Saturday, July 04, 2009

vou chamar-vos


sombras. como os espaços sem luz.
dawn. como os despertares.
noon. como a hora do sol.
fall. no tempo em que as folhas mudam de cor.

e espalhar-vos por aí...

Tuesday, June 30, 2009

matar o tempo


porque é actual, na vida das gentes.
recorrente.
e tremendamente apaixonante, tanto quanto pode ser a atracção por qualquer abismo de que não vemos nem conhecemos o fundo.
e porque ontem, ouvi a expressão, que imediatamente me retesou as cordas que fazem arco perto do sentir.

(pausa.
para pensar se valerá a pena continuar a escrever, quando me apercebo que o anonimato tão confortável e libertador, deste MAC, se tem vindo a esfumar entre alguns mais próximos e outros, nem tanto; mas tem vindo a ser cada vez menos anónimo.
é que o grau de loucura que poderemos assumir fica sempre limitado pelas socializações sucessivas e consecutivas que vamos tendo que aplicar e gerir ao longo dos dias, dos meses e do resto da nossa vida desde que nascemos. esta faceta desvairada, em quem a tem, agarra-se como uma lapa que luta pela sobrevivência num exercício de comensalismo em que saberá um, consciente, e o outro, inconsciente, que fazem falta para assegurar a sanidade qb da unidade e assim, não assustar as outras pessoas.
a perturbação é tb é uma forma de vida, mas vive sempre encerrada. pode ser em casa, ou numa qualquer instituição de cuidados mentais que a tentará expulsar para dar lugar à insalobra, angustiante e repulsiva normalidade sem excessos nem convulsões de maior.
temos excepções, mas chamam-se artistas e podem ser loucos mediante um fee a pagar pela sua loucura, ie, terão que ocupar profissões que necessitem de "dotes artísticos". poderão ser poetas, poderão ser pintores ou escultores, poderão ser actores ou outros que produzirão peças e obras, de que natureza for, que aos outros parecerão, naturalmente estranhas. digo naturalmente porque estará incluída no fee uma cláusula de tolerância da vasta maioria, face aos resultados da arte que, por ser singular, será até, por vezes brutalmente valorizada numa subversão e ironia absoluta do destino.
mas isso, é para os "artistas".
este despotismo pré-estabelecido e estereotipado não é mais do que um novo processo de socialização que evoluiu para um estágio em que, agora, também já consegue absorver algumas "anormalidades".
é tão ridículo como redutor; é patético!... limitarmos a arte e a anormalidade de viver áquelas actividades inscritas no código 232-A/95 da socialização humana.
porque não aceitamos também a loucura presente naqueles que, mais perto ou mais longe, povoam os nossos dias? eu digo-vos: porque continuamos com medo do escuro e precisamos pela vida fora de continuar a dormir com as luzes acesas.
causa desconforto a surpresa e o desconhecido que, se não encaixar à primeira na matriz de lego que fomos construindo, tentaremos ignorar, abafar ou até repudiar como... uma expressão de óbvia loucura. e, por isso de doença característica do desvio que representa afinal esse comportamento estranho, face ao conforto e aconchego do pré-estabelecido.
e tudo isso,... porque não são artistas.

e assim, para escapar à censura tácita ou explicíta e ao julgamento fácil e redutor, vamos-nos escondendo nos blogs da vida e noutros fóruns ou recantos marginais onde se soltam as bestas amarradas durante o período em que, suavemente convivo convosco, dentro da aparente normalidade.
necessária, pois concerteza, para não assustar as pessoas.)

e, por isso, já não tenho vontade de escrever sobre a morte do tempo.

Tuesday, June 23, 2009

não sei que porra de título dar a isto





domingo.
telefonema. tempo parado.
inimaginável.
impotência absurda.
espaço. deixa para amanhã, que hoje não ajudas ninguém. ou seria já o prenúncio ou a suspeita de que seria, de facto, impotente.

no sábado tinha dito, em voz alta, numa daquelas verbalizações em que o pensar nos salta para a boca: "tenho-lhes, de facto, muito carinho. esta é gente pela qual seria capaz de muito para os ver felizes ou proteger do que seja".

esta gente, de quem gosto assim, tem um filho e escolheu-me para padrinho. e no sábado o Miguel e a Teresa juntaram a família directa na qual fizeram a gentileza de me incluir desde há alguns anos. como não?... sou, pelo menos, mais um irmão. de cada um deles singularmente, e não apenas de um, e do outro por afinidade.
era o lanche / jantar que celebraria o aniversário do Miguel. cheguei mais cedo e saí também mais cedo porque precisava de descansar o espírito e uma casa com os pais e os irmãos em festa era demais naquele dia. mas ainda tive tempo de o ver, de o cumprimentar e de o ver rasgar aquele sorriso suave e malandro enquanto me dizia: "então hoje estamos a chá? nem um vinho nem nada? muito fraquinho". É impossível não gostar do pai da Teresa... era impossível não gostar do pai da Teresa.

ontem foi segunda feira e a notícia infeliz estava espalhada por todos os pasquins do nosso rectângulo. O Fernando morreu na ponte para onde tinha ido, com o mesmo sorriso, dizem-me, passear e trazer a bicicleta...
Morreu, aparentemente, de forma rápida e indolor, como se isso fosse suficiente para acalmar ou amenizar a dor estúpida que se espalhou lá em casa dele e feriu tão fundo os filhos e a mulher.
O Carlos saiu com o pai de casa e voltou sozinho e é inimaginável o que se possa sentir nesse, e nos dias seguintes.
Adivinha-se-lhe o pensamente de quem se culpa pelo caos. Se não tivesse acontecido naquela situação, podemos dizer-lhe, seria noutra, porque o problema é congénito e comum à família. Mas ele, agora, não consegue ouvir. Só consegue lembrar-se que levou o pai e não o trouxe para casa de volta para a mãe, para ele e para a Teresa.
Amanhã, eu repito-lhe, e nos dias seguintes também, até ele ouvir.

Ontem foi um dia estúpido para a família, enquanto esperam que haja uma autópsia e um velório e um funeral.
Porque as pessoas precisam que alguém dê um tiro de partida e anuncie que começa nesse momento o resto da vida. agora sem ele. agora menos. Mas, ao menos, é a partir de agora.
As pessoas precisam de âncoras para cravar no caminho e apoiar os pés para andar. E o fim, precisa de ser mesmo final, para ser definitivo.
O meu sentimento de impotência é absurdo, apesar de ridiculamente insignificante. Ontem, Teresa, perguntaste-me se eu, anormalmente, não tinha palavras e só te soube responder com as lágrimas que eu pensava que não tinha, a correrem-me desavergonhadas pela cara abaixo. Não me é, nestes dias, fácil distanciar assim do que aconteceu para poder ajudar como esperariam que talvez pudesse. Não tenho palavras Teresa, porque me invadiu um bocadinho insignificante da vossa dor, como se fosse possível que, ao sofrer também, vos pudesse aliviar alguma grama da tristeza que carregam.
E o que sobra é esta quase completa inutilidade, amenizada apenas pela companhia e disponibilidade absoluta e incondicional que vos posso oferecer, enquanto aqui, os meus olhos continuam a insistir em que, de facto, vos podem ser úteis as lágrimas que me correm agora enquanto penso no que poderão estar a sofrer. como se a energia negativa ficasse mais repartida... têm tanto de ingénuos, como de bem intencionados e independentes, as partes de nós que às vezes parecem querer viver sozinhas sem ouvir a razão das coisas e a quem respondem que muito do fazemos ou sentimos, se gere por outros valores que, às vezes, não têm razão nenhuma.

o Fernando também faleceu na ponte, sem razão absolutamente nenhuma.

para a família ficará concerteza a memória de uma vida carregada de suavidade, boa disposição e uma humanidade fantástica que mostrava concerteza a alegria de viver de quem estava como gostava, e perto de quem queria bem. e isso, meus amigos, deveu-se concerteza também a vocês; é vosso o mérito.
se quiserem um fiel do quão bom foi o tempo que o Fernando passou, pensem no sorriso rasgado que fazia quando olhava para vocês e gostava do que via.
vocês fizeram parte determinante daquela vida feliz.

e ele, se pudesse, agradeceria tudo o que fizeram por ele.
na falta de melhor façam dele estas palavras e guardem este sentir, que seria o dele. porque esta será a vossa verdade mais preciosa nos próximos tempos de, concerteza, muitas saudades.

Monday, June 15, 2009

li noutro sítio e presto homenagem aqui

tenebroso, mas sentido.
"...
porque sim.
porque me inspiras.
porque tens talvez o último bocadinho de oxigénio que ainda posso usar para respirar.
porque sou egoísta
porque és desprendido
porque sou uma canalha
porque és genuíno
porque não te mereço
porque te dás próximo e longe sem olhar para onde
porque sou cobarde
porque tens o coração do tamanho do mundo
porque sou tão finita e pequena
porque retiras de nada a energia para tudo
porque o chão me foge debaixo dos pés
porque olhas para mim
porque eu não sou lúcida nem certa
e, sobretudo, porque arruino o teu mundo
e tu ainda aí estás, como os anjos que velam a morte de quem guardam.
..."

porque é verdade...

é curioso que, como para morrer, também para viver tranquilo seja necessário este coincidente desprendimento.

e a na vida, como na arte, será preciso sofrer tumultos violentos para sermos capazes de levantar os olhos dos pés?
eu, acredito que sim porque não acredito em transições suaves.
só resta a dúvida de, se levantar demasiado depressa os olhos do chão, não os espetarão numa nuvem qualquer, sem olhar para o caminho por onde, quem sabe, deveriam ter passado.


Wednesday, May 20, 2009

só e distante


já não terei concerteza força para me rebelar no espaço que me resta para respirar no fim dos meus dias.

insatisfeito
saudoso e triste pela falta de perspectiva de melhoras.

não interessa sequer em que campo, em que tema ou em que dias, nem com quem.
sei que, quase concerteza, já não vou ser capaz de rasgar a pele à minha volta que me asfixia e não me deixa viver como quereria.
mas, then again, who are we kidding? nunca serei capaz de viver de que forma seja, quer pela espiral de inconstância que me arremessa para mais e mais insatisfação, quer pela desculpa surda de, por ser assim, nunca poderei ser, nem completar, nem viver uma vida diferente.
a acomodação é estúpida, sim, mas a lógica de base é brutal. e vence sempre.

se vaidades tivesse seriam a interacção e o desvendar dos recantos mais guardados de quem gosto. e gosto de muita gente, por isso teria sempre para quem olhar e decifrar o aroma do respirar...

agora não.

agora estou brutal (outra vez esta palavra) e incompreensivelmente incapaz de me ligar e criar aquelas empatias que, mais do que o trabalho em si, me fazem mover.

é verdade
é uma revelação também para mim
e é uma estreia na minha cabeça e nas palavras que me saem das mãos:

a minha satisfação está muito mais próxima de com quem, do que com o quê.
complicado? nem por isso. e, pensando bem, absurdamente banal...
afinal, que vulgar e ordinário me saí... vulgaris de lineu
a coisa, a ideia, pode traduzir num lugar comum, daqueles que odeio tanto quanto consigo: "meu amor, contigo, até pode ser a conversar ou a beber um chá, que vou estar feliz por estar perto de ti"

que estupidez, que lamechisse pegada e nojenta...

mas afinal traduz muito da verdade.

explicando melhor, talvez não me pareça tão mal. através de uma pergunta:
"onde preferes ficar mais tempo? num trabalho onde não te agradem as pessoas e não tenhas bons relacionamentos, mas com um desafio interessante, ou noutro, com um trabalhito medíocre mas satisfeito e declaradamente bem disposto por trabalhar com pessoas de quem gostas?"

claro que poderemos ser advogados do diabo e responder como eu responderia talvez, não tivesse sido eu a parir a coisa: "acomodado da porcaria! vais trabalhar onde o desafio seja interessante e reviras o que for preciso, à tua volta até nos fazeres o favor de ser feliz...". pois é, eu, responderia assim.

mas sabes, já não me sobra o que respirar, no fim dos meus dias, e as pessoas vão ficando para trás.
e até dos olhares e dos sorrisos mais sonsos se fica com saudades que se sentem no corpo e não dão tréguas, no fim de todos os dias. porque durante, vou estando ocupado a consumir o ar, como os grandes toros que ardem magnificamente nas consoadas no adro da igreja, nas aldeias.
se até a estes lhes acaba por faltar o oxigénio para não mais arder, se até a estes se lhes acaba o corpo para queimar, então não sou assim tão diferentes de uma história com o fim no virar de uma qualquer esquina da minha vida.

as árvores morrem de pé? mentira... as minhas árvores morrem desfeitas em cinza depois de estalarem debaixo das chamas e de sentirem rasgar o peito que sempre tinha sido de fogo.

e aí, talvez seja a última vez que me arranco e rasgo a pele para ser outro e viver outra vez.

Friday, April 03, 2009

os dias de sol

As brisas de Primavera podiam vir ter comigo sempre com este azul céu, uns apontamentos branco de nuvens, para compor, e um sorriso de luz com os olhos postos entre as memórias e o calor do desejo calado que nunca parece terminar quando se me perdem os olhos e a imaginação pelos contornos que não consigo ignorar.
Melhor, só se juntarmos um sopro fresco que faça arrepiar... os cabelos de trás da nuca.

Há dias piores, concerteza.

Thursday, March 12, 2009

another one that goes

away.

ouve-se ao longe o definhar da raça à medida que vão partindo os membros da família.
hoje foi a última avó.

nestes dias, o amanhã parece muito mais perto...

Thursday, February 26, 2009

Mais do que uma despedida: O Reconhecimento

Bom dia a todos,

Amanhã será o último dia dos 3 anos (09/Jan/2006) em que trabalhei na C.......
E foram, vos garanto, 3 anos absolutamente inesquecíveis.

Inesquecíveis, pelo desafio fantástico que foi ter recebido a confiança de quem acreditou que eu podia ser a pessoa certa para este lugar.
Obrigado GSP, MR e ACA, por terem acreditado.

Inesquecíveis, pelo ritmo e pela cadência vertiginosa com que íamos pensando e decidindo alterar, melhorar ou apenas manter bem feitas tantas e tantas actividades e processos para tentar encontrar formas de ir tentando ganhar posição competitiva no nosso mercado. E que gratificante que é hoje olhar para trás e ver que fizemos tantas coisas boas e que, de alguma forma, contribuíram também para os nossos sucessos.
Obrigado, por termos conseguido.

3 anos inesquecíveis, pelas pessoas fantásticas com quem trabalhei:

- A incansável e cortês equipa da assistência técnica, onde gosto de pensar que vou deixar colegas e amigos.
Obrigado.

- O rigor da equipa de financeira/contabilidade em quem encontrei a partilha da preocupação pelo correcto e exacto.
Obrigado.

- Enquanto abríamos as reuniões com “Atitude Mental Positiva, Orientada para Soluções e não para Problemas” fomos criando um espírito de corpo fantástico e uma solidariedade de que terei, seguramente, saudades. Não começámos no ponto de entendimento que temos hoje mas, por isso, tem ainda mais valor, este sentir e este estar.
Obrigado a toda a equipa de vendas, à A. e à V., sem esquecer a A. e a G..

- Investimos horas intermináveis na discussão, análise e vontade de melhorar e, posso dizer, sem pudor, que criámos a melhor equipa do mundo, não foi meninas?
Obrigado à A., à S. e à I., à M. e à A. (que já não estão connosco mas também fizeram parte e contribuíram para este sucesso) pela vossa entrega e pela permanente vontade de melhorar.

- Arrancámos horas ao tempo nalguns debates, discordámos, concordámos, e construímos uma equipa de gestão de sucesso absolutamente solidária que, como ele diz, e bem, sobreviveu à rotina dos dias e às dificuldades dos tempos de mudança.
O meu obrigado M.
, pelo respeito, consideração e pela muito boa relação que ficará como uma referência no meu percurso profissional.

Resta-me agradecer também a todas as outras pessoas com quem tive o privilégio de trabalhar, e interagir nas restantes empresas do grupo e áreas da empresa – incluindo a equipa do armazém, que já não está connosco - o facto de sair da C...... e do grupo C......, “apenas” carregado de recordações positivas.

O tempo é de mudança, na certeza porém de que, com base neste “nosso” exemplo (ainda posso dizer assim), tentarei contribuir para criar, onde quer que venha a trabalhar, o mesmo ambiente e espírito que tive o privilégio de partilhar, aqui na C......

Deixo a todos um abraço amigo e os votos sinceros dos maiores sucessos profissionais e pessoais.


Até sempre.

Monday, January 26, 2009

só mesmo gostando muito de uma música

como eu gosto desta, se consegue continuar a ouvi-la depois de ver o vídeo que se segue...
há imagens, idéias, emoções e vidas q devem, talvez, ficar sempre escondidaas no nosso imaginário.

video

Wednesday, November 26, 2008

absolutamente fantástico e imperdível

João Villaret diz

"Cântico Negro" de José Régio

Thursday, October 02, 2008

fénix... ou apenas weird survival



Tenho que me obrigar a ouvir a música certa com risco de perder a capacidade de encher o peito de lágrimas que continuam a recusar-se a escorrer pela porta certa.
Preciso de obrigar o sangue a correr sob pressão para sentir viva a gana de ganhar e conquistar o que quer que seja.


Quando me emudece a vontade sinto apodrecer o viver, aos poucos e, depois, cada vez mais depressa numa espiral louca que me parece sempre demais do que consigo conter. São esses os momentos em que, do resto do ânimo que ainda me povoa as mãos – em mim, são sempre as mão as últimas a cair – que me socorro de um qualquer som que me desperte e me faça reviver. Rápido ou lento mas sempre, inevitavelmente dramático e arrepiante, o ritmo e tom da música que empurro para dentro num estupro da acomodação e da derrota.
Deixa-me ver se consigo explicar: é como se um corpo, ao cair até ao fim do poço, acelerasse nos últimos metros para tentar fazer ricochete no fundo e voltar para cima... tão para cima quanto permitirem os cada vez menos ossos que restam intactos...
.



Tem sido assim o renascer... so far.


carneirada?!... are you?

AS: No one looks at an issue and struggles to take the right position anymore. Yet, our ability to reason is what makes us human.

Lately we seem so willing to forfeit that gift of reason in exchange for the good feeling of belonging to a group that we all just pick the position of our team…

NR: instead of having a mind of your own!

in Boston Legal S2 E25

Wednesday, October 01, 2008

what the fuck is an example?!!!

.
DC: Are you setting a bad example?

AS: We are not setting examples, we are just being true to who we are!
DC: Who are we?

AS: Denny Crane
DC: Alan Shore

AS: Leaders of men!
DC: With bull's eyes on our asses.


in Boston Legal S2 E24

Saturday, September 27, 2008

the real deal...

.

"I just caught Tara laughing with another man..."







"Are you sure they weren't just... kissing?"





"No. They were laughing.

I've just lost the girl."

.

.

in Boston Legal S2E2

E é mesmo assim: tão simples e tão certo, nestes pequenos nadas. Independentemente do ascendente em Marte, ou Vénus.

Thursday, September 25, 2008

estatística de viver


entretive-me entre ontem e hoje - não porque a tarefa fosse longa mas apenas o meu tempo disponível é que era pouco - a fazer uma lista.

uma lista de todas as pessoas que considero que tiveram um grande impacto - não apenas impacto mas, grande impacto - na minha vida.

depois decidi escrever à frente de cada nome o que cada pessoa representou para mim, nesse ponto da vida onde nos cruzámos.
depois achei interessante saber qual o papel que representa hoje, cada uma destas personagens.
e, por fim, não resisti à tentação de escrever porque é que mudaram os que hoje estão, para mim, diferentes de ontem.

os resultados foram absolutamente impressionantes.

os downgrades foram surpreendentes e assustadores. os upgrades foram simpáticos e despertaram um sorriso carregado de boas memórias nos mais variados e inimagináveis âmbitos de interacção humana.
os conflitos que identifiquei foram particularmente amargos, por terem representado perdas significativas de bocados de mim que ficaram para trás, ou para outra direcção qualquer, que não a minha.

por fim, a conclusão ou o pensamento final que tive continuou associado à inconstância e insatisfação característicos do regime vigente no governo deste estado anárquico em que respiro:
-- caramba, como não seria, se tivesse tido arte, tolerância e flexibilidade suficiente para manter hoje ao pé de mim todas aquelas pessoas que foram mesmo muito importantes na minha vida.
há sempre coisas que mantemos e outras que, vistas daqui, faríamos concerteza por alterar.

recomendo o exercício. é uma valentíssima palmada de realidade.
com boas consequências; se a isso estiverem dispostos, pois concerteza.

Wednesday, September 24, 2008

natureza morta

Sinto saudades de um milhão e meio de coisas, o que só me faz pensar que vivi, pelo menos, esse milhão e meio de coisas.
Visto assim, nem parece mau, não fosse a natureza irrequieta e louca que me vai consumindo de angústia e insatisfação permanente.

É tão fácil ser infeliz: basta querer, sistematicamente, o que não se tem.

Wednesday, September 10, 2008

well, well... a fellow citizen of the world

Denny Crane: I don't live for tomorrow. Never saw the fun of it.


(...long silence...)


Alan Shore: Here's... for no tomorrow.


in Boston Legal S1E1

Wednesday, July 30, 2008

rotina

afundam-se no aborrecimento das rotinas que não os desafiam.
ficam mais pobres porque não enriquecem o ser enquanto vai desaparecendo o sabor a sal que guarda as memórias de que não conseguem deixar de ter saudades.

Tuesday, July 08, 2008

esta foi mesmo minha


foi capturada no tempo e ali ficou, imóvel.
talvez por isso...


de noite...

.


não me assalta o sono no espaço que ocupam as horas em que me roubam a atenção as memórias de uma vida que ficará sempre por viver.

Um destino por cumprir, ou apenas a desculpa esfarrapada de viver com esperança, para evitar viver, de todo?

uau...

a lump of coal turns into a diamond

sometimes, it does happen.

Sunday, July 06, 2008

passado revisitado


À medida que se foi desenrolando o tempo fui vendo chegar e partir -tão diferente- tanta gente que mais tarde reencontrei, invariavelmente, em estágios de vida tão diferentes.


Como num porto de passagem, onde parece interminável a lista do que fazer mas existe, invariavelmente, data para partir.

Brisas

lê-se aqui e é formidável (link)



é que há dias mesmo assim. em boa verdade, há vidas povoadas de dias assim, que parecem ser tantos mais quanto menos sobra do tempo que resta.
Tenho visto de perto esta pressa de concretizar e fazer já, antes que os dias terminem e se acabe a validade de um qualquer viver.
Seja para mudar de vida ou para ir desenterrar um santo graal de soluções milagrosas que mudarão, finalmente, o rumo... (já agora, o rumo de quê?)

Sunday, June 08, 2008

a escrita será sempre um exercício solitário

de gente tendencialmente solitária, sem com isto eliminar os que estão carregados de gente à sua volta.

em boa verdade, como se pode interagir com alguém que está separado de nós pela distância infinita das letras?...
se fosse diferente, não me sentiria tão só enquanto escrevo na companha das teclas?
this is the way so, make peace with it.

deixa-me sentir o sorrir e a cor dos olhos que sinto longe de cada vez que cerras as pálpebras; pensei hoje, enquanto ocupava a cabeça com coisa nenhuma.


se a ausências das gentes se assoma por detrás dos olhos fechados, como farão para viver dessa forma entrecortada os que têm saudades de todos os segundos do sorriso que perderam pelo caminho?
podem procurar a vontade e gritar pela ânsia de viver, mas há dias, semanas, meses e até vidas inteiras em que mais não conseguimos fazer que não contemplar a derrocada de toneladas de cimento massiço para cima da alegria de estar e viver. e parece que não pode ser doutra forma; condenados a ser assombrados pelos fantasmas do que já foi e deixou de ser, porque não há olhos para o futuro.

que não haja nenhum mal entendido: não tenho qualquer optimismo ou esperança natural no futuro além do que for arrancado a um qualquer destino déspota e tirano que parece reger, debaixo da foice implacável, a vida dos outros.

quando olho para os pés não vejo nada à minha frente, mas quando levanto os olhar, sinto falta do horizonte que em tempos tive estendido à minha frente à espera de ser inaugurado e percorrido. como um cavalo selvagem, ansiava por ouvir o mais pequeno ruído que pudesse usar como desculpa para desatar a correr pelo tempo afora em direcção ao que tinha posto os olhos, lá mais à frente.

era um tempo onde me corriam as lágrimas nos olhos apenas pelo passar do vento frio que me revigorava o corpo.
era um tempo em que movia montanhas. era um tempo em que tinha garras para cravar no flanco da vida. era um tempo em que não recuava, nem sabia o que queria dizer o cansaço nem o temor de ver decair e desvanecer o império de guerreiros que acreditavam ser invencíveis, como todos os grandes guerreiros habituados a vitórias.

tenho saudades das emoções que me arrebatavam e abanavam as fundações de tão violentas que as sentia. tenho saudades das lágrimas que só consigo arrancar à custa de vapor de álcool. tenho saudades de ver desfilar, e correr, os sucessos e as derrotas como se tudo pudesse ser carregado em costas que nunca fraquejariam. sinto-me cada vez mais longe da parte "fraca" da humanidade que em tempos quis eliminar da minha equação de viver. tempos tolos os de garoto em que não adivinhamos a falta que nos fará mais tarde o querer e ansiar pela doçura de um abraço ou o calor de um beijo terno.

lamechisses, como lhes chamo hoje, a décadas de distância do tempo em que saltava em direcção a um abraço. saíram de mim. abandonei-as no correr do tempo do meu viver e fiquei mais pobre.
não se abandonam os animais, nem os sentimentos, nem as pessoas.

se fomos contemplados com um peito carregado de espaço para encher, porque fazemos o coração matar os habitantes do passado como se fossem proscritos de uma qualquer colónia de leprosos?...

e o tempo que não pára... e regozija, com a satisfação podre de quem sente a distância aumentar à passagem das curvas do caminho e dos quilómetros debaixo dos pés.

não é que haja impossíveis, nem points of no return... o que há são coisas muito dificeis.


Thursday, June 05, 2008

who are you?


É difícil encontrar quem seja completamente imune à presença do mundo à sua volta.
Podem defender a independência de atitude, a equidistância de avaliação ou outra qualquer treta que reflicta afinal o tão orgulhoso claim “faço apenas o que me dá na telha”.

Podia ir por aqui, que dava pano para mangas de um casaco para centopeia. Mas não. Não foi isso que me lembrei, sentado aqui à frente de um quadro azul de que só eu é que gosto.

Apesar de pertencer (claro) à equipa de tolos que embandeiram (do verbo embandeirar, pois concerteza) o orgulho lusitano de ser único e absolutamente imune ao que o rodeia, tenho, como os restantes membros deste gigantesco grupo, comportamentos contraditórios.
Lembrei-me disto porque hoje, pela primeira vez, passados alguns anos de ter criado o blog e instalado o “statcounter”, dei por mim a pensar: estas pessoas, que passam por aqui e lêem estas loucuras, cada uma mais insana que a anterior, como é que aqui vêm parar?
E, nos ainda mais estranhos casos em que isso acontece, porque voltam?...

a propósito de um post

que eu li aqui
as saudades das fotos de família que não tenho...

em vez das fotos de família podes ter uma parede branca carregada de memórias e espaços preenchidos de sentires e imagens que só tu sabes quais são impregnadas de aromas que seriam impossíveis de agarrar e prender numa fotografia.

Tens a vida atrás de ti para te lembrares do milhão e meio de coisas que foram boas, e das menos boas também.

Se acredito no prazer da partilha (pelo menos essas) com quem gostamos, também defendo que o álbum da vida que passámos é, sobretudo para os nossos olhos e restantes sentidos.

E, se te faltar a memória, já sabes: é questão de juntar algumas letras e atirar umas linhas para um qualquer blog que as guarde e te deixe, "mais tarde recordar", como dizia o anúncio.

uma imagem vale por mil palavras?... não concordo.

Monday, June 02, 2008

e depois?...


...o que fazer quando já não conseguimos sustentar a vida e sentimos o fim à nossa espera?



como em 2005, também me apetecem escrever palavras negras, como... lúgubre.

a imagem atravessou-se no meu caminho e concorreu para a classificação de tenebroso e pouco recomendável, a este blogue.

agora, já não há desculpas para sermos indiferentes à riqueza de viver, pois não?

trata-se de decidir ficar ou ir, mas essa merda de indecisão não respeita o sofrer estúpido de tão injusto.

(foto de Kevin Carter)

Thursday, May 29, 2008

autobiografia


Experimenta cansar o corpo.
Experimenta exigir de ti: exige da paciência que foge, exige da tolerância que não tiveres, aproxima-se da insanidade com as decisões loucas que tomas nalguns dias mais fatais, trabalha ao ritmo que só tu sabes que esgota as baterias que já não tens há tantos anos. Anestesia o pensar, o sentir e o agir.
Finalmente, deixa instalar a tristeza no peito já velho de tanto andar e correr pelo tempo fora sem se dirigir a lugar nenhum.
E baixa os olhos para não se ver a cor de morte que te assola a alma, enquantos ouves a música de um qualquer cortejo de pesar.

Quão verdade é o dizer que defende que os olhos espelham o sentir de quase toda a gente. Somos sempre capazes de esboçar um sorriso, de rir, até, em gargalhadas altas, mas não somos capazes de desmentir o denunciar flagrante que se expõe na ausência do “sorrir do olhar”.

Há dias melhores que outros e há aqueles realmente difíceis em que sentes que te alimentas de uma miserável bolha oxigénio sem horizonte que se apresente na esquinas consecutivas do teu viver. Esquinas consecutivas…

Consegue-se viver assim…? Quase sempre. Para uns é injustamente fácil porque têm os olhos postos nos pés e o sentir à frente do nariz. São menos, por isso? Não. São mais, por isso? Também não. Mas é mais fácil. Não arriscam os grandes prémios mas estão também, por isso, defendidos das grandes derrotas.
E tu, jogador compulsivo, passas a vida a apostar consecutiva e, quase, irracionalmente, à procura daquele grande prémio que – como sabem todos os viciados no jogo – está à tua espera já ali. A seguir a mais uma esquina. É só mais uma dose…

São cada vez difíceis de dobrar: as esquinas e as pernas para obrigar a carcaça a andar quando a recusa de mexer é tanto mais sã quanto lógico é o argumento que defende que pares e desistas. De andar para lado nenhum.

E, ainda assim, agarras-te aos pequenos nadas e, se não tens para ti, convences-te que também há vida na missão de oferecer e dar. Mas isso não dura.
E tu é que tinhas razão, amigo Paulo: é para lá de fodido equilibrar a porra do otário do missionário com o peso e a agressividade estúpida e gratuita do tubarão assassino.
É que, no meio, não há vida que resista e, em lado nenhum estás todo.
A ausência do ser que te falta acaba sempre por doer mais que a presença do pouco de ti que tens a teu lado.

E o balanço enlouquece-me.

Friday, May 16, 2008

distante


quando estamos perto de lugar nenhum,
os caminhos parecem todos
muito mais longos.

Thursday, April 10, 2008

da mais alta janela da minha casa

http://purl.pt/1000/1/guardador/indice.html

Da Mais Alta Janela da Minha Casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo

O guardador de rebanhos
Alberto Caeiro
10-05-1914

a propósito de Fernando Pessoa

A propósito de um grande poeta de quem li hoje um poema formidável.

"
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.


Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior, e que é a resposta possível do homem à dureza ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida.

Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890, era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas. É da sua autoria o Ultimatum, publicado no Portugal Futurista, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica aberta. Protótipo do vanguardismo modernista, é o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos.

De entre outros, de menor expressão, destaca-se ainda o semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu Livro do Desassossego, uma lucidez extrema na análise e na capacidade de exploração da alma humana.

Quanto a Fernando Pessoa ortónimo, segue, formalmente, os modelos da poesia tradicional portuguesa, em textos de grande suavidade rítmica e musical. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, reflecte inquietações e estranhezas que questionam os limites da realidade da sua existência e do mundo. O poema Mensagem, exaltação sebastiânica que se cruza com um certo desalento, numa expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, revela uma faceta esotérica e mística do poeta, manifestada também nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo rosa-crucianismo.
"

em
http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Fernando+Pessoa

Tuesday, April 08, 2008

Não compreendo o sentimento


de desprezo pelas pessoas que se suicidam.

Não é nem pior nem melhor do que roubar, à luz da lei que –supostamente- nos rege, mas parece ouriçar os cabelos da nuca a muitos dos que passariam de forma aparentemente despercebida por alguém que roubasse um carro ou uma mala.
O desconhecido, esse adamastor...

A nossa raça tem medo do escuro desde que nasce, apesar de ter passado a gestação toda sem luz. Por alguma razão acham que, depois de baterem as pestanas ao sol ou debaixo de um qualquer fluorescente da sala de partos, passam a poder falar de cadeira de um assunto que só a eles, os que têm luz, diz respeito. Os outros, no escuro, nunca irão perceber aquele segredo de clarividência do viver ao sol.
E, provavelmente, como os iniciados numa qualquer ordem secreta, farão tudo o que os “irmãos mais velhos” lhes recomendem. E agem loucos, sem pensar, a seguirem aquele rebanho que se desloca ao sabor do vento ou de um qualquer tolo mais eloquente.

Como numa "ordem" que se preze, cumprem rituais e sacrifícios idiotas que passam inevitavelmente por enxovalhar um qualquer marginal que não partilha o conhecimento de, afinal, coisíssima nenhuma.
E crescem assim, envenenados pelo comportamento a que foram sociabilizados, sem se aperceberem do que, ou quem, vive à sua volta e padece do pecado mortal de… não ser igual a eles.

Estúpidos
Idiotas

e
Ignorantes

Ser diferente é apenas não ser igual. Não é sequer mais perigoso, mais nefasto ou maligno, ou outra merda qualquer deste calibre. Até pode muito bem ser melhor.

É que, sabem, ser diferente, implica cair para qualquer um dos lados da montanha que ergueram para nos obrigar a partilhar um ridículo planalto onde vivemos apertados e espartilhados no fazer, viver e sentir. E pode-se cair para o lado melhor, ou pior, ou apenas diferente! Porque isto de ser melhor ou pior foi inventado pelos mesmos idiotas que defenderam que todas as coisas teriam que ter um mainstream.

Tenho um respeito muito grande, próximo do temor, pela coragem de quem se suicida. Não pelos idiotas que nunca sabem que cá estiveram, mas pelos que, tendo estado, vivido e, conscientes do que os rodeia, exerceram o livre arbítrio e decidiram partir.

Não, assim não é justo. Se fosse assim tão fácil, muitos mais terminariam o viver.

A questão está na passagem da decisão à acção.

Chamo-lhe coragem e ninguém concorda comigo, porque lhe associam a cobardia de desistir.
Chamo-lhe coragem porque me lembro daquela ordem de iluminados a que pertencemos todos, uns mais que outros, e que nos incutiu o medo do escuro e o pavor do desconhecido mais absoluto que poderemos ter.

A estes guerrilheiros, a minha vénia e respeito.

Capazes de olhar para o nada nem coisa nenhuma, acabam por reunir a coragem para fazer o que a natureza mais contraria. Curiosamente, o próprio Maslow defende que, no primeiro nível da famosa pirâmide está… a sobrevivência.
E, afinal, é contra isto que luta quem decide morrer e ganha a batalha do escolher.

Aos outros que olham com desprezo e julgam os que se mataram, poderia perguntar:
- Quantas vezes quiseste já desistir? E nunca conseguiste!...
- E quantas vezes tu, senhor ou senhora do juízo fácil, te debruçaste sobre o que pode sofrer quem decide, consciente, de forma tão drástica?

Talvez seja melhor não responder, porque poderíamos ceder também…

Bem haja a coragem de não viver acossado pela chegada do morrer.

Sunday, April 06, 2008

Charles Dickens

The past is like a different country;
they do it differently, there.

Saturday, April 05, 2008

actualizei os links

mas não consigo actualizar a disposição e a névoa que me barra a alegria de estar.
solta-se o semblante negro que vai, aos poucos, consumindo o sorrir.


Thursday, April 03, 2008

um destino velho

Houve um tempo em que escrevia debaixo do correr desta hora.

Ontem, como hoje, havia um desatino que não terminava, e a sempre tão presente e certa pena de morte suspensa…


...


Ouve-se perto o ecoar de um mundo que parecia funcionar. Sente-se no ar o som das cordas retesadas que suspendem a vontade que rege os passos mais loucos. Ouve-se o balanço inquieto de um barco amarrado no cais a quem só já fazem companhia as gaivotas indolentes.
Já velho, deixou de lutar contra as amarras que o derrotaram depois de tanto tempo em que ouvia o chamado do mar. Hesitava entre a volúpia de um abismo sem fundo, lá longe no mar mas acabava sempre por se arremessar sem dó de mais uma tábua que se partia contra o cais que sustinha as cordas que não o deixavam partir.
O destino de um barco será sempre a vida no mar, mais do que a vida na água e o destino das coisas foi feito para se cumprir.
Já não me lembro da última vez que o vi, ao largo, confiante e destemido enquanto avançava entre a espuma de um mar que parecia cúmplice do navegar, como um velho amigo que nos conhece os passos e acompanha o caminho ao longo de uma qualquer viagem. Hoje, já ninguém se lembra de o ver no mar.
Distinguia-o o porte e as velas cheias de coragem de viver. Sentia-o seguro por muito que o mar a que chamava seu se fizesse bravo e hostil. Era a natureza que se cumpria e a luta não era mais que um sonho feito verdade desde os dias em que sentiu ao longe o aroma da vida salgada que o esperava.
Conhecem-se-lhe os relatos de viagens fantásticas e de gentes que falam de monstros medonhos com quem lutaram, sem dó de morrer nem medo de matar. Ouvem-se também as histórias de rochas e baixios que o tiveram preso e encalhado e partido e sem força de navegar por não ter casco que o levasse a lado nenhum. Aí, esperava pelo tempo que acabava sempre por aparecer com o que saldar dívidas antigas, carregado de gente que sabia de navegar.
Deixava-se tratar como um animal ferido que sente que o fim fugiu à frente de quem chegou. E aguardava pelo amadurecer das tábuas que seriam suas e fariam dos buracos apenas memórias longínquas e, das praias baixas onde esteve encalhado, fragmentos de um sonho que nunca mais partiria. E o sonho era cada vez maior, porque ninguém partiu das memórias que guardou sozinho.
Quase novo, com alma e ânimo redobrado, ignorava a dor e partia de novo. Se as tábuas rangiam em contacto com o sal do mar que cruzava, sorria por saber que a natureza de um conserto é mesmo assim: menos forte que novo mas suficiente para sair para fora da zona de costa e ir ter com o destino.
E uma, e outra, e outra vez.

Era um porto feito de noite escura e estrelas brilhantes que pareciam mais perto à medida que chegava. Atracou suave e esperou pelo amanhecer.
Mas o sol não veio.
Mas as estrelas eram fortes e a luz do luar parecia durar para sempre, e ficou.
Enquanto as noites passavam foi sentindo crescer os membros novos que se estendiam para lado nenhum. Sem luz de sol não navegaria e que lhe importavam outros consertos que fossem precisos? Só mais uma dor que fingiria não ver e anestesiaria o sentir.

Os grilhões estavam agora presos ao cais e quando, já tarde, sentiu a angústia da falta do mar, já não lhe valeram as forças que teve um dia e que o foram abandonando ao longo das horas intermináveis em que não navegava.

Hoje, carregado de nada e cheio de buracos por onde passeia a água, faz, em cada dia, uma nova investida, cada vez mais fraca, porque não o larga a vontade do mar, como um destino que parece não desistir de o chamar para se cumprir.
Os barcos velhos e podres, esses loucos, anseiam pelo dia em que se soltarão da prisão a que foram votados em terra ou num qualquer cais que os abandonou.
Sonham com o aroma do sal do mar carregado das lágrimas que irão deixar pelo caminho que vão trilhar pela última vez.
Lá longe, mergulhados no mar que já foi seu, baixam os braços cansados e olham ao longe pela última vez enquanto se deixam afundar num abandono à morte escolhida, tão mais digna que o viver sem destino para se cumprir.

Wednesday, April 02, 2008

lost life

e se sentirem que, na vossa vida, foram uma escolha de recurso, uma alternativa longe do ideal, um triste prémio de consolação, como se de uma medalha simbólica pela presença na corrida do viver se tratasse?
e se viverem atolados na falta de garra e vibratto, que não existe no quadro de quem escolheu, porque... foram e serão apenas escolhas feitas em momentos em que já havia mais por onde escolher, enquanto o tempo não parava de escorrer para o chão por entre as mãos, impotentes para o agarrar.
são escolhas de recurso...

então cerrem os punhos e fujam enquanto poderem, senão será certo que se afundam num lodo de comiseração e abandono de onde já ninguém se vem embora.

são os dias que me tendem para zero.

Tuesday, April 01, 2008

ainda a tender para zero

experimenta dividir os teus amigos nos seguintes grupos:
1. quem fala muito mais do que tu
2. quem fala muito menos do que tu

Pensa ainda nos teus amigos, e diz-me:
a) quem te ouve com mais atenção e interesse
b) quem precisará de mais tempo de antena do que lhe dás, para poder partilhar o que quer que seja que lhe é mais caro e, talvez, mais difícil de falar
c) quem procura o teu apoio
d) quem precisa de ti sobretudo para projectar em voz alta as angústias, vitórias, alegrias e tristezas para as quais precisa de solidariedade e partilhar o ónus do esforço e a glória de ganhar.

As conclusões que tirares ficam para ti e serão todas de valor, por teres pensado no assunto.

Seria tolo tentar falar, em geral, de um tema que pode ocupar enciclopédias, por isso não vou pensar em atirar-me para fora de pé, assim, na generalidade. Já na especialidade de algum capítulo deste tema... para mais tarde, talvez.

Em boa verdade, não há aqui nenhum juízo de valor, porque há sempre alguém que fala mais ou menos que tu.
O problema pode existir (mas não é obrigatório) se alguém falar muito mais ou muito menos que tu.
É que, se o fiel da balança das relações de amizade estiver muito inclinado para um dos lados, em vez de win/win, como deveriam ser as boas relações, temos win/neutral, em que há um que beneficia e o outro... não.
Quanto à 2ª parte do que te pedi, proponho que penses se consegues cumprir os papéis a), b), c) e d), em relação às pessoas que te são próximas.
- Consegues ouvir com atenção e interesse, sem desviar para ti a conversa até que se esgote o tema da outra pessoa? Quando alguém começa a conversar sobre um tema seu, gosta de acabar. Se o/a deixarem...
- Deixas espaço para brilharem mais estrelas no teu firmamento? E alimentas-lhes a luz?
- Ofereces-lhes as tuas ideias sobre o que te falam, sem roubar o papel de protagonista, para que sintam um conselho e não um exemplo que alguém te parece forçar a seguir, como o único caminho para alcançar a luz?
- E ainda, tens paciência para calar a tua voz nos momentos em que alguém precisa apenas de soltar o que tem dentro?

Falta o final, tem paciência.

Para uma aproximação ao equilíbrio entre as pessoas, nas relações, sejam elas quais forem; conta-me, também em relação aos que te são próximos:

- falas-lhes de ti? Do bom, mau, alegre e triste?
- tens a quem "sequestrar" para desabafar aquela terrível angústia ou estrondosa vitória, sem sofrer julgamentos, e pena com juíz e carrasco preparados para a execução?
- procuras alguém para debater temas mais difíceis e ouvir opiniões que respeites?
- tens quem esteja do teu lado mesmo depois de saber que cometeste o pior dos crimes e que, ainda assim, lutará contigo contra o mundo?

Não se podem tirar grandes conclusões. Pelo menos daquelas que se aplicam a qualquer um.
Mas podes tentar decidir se quem tens à tua volta te preenche e se deixa preencher por ti, de forma equilibrada, como deve ser a de grandes amigos.

Aqueles que achares que sim, agarra-os com mais força do que aquela que geralmente achas que tens.
Aos outros, que aches que podem chegar onde já estão os anteriores, dedica-lhes mais tempo do que imaginares que é possível.
E aos outros,...
Poupa a energia que desperdiçarias nesses, para aplicar em quem merece fazer parte da tua vida. Poderás um dia oferecer-lhes, e receber, en passant, um abraço rápido acompanhado de um sorriso simpático.
Passamos muito tempo a investir em projectos perdidos.

E o nosso tempo, como a nossa energia, afinal, tende para zero.
E um dia, definha de vez.

Thursday, March 27, 2008

hoje à noite



Primeiro: um filme fora de série: "The bucket list" com Jack Nicholson+Morgan Freeman





Depois: um concerto (em vídeo) que adorei: "Caught in the act" Michael Buble.

Uau..

Tuesday, March 25, 2008

no limite, danados?...

curiosamente, já depois de escrever o post anterior, reencontrei há dias o professor que me ensinou os limites da matemática.
ontem lembrei-me que, ao contrário da ideia romântica de "tender para o infinito", tendemos mesmo é para zero, numa progressão decrescente mais ou menos acentuada consoante as variáveis de viver que lhe acrescentarmos.

Vejamos o que faz o tempo, uma condição de evolução dos limites:

- não há amores para sempre - "they inevitably fade away with time”. A invenção de Hollywood do “I love for ever” só ainda pega em almas desavisadas e carregadas de ingenuidade
- não há ânimo que dure para sempre; apesar da maior ou menor frequência de episódios de renascimento que possam existir
- desaparece o querer
- esmorece a paixão
- esfuma-se a energia
- vai-se finando a própria vida

Os gregos, habitualmente sábios, traduziram bem este conceito na lenda das Danaides. Seremos nós também condenados apenas a, para sempre, tentar encher uma jarra crivada de buracos?
É que, por muito que empenhemos a nossa -limitada- capacidade, o melhor que conseguiremos é tentar evitar que se esvazie, porque sabemos à partida que não conseguiremos estabilizar o nível da água em nenhum ponto.
Será todo o esforço inglório por tender para zero? Uma metáfora para o viver?


Danados são os condenados ao inferno vivo, ou morto, de um tormento que só não tende para o infinito, por tender para zero a capacidade de sofrimento do castigado.
Agora, talvez se perceba melhor porquê.

Tuesday, February 26, 2008

o zero

dei por mim a pensar como está sobrevalorizado o conceito de infinito face ao zero.


o tema é estranho? ainda agora arrancámos...

parece fácil, perceber a diferença de mística entre os dois conceitos: enquanto que o zero é fácil de explicar - basta dizer que, à tua frente não está nenhum comboio ou uma fruta qualquer para servir de exemplo - já para perceber o infinito implica abstrair ao ponto de pensar que algo não vai acabar.
Curiosamente, o infinito, apesar de ser em erro, é o registo em que vivemos mais tempo da nossa vida.
Ninguém pensa que a sua vida vai acabar, ninguém coloca na balança do dia a dia a possibilidade de ficar sem o/a companheiro ou pai ou mãe ou outro qualquer grande amigo que, afinal de contas, pensamos que estará ali para sempre. Para sempre = infinito.
Os outros exemplos mais fáceis de explicar o registo "infinito" em que vivemos encontramo-los em todas as pessoas que, quando agem, não têm ideia das consequências do que fazem. Pelo menos não frequentemente.
Não vale a pena corrigir; Não vale a pena desculpar; Não vale a pena construir; Não vale a pena fazer agora -- teremos sempre tempo mais tarde, não é?
NÃO.
Perturbador? Pois é.
Vivemos enganados pelo infinito e fazemo-lo mais rasteiro e comezinho do que deveria.
Em boa verdade, se compreendêssemos bem o finito e, em extremo, o zero, viveríamos bem mais preocupados e angustiados com o fazemos com os minutos dos dias que alguém nos ofereceu, PORQUE SÃO CONTADOS! Porque não duram para sempre. Porque se esgotam assim que os consumimos e tantas, tantas vezes nos levam a pontos sem retorno, sem que nos tivéssemos apercebido de que o abismo dos actos estava ali tão perto.

O zero é um conceito, bem mais angustiante que o infinito. Porque nos obriga a abandonar a injecção da droga de viver alheado e o respirar sem pensar porquê, para nos obrigar a enfiar o focinho no chão e ver que a porra desse chão vai acabar ali à frente.

Se percebessemos o sacana do zero associado ao finito dos dias, dos actos e até do pensar e do escrever, será que não seríamos mais gratos pelos momentos de tempo que temos e deixamos passar impunes e menores de importância?
Será que se poderia ensinar às crianças esta história do horror de viver:
- Bebé, criança, adolescente, ou adulto tolo, sabes, viver é assim uma espécie de revólver de 6 tiros. E sabes, como o revólver, só tens 6 tiros. Usa-os bem e pensa antes de os desperdiçares, porque depois não há mais. E não há mais, é mesmo assim. Não brincas mais ao viver.
E aqui a coisa complica.
Não?
Sim.

O extremo da angústia do zero é o depois.


??


Pois.

Há-de haver um dia que se faz zero. Há-de haver um dia em que o finito termina. Em que não há mais.

E depois?

Já imaginaram viver sem falar? Não parece fácil, porque gostamos e sentiríamos falta.
Já imaginaram viver sem poder pensar?
Já imaginaram viver sem se poder mexer?

Porra e, já agora, já imaginaram juntar tudo isto e... não poder viver?
Nem sequer para escrever ou sentir os aromas, as cores, os sons e o sangue a correr-nos pelas veias das emoções... ou a companhia de quem gostamos ou o partilhar da vida daqueles a quem demos o viver.

Sim, essas coisas todas que gostas de fazer e que poderias ficar dias seguidos a enumerar vão, um dia, acabar. Mais, vais ficar sem elas e, mais ainda, vais ficar sem ti.
Ainda não? Tens filhos? Então experimenta pensar que, amanhã, alguém vai "zerar" o contador de viver da tua criança...

Dificilmente isto será pensamento de gente sã. Aceito. But then again... a vida é feita de trade-offs e há, definitivamente, um preço para tudo.

O zero da nossa vida está ao virar de qualquer esquina e faz parte de ser estúpida e fatalmente finito. E a responsabilidade que vem agarrada a este sentir obriga, em consciência, a sugar o tutano de viver e ouvir, sentir e fazer melhor de cada vez que exercermos o direito, não, o dever, de bem viver.

Se soubesses que irias morrer amanhã, não viverias de forma diferente os minutos que faltavam? Então de que esperas? É que, sabes, o amanhã é já a seguir.

Percebo agora, que não se podem ensinar assim as crianças a perceber o zero, porque queremos que cresçam.

No entanto, suspeito que, se muitos adultos houvesse que gastassem neste pensar algumas horas do viver...

Ou morriam. Ou passavam a viver.

Por aqui,... vou viver até morrer.

Thursday, January 03, 2008

Não gosto de sentir que não é meu o melhor dos dias que vivo


Não gosto de serviço de louça para visitas
Não gosto de faqueiro para ocasiões especiais
Não gosto de roupa especial para mostrar aos outros
Odeio a escravidão da vaidade de ostentação.

Adoro utilizar o que há de melhor, ao meu alcance, todos os dias; porque assim, os meus dias não têm como não ser todos especiais.
Adoro comer na mesa com as mesmas condições que ofereceria à visita mais distinta, porque não imagino uma única razão pela qual as visitas devem ter melhor tratamento que eu próprio.
Gosto de ideia de jantar em casa com a mesma roupa que vestiria para um evento qualquer onde as outras pessoas usam a melhor roupa que têm.

Atente-se que não sou a favor da bela pantufa e de um dia de preguiça no sofá. Um dia. Ou outro. Não uma vida.

Onde é que perdemos a capacidade de atirar o melhor de nós a todos os minutos dos dias que cruzamos?
É que os dias comuns, os da rotina, só são medíocres porque os alimentamos assim.

Se não é para mim não deveria ser para mais ninguém.
Parece egoísmo? Talvez não.

O que se faz não deve ser determinado em primeiro lugar pelo carácter de quem age? Ou pelo bem que parece?

Então porque fazemos a festa e montamos o palco para quem vem se não tratamos assim quem está?
Corremos o risco de não ser mais que falsas marionetas de um efémero espectáculo de viver que se estalará como o mais reles verniz, ao primeiro toque de uma qualquer adversidade.

O arquétipo (eu sei que é abuso, mas desculpa lá ó Jung) de varrer para debaixo do tapete poderia perfeitamente ter uma tradução parecida com esta.

Sunday, December 09, 2007

maybe a daylight away of any of you



"Dementia crawls down on you unnoticed and it always takes long to acknowledge it's there. The tougher you have built on the outside, the easiest it is for it to melt the inside away."

someone must have written so obvious statement...

Saturday, November 17, 2007

gente perdida de mim


Reencontrei há dias gente amiga de quem me tinha afastado há já muito tempo. Mais até do que pensava. Tempo demais.
Viajava de carro e falava sobre outras coisas quando me fui apercebendo da falta que me fazia aquela outra gente de quem me fui afastando.

Relembrei-me e destroquei uma conversa simpática com aquele mais presente em tempos mais idos. Ainda hoje tem um semblante triste e melancólico e vive assolado por sentimentos tumultuosos e emoções que lhe continuam a castigar o corpo por quererem viver no limite. Conversámos sobretudo das saudades dos nossos encontros imperturbáveis e alheios ao mundo como alheio fui ficando à conversa que se ia desenrolando atrás e ao lado.

Da memória, visitou-me também aquele mais atrevido e assanhado até, que tanto prazer me dava quando tomava para si a pena e os anões. Perguntei-lhe pela vida e conta-me que teve saudades também. Saudades de me dar asas e colocar nos olhos as cores fortes e os aromas carregados que me atiravam até muito mais além do que eu faria sozinho. Contou-me que a vida sem ele não era a mesma coisa e pediu-me para não o mandar embora de novo. Viver sem ele seria mais triste, seria como viver quase só com o primeiro. E isso não era bom.
Ouvi, comovido pela falta que me assaltava, a ausência daquela parte de mim.

Assomou-se também o mais ausente. E chegou zangado. Ao contrário do seu espírito normalmente positivo e bem disposto, vinha danado. Danado porque quando há muito tempo tinha concordado em ser o menos presente, não lhe tinha passado pela cabeça ser tão esquecido, tão pouco lembrado e nada acarinhado como nos últimos meses da vida dele e da minha também. Parecia até o último, de tanto que resmungava e se irava, crítico de mim. Não o pude apaziguar, porque também eu, só podia concordar.
Falámos de quando nos poderíamos voltar a ver e prometi-lhe um sorriso para breve. Prometi-lhe um arco-íris sobre a minha vida para o deixar menos só. Mas não sei se vou conseguir cumprir a promessa tão cedo. E foi-se embora com a dúvida legítima de que passaria algum tempo antes de nos voltarmos a ver.

Não nos podemos afastar demais da nossa loucura. Fico pior…

Monday, October 08, 2007

Yangon de hoje - em Myanmar

Desde que escrevi o post anterior que o meu destino de viagem tem sido badalado nas notícias pelas piores razões possíveis.
Não confesso a ninguém mas sinto o peito apertado de uma vontade louca de largar a correr de volta para colocar os braços à volta das crianças novas e mais velhas que me sorriram em Myanmar.
Como é fácil ver à distância o destino triste de um qualquer povo que não se conhece e como difícil se torna ver cair e ser violada uma forma de viver que se pauta pela suavidade e harmonia com os outros seres humanos, de que eu fiz parte.
Que fácil foi concerteza para a junta militar de Myanmar, há já algumas dezenas de anos, ter conseguido subjugar e dominar um povo que se preocupa mais com a sobrevivência do que com qualquer outro excesso e supérfluo luxo como o regime democrático do seu país.
É bonito dizer dizer “liberdade ou morte”, desde que a morte não seja à fome.

Mas até os mansos têm limites. As convicções que fizeram com que este povo se mantivesse ordeiro, sereno e pacato assentam na religião que praticam e no respeito pelos outros, sobretudo pelos monges e pelos mosteiros para onde enviam as crianças para aprender cultura e preceitos de humanidade, como me dizia um homem com quem falei. “Ali – dizia-me – os jovens aprendem a ler, a escrever, a matemática, as ciências, a palavra de Buda e, mais importante, aprendem que o respeito pelos outros deve ser uma prioridade absoluta.”
O conceito arrepia, de tanta falta que faz ao presente em que vivemos. Se o tivéssemos, seria como abrir uma grande barragem no Nilo para deixar alagar os campos que depois de carregados de fertilizantes naturais produziriam as melhores colheitas de gente.
Os militares de Myanmar terão criado um problema que só conseguirão resolver à custa de muito sangue e vítimas inocentes. Estes monges, apolíticos por natureza, reúnem a simpatia e carinho do povo que viu serem devastados os mosteiros onde aprendem as crianças.
Esta treta pode dar merda.

E muitas crianças podem ficar sem ter onde aprender a sorrir para os outros.

Thursday, September 06, 2007

ainda hoje consigo ver o rosto das crianças felizes

Fui de férias e deixei o meu blog sozinho.
É verdade.
Mas fui sem remorsos sabendo que, na volta, teria histórias giras para lhe contar que compensariam parte do abandono. E as expectativas não saíram goradas. As minhas, digo, porque as do blog abandonado… a ver vamos se gosta do que trago para lhe contar.

Há muitos anos que alimentava o sonho de poder viajar para um sítio que fosse suficientemente longe para eu me sentir novo, criança e aprendiz.
Não que não seja também aprendiz, ainda, no meu país. Mas já não sou inocente e despojado de intenções. A ingenuidade de quem não sabe, nem tenta adivinhar, como se vai desenrolar o filme da vida, perde-se cedo e, por esta altura, já não volta.
Não me interpretem mal, ainda há que não tente adivinhar o curso da vida. Mas as causas são outras: abandono, falta de vontade, desânimo ou até a opção consciente de que as alternativas e as ramificações das decisões dão tantas dores de cabeça que a opção avestruz acaba por ser eleita como a mais confortável e a menos penosa. Mas isto era outra conversa com sabor a deja vu já salpicado por outros posts aqui da chafarica.
Voltando atrás para não me perder.
Quando os anos passam perde-se e, para alguns, sente-se a falta, da ingenuidade do olhar das crianças que deixa ver despidas de preconceitos, as gentes.
O mesmo olhar que deixa ver sem cansaço ou preocupação, os sítios novos; para a gente pequena, uma boa novidade raramente é perturbada por um qualquer problema metafísico da vida.
É ainda o mesmo olhar que permite ver e receber as acções das pessoas sem lhes tentar adivinhar intenções nem sujar com supostas malícias ou cabalas que os adultos sonham que se constroem à sua volta em regime permanente.

Para poder olhar assim para o mundo tinha que ir para longe o suficiente e para perto de um povo com costumes bem diferentes dos nossos. E assim fiz. Foi um sonho antigo tornado realidade quando embarquei numa viagem de mais de 20 horas até aterrar em Yangon (ou Rangoon à inglesa). Daqui até Myanmar (ou a antiga Birmânia) foram duas escalas, três aviões, pr’á’í 6 filmes, muitas refeições de plástico e poucos momentos de sono. À chegada, a diferença horária era de +6h30m, eram perto 7 da manhã locais e a inevitabilidade de um jornada de 48 horas seguidas fazia-me pensar que já não tinha 20 anos e que havia de pagar o preço disto mais tarde ou mais cedo.
O bafo quente já se tinha feito sentir em Doha no Qatar, na última escala, onde habita uma autêntica Babilónia que inclui executivos ocidentais, malta de mochila em trânsito de ou para a Ásia/Médio Oriente e árabes que lavaram os pés no lavatório ao lado do meu, onde eu estava a lavar a cara.
Mas em Yangon estava mais fresco. Abafado, sim. Mas menos quente.
O guia marcou encontro para daí a duas horas começar a descoberta de um mundo novo e entretanto atirei-me a uma sesta que me iria deixar mais bêbado ao acordar do que ao adormecer.
Mas isso segue daqui a pouco.
Contarei o resto ao jeito de crónicas, senão teria que estender aqui um lençol de palavras e letras que mataria de cansaço o mais resistente.
Apenas posso dizer que se tem vontade de ficar mais tempo e mudar de vida. Não é por acaso que o budismo tem um efeito e charme tão poderoso sobre quem se cruza com esta forma de viver.

Monday, August 13, 2007

pequeno tributo



Acordar devagar. Ainda as memórias ou sobretudo hoje.
Espreitadela para rua pela frincha da janela para confirmar que o tempo não defraudou os planos de ontem nem as expectativas. É que o dia acabou de chegar mas é esperado desde ontem.
O banho é um salto que podia ser de uma gata a começar a esticar as unhas e a ensaiar os movimentos para cá e para lá. Em casa vêem-se os cenários de um ensaio geral que as prepara para o teatro da vida desse dia.
Escolheram bem (ou não, e aí a coisa complica, mas isso, fica para outro dia) e sentem o prazer do deslizar de um vestido pela pele de seda. Ajeitam, completam e acessorizam, se bem que não se deviam chamar acessórios de tão importantes que são. Monet não deixou de pintar ao fundo a ponte por cima dos nenúfares. Não seria o mesmo quadro que hoje adoramos ver.
Se o cabelo está bem, está metade ganho, e não há como sentir a altura extra daqueles saltos para fazer subir o ego e a autoconfiança que aquelas pequenas tiras de couro entrançado fazem sentir.
De frente, de lado, e de costas. Não há como uma espreitadela mais ou menos rápida para confirmar o ângulos todos de que sabem que vão ser apreciadas. O espelho é cúmplice desse flirt passivo (ou não) inconfessado.
Sabem o que querem provocar e vão preparadas para isso. Raramente estão isentas de intenção, sejam elas quais forem. Nasceram para conquistar sem ser pela força e aperfeiçoaram-se tão bem que até dá gosto… e mais…

Imagino muitas vezes o criador a pensar, a pensar e a ter uma daquelas epifanias onde conclui: “Já sei! Vou criar uma coisa no início do dia, chamada manhã e, nessa altura, as mulheres saírão de casa e vão conquistar o mundo enquanto o preenchem de charme e sensualidade.”
Só me resta dizer:
“E que bem lembrado sr. Criador. Que bem lembrado.“

Pesar



Deixem-no secar ao sol
Debaixo de uma pedra pesada
Onde as cobras fizeram os ninhos
Esquecidos pelo passado.

Façam cair a noite
E envolvam-no no ruído ensurdecedor
Que faz o silêncio à sua volta

Amarrem-lhe os braços
E arranquem-lhe as pontas dos dedos
Que usa para sentir e escrever

Levem para longe os sonhos
E encharquem-no de drogas
Capazes de fazer esquecer e substituir

Larguem-no no meio da multidão
Que corre apressada para sobreviver
E preencher de sobrevivência
Os dias vazios de tudo o resto

Substituam-me as partes que sentem e pensam mas não me submetam à vulgaridade de não preencher.
Arranquem-me o que quer que tenha de meu mas não me deixem à deriva nos pântanos pastosos do vazio dos desafios e do não querer chegar a lado nenhum.
Ofereçam-me a droga de que tenho tanto medo porque não quero mais sentir a ausência dos estímulos.
Não consigo aguentar não transpirar pelo olhar o desejo que sinto pelas pessoas e pelas ideias.
Deixem-me secar ao sol mas não me submetam à aridez de não ter água para beber.
Aticem-me como às feras para combates onde me exceda e morra de cada vez.

Sempre mais. Demais. Em excesso.

Percebo-os bem quando diziam querer morrer a lutar numa batalha onde elevassem o espírito guerreiro. Não queriam mais que cumprir a vocação com que nasceram ou que criaram e fizeram crescer. Preparavam-se e sentiam orgulho na perspectiva de morrer em excesso e em êxtase.
Trilhavam caminhos.
Tinham um propósito.
Sentiam a missão de viver a correr nas veias e viviam preenchidos pelo ponto de que não desviavam os olhos e onde sabiam que queriam chegar.

E quando morriam, morriam vivos. E completos, sem pena de partir.
Se eu viver, que não viva morto.

Monday, August 06, 2007

não vale a pena

insistir em falar quando nos ouvem as palavras como falsas e os propósitos como excusos.

não vale a pena
sustentar o erro de acreditar, de cada vez, que afinal foi só um arremedo de um qualquer sentir esquisito que fez alguém correr atrás da própria sombra.

há pessoas assim, que se cruzam connosco. pessoas que não têm descanso nem paz porque os seus dias são povoados de suspeitas de conspirações e conluios maquiavélicos com maior ou menor premonição, mas sempre no propósito fixo e determinado de os prejudicar.

estas pessoas citarão com frequência sabedorias populares ancestrais como:
"a mim não me fazem o ninho atrás da orelha", "a mim não me apanham" ou a melhor "a mim não me comem por parvo".
é doloroso ver a insegurança levada a extremos que fazem assemelhar este comportamento à chico-espertice, quando afinal não é mais do que uma quase inaptidão para desenvolver uma sã convivência com os outros seres humanos.
perseguidos pelo sistema, pelos outros, pela má sorte, estão sempre em alerta excessivo e desmesurado, que os alheia do mundo e das coisas boas.

não os fazem de parvos, mas também não lhes fazem mais nada porque estão destinados a ser sós ou a partilhar a teoria da conspiração com um outro correlegionário com e de quem, invariavelmente, suspeitarão mutuamente até à exaustão.

conhecem alguém neste caminho?
então saiam da frente para não serem esmagados pelos trilhos de quem carrega as certezas sem volta.