.

Não acredito que falte imaginação a quem quer que seja. Não acredito na frigidez das pessoas saudáveis e custa-me a crer no pudor de alguém que ama.

Foda-se! Entendamo-nos de uma vez. Isto é mesmo só querer!

É só acreditar naquele preenchimento rasteirinho que sobe pelo corpo acima e nos ata um sorriso tolo de dia e de noite, enquanto dormimos. A sonhar com ela. Quem é que ….

- mais violinos de partir o coração, na 8 –

…quem é que pode acreditar que, algum dia, alguma puta poderá dar mais prazer a um homem do que a mulher/amante que ele tem solta lá em casa?
Haverá alguma coisa que a técnica de uma profissional possa fazer que suplante a entrega, a ternura, o desejo e o querer de uma amante?

Amante é uma mulher que amamos.
E que nos ama.
E quem tem em casa, não procura na rua.

É pena que eles, e elas, passem por tantas vidas sem se aperceber do que devia ser tão óbvio.


- não há final como as gotas de chuva de piano que cai da música 15… deliciosa… -

sexta-feira, outubro 28, 2005

hoje

apetece-me arrancar os botões e rasgar o tecido do peito.
e deixar a camisa à mostra...

e não sei o que fazer com isto.

"insano... um dia destes" ou "as sombras dos meus tormentos têm vista de mar"



depois de ter começado, não se pode parar de escrever, e tapar o pequeno ponto de escape, que aparece no teclado do pensar...

a partir de quando, se pode considerar oficial a esquizofrenia de ter vários?

às vezes, para alguns, há dias em que se rompe a película que liga os sentires escritos, aos semblantes que passeiam na rua.

tão diferentes, que nem parecem filhos do mesmo pai...


não tenho nome para ti

Sabe-me bem o silêncio das palavras que não tenho que aturar, por ocasião, en passant, ou por outra qualquer vulgaridade.

Aprecio a solidão do espaço que não é ocupado por coisa nenhuma, nem por ninguém que não tem interesse suficiente em estar.

Gosto de observar o que se passa e beber nos lábios das gentes os pensamentos que não saem para a rua.

Fico um pouco cansado, no final da semana, quando está acumulada a imensa superficialidade e circunstancialidade com que vivem as gentes. De quem não é possível escapar.
Aliás, é até obrigatório ficar.
Contrariar a vontade de fugir.
É tão, tão preciso ver para dentro do corpo, à procura do valor que, tantas vezes o dono se esforça em destruir na interacção que prima pela mesquinhez da palavra falsa e dos arranques primários de mau génio e intolerância.

Estou estafado, neste fim de tarde, neste fim de semana. E não tenho porto de abrigo, como diz uma pessoa que conheço.
Dependo - como todos, aliás – da vontade de sobreviver e viver.

E se ela falta, sistematicamente, dia após dia, numa cadência que chega a ser quase horária... lembro-me do tempo muito antigo... e sei.
Hoje é diferente, mas nem tanto assim. Só mais desperto... ainda.

E cada vez mais encerrado para obras, que parecem nunca terminar...

sabana santa

Prelúdio. Introdução de tema, primeiros acordes. A entrada em harmonia com os primeiros acordes do corpo... da música.
Os violinos e as violas acompanham ao fundo e estabelecem um ritmo de movimento. Sem agressividade, mas lânguido. Sem rufar de tambores, mas crescente de envolvência. E vamos subindo. Ouvem.se as primeiras palmas, os baques das mãos que conferem mais ritmo... à música. E o corpo... dos violinos... que começa a gemer ao longe. Os acordes são mais longos e as vozes começam a chamar... pela música.
Fica tudo tão mais fácil com um prenúncio destes, e o virtuosismo... da guitarra... de Vicente Amigo, entra na música com uma força que levanta... em ovação, quem ouve e sente tocar... a alma.

Trabalho em open space. Com dezenas de pessoas atarefadas a passar à minha volta.

Mas não sou capaz de ficar indiferente à sensualidade da arte que se pode ter... e tantas, tantas vezes, nos passa ao lado.
Quando somos indiferentes.

quarta-feira, outubro 26, 2005

tributo



Estalou debaixo dos pés dela a esperança de ver sair uma imagem de que gostasse. Não adianta, pensou, nunca vou ficar bem.

Podia ser um qualquer princípio de alguma coisa. Mas não.
Foram apenas as primeiras palavras que, instintivamente, atirei para o teclado. O mote veio depois: porque são belas e desejáveis, as mulheres?

Para mim, as mulheres não são bonitas, pelos traços do rosto, a curva das ancas ou a firmeza das mamas. Não, as mulheres tornam-se belas, pelo estar.
Esta é, curiosamente, a maior arma que tem o sexo oposto ao meu. Seduzir não é um exercício estático, da mesma forma que o encanto não tem qualquer ligação com as fotografias. Por mais bonitas que sejam, as mulheres não se tornam apetecíveis, se não tiverem encanto.

A própria palavra vale um apontamento. Encantar não é mais do que lançar uma qualquer magia sobre alguém que, caso resulte, fica encantado.

É uma espécie de feitiço bom, sedução subliminar que não se vê, de forma explícita, mas invade o pensamento e o corpo como uma entidade aliegena, que toma posse de nós, de um momento para o outro.

O encanto é um despertar que nos faz acordar para um qualquer bem estar, mais ou menos físico, que sentimos quando estamos próximos de uma destas mulheres.
Há mulheres que transpiram sedução. Deve haver um livro, ou até alguma parte do código genético, inscrito no 2º cromossoma X, que lhes dá o saber pisar o chão por onde passam.

Há medida que o tempo vai passando, esta apetência feminina vai-se desenvolvendo e elas vão ganhando a tranquilidade e a segurança de serem fêmeas adultas.
Quando crescem de forma saudável, as mulheres aprendem a controlar os impulsos juvenis que tanta graça tinham... na juventude. Perdem a precipitação e agressividade adolescente, própria da... adolescência.
E ganham. Ganham a serenidade, a calma, a ponderação e aprendem a equilibrar tudo isto com a garra de viver.
E aprendem a sorrir. E conseguem o que querem ser ter que exigir nem pedir. Aprendem a conquistar, também, por indução.

Alguma sufragista mais acirrada poderia dizer: “Mas não estarão a desvirtuar a sua natureza mais genuína? Não será um exercício de socialização feminina, demasiado fascista?”
Se fosse assim, teríamos que banir os saltos altos que vos magoam os pés e não são próprios para correr, teríamos que proibir o rímel e a base porque alteram a cor do rosto e a forma das pestanas e teríamos que queimar os soutiens porque alteram a forma natural das mamas.

A verdade é que, em muitas coisas, as raparigas optam por alterar e fazer evoluir o seu “estar”.
As mulheres, quando percebem que podem andar ainda mais alto do que lhes permitem os saltos agulha dos seus sapatos preferidos, aprendem a sorrir.
E a encantar.


gone 2

Quando me propuseram ficar eu sabia que não podia aguentar mais a opressão de não ser feliz.

E, por isso, fui-me embora.

gone

Perdi muito tempo à espera das palavras que não disseste.
Não te ouvi, quando tentaste dizer o que na realidade não sentias.
Deixei de olhar para o que não fazias por nós.
E perdi.
Perdi a alegria de estar e perdi o olhar terno e as mãos suaves que adoravam visitar as tuas.

E depois, mais tarde, perdeste-me.

quinta-feira, outubro 20, 2005

canibais


Pedi uma, duas e três e mais e muito mais vezes, para poder ter o que sonho ser possível e vejo ser dado ao mundo.

Também quero, dizia eu. Também me sinto no direito de pedir. E ter.

Mas peço baixinho. Não sinto a coragem, nem me julgo com a autoridade para mandar. Então, peço.

Peço baixinho para que só me ouça quem está com atenção ou, quem de direito, com os ouvidos afinados na nota e no tom certos.

Onde andam? Que não vejo mais quem tenha a disponibilidade, disposição e vontade ou até a tolerância, para ouvir.
Não será uma tolice fazer e agir ou interagir sem saber quem é, quem nos fala?
Podemos sair pela porta da intolerância e prepotência, afirmando a nossa recusa consciente em ouvir. Ou, podemos manter o caminho egoísta há muito traçado – é sempre uma coisa antiga – e continuar a avançar pela direcção e sentido que melhor nos apraz, sem perceber se prejudicamos, beneficiamos ou até chocamos com outros que, como nós, avançam indiferentes ao que os rodeia.

Esta é uma indiferença aflitiva. É talvez a marca maior do tempo em que estamos.
As gentes, em oposição à opressão com que foram brindadas no passado, por um lado, e alinhadas com o culto da indolência, por outro, têm-se preocupado em...nada.
Pois. Nada.

E ninguém percebe que é contra natura.

Não é um sinal de carácter, nem de personalidades fortes, é um sinal objectivo e declarado, de estupidez crassa.

A beleza das rosas não sobressai, nem sobrevive à custa de outras flores, e as sequóias gigantes não deixam de contribuir para o ecossistema que, pleno de vida e pujante de força, se vai desenvolvendo a mais de 30 metros abaixo.
Os gigantes da natureza aprenderam, há muitos anos, que não podem sobreviver nem sozinhos, nem em desarmonia com o que os rodeia.

E nós, povo estúpido, quando vamos aprender que não podemos viver a direito, sem ponderar na balança do que fazemos, os sentires dos outros?

O sucesso irá ser entregue aos elementos que, da espécie, melhor interajam com toda a natureza que os rodeia.

Sem contribuir para equilíbrio, somos nós que ficamos à beira da extinção.
Por canibalismo.

terça-feira, outubro 18, 2005

aushwitz


"...ainda hoje me persegue o aroma doce da morte..."

alternativa... de não viver?

Um dia, expliquei numa aula que o nosso instinto de sobrevivência era provavelmente o elemento mais forte da nossa natureza. E cada um escolhe os melhores caminhos para ter tanto sucesso quanto possível, em manter-se vivo.
Uns são mais agressivo, outros são mais combativos, outros são cobardes e fogem e por aí fora. A maior evidência disso é que nunca morremos, nos nossos próprios sonhos: acordamos antes, para sobreviver.

Passadas algumas aulas, ele veio ter comigo e disse-me: “Professor, há mais um tipo de abordagem à sobrevivência.” – “E qual é?” perguntei.
“A indiferença.
Algumas pessoas, poucas, não querem saber de contornar a morte. Não encontrando razões ou amarras sólidas para ficarem no mundo, aguardam serenamente que um qualquer acaso as leve. E não são suicidas, porque não procuram o fim. Apenas não o evitam.”

- “Onde foste buscar essa ideia?”

“A noite passada – respondeu-me ele - morri no meu sonho. Morri com dor. Mas, depois de morto, fiquei tranquilo, a ver as pessoas que olhavam para cima do meu corpo...”
“Como vê, a indiferença, também é uma alternativa.”

Fiquei siderado e juntei, para mim, mais esta variação: a indiferença não promove a sobrevivência.

Como viverão estas pessoas?

segunda-feira, outubro 17, 2005

reach out - ask or give?


podia ser uma mão que queria chegar a alguém para pedir o suporte e amparo que não gerou sozinha...

mas pode ser também uma mão que, de forma serena e não invasiva, quer chegar mais perto de alguém que resiste à proximidade incandescente de algumas mãos...

já ninguém liga ao significado de empatia...

I feel a post comming. Vou pari-lo. Até já.


Não, não é mais um anúncio idiota da nova TMN, aliás tmn -em minúsculas, para ficarem mais trendy e próximo do povo- era o que eu dizia, campanha idiota. Foi apenas a forma como me despedi, antes de vir escrever.

Aparte o intróito, a verdade é que o alinhamento astral me faz voltar às letras e ao discurso sinistro, como lhe chama a minha amiga. Humm,... uma, não. Várias. Ok,... praticamente todas as pessoas que lêem o que escrevo.

A chegada da chuva serviu de enquadramento à disposição do costume. A música e a vida trataram do resto – os acordes entraram como uma empresa de catering profissional que distribui canapés pelas disposições, temores e desalegrias, enquanto os dias recitavam a poesia triste do mundo dos poetas andaluzes bucólicos.
Um sonho digno de Luis Buñuel, em cenários de Dali.
Os actores seriam pessoas normais, medíocres, claro, mas felizes, na ordinarice dos dias correntes.

Por tristeza e por dias ordinários e extraordinários, lembro-me que alguém me perguntou se a minha boa disposição não seria um exercício falso. Se não seria um disfarce ridículo face à disposição que parecem traduzir as letras que escrevo...
Intrigou-me, a pergunta. Achei mesmo uma pergunta brilhante. A surpresa de alguém querer tentar saber os porquês e os quês das coisas, é sempre um achado. O desassossego e a inquietude não se curam só com uma ida à casa de banho ou com um pirafo bem dado. A alma tem que ser alimentada, senão definha e morremos estúpidos... como escrevi em tempos...

Mas, voltando à pergunta que me fizeram. A resposta ultrapassou o momento de admiração e saiu disparada pela pista da razão.

Em boa verdade, o estado de tristeza é um estado presente. É como uma malha, matriz de fundo, que entreteceu o tempo à volta do espaço disponível e criou a plataforma de sustentação de mim. É verdade. Em fundo, em verdade, sinto-me triste.
Não é deprimido, não é doente, não é incompatível com a tranquilidade mas, sinto-me triste e o semblante, quando está só, não tem brilho. Não me retira o pensar, não me diminui a dedução nem o sentir. Especialmente, o sentir.
Em resumo, o meu fundo é de cor triste e aroma sombrio. E pronto.

A pergunta, no entanto, ia mais longe. Queria saber que alegria era esta que aparecia de quando em quando e, se era genuína ou fabricada para a ocasião.
É bem genuína, respondi eu, mas é gerada pela ocasião, pelas pessoas ou pelos estares e sentires. E como funciona uma coisa destas, aparentemente contraditória?
Curiosamente, o processo é simples.

Na base escura, começa a ser tecida uma nova malha, uma nova tela, que não se consegue colar à anterior, nem substituí-la.
Mas cresce, sobreposta, até tapar a influência da cor mais baça que vai ficando enterrada debaixo desta nova construção. À medida que se vai estendendo a influência e o enquadramento, assim vai ganhando altura e estrutura, esta nova Torre de Pisa.
Infelizmente, não consegue retirar da sua natureza, a volatilidade. Não é mais do que uma presença efémera que depende, por vezes, da vontade do construtor, enquanto noutras, reflecte a luminosidade de uma qualquer estrela que passa mais perto.
Assim que é desligado o quadro geral da vontade ou pressão que, de fora, mantém activa a força de querer, todo o planeta regressa à penumbra original. A temperatura dos corpos vai descendo até ao gelo glacial do inverno ártico e a luz abandona à sua sorte, o ecossistema que, sozinho, vai definhando até ao ponto original de que partiu.

Varia, a duração dos efeitos. É invariável, o ponto de chegada.
A vida nasce e morre, de cada vez que nascem e morrem os dias.

Talvez, por isso, goste tanto de estar acordado de noite. Sem ilusões.

domingo, outubro 16, 2005

adoro


...sobra-me pouco fôlego para escrever...

quinta-feira, outubro 13, 2005

tempo diferente



Se um dia esperares por mim, não guardes rancor pela saudade
Se mais tarde me vires, não penses que sabes de mim
E, se nunca puderes ter o espaço dos meus olhos,
Guarda na memória o tempo que roubaste ao relógio,
em que sonhavas comigo.

ébrio



atirou para o chão o resto do vinho que não bebeu e subiu as escadas da vida para ver o estado de embriaguês em que se encontram o passado e o presente...

foda-se - disse ele - assim, não há futuro que aguente.

há muito tempo

Um dia, quando era pequeno, fiquei com uma memória gravada com uma violência tão brutal que, ainda hoje sou capaz de relembrar a hora as cores exactas, os objectos e o cheiro que havia na cozinha, nesse dia.

Tinha quatro anos e passava os dias em casa, com a minha avó, que morava connosco, quando os meus pais iam para o trabalho. Já contei que tive duas mães, não foi?
Esta era a minha mãe maior.


Um dos passatempos preferidos da senhora era ensinar-me as poucas poesias que tinha aprendido até à 4ª classe.

A minha avó nasceu mo Alentejo, numa família que trabalhava no campo e, por ser a mais nova de 5 irmãos, calhou-lhe em sorte ser mandada para a escola; coisa que aliás, nunca corria bem. Ela contava com um sorriso que ainda hoje me arrepia a memória, de tão doce e sereno, que a mãe dela tinha que a ir buscar à cama, à força, para a levar para a escola. Todos os dias a minha avó inventava uma nova dor e uma nova doença para não ir para a escola. Preferia poder ir para o campo com as irmãs e irmão, onde brincava, mais do que trabalhava, porque os mais velhos tinham um carinho especial pela pequenina e não a deixavam estragar as mãos que seriam para escrever.
Então a minha bisavó, agarrava-lhe na orelha e metia-a na carroça do bisavô para a levar para a aldeia, para a escola.
A pobrezita ia todo o caminho a chorar durante os primeiros meses de cada ano escolar, pela separação que lhe impunham. Mas tinha sido decidido em concílio familiar, que alguém havia de aprender a ler e a escrever para poder ajudar a família a enfrentar a burocracias e processos da vida corrente. A pequena Custódia saiu em rifa mas, naquela idade, não lhe parecia uma solução nada católica.
O certo é que fez até à 4ª classe e, depois, lá conseguiu ir trabalhar com os irmãos para o campo.

Ficou-lhe o gosto pelas letras, sentiu a facilidade de movimento que lhe dava o saber ler e escrever e tratou de mandar, mais tarde, os seus próprios filhos para a escola, assim que pôde. Incentivava-os acarinhava a leitura e a escrita e, quando o professor primário do filho dela lhe disse: o Manuel (meu tio e padrinho) devia continuar a estudar, uma criança, com a vontade e predisposição que ele tem, devia ir mais longe.
Deixa-me relembrar o enquadramento: estamos numa aldeia rural enfiada no meio do Alentejo, numa família de trabalhadores do campo, em meados dos anos 60.
A resposta da boa da Custódia, ao mestre escola da aldeia foi só: E para onde poderemos mandar o Manuel? Quem o poderá aceitar?
E nem quando o professor lhe disse que a solução “menos cara” seria enviar o rapaz para Évora, para o seminário, se lhe quebrou a resolução. A minha avó começou a tratar de reunir as poupanças e, enquanto engolia as lágrimas, preparava o envio do menino de 10 anos para longe.
Que mulher. Que raça. Que brio de vida e abnegação. Não tenho a capacidade de análise mais imparcial do mundo, mas não consigo evitar a admiração escancarada pela dimensão desta senhora.

Por essa altura, abençoou as sovas que tinha levado da mãe para ir para escola, e agradecia-lhe, de todas as vezes que escrevia ao Manuel e de todas as vezes que recebia cartas do filho que via apenas nas férias do verão.
Podia falar mais do que é a memória do tio, mas não tenho letras hoje, para contar essa história. Apenas que morreu, com o pai, num acidente de automóvel, três meses depois eu ter nascido. A transferência foi óbvia e imediata.

Vou voltar ao início, onde comecei.
Como qualquer criança, cada vez que ficava mais de uma semana no Alentejo, adoptava o dialecto local – já na altura, camaleão – e a minha avó dizia-me: Se sabes escrever as palavras da forma certa – ainda não tinha 4 anos, já ela estava a tratar de me ensinar, e eu a aprender – então não as digas da forma errada “Falar com o acento do Alentejo não faz mal, mas tens que dizer as palavras da forma correcta”.
Bom, perdi-me outra vez.

Naquele dia, na cozinha, ela estava a fazer o “estremalho”(crochet) – já não dizia esta palavra há tanto tempo, que não consigo quantificar – sentada num mocho, em frente à janela e eu andava por ali, a trautear as poesias que ela me ia ensinando enquanto fazia correr a agulha pela linha encostada ao dedo.
Nesse dia, estava a aprender uma poesia leve sobre a morte, que ainda hoje não sei de onde terá vindo:
«À morte ninguém escapa
nem o rei nem o bispo nem o papa.
Mas eu, hei-de escapar a ela
Compro uma panela
e meto-me dentro dela.
E a morte chega e diz:
Humm, aqui não há ninguém.
Adeus meus senhores
E passem muito bem. »

A propósito do tema, lembro-me de ela me ter perguntado “O que fazias, filho (era como me tratava), se a avó morresse?” E eu respondi-lhe, pronto e rebiteso: “Não fazia nada, porque tu não vais morrer”
E pronto. Era uma verdade incontornável: a minha avó havia de ficar sempre comigo.

Mas a artista da avó Toda, fez cair a cabeça sobre o peito e ali se deixou ficar inerte... E eu fiquei a olhar para aquilo, sem perceber o que se passava...
Chamei-a. Várias vezes. E ela não respondia. Lembro-me claramente de ter começado a associar aquele mutismo ao estado em que via os corpos nos funerais a que já tinha ido.
Uma de duas. Se não se mexe, está a dormir... ou morta.
Bom, se estiver a dormir, vou acordá-la.
Abanei-a um bocadinho, e nada.
E mais um bocadinho, e nada.
Não podia estar a dormir porque eu, quando dormia e a minha avó chamava por mim de manha e me abanava o ombro, acordava.
Na minha cabeça de criança a conclusão era óbvia: a minha avó morreu. E voltou-me à memória, a pergunta que ela me tinha feito, uns momentos antes. “O que fazias...?” Curiosamente, o meu primeiro pensamento foi: tenho que lhe tirar o estremalho das mãos, não vá ele cair e estragar-se.
Mas, quando avancei para pôr a salvo as linhas entrançadas em nós, ela, receosa do que eu fosse fazer com aquilo, resolveu “acordar” e ficar viva outra vez.

Lembro-me que não chorei nem tive qualquer expressão de alegria ou tristeza, e guardei para mim a angústia que senti pela perda eminente da pessoa mais importante da minha vida.

Tudo isto se passou no espaço de 1 minuto ou 2, mas tomei imediatamente 2 resoluções, talvez as primeiras resoluções ou considerações sérias da minha vida.

Decidi que havia de saber distinguir as pessoas vivas das mortas, o que tratei de resolver ainda nesse dia ao perguntar aos meus pais, que me explicaram a história do ar a sair pela boca ou pelo nariz. Muito bem, esse assunto estava arrumado.

A resolução maior foi passar a velar pela “vida” da minha avó. Se ela podia não ficar comigo para sempre, eu achei que, se me assegurasse que ela ia respirando, então estaria a contribuir para o prolongamento da estadia da avó Toda na minha vida.

Passei a dormir com ela muito mais vezes e, quando ela adormecia, eu ia pondo o dedo debaixo do nariz para garantir que a minha avó ia ficando comigo.

Cresci e esqueci-me das minhas resoluções. Deixei de velar pela vida da minha avó enquanto dormia.
Não consegui ser o guardião que te prometi em silêncio, quando tinha 4 anos, avó.

E deixei-te morrer.


domingo, outubro 09, 2005

one of my best friends



sem comentários

outro pensamento, da mesma época

e, aliás, no mesmo dia. Mais tarde...

The thicker the barrier to the brain, the less I’ll be able to think. Thank God for all the tranquilizing substances. Je n’attend que la nuit pour l’absence de la lumiére. Merci pour le noir. Je la souaette. Havia tanto para dizer e escrever assim os meus dedos estivessem a responder aos comandos.

Boas notícias! Aqui há Stolichnaya! Uha.

Saem dos buracos todos os seres que, de dia escondem algumas das ansiedades que lhes afligem a alma e impedem as cascas de cair.

Agora é a hora da mudança das crisálidas e que borboletas tão diferentes nos oferece a escuridão. Quão fatal é a seiva que escorre dos corpos a esta hora, neste dia. A languidez, o aroma, o desprendimento, a semi loucura que é libertada pelo anonimato da hora.

Agora ninguém é ninguém.
Toda a gente é um mundo vivo de cores, sons e aromas. Que libertação sente o espírito quando a alma dá folga às rédeas do decoro, sentido esteta e pudor de imagem ou de acções.
Gosto. Gosto sobretudo do entorpecimento da clara fragilidade do deslizar, aparentemente fácil, dos corpos já fragilizados. Mas ninguém os avisou e assim rebentam os últimos freios que os retêm na sanidade. E que bom é ver o descontrolo assumido, como parte indispensável do escape das nomenclaturas. Que delicia é o alheamento…

há muito tempo

mais precisamente, ainda no ano passado, escrevi algumas coisas.
Alguém me relembrou e aqui ficam alguns pensamentos desgarrados...


"Largar aos pulmões o trabalho do coração significa dar ao que sai da boca a importância do que devia sair da alma. Só as pontas das estrelas sabem o que picam se estiverem muito próximo das pessoas; só ai se sente o ardor das farpas que tão bem conseguiu a terra esconder debaixo dos oceanos…Que ironia, só depois de secos se lhes vê o fundo. E que triste espectáculo é."

Tenebroso, não é? Art (whatever that might be...) craves on pain.

quinta-feira, setembro 22, 2005

as memórias


que revejo.
Suaves como o som das cores do mar; fortes como o cheiro das ondas a esbarrar nas arribas da imaginação que me assalta os dias mais sós.

Maresias de ti.

queria

poder elevar a minha vida e o ânimo q me despertaria o q sinto ao descer em ti.

se ao menos me lembrasse...

terça-feira, setembro 20, 2005

sinto


os olhos ainda abertos...
porém, consciente...
sem ilusões...

quinta-feira, setembro 15, 2005

não penso mais

recusei-me hoje, no final de um dia, a pensar mais.
não quero mais olhar e ver, apenas aceito as manchas e sombras do que existe.
estou cansado e já não tenho ânimo para puxar debaixo do meu peso a réstea de esperança que ainda sentia quando sorria, enquanto olhava e sentia a luz do mesmo sol que me abandonava, ao início da noite.
a noite que adoro e onde me vejo a coberto dos olhares que me poderiam descobrir.

encolhi o espaço do bater do coração para diminuir o impacto da vida no meu peito. e fiquei mais tranquilo, assim, alheado da realidade ausente, à minha volta.

trucidei, consciente, a menina dos olhos que adivinhava as cores das coisas. agora vejo escuro, e é mais tranquilo.
deixarei de ver, em breve, e ficarei, concerteza, bem mais em paz.

há muito, ou não... sim, há muito tempo que convivemos juntos e a mim foi sempre deixado o peso mais amargurado e as tristezas mais sós, que aos outros não cabiam. aceitei-as a todas, enquanto não pensava se tinha arrumação para tanto fel.

chega e sobra, sei hoje. mas já deito fora o tom mais grave com que exprimi em tempos o meu desdém. já não me importa.

assim, será concerteza mais fácil, e não terei que virar a cara à luz que me feriu todos os dias.

é muito triste, a alvorada do homem, quando já não espera a manhã.

sorry



não gostei da exposição.
revisto e reduzido.

prerrogativa de autor.

detached

As mãos dele seguram nas dela enquanto os lábios deslizam uns nos outros. Da boca, imagina de cor, o caminho para o pescoço, que percorre de olhos fechados a imaginar o prazer que lhe despertam as carícias que lhe entrega.

Pára, e observa os olhos dela, enquanto a vê inclinar a cabeça para trás ainda a sentir as mãos que ele não consegue manter sossegadas e quietas, perto do corpo dela.

O desassossego assalta-lhe a têmpora e deixa-a a latejar...

As orelhas tornaram-se agora um altar com a imagem a quem devota o calor dos beijos... suave loucura, esta, de querer assim de forma incontida.

Ouve-se ao longe a inveja que corre a aplacar: beija-lhe os olhos e faz-lhe passar pelas pestanas a brisa do corpo, já tão quente de estar tão próximo.

E as mãos que não se aquietam... os músculos que pedem o contacto dos dela... o peito de um já sonha em pesar no outro.

Agarra-a e vira-a de costas para cima, com a firmeza que não lhe deixa dúvidas sobre a a tensão que sente; e carrega as mãos nas espáduas.

Por esta altura já se sente a respiração pesada, e os peitos que se expandem, enquanto tentam respirar, como se estivessem rodeados de um ar denso de desejo.

A raça de amar não tem que ser uma só descida. Nem a montanha russa pára depois da primeira rampa; ganha balanço e lança-se para a frente, carregada de vontade e gente aos gritos.

Assim é a vontade de a ter, que se propaga dos músculos dos braços, em direcção aos dedos que correm a pele das costas dela. Descobre as curvas, as reentrâncias, a suavidade da pele onde viaja; ao lado dos ossos pressente os nervos que faz disparar com as mãos, que vão lentamente para baixo e para cima do peito dela, arrepiado de um frio que não existe.

Está em fogo, a consumir-se devagar e louco por a sentir a arder também. Os músculos dela abandonam-se nas mãos dele e confiam aos beijos que lhe surpreendem os ombros, a vontade de não parar de ter prazer.
Sentirá a palma da mão que treme quando faz menos força a controlar a vontade de a tomar de assalto como um louco? A maior parte das vezes, não: está ocupada a sentir, e angustiada pelo calor que lhe assalta o ventre, sem dizer quem é.

Os dedos dele continuam nela, como se quisessem entrar e acariciá-la por dentro...

quarta-feira, setembro 14, 2005

sublimação


se isto continua assim, o eu assanhado toma conta da chafarica...

terça-feira, setembro 13, 2005

raça

a exposição brutal, abandonada

e assumida da diferença

causa, na arte, o receio e orgulho, simultâneos,


da marginalidade destacada do ordinário.





sexta-feira, setembro 09, 2005

piece



Li há uns tempos – há 16 anos atrás - que os peixes beijam com a mesma serenidade com que vivem na água.

Gostei da imagem, e hoje, imagino as variações da vida de um destes habitantes de azul, enquanto sonho em deitar-me em ti.

quinta-feira, setembro 08, 2005

intermezzo

rástapárt'á vida e quem lá anda dentro

-eu sou outro-

terça-feira, setembro 06, 2005

amar com o corpo, não tem nada a ver com foder - parte 1

e não é preciso ser lamechas, nem brilhante, para perceber o que está ali escrito.

O que é preciso, concerteza, é ter dois ou três ou mais dedos de testa, para transformar esta realidade banal em alguma coisa de "palpável" que transforme a vida da gente.

Foder é fácil. Afinal, bem vistas as coisas, literalmente, todo o bicho careta fode. Ou pelo menos, pode foder.
Trata-se tão só e simplesmente de arranjar o caminho mais curto para um macho convencer uma fêmea a deixá-lo esvaziar os tintins, de toda a força vital acumulada no escroto da vida. Mas, que não hajam ilusões, desde o início dos inícios do tempo, que isto pode perfeitamente ser visto na perspectiva oposta, ie, a fêmea pode perfeitamente assumir o papel de esfomeada de sexo e do prazer decorrente e procurar um macho que esteja disposto a oferecer-lhe um orgasmo, ou pelo menos uma excitação bem passada (mais ou menos bem passado, conforme o gosto). Sexo fraco, pois sim...
Para quem fode assim, o tempo é o obstáculo a ultrapassar, com os dentes cerrados e a obstinação de qualquer mula de carga. Uma coisa é sempre garantida: assim que possível, os
protagonistas deste frenesim, desatam a correr pela espinha acima de quem montam, para só pararem, já cansados e satisfeitos, no fim de mais uma pratada, que engoliram esfomeados.

Que grande merda!
Que grandessíssima merda!

Foder é para bicho e, salvo as araras e mais 2 ou 3 espécies, que acasalam para a vida, os outros bichos, quando fodem, é para a reprodução da espécie. Muita gente, quando fode, é para e pelo prazer de foder.

Toda a gente tem direito à diferença mas eu, não gosto desta gente. Pelo menos para foder.

É incontável o número de queixas, enganos e angústias que se pronunciam, a cada segundo, sobre os amantes. "... não sei seme enganou quando gemia ou se fingiu estremecer quando, afinal, queria era ir dormir, porque amanhã tinha que acordar cedo e este era o último assunto "a despachar" antes do merecido repouso..."
E admiram-se... de não ser como gostariam...

Não é impossível encontrar água no deserto, mas é bem mais difícil, como poderá atestar qualquer geólogo certificado.
Como pensam sequer em chegar onde quer que seja quando nem sequer se põem ao caminho?

Amar com o corpo, é uma arte. Acessível a todos, sem excepção, acredito eu. Mas reverenciável, como todas as artes, e digna guardiã de alguns segredos que faz por revelar apenas a quem se lhe entranha, com a vontade de se ali se perder para sempre.
A verdade é que pode não ser para sempre, mas tem que haver vontade de se perder e entregar, antes de querer ganhar o que quer que seja.
Arrisco que a primeira parte começa com a descoberta do gosto e prazer que se tem em
proporcionar prazer a alguém. Gaita, esta é simples, afinal de contas, amar, à séria inclui fazer do bem do outro uma prioridade maior do que o bem do próprio.

Amar com o corpo, começa com o coração. O resto, é piloto automático.

Se houver um dia de aniversário de quem amamos, proporcionamos-lhe o que mais gosta, para usufruir da felicidade do outro. E faz-se, mais do que de forma abnegada, faz-se com o gosto e prazer que só se pode ter quando se vê a satisfação de quem se ama.

Amar com o corpo... é mesmo assim. Todos os dias de amor são uma busca incessante de dar, sem preocupação de receber, são a vontade de ver feliz. Sem mais nada.
A magia aparece quando não nos preocupamos nem com ela, nem connosco. O génio da lâmpada vem-... apenas quando ninguém o chama... e é delicioso...

Quando se vive assim, mais tarde ou mais cedo, o parceiro que temos vai querer também partilhar desta felicidade de dar. Ou não. Ou não percebe. Ou não gosta. Ou simplesmente, prefere foder. Aí,... bom, nesse caso, manda fora. Não serve, de pobre que é e mais pobre que ficará, à medida que o tempo lhe passar por cima. Se no arranque e no enlevo do início, não se despertam estes sentires, concerteza que, mais tarde, também não conseguirão perfurar a crosta de indiferença, stress, urbanidade e quotidiano, que entretanto se forma.


Quando o parceiro que temos, se apercebe da magia do dar,... ai, ai...
É só imaginar dois corpos que se juntam sem pressas de mais nada e sem vontade de chegar a lugar nenhum, entretidos, ambos, no desejo e prazer do outro... encomendada, não há felicidade assim. Só natural.

O encontro começa por ser o dos olhos que sorriem, outra vez, quando se vêem, e mais outra e mais outra... sem se cansarem. Amar inclui o conhecer, porque amar é desprendido mas interessado. Muito interessado em saber do outro.
A seguir, vem o beijo. Hummm.... Um beijo pode ser o começar de qualquer coisa, ou o explodir imediato de outra qualquer. Um beijo só tem um começo, não tem fim. Um beijo que se dá, é para durar o tempo todo, para conhecer os recantos dos teus lábios e a ternura da boca que se oferece, sem pedir nada em troca. Um beijo é também uma escalada violenta de emoções e abandono de prenúncio de um evento que transtorna, a cada vez.

Um beijo assim pode ser aprendido, mas tem sempre que ser fruído. Caso contrário, não passará do entrechocar mais ou menos espasmódico de uns lábios contra outros, em que a língua não é mais que toupeira à procura de presa num buraco escuro.

NÃO!!... não... não...

Um beijo é um acasalamento delicado e lânguido de dois corpos que se apreciam e abandonam ao outro e ao tempo que não lhes falta. Um beijo é quando a minha boca desliza colada à tua ao som de um tango de Astor Piazzola: com firmeza, para que não caias quando te inclinas e eu te apoio, com a suavidade que te derrete, e com a liberdade de movimentos necessária para vires de novo ao encontro aos meus lábios.

Não há par para lábios que gostam de saborear o tempo e uma língua que se abandona à carícia de mim.


--work in progress --

segunda-feira, setembro 05, 2005

somos 3

o mais pesado, triste e antigo.
um mais novo e um pouco mais leve.
e, curiosamente, um que gosta do lado erótico e íntimo da vida, atrevido e assanhado.

quinta-feira, setembro 01, 2005

morrer vivo

Esta expressão perpassou-me o pensamento há algum tempo, depois de a ter ouvido aos meus lábios, num dia cinzento.

Lembrei-me, e esqueci-me do que me fez, na altura, pensar nisto. Hoje, apenas posso pensar no que sentirá quem pensa nisto, na primeira pessoa...

Que mentiroso que sou.

Esta angústia assalta-me praticamente todos os dias.

Apenas um pequeno pensamento, consola o espírito atormentado. Morrer vivo deverá ser como morrer na cama, durante um amor quente e fogoso (tenho claramente que escrever um post sobre o que acho disto, um dia). E assim, voltando ao assunto, morrer vivo, seria como abandonar o palco no auge da carreira da vida. Ao menos morria... quando estava vivo.

A preocupação que me assalta é um pouco mais asfixiante. E, se não chego a viver à séria, antes de morrer?
Quantas vezes vi nos outros o adiar de viver e estar e ser, com a desculpa insultuosa de que esta, menos interessante e desapaixonada e infeliz, seria uma parte necessária do caminho para um dia chegar a um qualquer estágio de nirvana.
Tolos. Estúpidos. Absolutos idiotas, os que esperam pelo inalcançável quando deveriam era tratar de ser felizes tão breve quanto pudessem.

Não se entenda a defesa do sofismo absoluto, enquanto forma de viver; afinal de contas, a busca do prazer tem que ser intercalada por qualquer coisa que, se não for pela alma, sirva, pelo menos, para descanso do corpo.

O pior é a perda da perspectiva, do objectivo ou objectivos a alcançar. Parece uma parvoíce, não é?
Se alguém perguntasse às gentes, e pedisse resposta imediata, sobre qual é o propósito da vida corrente e quais são as traduções práticas, materiais ou outras, desse propósito... nem quero pensar...

Arrisco que 96% não tinham resposta, 3,5% tinham, no máximo, uma ideia vaga e difusa do assunto, atirando para o ar uma ou duas ou três coisas que gostariam de fazer com a vida de que gozam mas, infelizmente, sem saber responder objectivamente à pergunta. Os restantes marginais, tinham resposta. Afinal de contas, privamos e dividimos a existência também com os loucos...

É dramático viver a pensar consciente ou a sentir em voz off. A realidade invade-nos os sentidos e a razão dispara à procura das causas e efeitos do ser que somos no mundo em que vivemos, rodeados por quem escolhemos e o acaso nos oferece.
E não pára de voar, a razão. E com a prática do tempo, traduz as contas e algoritmos da vida, que antes ocupavam espaço no consciente do dia a dia, em sentires e quereres e aromas que, mais tarde no tempo, se atiram para a frente dos olhos, quando precisamos de olhar, e dos neurónios, quando precisamos de pensar, e do nariz, quando precisamos de sentir.

E a vida passa num passo endiabrado, embalada nesta vertigem de ser. E preocupa...

Preocupa-me saber se um dia, quando morrer, alguma vez terei estado mesmo vivo.

segunda-feira, agosto 22, 2005

E, se quem escreve, não é quem é?


A pergunta, por mais inquietante e, aparentemente ofensiva que seja, só tem uma resposta: nunca é.

Quando se escreve com ganas de escrever, anulamos e cancelamos todos os engulhos sociais que nos povoam o ser. Quem escreve, é sempre outro. É mais livre. Não tem medo. Diz o que lhe vai na telha e, sobretudo... não interage com a gente que vive à sua volta. Não é directamente condicionado, na maior parte do tempo.

Quando se lê, olha-se para o espaço de quem escreve, onde estão os sentires e os gostares, os quereres e as desamizades mais puras e mais enterradas em si.

Nunca é. Porque é tão incompleto...
É quase um exercício de covardia, quando o autor começa a acreditar que é o que escreve. Porque não é. É apenas uma pequena parte do ser, a quem faltam muitas outras peças.

Pode ser um vício tão fundo como a mais pesada das drogas. Para quem escreve, e para quem lê.
Mas, quem escreve não é todo e, quem lê, está longe de conhecer tudo.

Quem escreve é sempre muito mais do que um. Quem escreve é uma multidão que, diariamente, tenta conquistar os melhores dedos para conseguir fazer vingar o seu dizer. Imagino a batalha esquizofrénica e frenética, pelos dedos médio e indicador, em que as várias facetas se guerreiam de forma feroz, intrépida e sem quartel...
No fim, os despojos do vencedor traduzem-se na torrente de letras de mais um post...

Mas se quem escreve é mais do que um, como coabita, sem perturbar o indivíduo uno? Como a detente da guerra fria, também aqui se assiste a uma coexistência pacífica, na medida do equilíbrio de forças das partes... mas isso fica para outro dia...

Se em cada batalha diária sobrevivem sentires diversos, quem escreve vai contactando com uma parte ou outra de si. E nesse dia escreve assim, e no outro escreve assado. Quem escreve nunca é quem é, porque seriam precisas miríades de letras para compor o puzzle de quem é. Não é exequível. Simplesmente... não dá.
Para complicar a equação, juntem-lhe, ainda, aqueles autores que conseguem manipular as batalhas e escolher a faceta do dia, tipo promoção de um qualquer supermercado: “hoje, a 9,99€, não deixe de levar as coxinhas de franga...” humm... descambando... marcha atrás. Onde ia? Hum, hum... Certo.

Estes são os autores heterónimos puros porque, no fundo, o outro e os outros passam assim a ter uma vida própria, com direito a nome de baptismo e festa de 1ª comunhão. E agora, quem é, é quem? Quem é, passa a ser quem ele quiser, e quem lê, está para sempre perdido na penumbra e alheamento de um qualquer fog londrino Dickensiano.
Aqui, o nível de elaboração é tão alto, que a imagem que me assalta é a de um equilibrista a percorrer uma corda esticada por cima de uma enorme ravina, a equilibrar 2 barris nas pontas de uma vara, ou 3 barris, ou 4, ou 5... e cada vez mais perto de se esborrachar no fundo do buraco por onde decidiu passar. Equilibrismo tem limites...

Mas voltando ao que me fez arrancar, o que pode acontecer a quem lê, quando conhece quem escreve?
O que o leitor mais espera é a equivalência directa às expectativas geradas a partir das palavras escritas.
Credo!... Só de escrever me arrepia...
Porque se é quem é, o autor é um marginal!
O que pode ser, no princípio, um exercício de carácter vincado e personalidade genuína, torna-se, com o passar dos dias, no exercício déspota e tirano de alguém que não olha a quem. Não é tolerante com a diferença e arrasa o próximo na argumentação já antes ponderada ou sentida daquilo que acha, sobre quase o que quer que seja, sem qualquer preocupação particular sobre a forma em que transmite ou sobre o que sente o eventual interlocutor atropelado.
Se é quem é, existe uma grande probabilidade de o autor ser uma valentíssima besta. Disfarçada até, mas uma besta. O alheamento de que partilham tantos artistas não é uma mera coincidência.

Na maior parte dos casos, quem é, é quase imperceptível na multidão silenciosa de todos os dias e passa despercebido na sã sociabilização entre os humanos civilizados. E parece um desapontamento. Mas não devia ser. Porque quem é, também é vivente. E quando vive, convive com as gentes e tem mais de si do que apenas o que escreve. Muito mais. Influencia directamente quem passa, é afectado por quem parte ou quem chega e mantém uma troca quase homeostática com os que o rodeiam. E agora?

Agora chega o desafio para quem lê... e para quem é, também... Será suficiente a soma ponderada do que é nos textos com o que é na civilização? E suficiente para quê?
Para a segurança do estar, para a tranquilidade do respeito que pensa ter conquistado aos outros, para si.

Por vezes, quem escreve, hesita e suspira por saber se mantém a imagem de quem é nas letras; em paralelo corre o desafio que se colocou a quem lê, que tem que decidir se o resultado final está conspurcado demais, ou não, pela normalidade da pessoa humana.
E vivem em angústia, os dois, por razões diferentes, mantendo muitas vezes, entre si, o espaço e tempo necessário para não se cruzarem de forma definitiva.

Com medo que se perca uma qualquer magia, que não é real, por não ser completa.

Para muitos, isto é perturbador o suficiente para manter a noites em claro... enquanto para outros,... é mais um barril na ponta da vara.

quinta-feira, agosto 18, 2005

ando

atormentado por qualquer coisa que não sei o que é, e veio não sei de onde, dirigindo-se para sei lá que destino, enquanto passa por cima do que não vejo e atravessa espaço nenhum.

a palavra arremedo fustiga-me o espírito enquanto os olhos se rendem ao peso das pálpebras.

ando claramente... só não sei se eu, ou o outro.

...será

que me está a nascer um alter ego, como se fosse um alto de uma qualquer cabeçada que terei dado em tempos e nunca mais sarou?

é verdade que nunca vi, de cada vez que avançaram as paredes em direcção ao meu rosto e me entrava, nos olhos da esperança, a fuligem das chaminés das novas indústrias.
talvez não seja o fado de quem atira para fora de si o que outros, lá dentro, fazem por remeter para um canto escondido, perceber quando atinge de frente o céu.

cospem, respiram e até olham para ele, antes de o visitar com o que de menos bom poderia querer. passam imunes enquanto estragam o presente e o futuro, com a desculpa do que não fazem para esconder a porcaria do que são capazes.

são estúpidas, as chaminés da nossa vida, alinhadas em direcção a um qualquer ponto cardeal, à procura de uma orientação que tarda em lhes trazer o caminho para a frente dos olhos.

gentil e tão triste

Perdi o chão que pisei ontem
E nos tempos de mais atrás.
Perdi também o vazio
Onde escorregava
O meu orgulho altivo.

Os buracos que enchiam o nada dos meus dias
Foram ficando mais pequenos
Diminuindo a vontade
De não fazer coisíssima nenhuma.

Foram tempos felizes, esses.
Eram dias amenos,
De vida tão serena e suave
Como os lábios finíssimos
Que se enchiam de carne
Para me beijar.

Avancei e recuei tantas vezes,
E nem vi que, no caminho,
Perdi o teu sorriso aberto
Com os teus olhos semicerrados
De tanta força fazerem
para não deixarem fugir
a alegria que sentias.

Invejava-te a leveza
E apoquentava-me o peso do tempo
que inventei, e que, de tanto repetir para mim,
acabei por acreditar que era o meu.
E prendi as mãos aos pés.

Tenho passado o resto da vida,
a tentar separar os membros
que, por acidente, juntei no teu tempo
e não voltei a sentir separados.

Adorava poder oferecer-te de novo
Buracos enormes
Cheios de coisíssima nenhuma
Com a leveza da felicidade
Que tanto gostava de sentir em ti.

Até sempre.

quarta-feira, agosto 17, 2005

...

é verdade. confesso.

Alicia vive nos pingos de chuva que caem das teclas do piano.
As cordas retesadas expandem o espaço e páram o tempo enquanto ouvem chorar El Pele.

A viola fala, segura, enquanto os violinos sussurram e murmuram, ao longe, a admiração pela arte feita expressão.

Sacana da música... É sempre a mesma cégada...

...mas tinha tantas saudades.

aiku incompleto

se, um dia, perderes o teu olhar...
os olhos, como a música,
às vezes também mentem.

arame farpado

amarrado a si próprio, é provavelmente o único a quem não fere, nem rasga.
só de pensar, sente-se a brutalidade desta existência.

antes do tempo que devia ser teu

Pressentia o espaço vazio debaixo dos teus braços
Sempre que te arremessavas contra as portas e janelas,
Como se o destino que te estivesse fadado
Fosse semelhante ao dos vidros que quebravas
Com a violência displicente de quem não tem amanhã.

Eras arrojada,
alheada do tempo,
e a contradição aparente
inundava o meu imaginário
todos os dias e todas as noites.

Sempre houve quem te pudesse chamar de coragem,
Enquanto os teus detractores limpavam o suor do rosto
E atiravam com azedume palavras como impostora e falsa,
Ao que sempre te vi dizer que sim. Que sim. Que sim.

Dizias que era verdade, o tempo e o ímpeto
Não eram mais que um pequeno lampejo de loucura
Sem heroísmo, nem outros sentimentos de Quixote.
E calá-va-los.

Deixaram de atirar para ti o fumo e as achas de uma fogueira
Em que sempre sonharam queimar-te...
Não teriam prazer, em ver arder quem se oferecesse para morrer...
Não alimentaria os prazeres porcos de ninguém.

À medida que foste passando pela vida da gente,
Foi-se impondo a brisa suave com que limpavas o ar de respirar,
Foi-se tornando claro que há forças da natureza que não se combatem,
Foste-te tornando eterna.

Quando comecei, não te via, porque não sabia,
Enquanto cresci não te distingui, por me pareceres banal,
E mais tarde, já velho e cansado, com tempo para pensar,
Abrasou-me o peito, a saudade de não te ter.

Tenho medo de não te ver mais.
Porque quando eu morrer,
Não vou ter força, nem mérito
Para ir para perto de ti.

terça-feira, agosto 16, 2005

fading away

por muito perto que estejam de nós as maiores forças da natureza, temos muitas vezes a covardia de não as contemplar com a devoção que merecem.

independentemente do tempo... perdemos-lhe a essência da cor.

regresso

Hoje voltei ao trabalho. Com os sentidos ainda meio adormecidos, lá arrastei a carcaça pelos corredores afora e entre as secretárias do open-space onde estou “sediado”.

As férias foram boas. Descansativas.

O regresso é que está meio penoso. E não é comum, porque pertenço àquela espécie rara que gosta de voltar ao trabalho. Mas desta vez, não. Talvez seja porque a chafarica está também deserta... como a cidade, aliás.

Claramente adormecido, e sem razão para isso. Tenho dormido muito nos últimos dias e não haveria justificação para esta aparente apatia.
Vou-te gravar como draft e já venho; vou beber um café a ver se isto anima. Ainda se tivesse aqui a minha música de cortar os pulsos...Volto já.

I’m back. Mas a coisa não melhorou.

Lembrei-me agora: ultimamente tenho tido pena dos bichos... Isto também não é uma ocorrência normal...

Há alguns dias lembrei-me de outra coisa, de outro tempo. Lembrei-me de um tempo onde eu gostava de ir passear para sítios quase desconhecidos, com muita malta, fazer coisas improvisadas ao sabor do momento e reunir vontades e disposições para a aventura.

Tinha perto de 20 anos e estava no meu tempo de juventude, concerteza. Quando hoje olho para alguns e imagino outros, daqueles que percorriam esses caminhos, vejo perdida a chama de olhar e trepar (salvo seja,ou não...) pela vida acima.
É curioso o processo de envelhecimento precoce a que se sujeita a esmagadora maioria das pessoas. Perdem parte da vontade, desagrada-lhes o risco, arrumam o sentimento de conquista e calçam definitivamente as pantufas de salão com a manta xadrêz nos joelhos enquanto bebem o chá em casa, ou o café na esplanada.
Porque tanto pesam nos bolsos das gentes as pedras da ponderação?...
Porque tanto arrasta e risca o disco, a agulha do estar?... Em vez de saltar as partes picadas e continuar a tocar com a mesma genica?...
Não sei responder...
O meu sentido de contraditório diz-me: talvez seja teu (meu) o desalinhamento; provavelmente esses sentires fazem parte do tempo passado e devam ser substituídos por tudo aquilo que acabei de dizer em que a humanidade se transforma a partir da provecta idade dos late 20’s (!!!!!)
Pois... Talvez me falte o equilíbrio ou o balanço certo da música do tempo, mas garanto que sinto a mesma ânsia de viver, e fazer, e rasgar em sangue os nacos de tempo e de vida que apanho à frente.

A diferença é que hoje... Sinto mais só.


E calo a voz... a descrição evita o alheamento por marginalidade...

Gostava de explicar melhor, mas hoje este pensamento angustia-me o peito.

quarta-feira, julho 27, 2005

perigo


não importa o quão pequenos possamos ser... não importa o quão despercebidos passamos...

uma coisa tenho como certa... é virtualmente impossível amar a arte, ainda que a da natureza, e não sentir a incontornável atracção pelo abismo...

what if

ah... se pudesse....

arrancava as raízes das almas e atirava-as para a vida das ideias.

que difícil e penoso seria morrer... mas que delícia seria o renascer...

leaving












é a perspectiva (ou falta dela...) que temos das coisas, que nos afasta tantas vezes da realidade...

a ponto de nos afogarmos nos grilhões dos nossos pensamentos.

o que fazem o tico e o teco

Há já algum tempo que não sinto a melancolia suficiente para escrever. Em boa verdade, isto é mentira, o que se passa é que não tenho tido tempo.
Curiosamente, ESTA é a mais pura das verdades.
Ainda assim, nem o mistério da estrada de Sintra me deu ânimo para arrancar as letras ao teclado.
O tempo que me sobra, faço por ocupá-lo com o mínimo possível... clear the mind.

Alguém dizia, “agora que anda feliz, não escreve...” Longe disso. Fossem outros os tempos e atacaria o portátil até me doerem as pontas dos dedos.

Foi inaugurada outra época: o meu novo trabalho "dá-me muito trabalho" e está-me também a dar algumas dores de cabeça com as quais estou a ter dificuldade em lidar. Preciso de manter um alerta muito mais elevado, do que o desejável e, por outro lado, os imponderáveis acumulam-se em quantidade e qualidade que ultrapassam também os meus parâmetros de “likeable”.
Adoro jogar, adoro sentir as pessoas e adequar abordagens que, na maioria das vezes, resultam em sucesso e satisfação, por muito difícil que tenha sido o percurso. Neste momento, não tenho prazer no jogo. É absolutamente inconstante e incerto.


Não consigo aferir, de forma consequente, o comportamento de algumas pessoas e, tenho verificado que o cumprimento de 100% dos meus objectivos (é a única forma de ganhar dinheiro minimamente aceitável) está muitas vezes fora do meu raio de acção. E, sobretudo este último ponto, é dramático.
Tenho conseguido, e hei-de continuar a conseguir atingir os objectivos a que me proponho, em praticamente todos os capítulos da minha vida e, por isso, me é tão difícil conviver com o facto de ter precisado da boa vontade alheia para atingir os meus objectivos profissionais! Profissionais!
Situaçãozinha filha da puta.
Porquê? Porque se, por um lado, é positivo receber o ordenado, por outro, é uma autêntica porcaria ficar em dívida e não estar a ser capaz de vingar pelos meus meios... não sei que faça, mas assim não poderá continuar. O meu orgulho e brio ficariam completamente cilindrados e, isso, não pode ser. Destrói a qualidade de vida e empobrece as pessoas. Empobrece-me.

Dilema sério... porque eu gosto de receber... por mérito... mas preciso de receber... por necessidade de pagar as contas.

Ora gaita mais a isto.

E é à volta destes temas que têm andado o tico e o teco.


sexta-feira, julho 15, 2005

o mistério da estrada de sintra

e porque não reeditar a ideia?

Apenas a ideia, já que a arte per se foi de mestres e não é, de perto nem de longe, replicável.


O que me dizes?