quarta-feira, março 23, 2011

Uma música velha

~Je t'aime moi non plus~



Je t'aime, je t'aime
oh, oui je t'aime!
moi non plus
oh, mon amour...
comme la vague irrésolu
je vais, je vais et je viens
entre tes reins
je vais et je viens
entre tes reins
et je me retiens

je t'aime, je t'aime
oh, oui je t'aime!
moi non plus
oh mon amour...
tu es la vague, moi l'île nue
tu va, tu va et tu viens
entre mes reins
tu vas et tu viens
entre mes reins
et je te rejoins

je t'aime, je t'aime
oh, oui je t'aime!
moi non plus
oh, mon amour...
comme la vague irrésolu
je vais, je vais et je viens
entre tes reins
je vais et je viens
entre tes reins
et je me retiens

tu va, tu va et tu viens
entre mes reins
tu vas et tu viens
entre mes reins
et je te rejoins

je t'aime, je t'aime
oh, oui je t'aime!
moi non plus
oh mon amour...
l'amour physique est sans issue
je vais, je vais et je viens
entre tes reins
je vais et je viens
et je me retiens
Non! Maintenant viens!

terça-feira, março 15, 2011

ela chamou-lhe outra coisa. posso chamar-te saudades?


já estava escrito, melhor do q eu faria, por isso deixo aqui o tributo:

"
Estranho isto de o meu céu hoje ter dois luares.

Um que controla as marés que se agitam nos meus olhos.
Para não as deixar submergir na praia deserta dos meus lábios.

O outro?
Esse não sabe o que faz.

Cega-me à queima-roupa... e deixa-me sozinha com o meu vício.
Este.
De te querer.
Ainda.
Apesar de tudo.
"

encontra-se aqui "Moonlight Shadow" em "As conversas q não tivémos"

e percebo.
pq sim.
__

sofrido,
ainda...

confuso e inquieto
pelo prazer q me desperta
e pelo sorriso (tb) de dor,
q me deixa nos lábios
o ferro da tua memória.


quarta-feira, março 09, 2011

justiça divina

 não acredito. 
de todo.

em resumo, porque acho que é um conceito a que nos agarramos, enquanto seres educados numa socialização de castigo/recompensa, e que, por termos uma consciência, pelo menos natural, precisamos de sentir uma qualquer punição pelo que achamos que não deveríamos ter feito.
no oriente chamam-lhe karma, mas não deixa de ser uma crença de quem não coloca em cima da mesa o livre arbítrio. 

o que fazemos a cada momento, é decidido por nós e tem consequências imediatas. imediatas no sentido em podem ser temporalmente próximas, mas sobretudo porque são sempre (têm que ser) directamente relacionadas com as nossas acções originais.

não acredito num ciclo de energia positiva e negativa com créditos e débitos contabilísticos que, mais tarde farão ricochete na nossa vida. 

acredito que serão provavelmente os remorsos (esse animal peludo que é a "culpa" do acto -dito- errado) que nos fazem mais tarde auto-punir e que descarregamos ou associamos a outro tema não relacionado, apenas porque o original, que despoletou o processo, já está lá longe e estes, estão aqui mais à mão. Nesse momento, vem ao de cima a consciência do errado, que lá conseguimos, com sucesso, reprimir desde o momento em que agimos até ao momento em que sentimos a tal "justiça divina"

eu acredito que a consciência das nossas acções é p ser tomada (tipo medicamento) de imediato, sem a afogar no esquecimento, nem a esconder no silêncio de palavras que não se dizem. 
é que o resultado -mortalmente radioactivo, de tão tóxico que pode ser- acaba sempre por se manifestar, tal como numa panela de pressão, em que, mais tarde ou mais cedo o vapor acaba por ter que sair e vai queimar, o que lhe estiver à volta - tantas vezes inocente - gerando injustiças de viver: 
- descarregamos sobre quem não devemos
- criamos relações de causalidade com temas ou pessoas q não têm qualquer relação com o "pecado original" prejudicando, quem sabe, futuros e gentes q não mereciam.

justiça divina / karma? 
não acredito.

e entrego a culpa à repressão que aprendemos todos a fazer de nós próprios a coberto da necessidade de ser:
- forte
- corajoso/a
- ou apenas, supostamente imune aos outros e, pior, ao próprio.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

sons ao ouvido



há músicas absolutamente loucas
de tão furiosas que nos assaltam
e tão dependentes que nos deixam

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

OUTRO TEMPO

Nem parece ter sido há tanto tempo de tão recente que sinto…
Era também uma tarde fria e um dia triste acompanhado de música que fazia esquecer o tempo que não me apetecia viver, apenas porque me distraia e levantava os sentires mais alto que a tristeza que teimava em espelhar-se-me nos olhos atrás de sonhos que chegavam varridos pelo vento frio.


O sangue corria mais quente que o gelo que fazia no mundo e deixava adivinhar um peito louco com a memória do toque que teimava em fazer-se presente.
Aquela doce e leda madrugada, como dizia o poeta…
E o tempo que não parava de correr enquanto os meus olhos teimavam em olhar para baixo, para agora, com medo de ver ou adivinhar um futuro, que na humanidade, inclui praticamente sempre sofrimento. O próprio, tão mais fácil de levar e digerir pelo tão pouco que merecemos, em sede própria, mas havia também o alheio que se arrasta pela vida atrás de nós com os grilhões presos e sem espaço para, na mesma canela, ir amassando a carne, e desfazendo os ossos que teimaram em manter-se vivos depois dos dias duros de inverno.


Perguntavam-me um dia: e a humanidade, MAC, terá futuro? respondi-lhes com a mesma certeza que me acompanhou nos dias bons e maus – e se houve maus, mas, meu Deus, como houve bons, tão bons também – “não sei, será como Deus quiser”
De onde veio a veia religiosa, perguntaram-me e só pude responder que a culpa era dos anos. E do tempo e do espaço que correu pela minha vida enquanto me ia sentindo mais impotente para travar a descida ou fazer força, sequer, nas subidas em que me atrevi a caminhar.
Seja o que o futuro quiser. E olhei para os pés com medo de levantar os olhos e perder de vista os grilhões naquele sentimento estúpido de que não mereço mais do o que fui semeando no correr dos dias.


Lembro-me do som dos lábios enquanto deslizavam suaves a adivinhar o meu toque e a pele que reagia debaixo dos meus dedos enquanto sentia o quão pesado e descompassada estava a respiração que lhe aquecia o pescoço.
Este era o tempo dos olhos verdes como peixes, limpo e claro como só a arte sabe fazer quando imita algumas vidas. Este era o tempo que deixava rasto no ar pela cor dos teus aromas que não me largavam os lábios.
Esta podia também ser a história de qualquer alma que tivesse estado apaixonada e ridícula como o são todas as cartas de amor, como dizia outra Pessoa.

terça-feira, setembro 07, 2010

viajar é já ali ao lado - com aspas, se faz favor, para se perceber bem

disseram-me e depois explicaram-me, porque sentiram que seria necessário, pois concerteza.

«Não há felicidade para aquele que não viaja. Assim ouvimos dizer. Ao viver na sociedade dos homens, o melhor homem torna-se pecador. Vagueai, pois!... A sorte daquele que está sentado, senta-se; ergue-se quando ele se ergue; dorme quando ele dorme; move-se quando ele se move. Vagueai, pois!»

...estará escrito no livro «Onde os Rios têm Marés. Viagem pelo Norte do Paquistão e Estrada do Karakorum.» de Ana Isabel Mineiro.

fosse alguém feliz, se a capacidade que levanta as asas do pensar e do sentir, apesar do peso dos grilhões reais, fosse suficiente, se este viajar sem destino e sem roupa certa para ver, ouvir e cheirar o mundo, debaixo dos olhos de quem não olha para quem passa já ali ao lado, fosse a condição para se ser feliz.

é doce o pensamento mas ingénuo ou incompleto como tantos pensamentos doces.

que façamos nós quando mais ninguém, que se elevem os olhos onde não chegam, hoje, os braços. está certo e gosto muito.

mas, se as viagens que se fazem não são mais que a pequena ponta desse iceberg imenso que se traz preso dentro... dentro do que se lhe queira chamar a esta casca finita e suficiente que nos amarra aos dias.

nestas viagens em que se revisitam os lugares - pois não estive já cá antes?!... - relembram-se e confirmam ou desmentem-se os sorrisos e aromas com que povoamos o olhar, tantos anos antes de chegar sequer a pensar em ir. são velhos amigos com surpresas novas, com quem nos cruzamos lá longe, na terra deles.

talvez seja uma defesa do destino esta impossibilidade de viajar com a mesma frequência e velocidade com que os loucos levantam os pés do chão durante os dias e noites em que não dormem. 

Evita-se assim a sobrecarga de um qualquer sistema que não estivesse preparado para sonhar acordado, tantos anos seguidos.

não as trocava, as visitas que faço com o corpo, pelas que fiz antes, olhos fechados.

e são mais ricas e doces, por terem sido precedidas pelas outras.

mas não é, per si, um tempo feliz, o que se passa a "viajar"; apenas distante e salpicado pelos estilhaços do olhar que se parte de encontro às grades...

terça-feira, agosto 17, 2010

9 Agosto - decay


A decadência do corpo reflecte ou avisa-nos, de forma tragicamente premonitória, do decair da própria alma?


Se pensarmos que deixamos escorregar, lentamente, algum do brio, a coberto da inevitabilidade do percurso do tempo, então seremos culpados de incúria ou homicídio negligente de uma parte do ser.

Começa, a partir daí, o saque, e assalto voraz das tenazes do desleixo.

Dramático? Não, só consciente.


Se de um reflexo se tratar, que emerja também o alerta de alarme que marca o fim dessa época efémera de despreocupação em que tantas coisas foram fáceis sem precisarem de cuidado. Quando olharam para os últimos anos com mais atenção, puderam descortinar, entre o brilho ofuscante de tantas conquistas, os primeiros sinais de uma descida, que começou por não ser mais do que um declive singelo e sem importância, até se tornar, no passado mais próximo, num galopar sonoro de sinais, marcas e cicatrizes da refega do corpo com a passagem do tempo.

Que as podemos receber com o ânimo de quem recebe velhos amigos, dizem-me. Mas que não precisamos de nos sujeitar à violência de velhos conhecidos que nos maltratam, respondo.

Enquanto prenúncio, que se levantem, à uma, os soldados e archeiros na defesa do forte; pois que se de reflexos se tratam, que se chamem de volta e reforcem os obreiros de paredes e fundações que permitam receber com estabilidade, em vez de ruína, esse velho a que os antigos chamaram tempo.

É verdade que não se pode insistir na destreza e agilidade que não voltará, concerteza, mas também não se pode deixar vencer a fatalidade medíocre de um qualquer actor de 2a categoria que olha para a arte de um monólogo genial e, por se sentir finito, o interpreta com o ânimo de um animal prestes a ser sacrificado.

Hoje chove, na praia. E os turistas continuam ancorados debaixo do grandes parasóis com cobertura de palha sem querer perder pitada ou minuto destes dias tão antecipados, que vêm agora assaltados por nuvens de tantos cinzentos.


Gostava de lhes poder dizer, a cada um: é hora de dar por perdida a batalha da manhã, meus caros, e voltar ao quarto para que, de tarde, possam trazer o espírito desamargurado e usufruir do resto da vossa vida.

8 Agosto - se os dias fossem sempre assim



poderia ter paz.





Há uma brisa que sopra suave e impede a temperatura de se tornar muito quente; para muitos estará concerteza fresco, para mim, está perfeito.
O cenário é fantástico: à minha frente está um oceano de água clara com um jetty à direita (é o que chamam a esta paliçada) onde estão os bares de onde se avista um por do sol que se faz tremendo para quem vê.

A areia é clara e fina e foi protegida por um barreira de troncos que conferem um ar disruptive de que sou tão fã.

Confesso: gosto de ver coisas que parecem estar fora do sítio.
Gosto da harmonia, gosto da serenidade com que a natureza se estende pelo espaço mas o que me emociona e levanta os pelos dos braços são os acessos de loucura com que, aqui e ali, a tal da natureza resolve pontilhar o quadro da paisagem. É como um exercício de arrojo, de experimentalismo que haverá de dar, dentro de alguns milhares de anos, novas formas de vida ou apenas novos cenários.
Gosto dos vulcões, dos abismos, das cataratas, dos animais muito grandes, dos muito pequenos e também dos muito estranhos.
o que moverá a atracção? Compaixão, admiração ou algum pouco humilde sentido de clã?

Ainda que possamos defender uma qualquer outra teoria evolucionista não há como não sentir uma imensa admiração pelo homem que percebeu que foi, e continua a ser, através destes arroubos, destas farpas que espreitam através da normalidade que a vida se fez grande e imensa.

Mas nem todos sobrevivem; como qualquer artista, ou mãe, a natureza não consegue fazer vingar todos os seus estranhos filhos que tão carinhosamente produz e deita para a selva do ser, acabando muitos por desaparecer às mãos do carrasco tempo. Sejam rochas ou formas de vida mais atrevidas, todos são perseguidos por esse crítico impiedoso das coisas novas que fez sua a missão de travar a evolução da vida e coisa nova.

Num assomo maquiavélico criou a morte, que colocou às costas de todos e, com isso, tornou pesado o caminho, para uns, enquanto noutros fez nascer, numa flagrante e irónica surpresa, a inquietude que deu lugar à urgência de ser, estar, fazer ou sentir. Nesses, a natureza viu nascer aquele sorriso de quem olha para espinhos e pedras e sonha com um novo caminho. Para esses, a morte, tão elaboradamente tecida pelo tempo, não foi mais que um ponto na imortalidade do que nos deixaram, fosse uma ideia, um sorriso de paz ou uma revolução de sentir ou fazer.

Para nós, filhos desses sobreviventes, resta-nos o repto: sucumbir ao tempo e à sua morte ou fazermo-nos grandes na senda da fugaz herança do V império?

quinta-feira, junho 10, 2010

gasto



tempo certo.

ou mãos perdidas

no sangue já seco

return


uma paciência

perdida

na batalha do cansaço

sábado, julho 04, 2009

vou chamar-vos


sombras. como os espaços sem luz.
dawn. como os despertares.
noon. como a hora do sol.
fall. no tempo em que as folhas mudam de cor.

e espalhar-vos por aí...

terça-feira, junho 30, 2009

matar o tempo


porque é actual, na vida das gentes.
recorrente.
e tremendamente apaixonante, tanto quanto pode ser a atracção por qualquer abismo de que não vemos nem conhecemos o fundo.
e porque ontem, ouvi a expressão, que imediatamente me retesou as cordas que fazem arco perto do sentir.

(pausa.
para pensar se valerá a pena continuar a escrever, quando me apercebo que o anonimato tão confortável e libertador, deste MAC, se tem vindo a esfumar entre alguns mais próximos e outros, nem tanto; mas tem vindo a ser cada vez menos anónimo.
é que o grau de loucura que poderemos assumir fica sempre limitado pelas socializações sucessivas e consecutivas que vamos tendo que aplicar e gerir ao longo dos dias, dos meses e do resto da nossa vida desde que nascemos. esta faceta desvairada, em quem a tem, agarra-se como uma lapa que luta pela sobrevivência num exercício de comensalismo em que saberá um, consciente, e o outro, inconsciente, que fazem falta para assegurar a sanidade qb da unidade e assim, não assustar as outras pessoas.
a perturbação é tb é uma forma de vida, mas vive sempre encerrada. pode ser em casa, ou numa qualquer instituição de cuidados mentais que a tentará expulsar para dar lugar à insalobra, angustiante e repulsiva normalidade sem excessos nem convulsões de maior.
temos excepções, mas chamam-se artistas e podem ser loucos mediante um fee a pagar pela sua loucura, ie, terão que ocupar profissões que necessitem de "dotes artísticos". poderão ser poetas, poderão ser pintores ou escultores, poderão ser actores ou outros que produzirão peças e obras, de que natureza for, que aos outros parecerão, naturalmente estranhas. digo naturalmente porque estará incluída no fee uma cláusula de tolerância da vasta maioria, face aos resultados da arte que, por ser singular, será até, por vezes brutalmente valorizada numa subversão e ironia absoluta do destino.
mas isso, é para os "artistas".
este despotismo pré-estabelecido e estereotipado não é mais do que um novo processo de socialização que evoluiu para um estágio em que, agora, também já consegue absorver algumas "anormalidades".
é tão ridículo como redutor; é patético!... limitarmos a arte e a anormalidade de viver áquelas actividades inscritas no código 232-A/95 da socialização humana.
porque não aceitamos também a loucura presente naqueles que, mais perto ou mais longe, povoam os nossos dias? eu digo-vos: porque continuamos com medo do escuro e precisamos pela vida fora de continuar a dormir com as luzes acesas.
causa desconforto a surpresa e o desconhecido que, se não encaixar à primeira na matriz de lego que fomos construindo, tentaremos ignorar, abafar ou até repudiar como... uma expressão de óbvia loucura. e, por isso de doença característica do desvio que representa afinal esse comportamento estranho, face ao conforto e aconchego do pré-estabelecido.
e tudo isso,... porque não são artistas.

e assim, para escapar à censura tácita ou explicíta e ao julgamento fácil e redutor, vamos-nos escondendo nos blogs da vida e noutros fóruns ou recantos marginais onde se soltam as bestas amarradas durante o período em que, suavemente convivo convosco, dentro da aparente normalidade.
necessária, pois concerteza, para não assustar as pessoas.)

e, por isso, já não tenho vontade de escrever sobre a morte do tempo.

terça-feira, junho 23, 2009

não sei que porra de título dar a isto





domingo.
telefonema. tempo parado.
inimaginável.
impotência absurda.
espaço. deixa para amanhã, que hoje não ajudas ninguém. ou seria já o prenúncio ou a suspeita de que seria, de facto, impotente.

no sábado tinha dito, em voz alta, numa daquelas verbalizações em que o pensar nos salta para a boca: "tenho-lhes, de facto, muito carinho. esta é gente pela qual seria capaz de muito para os ver felizes ou proteger do que seja".

esta gente, de quem gosto assim, tem um filho e escolheu-me para padrinho. e no sábado o Miguel e a Teresa juntaram a família directa na qual fizeram a gentileza de me incluir desde há alguns anos. como não?... sou, pelo menos, mais um irmão. de cada um deles singularmente, e não apenas de um, e do outro por afinidade.
era o lanche / jantar que celebraria o aniversário do Miguel. cheguei mais cedo e saí também mais cedo porque precisava de descansar o espírito e uma casa com os pais e os irmãos em festa era demais naquele dia. mas ainda tive tempo de o ver, de o cumprimentar e de o ver rasgar aquele sorriso suave e malandro enquanto me dizia: "então hoje estamos a chá? nem um vinho nem nada? muito fraquinho". É impossível não gostar do pai da Teresa... era impossível não gostar do pai da Teresa.

ontem foi segunda feira e a notícia infeliz estava espalhada por todos os pasquins do nosso rectângulo. O Fernando morreu na ponte para onde tinha ido, com o mesmo sorriso, dizem-me, passear e trazer a bicicleta...
Morreu, aparentemente, de forma rápida e indolor, como se isso fosse suficiente para acalmar ou amenizar a dor estúpida que se espalhou lá em casa dele e feriu tão fundo os filhos e a mulher.
O Carlos saiu com o pai de casa e voltou sozinho e é inimaginável o que se possa sentir nesse, e nos dias seguintes.
Adivinha-se-lhe o pensamente de quem se culpa pelo caos. Se não tivesse acontecido naquela situação, podemos dizer-lhe, seria noutra, porque o problema é congénito e comum à família. Mas ele, agora, não consegue ouvir. Só consegue lembrar-se que levou o pai e não o trouxe para casa de volta para a mãe, para ele e para a Teresa.
Amanhã, eu repito-lhe, e nos dias seguintes também, até ele ouvir.

Ontem foi um dia estúpido para a família, enquanto esperam que haja uma autópsia e um velório e um funeral.
Porque as pessoas precisam que alguém dê um tiro de partida e anuncie que começa nesse momento o resto da vida. agora sem ele. agora menos. Mas, ao menos, é a partir de agora.
As pessoas precisam de âncoras para cravar no caminho e apoiar os pés para andar. E o fim, precisa de ser mesmo final, para ser definitivo.
O meu sentimento de impotência é absurdo, apesar de ridiculamente insignificante. Ontem, Teresa, perguntaste-me se eu, anormalmente, não tinha palavras e só te soube responder com as lágrimas que eu pensava que não tinha, a correrem-me desavergonhadas pela cara abaixo. Não me é, nestes dias, fácil distanciar assim do que aconteceu para poder ajudar como esperariam que talvez pudesse. Não tenho palavras Teresa, porque me invadiu um bocadinho insignificante da vossa dor, como se fosse possível que, ao sofrer também, vos pudesse aliviar alguma grama da tristeza que carregam.
E o que sobra é esta quase completa inutilidade, amenizada apenas pela companhia e disponibilidade absoluta e incondicional que vos posso oferecer, enquanto aqui, os meus olhos continuam a insistir em que, de facto, vos podem ser úteis as lágrimas que me correm agora enquanto penso no que poderão estar a sofrer. como se a energia negativa ficasse mais repartida... têm tanto de ingénuos, como de bem intencionados e independentes, as partes de nós que às vezes parecem querer viver sozinhas sem ouvir a razão das coisas e a quem respondem que muito do fazemos ou sentimos, se gere por outros valores que, às vezes, não têm razão nenhuma.

o Fernando também faleceu na ponte, sem razão absolutamente nenhuma.

para a família ficará concerteza a memória de uma vida carregada de suavidade, boa disposição e uma humanidade fantástica que mostrava concerteza a alegria de viver de quem estava como gostava, e perto de quem queria bem. e isso, meus amigos, deveu-se concerteza também a vocês; é vosso o mérito.
se quiserem um fiel do quão bom foi o tempo que o Fernando passou, pensem no sorriso rasgado que fazia quando olhava para vocês e gostava do que via.
vocês fizeram parte determinante daquela vida feliz.

e ele, se pudesse, agradeceria tudo o que fizeram por ele.
na falta de melhor façam dele estas palavras e guardem este sentir, que seria o dele. porque esta será a vossa verdade mais preciosa nos próximos tempos de, concerteza, muitas saudades.

segunda-feira, junho 15, 2009

li noutro sítio e presto homenagem aqui

tenebroso, mas sentido.
"...
porque sim.
porque me inspiras.
porque tens talvez o último bocadinho de oxigénio que ainda posso usar para respirar.
porque sou egoísta
porque és desprendido
porque sou uma canalha
porque és genuíno
porque não te mereço
porque te dás próximo e longe sem olhar para onde
porque sou cobarde
porque tens o coração do tamanho do mundo
porque sou tão finita e pequena
porque retiras de nada a energia para tudo
porque o chão me foge debaixo dos pés
porque olhas para mim
porque eu não sou lúcida nem certa
e, sobretudo, porque arruino o teu mundo
e tu ainda aí estás, como os anjos que velam a morte de quem guardam.
..."

porque é verdade...

é curioso que, como para morrer, também para viver tranquilo seja necessário este coincidente desprendimento.

e a na vida, como na arte, será preciso sofrer tumultos violentos para sermos capazes de levantar os olhos dos pés?
eu, acredito que sim porque não acredito em transições suaves.
só resta a dúvida de, se levantar demasiado depressa os olhos do chão, não os espetarão numa nuvem qualquer, sem olhar para o caminho por onde, quem sabe, deveriam ter passado.


quarta-feira, maio 20, 2009

só e distante


já não terei concerteza força para me rebelar no espaço que me resta para respirar no fim dos meus dias.

insatisfeito
saudoso e triste pela falta de perspectiva de melhoras.

não interessa sequer em que campo, em que tema ou em que dias, nem com quem.
sei que, quase concerteza, já não vou ser capaz de rasgar a pele à minha volta que me asfixia e não me deixa viver como quereria.
mas, then again, who are we kidding? nunca serei capaz de viver de que forma seja, quer pela espiral de inconstância que me arremessa para mais e mais insatisfação, quer pela desculpa surda de, por ser assim, nunca poderei ser, nem completar, nem viver uma vida diferente.
a acomodação é estúpida, sim, mas a lógica de base é brutal. e vence sempre.

se vaidades tivesse seriam a interacção e o desvendar dos recantos mais guardados de quem gosto. e gosto de muita gente, por isso teria sempre para quem olhar e decifrar o aroma do respirar...

agora não.

agora estou brutal (outra vez esta palavra) e incompreensivelmente incapaz de me ligar e criar aquelas empatias que, mais do que o trabalho em si, me fazem mover.

é verdade
é uma revelação também para mim
e é uma estreia na minha cabeça e nas palavras que me saem das mãos:

a minha satisfação está muito mais próxima de com quem, do que com o quê.
complicado? nem por isso. e, pensando bem, absurdamente banal...
afinal, que vulgar e ordinário me saí... vulgaris de lineu
a coisa, a ideia, pode traduzir num lugar comum, daqueles que odeio tanto quanto consigo: "meu amor, contigo, até pode ser a conversar ou a beber um chá, que vou estar feliz por estar perto de ti"

que estupidez, que lamechisse pegada e nojenta...

mas afinal traduz muito da verdade.

explicando melhor, talvez não me pareça tão mal. através de uma pergunta:
"onde preferes ficar mais tempo? num trabalho onde não te agradem as pessoas e não tenhas bons relacionamentos, mas com um desafio interessante, ou noutro, com um trabalhito medíocre mas satisfeito e declaradamente bem disposto por trabalhar com pessoas de quem gostas?"

claro que poderemos ser advogados do diabo e responder como eu responderia talvez, não tivesse sido eu a parir a coisa: "acomodado da porcaria! vais trabalhar onde o desafio seja interessante e reviras o que for preciso, à tua volta até nos fazeres o favor de ser feliz...". pois é, eu, responderia assim.

mas sabes, já não me sobra o que respirar, no fim dos meus dias, e as pessoas vão ficando para trás.
e até dos olhares e dos sorrisos mais sonsos se fica com saudades que se sentem no corpo e não dão tréguas, no fim de todos os dias. porque durante, vou estando ocupado a consumir o ar, como os grandes toros que ardem magnificamente nas consoadas no adro da igreja, nas aldeias.
se até a estes lhes acaba por faltar o oxigénio para não mais arder, se até a estes se lhes acaba o corpo para queimar, então não sou assim tão diferentes de uma história com o fim no virar de uma qualquer esquina da minha vida.

as árvores morrem de pé? mentira... as minhas árvores morrem desfeitas em cinza depois de estalarem debaixo das chamas e de sentirem rasgar o peito que sempre tinha sido de fogo.

e aí, talvez seja a última vez que me arranco e rasgo a pele para ser outro e viver outra vez.

sexta-feira, abril 03, 2009

os dias de sol

As brisas de Primavera podiam vir ter comigo sempre com este azul céu, uns apontamentos branco de nuvens, para compor, e um sorriso de luz com os olhos postos entre as memórias e o calor do desejo calado que nunca parece terminar quando se me perdem os olhos e a imaginação pelos contornos que não consigo ignorar.
Melhor, só se juntarmos um sopro fresco que faça arrepiar... os cabelos de trás da nuca.

Há dias piores, concerteza.

quinta-feira, março 12, 2009

another one that goes

away.

ouve-se ao longe o definhar da raça à medida que vão partindo os membros da família.
hoje foi a última avó.

nestes dias, o amanhã parece muito mais perto...

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Mais do que uma despedida: O Reconhecimento

Bom dia a todos,

Amanhã será o último dia dos 3 anos (09/Jan/2006) em que trabalhei na C.......
E foram, vos garanto, 3 anos absolutamente inesquecíveis.

Inesquecíveis, pelo desafio fantástico que foi ter recebido a confiança de quem acreditou que eu podia ser a pessoa certa para este lugar.
Obrigado GSP, MR e ACA, por terem acreditado.

Inesquecíveis, pelo ritmo e pela cadência vertiginosa com que íamos pensando e decidindo alterar, melhorar ou apenas manter bem feitas tantas e tantas actividades e processos para tentar encontrar formas de ir tentando ganhar posição competitiva no nosso mercado. E que gratificante que é hoje olhar para trás e ver que fizemos tantas coisas boas e que, de alguma forma, contribuíram também para os nossos sucessos.
Obrigado, por termos conseguido.

3 anos inesquecíveis, pelas pessoas fantásticas com quem trabalhei:

- A incansável e cortês equipa da assistência técnica, onde gosto de pensar que vou deixar colegas e amigos.
Obrigado.

- O rigor da equipa de financeira/contabilidade em quem encontrei a partilha da preocupação pelo correcto e exacto.
Obrigado.

- Enquanto abríamos as reuniões com “Atitude Mental Positiva, Orientada para Soluções e não para Problemas” fomos criando um espírito de corpo fantástico e uma solidariedade de que terei, seguramente, saudades. Não começámos no ponto de entendimento que temos hoje mas, por isso, tem ainda mais valor, este sentir e este estar.
Obrigado a toda a equipa de vendas, à A. e à V., sem esquecer a A. e a G..

- Investimos horas intermináveis na discussão, análise e vontade de melhorar e, posso dizer, sem pudor, que criámos a melhor equipa do mundo, não foi meninas?
Obrigado à A., à S. e à I., à M. e à A. (que já não estão connosco mas também fizeram parte e contribuíram para este sucesso) pela vossa entrega e pela permanente vontade de melhorar.

- Arrancámos horas ao tempo nalguns debates, discordámos, concordámos, e construímos uma equipa de gestão de sucesso absolutamente solidária que, como ele diz, e bem, sobreviveu à rotina dos dias e às dificuldades dos tempos de mudança.
O meu obrigado M.
, pelo respeito, consideração e pela muito boa relação que ficará como uma referência no meu percurso profissional.

Resta-me agradecer também a todas as outras pessoas com quem tive o privilégio de trabalhar, e interagir nas restantes empresas do grupo e áreas da empresa – incluindo a equipa do armazém, que já não está connosco - o facto de sair da C...... e do grupo C......, “apenas” carregado de recordações positivas.

O tempo é de mudança, na certeza porém de que, com base neste “nosso” exemplo (ainda posso dizer assim), tentarei contribuir para criar, onde quer que venha a trabalhar, o mesmo ambiente e espírito que tive o privilégio de partilhar, aqui na C......

Deixo a todos um abraço amigo e os votos sinceros dos maiores sucessos profissionais e pessoais.


Até sempre.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

só mesmo gostando muito de uma música

como eu gosto desta, se consegue continuar a ouvi-la depois de ver o vídeo que se segue...
há imagens, idéias, emoções e vidas q devem, talvez, ficar sempre escondidaas no nosso imaginário.

quarta-feira, novembro 26, 2008

absolutamente fantástico e imperdível

João Villaret diz

"Cântico Negro" de José Régio

quinta-feira, outubro 02, 2008

fénix... ou apenas weird survival



Tenho que me obrigar a ouvir a música certa com risco de perder a capacidade de encher o peito de lágrimas que continuam a recusar-se a escorrer pela porta certa.
Preciso de obrigar o sangue a correr sob pressão para sentir viva a gana de ganhar e conquistar o que quer que seja.


Quando me emudece a vontade sinto apodrecer o viver, aos poucos e, depois, cada vez mais depressa numa espiral louca que me parece sempre demais do que consigo conter. São esses os momentos em que, do resto do ânimo que ainda me povoa as mãos – em mim, são sempre as mão as últimas a cair – que me socorro de um qualquer som que me desperte e me faça reviver. Rápido ou lento mas sempre, inevitavelmente dramático e arrepiante, o ritmo e tom da música que empurro para dentro num estupro da acomodação e da derrota.
Deixa-me ver se consigo explicar: é como se um corpo, ao cair até ao fim do poço, acelerasse nos últimos metros para tentar fazer ricochete no fundo e voltar para cima... tão para cima quanto permitirem os cada vez menos ossos que restam intactos...
.



Tem sido assim o renascer... so far.


carneirada?!... are you?

AS: No one looks at an issue and struggles to take the right position anymore. Yet, our ability to reason is what makes us human.

Lately we seem so willing to forfeit that gift of reason in exchange for the good feeling of belonging to a group that we all just pick the position of our team…

NR: instead of having a mind of your own!

in Boston Legal S2 E25

quarta-feira, outubro 01, 2008

what the fuck is an example?!!!

.
DC: Are you setting a bad example?

AS: We are not setting examples, we are just being true to who we are!
DC: Who are we?

AS: Denny Crane
DC: Alan Shore

AS: Leaders of men!
DC: With bull's eyes on our asses.


in Boston Legal S2 E24

sábado, setembro 27, 2008

the real deal...

.

"I just caught Tara laughing with another man..."







"Are you sure they weren't just... kissing?"





"No. They were laughing.

I've just lost the girl."

.

.

in Boston Legal S2E2

E é mesmo assim: tão simples e tão certo, nestes pequenos nadas. Independentemente do ascendente em Marte, ou Vénus.

quinta-feira, setembro 25, 2008

estatística de viver


entretive-me entre ontem e hoje - não porque a tarefa fosse longa mas apenas o meu tempo disponível é que era pouco - a fazer uma lista.

uma lista de todas as pessoas que considero que tiveram um grande impacto - não apenas impacto mas, grande impacto - na minha vida.

depois decidi escrever à frente de cada nome o que cada pessoa representou para mim, nesse ponto da vida onde nos cruzámos.
depois achei interessante saber qual o papel que representa hoje, cada uma destas personagens.
e, por fim, não resisti à tentação de escrever porque é que mudaram os que hoje estão, para mim, diferentes de ontem.

os resultados foram absolutamente impressionantes.

os downgrades foram surpreendentes e assustadores. os upgrades foram simpáticos e despertaram um sorriso carregado de boas memórias nos mais variados e inimagináveis âmbitos de interacção humana.
os conflitos que identifiquei foram particularmente amargos, por terem representado perdas significativas de bocados de mim que ficaram para trás, ou para outra direcção qualquer, que não a minha.

por fim, a conclusão ou o pensamento final que tive continuou associado à inconstância e insatisfação característicos do regime vigente no governo deste estado anárquico em que respiro:
-- caramba, como não seria, se tivesse tido arte, tolerância e flexibilidade suficiente para manter hoje ao pé de mim todas aquelas pessoas que foram mesmo muito importantes na minha vida.
há sempre coisas que mantemos e outras que, vistas daqui, faríamos concerteza por alterar.

recomendo o exercício. é uma valentíssima palmada de realidade.
com boas consequências; se a isso estiverem dispostos, pois concerteza.

quarta-feira, setembro 24, 2008

natureza morta

Sinto saudades de um milhão e meio de coisas, o que só me faz pensar que vivi, pelo menos, esse milhão e meio de coisas.
Visto assim, nem parece mau, não fosse a natureza irrequieta e louca que me vai consumindo de angústia e insatisfação permanente.

É tão fácil ser infeliz: basta querer, sistematicamente, o que não se tem.

quarta-feira, setembro 10, 2008

well, well... a fellow citizen of the world

Denny Crane: I don't live for tomorrow. Never saw the fun of it.


(...long silence...)


Alan Shore: Here's... for no tomorrow.


in Boston Legal S1E1

quarta-feira, julho 30, 2008

rotina

afundam-se no aborrecimento das rotinas que não os desafiam.
ficam mais pobres porque não enriquecem o ser enquanto vai desaparecendo o sabor a sal que guarda as memórias de que não conseguem deixar de ter saudades.

terça-feira, julho 08, 2008

esta foi mesmo minha


foi capturada no tempo e ali ficou, imóvel.
talvez por isso...


de noite...

.


não me assalta o sono no espaço que ocupam as horas em que me roubam a atenção as memórias de uma vida que ficará sempre por viver.

Um destino por cumprir, ou apenas a desculpa esfarrapada de viver com esperança, para evitar viver, de todo?

uau...

a lump of coal turns into a diamond

sometimes, it does happen.

domingo, julho 06, 2008

passado revisitado


À medida que se foi desenrolando o tempo fui vendo chegar e partir -tão diferente- tanta gente que mais tarde reencontrei, invariavelmente, em estágios de vida tão diferentes.


Como num porto de passagem, onde parece interminável a lista do que fazer mas existe, invariavelmente, data para partir.

Brisas

lê-se aqui e é formidável (link)



é que há dias mesmo assim. em boa verdade, há vidas povoadas de dias assim, que parecem ser tantos mais quanto menos sobra do tempo que resta.
Tenho visto de perto esta pressa de concretizar e fazer já, antes que os dias terminem e se acabe a validade de um qualquer viver.
Seja para mudar de vida ou para ir desenterrar um santo graal de soluções milagrosas que mudarão, finalmente, o rumo... (já agora, o rumo de quê?)

domingo, junho 08, 2008

a escrita será sempre um exercício solitário

de gente tendencialmente solitária, sem com isto eliminar os que estão carregados de gente à sua volta.

em boa verdade, como se pode interagir com alguém que está separado de nós pela distância infinita das letras?...
se fosse diferente, não me sentiria tão só enquanto escrevo na companha das teclas?
this is the way so, make peace with it.

deixa-me sentir o sorrir e a cor dos olhos que sinto longe de cada vez que cerras as pálpebras; pensei hoje, enquanto ocupava a cabeça com coisa nenhuma.


se a ausências das gentes se assoma por detrás dos olhos fechados, como farão para viver dessa forma entrecortada os que têm saudades de todos os segundos do sorriso que perderam pelo caminho?
podem procurar a vontade e gritar pela ânsia de viver, mas há dias, semanas, meses e até vidas inteiras em que mais não conseguimos fazer que não contemplar a derrocada de toneladas de cimento massiço para cima da alegria de estar e viver. e parece que não pode ser doutra forma; condenados a ser assombrados pelos fantasmas do que já foi e deixou de ser, porque não há olhos para o futuro.

que não haja nenhum mal entendido: não tenho qualquer optimismo ou esperança natural no futuro além do que for arrancado a um qualquer destino déspota e tirano que parece reger, debaixo da foice implacável, a vida dos outros.

quando olho para os pés não vejo nada à minha frente, mas quando levanto os olhar, sinto falta do horizonte que em tempos tive estendido à minha frente à espera de ser inaugurado e percorrido. como um cavalo selvagem, ansiava por ouvir o mais pequeno ruído que pudesse usar como desculpa para desatar a correr pelo tempo afora em direcção ao que tinha posto os olhos, lá mais à frente.

era um tempo onde me corriam as lágrimas nos olhos apenas pelo passar do vento frio que me revigorava o corpo.
era um tempo em que movia montanhas. era um tempo em que tinha garras para cravar no flanco da vida. era um tempo em que não recuava, nem sabia o que queria dizer o cansaço nem o temor de ver decair e desvanecer o império de guerreiros que acreditavam ser invencíveis, como todos os grandes guerreiros habituados a vitórias.

tenho saudades das emoções que me arrebatavam e abanavam as fundações de tão violentas que as sentia. tenho saudades das lágrimas que só consigo arrancar à custa de vapor de álcool. tenho saudades de ver desfilar, e correr, os sucessos e as derrotas como se tudo pudesse ser carregado em costas que nunca fraquejariam. sinto-me cada vez mais longe da parte "fraca" da humanidade que em tempos quis eliminar da minha equação de viver. tempos tolos os de garoto em que não adivinhamos a falta que nos fará mais tarde o querer e ansiar pela doçura de um abraço ou o calor de um beijo terno.

lamechisses, como lhes chamo hoje, a décadas de distância do tempo em que saltava em direcção a um abraço. saíram de mim. abandonei-as no correr do tempo do meu viver e fiquei mais pobre.
não se abandonam os animais, nem os sentimentos, nem as pessoas.

se fomos contemplados com um peito carregado de espaço para encher, porque fazemos o coração matar os habitantes do passado como se fossem proscritos de uma qualquer colónia de leprosos?...

e o tempo que não pára... e regozija, com a satisfação podre de quem sente a distância aumentar à passagem das curvas do caminho e dos quilómetros debaixo dos pés.

não é que haja impossíveis, nem points of no return... o que há são coisas muito dificeis.


quinta-feira, junho 05, 2008

who are you?


É difícil encontrar quem seja completamente imune à presença do mundo à sua volta.
Podem defender a independência de atitude, a equidistância de avaliação ou outra qualquer treta que reflicta afinal o tão orgulhoso claim “faço apenas o que me dá na telha”.

Podia ir por aqui, que dava pano para mangas de um casaco para centopeia. Mas não. Não foi isso que me lembrei, sentado aqui à frente de um quadro azul de que só eu é que gosto.

Apesar de pertencer (claro) à equipa de tolos que embandeiram (do verbo embandeirar, pois concerteza) o orgulho lusitano de ser único e absolutamente imune ao que o rodeia, tenho, como os restantes membros deste gigantesco grupo, comportamentos contraditórios.
Lembrei-me disto porque hoje, pela primeira vez, passados alguns anos de ter criado o blog e instalado o “statcounter”, dei por mim a pensar: estas pessoas, que passam por aqui e lêem estas loucuras, cada uma mais insana que a anterior, como é que aqui vêm parar?
E, nos ainda mais estranhos casos em que isso acontece, porque voltam?...

a propósito de um post

que eu li aqui
as saudades das fotos de família que não tenho...

em vez das fotos de família podes ter uma parede branca carregada de memórias e espaços preenchidos de sentires e imagens que só tu sabes quais são impregnadas de aromas que seriam impossíveis de agarrar e prender numa fotografia.

Tens a vida atrás de ti para te lembrares do milhão e meio de coisas que foram boas, e das menos boas também.

Se acredito no prazer da partilha (pelo menos essas) com quem gostamos, também defendo que o álbum da vida que passámos é, sobretudo para os nossos olhos e restantes sentidos.

E, se te faltar a memória, já sabes: é questão de juntar algumas letras e atirar umas linhas para um qualquer blog que as guarde e te deixe, "mais tarde recordar", como dizia o anúncio.

uma imagem vale por mil palavras?... não concordo.

segunda-feira, junho 02, 2008

e depois?...


...o que fazer quando já não conseguimos sustentar a vida e sentimos o fim à nossa espera?



como em 2005, também me apetecem escrever palavras negras, como... lúgubre.

a imagem atravessou-se no meu caminho e concorreu para a classificação de tenebroso e pouco recomendável, a este blogue.

agora, já não há desculpas para sermos indiferentes à riqueza de viver, pois não?

trata-se de decidir ficar ou ir, mas essa merda de indecisão não respeita o sofrer estúpido de tão injusto.

(foto de Kevin Carter)

quinta-feira, maio 29, 2008

autobiografia


Experimenta cansar o corpo.
Experimenta exigir de ti: exige da paciência que foge, exige da tolerância que não tiveres, aproxima-se da insanidade com as decisões loucas que tomas nalguns dias mais fatais, trabalha ao ritmo que só tu sabes que esgota as baterias que já não tens há tantos anos. Anestesia o pensar, o sentir e o agir.
Finalmente, deixa instalar a tristeza no peito já velho de tanto andar e correr pelo tempo fora sem se dirigir a lugar nenhum.
E baixa os olhos para não se ver a cor de morte que te assola a alma, enquantos ouves a música de um qualquer cortejo de pesar.

Quão verdade é o dizer que defende que os olhos espelham o sentir de quase toda a gente. Somos sempre capazes de esboçar um sorriso, de rir, até, em gargalhadas altas, mas não somos capazes de desmentir o denunciar flagrante que se expõe na ausência do “sorrir do olhar”.

Há dias melhores que outros e há aqueles realmente difíceis em que sentes que te alimentas de uma miserável bolha oxigénio sem horizonte que se apresente na esquinas consecutivas do teu viver. Esquinas consecutivas…

Consegue-se viver assim…? Quase sempre. Para uns é injustamente fácil porque têm os olhos postos nos pés e o sentir à frente do nariz. São menos, por isso? Não. São mais, por isso? Também não. Mas é mais fácil. Não arriscam os grandes prémios mas estão também, por isso, defendidos das grandes derrotas.
E tu, jogador compulsivo, passas a vida a apostar consecutiva e, quase, irracionalmente, à procura daquele grande prémio que – como sabem todos os viciados no jogo – está à tua espera já ali. A seguir a mais uma esquina. É só mais uma dose…

São cada vez difíceis de dobrar: as esquinas e as pernas para obrigar a carcaça a andar quando a recusa de mexer é tanto mais sã quanto lógico é o argumento que defende que pares e desistas. De andar para lado nenhum.

E, ainda assim, agarras-te aos pequenos nadas e, se não tens para ti, convences-te que também há vida na missão de oferecer e dar. Mas isso não dura.
E tu é que tinhas razão, amigo Paulo: é para lá de fodido equilibrar a porra do otário do missionário com o peso e a agressividade estúpida e gratuita do tubarão assassino.
É que, no meio, não há vida que resista e, em lado nenhum estás todo.
A ausência do ser que te falta acaba sempre por doer mais que a presença do pouco de ti que tens a teu lado.

E o balanço enlouquece-me.

sexta-feira, maio 16, 2008

distante


quando estamos perto de lugar nenhum,
os caminhos parecem todos
muito mais longos.

quinta-feira, abril 10, 2008

da mais alta janela da minha casa

http://purl.pt/1000/1/guardador/indice.html

Da Mais Alta Janela da Minha Casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a Humanidade.

E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo

O guardador de rebanhos
Alberto Caeiro
10-05-1914

a propósito de Fernando Pessoa

A propósito de um grande poeta de quem li hoje um poema formidável.

"
A questão humana dos heterónimos, tanto ou mais que a questão puramente literária, tem atraído as atenções gerais. Concebidos como individualidades distintas da do autor, este criou-lhes uma biografia e até um horóscopo próprios. Encontram-se ligados a alguns dos problemas centrais da sua obra: a unidade ou a pluralidade do eu, a sinceridade, a noção de realidade e a estranheza da existência. Traduzem, por assim dizer, a consciência da fragmentação do eu, reduzindo o eu «real» de Pessoa a um papel que não é maior que o de qualquer um dos seus heterónimos na existência literária do poeta. Assim questiona Pessoa o conceito metafísico de tradição romântica da unidade do sujeito e da sinceridade da expressão da sua emotividade através da linguagem. Enveredando por vários fingimentos, que aprofundam uma teia de polémicas entre si, opondo-se e completando-se, os heterónimos são a mentalização de certas emoções e perspectivas, a sua representação irónica pela inteligência. Deles se destacam três: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos.


Segundo a carta de Fernando Pessoa sobre a génese dos seus heterónimos, Caeiro (1885-1915) é o Mestre, inclusive do próprio Pessoa ortónimo. Nasceu em Lisboa e aí morreu, tuberculoso, em 1915, embora a maior parte da sua vida tenha decorrido numa quinta no Ribatejo, onde foram escritos quase todos os seus poemas, os do livro O Guardador de Rebanhos, os de O Pastor Amoroso e os Poemas Inconjuntos, sendo os do último período da sua vida escritos em Lisboa, quando se encontrava já gravemente doente (daí, segundo Pessoa, a «novidade um pouco estranha ao carácter geral da obra»). Sem profissão e pouco instruído (teria apenas a instrução primária), e, por isso, «escrevendo mal o português», órfão desde muito cedo, vivia de pequenos rendimentos, com uma tia-avó. Caeiro era, segundo ele próprio, «o único poeta da natureza», procurando viver a exterioridade das sensações e recusando a metafísica, caracterizando-se pelo seu panteísmo e sensacionismo que, de modo diferente, Álvaro de Campos e Ricardo Reis iriam assimilar.

Ricardo Reis nasceu no Porto, em 1887. Foi educado num colégio de jesuítas, recebeu uma educação clássica (latina) e estudou, por vontade própria, o helenismo (sendo Horácio o seu modelo literário). Essa formação clássica reflecte-se, quer a nível formal (odes à maneira clássica), quer a nível dos temas por si tratados e da própria linguagem utilizada, com um purismo que Pessoa considerava exagerado. Médico, não exercia, no entanto, a profissão. De convicções monárquicas, emigrou para o Brasil após a implantação da República. Pagão intelectual, lúcido e consciente, reflectia uma moral estoico-epicurista, misto de altivez resignada e gozo dos prazeres que o não comprometessem na sua liberdade interior, e que é a resposta possível do homem à dureza ou ao desprezo dos deuses e à efemeridade da vida.

Álvaro de Campos, nascido em Tavira em 1890, era um homem viajado. Depois de uma educação vulgar de liceu formou-se em engenharia mecânica e naval na Escócia e, numas férias, fez uma viagem ao Oriente, de que resultou o poema Opiário. Viveu depois em Lisboa, sem exercer a sua profissão. Dedicou-se à literatura, intervindo em polémicas literárias e políticas. É da sua autoria o Ultimatum, publicado no Portugal Futurista, manifesto contra os literatos instalados da época. Apesar dos pontos de contacto entre ambos, travou com Pessoa ortónimo uma polémica aberta. Protótipo do vanguardismo modernista, é o cantor da energia bruta e da velocidade, da vertigem agressiva do progresso, de que a Ode Triunfal é um dos melhores exemplos, evoluindo depois no sentido de um tédio, de um desencanto e de um cansaço da vida, progressivos e auto-irónicos.

De entre outros, de menor expressão, destaca-se ainda o semi-heterónimo Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros que sempre viveu sozinho em Lisboa e revela, no seu Livro do Desassossego, uma lucidez extrema na análise e na capacidade de exploração da alma humana.

Quanto a Fernando Pessoa ortónimo, segue, formalmente, os modelos da poesia tradicional portuguesa, em textos de grande suavidade rítmica e musical. Poeta introvertido e meditativo, anti-sentimental, reflecte inquietações e estranhezas que questionam os limites da realidade da sua existência e do mundo. O poema Mensagem, exaltação sebastiânica que se cruza com um certo desalento, numa expectativa ansiosa de ressurgimento nacional, revela uma faceta esotérica e mística do poeta, manifestada também nas suas incursões pelas ciências ocultas e pelo rosa-crucianismo.
"

em
http://www.astormentas.com/din/biografia.asp?autor=Fernando+Pessoa